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Leia o texto e responda à questão.
“O Espelho”
Machado de Assis
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias
questões de alta transcendência, sem que a disparidade
dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A
casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena,
alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o
luar que vinha de fora. Eu, que era um dos convivas,
contei-lhes que possuía uma teoria, a qual me tinha
custado grande trabalho e algumas noites de insônia; mas
não lhe queria expor sem que me prometessem ouvi-la
com paciência. Prometeram todos.
— A teoria é esta — disse eu —: cada criatura humana traz
duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora,
outra que olha de fora para dentro. A primeira, a alma
interior, é a que sente e pensa; a segunda, a alma exterior,
é a que nos vem de fora, da rua, das pessoas, das coisas.
Esta domina muitas vezes aquela; e, em certos casos, não
há propriamente duas, mas uma só alma exterior.
Pediram-me exemplos. Respondi que não os havia
catalogados, mas que ia contar um caso, acontecido
comigo, há muitos anos, em que vi a minha alma interior
desaparecer, cedendo a outra, nascida de um objeto, de
um simples objeto. E contei-lhes.
Era eu então rapaz de vinte e cinco anos, recém-saído de
um curso, quando uma velha tia minha me deixou por
herança um espelho grande, antigo, com moldura larga e
severa. Não me parecia valiosa a dádiva; mas, por
lembrança, levei-o comigo para uma casa de subúrbio,
onde me recolhi, a fim de estudar. Ora, sucedeu que, mal
instalado, comecei a sentir um vazio dentro de mim, como
se me houvesse despido de mim mesmo. O estudo não me
prendia, a leitura cansava-me; eu andava pela casa, de um
aposento a outro, com um aborrecimento que não sei
definir.
Foi então que me lembrei do espelho. Mandei pendurá-lo
na parede da sala; ao vê-lo, senti-me outro. Não é que eu
me achasse mais formoso do que era; mas o espelho tinha
a virtude de dar consistência à minha pessoa: eu me via, e
esse simples fato restituía-me a presença. Dentro de
pouco, o hábito apoderou-se de mim. Vivia diante do
espelho; trabalhava, comia, descansava, sempre com o
olhar a buscar, de instante a instante, a confirmação da
minha figura naquela lâmina tranquila. Se o retiravam,
tudo caía no mesmo vazio anterior; se o repunham, eu
renascia.
Parecer-vos-á ridículo; não o era então. O que digo é que a
minha alma exterior se compunha, naquele tempo, desse
objeto. Não era vaidade de beleza, nem amor próprio do
traje; era qualquer coisa mais funda: a necessidade de um
reflexo que me certificasse da minha existência. Ora, uma
noite, por troça de amigos, esconderam-me o espelho.
Dizei o que quiserdes: senti desfalecer a vida íntima;
tornei-me sombra; e, apesar de me ver com os olhos do
corpo, não me sentia com os olhos do espírito. Só quando
me restituíram o espelho, voltei a ser eu.
Daí infiro que o homem, em não poucos casos, vive de fora
para dentro; e que um objeto, um cargo, uma farda, um
título, pode suplantar a alma interior, até anulá-la. Se isto
é triste ou ridículo, não disputo; conto o que foi. E, posto
que tenha hoje a casa cheia de espelhos, nenhum tem para
mim a força daquele primeiro, que não era só vidro e
azougue, mas um pedaço da minha própria alma.
Fonte: Edição de referência: Rio de Janeiro: Lombaerts &
C., 1882. páginas 241-257. (Adaptado) - https://machadodeassis.net/
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“O Espelho”
Machado de Assis
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias
questões de alta transcendência, sem que a disparidade
dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A
casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena,
alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o
luar que vinha de fora. Eu, que era um dos convivas,
contei-lhes que possuía uma teoria, a qual me tinha
custado grande trabalho e algumas noites de insônia; mas
não lhe queria expor sem que me prometessem ouvi-la
com paciência. Prometeram todos.
— A teoria é esta — disse eu —: cada criatura humana traz
duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora,
outra que olha de fora para dentro. A primeira, a alma
interior, é a que sente e pensa; a segunda, a alma exterior,
é a que nos vem de fora, da rua, das pessoas, das coisas.
Esta domina muitas vezes aquela; e, em certos casos, não
há propriamente duas, mas uma só alma exterior.
Pediram-me exemplos. Respondi que não os havia
catalogados, mas que ia contar um caso, acontecido
comigo, há muitos anos, em que vi a minha alma interior
desaparecer, cedendo a outra, nascida de um objeto, de
um simples objeto. E contei-lhes.
Era eu então rapaz de vinte e cinco anos, recém-saído de
um curso, quando uma velha tia minha me deixou por
herança um espelho grande, antigo, com moldura larga e
severa. Não me parecia valiosa a dádiva; mas, por
lembrança, levei-o comigo para uma casa de subúrbio,
onde me recolhi, a fim de estudar. Ora, sucedeu que, mal
instalado, comecei a sentir um vazio dentro de mim, como
se me houvesse despido de mim mesmo. O estudo não me
prendia, a leitura cansava-me; eu andava pela casa, de um
aposento a outro, com um aborrecimento que não sei
definir.
Foi então que me lembrei do espelho. Mandei pendurá-lo
na parede da sala; ao vê-lo, senti-me outro. Não é que eu
me achasse mais formoso do que era; mas o espelho tinha
a virtude de dar consistência à minha pessoa: eu me via, e
esse simples fato restituía-me a presença. Dentro de
pouco, o hábito apoderou-se de mim. Vivia diante do
espelho; trabalhava, comia, descansava, sempre com o
olhar a buscar, de instante a instante, a confirmação da
minha figura naquela lâmina tranquila. Se o retiravam,
tudo caía no mesmo vazio anterior; se o repunham, eu
renascia.
Parecer-vos-á ridículo; não o era então. O que digo é que a
minha alma exterior se compunha, naquele tempo, desse
objeto. Não era vaidade de beleza, nem amor próprio do
traje; era qualquer coisa mais funda: a necessidade de um
reflexo que me certificasse da minha existência. Ora, uma
noite, por troça de amigos, esconderam-me o espelho.
Dizei o que quiserdes: senti desfalecer a vida íntima;
tornei-me sombra; e, apesar de me ver com os olhos do
corpo, não me sentia com os olhos do espírito. Só quando
me restituíram o espelho, voltei a ser eu.
Daí infiro que o homem, em não poucos casos, vive de fora
para dentro; e que um objeto, um cargo, uma farda, um
título, pode suplantar a alma interior, até anulá-la. Se isto
é triste ou ridículo, não disputo; conto o que foi. E, posto
que tenha hoje a casa cheia de espelhos, nenhum tem para
mim a força daquele primeiro, que não era só vidro e
azougue, mas um pedaço da minha própria alma.
Fonte: Edição de referência: Rio de Janeiro: Lombaerts &
C., 1882. páginas 241-257. (Adaptado) - https://machadodeassis.net/
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Em “A coordenadora considerou pertinente a prorrogação
do edital por dois meses”, identifique as funções e os
papéis semânticos dos termos em destaque.
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No período “Ela publicou o relatório, embora reconhecesse
limitações, de modo que o comitê solicitou replicação”, os
valores dos conectivos são:
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Considerando a frase abaixo, assinale a alternativa que a
reescreve preservando o sentido e corrigindo a
concordância e a regência.
“Foi entregue aos avaliadores uma síntese dos dados, favorável às conclusões, e anexaram se lhe comentários técnicos.”
“Foi entregue aos avaliadores uma síntese dos dados, favorável às conclusões, e anexaram se lhe comentários técnicos.”
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