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Razão, intuição e um sentido para existir
1 A racionalidade humana é um tema recorrente nas coisas que escrevo, especialmente porque lendo os
autores que mais gosto, vejo que a maioria deles concorda com o fato de que a razão não é algo que nos
torna melhores do que qualquer outra coisa no universo. Na maior parte do tempo, cada um deles me diz, à
sua maneira, que somos tapeados com a sensação de que a racionalidade nos mantém no controle de tudo.
2 Esses dias voltei para a leitura de “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, do psicólogo e economista
Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia por seus estudos sobre a tomada de decisões
humanas. Ganhei esse livro faz um tempo, mas abandonei a leitura no começo – e nem lembro agora o
motivo. Nesse livro, o autor explica que existem dois sistemas de pensamento que operam em nossa mente:
o Sistema 1, que é rápido, intuitivo e emocional, e o Sistema 2, que é lento, racional e lógico.
3 O Sistema 1 é responsável por gerar impressões, intuições e sentimentos que influenciam nossas escolhas,
mas também está sujeito a vários vieses e erros de julgamento. É com ele que lidamos com a maior parte das
coisas. E, ao contrário do que o senso comum pressupõe, é com a intuição que fazemos muitas coisas na
nossa vida, desde escovar os dentes até perceber que alguém que conhecemos está triste. O Sistema 2, por
outro lado, é capaz de analisar criticamente as informações, fazer cálculos e planejar ações, mas requer mais
esforço e atenção. Fazer uma conta complicada, pensar em melhorar um parágrafo num texto ou analisar um
argumento complexo são coisas que se encontram nesse campo. Kahneman mostra como podemos usar o
Sistema 2 para corrigir ou moderar as ilusões do Sistema 1, mas também reconhece os limites da
racionalidade humana.
4 No começo do texto eu disse que a maioria dos autores que admiro questionam a centralidade da razão. E
um deles, sobre o qual eu falo sempre, é o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Ele desenvolveu uma
metafísica pessimista baseada na ideia de que a essência de todas as coisas é a Vontade. A Vontade é uma
força cega, irracional e insaciável que impulsiona todos os seres vivos a existir e se afirmar, mas também os
condena ao sofrimento, à frustração. E isso é ainda mais forte no ser humano, pois, apesar da vida não
possuir nenhum objetivo ou finalidade maior, geramos para nós mesmos a sensação de que esse objetivo
existe, e assim sofremos muito tentando justificar nossas ações e decisões. Schopenhauer considerava que o
ser humano é menos racional do que imagina, pois está submetido à Vontade de viver, que o domina e o
engana. Mas existem algumas válvulas de escape.
5 Schopenhauer afirmava que a única forma de escapar do sofrimento causado pela Vontade era negá-la. Isso
poderia ser feito de duas maneiras: pela via ascética, que consiste em renunciar aos desejos, às paixões e aos
prazeres mundanos, buscando uma vida simples e contemplativa – o que, na prática, é para pouquíssimas
pessoas; ou pela via estética, que consiste em se libertar temporariamente da Vontade através da apreciação
da arte, que expressa a essência do mundo. No momento da criação ou da fruição da arte suspendemos
provisoriamente o desejo, e a Vontade deixa de agir sobre nós. Mas essa trégua é breve, e logo depois
retornamos ao estágio de sofrimento.
6 Relacionando o pensamento de Kahneman e a proposta de Schopenhauer dá pra dizer que o Sistema 1 de
Kahneman corresponderia à manifestação da Vontade de Schopenhauer na mente humana, pois é ele que
nos faz agir impulsivamente, emocionalmente e irracionalmente, buscando satisfazer nossos desejos e evitar
nossas perdas, mas também nos levando a cometer erros e sofrer as consequências. Já o Sistema 2 de
Kahneman corresponderia à tentativa de superar ou controlar a Vontade apresentada por Schopenhauer,
sendo que esse processo se daria, curiosamente, pela razão humana, pois é ela que nos permite avaliar
criticamente as situações, fazer escolhas mais racionais e planejar nossas ações (requerendo, claro, mais
esforço e atenção). Uma contradição nessa tentativa de aproximação se daria justamente por Schopenhauer
considerar que a razão, na maior parte do tempo, potencializa a Vontade. Para ele, muitas decisões racionais
tem, na verdade, fundamento no desejo, no querer, e não na necessidade real daquilo que acreditamos que
é importante para nós.
7 Esse é um tema que me intriga e me desafia, porque essas perguntas (que derivam da discussão) me
parecem sempre sem resposta satisfatória: será que somos capazes de usar nossa racionalidade para nos
libertarmos do sofrimento? Será que existe alguma esperança para a humanidade? Ou será que estamos
fadados a viver em um ciclo de ilusão e dor?
8 Se você adotar a postura pessimista de Schopenhauer, vai concluir que as respostas serão sempre negativas.
E vai entender que a nossa missão nessa vida não é a felicidade, mas sim fazer com que a existência, a nossa
e a dos outros, seja mais suportável. Por outro lado, se estiver do lado de Kahneman, que parece bem mais
otimista (o que, aliás, não é difícil, considerando o autor que coloquei ao lado dele), você vai acreditar que é
possível utilizar a razão não para sermos ainda mais racionais, mas sim para aprendermos a lidar melhor com
as nossas intuições e sentimentos. Com isso, podemos refletir melhor, sofrer menos e viver a felicidade
possível, a partir do autoconhecimento e do reconhecimento de quem somos.
9 Se você me perguntar, vou dizer que sempre pensei mais ou menos como Schopenhauer, mas que quero
acreditar na segunda opção; quero pensar que a razão não é uma outra forma de prisão, disfarçada de
conhecimento, mas sim uma forma de ver e entender a realidade com uma postura crítica que pode nos
ajudar a viver melhor. Não seria bom se fosse mesmo assim?
Extraído de https://marcosramon.net/posts/razao-intuicao/
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Razão, intuição e um sentido para existir
1 A racionalidade humana é um tema recorrente nas coisas que escrevo, especialmente porque lendo os
autores que mais gosto, vejo que a maioria deles concorda com o fato de que a razão não é algo que nos
torna melhores do que qualquer outra coisa no universo. Na maior parte do tempo, cada um deles me diz, à
sua maneira, que somos tapeados com a sensação de que a racionalidade nos mantém no controle de tudo.
2 Esses dias voltei para a leitura de “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, do psicólogo e economista
Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia por seus estudos sobre a tomada de decisões
humanas. Ganhei esse livro faz um tempo, mas abandonei a leitura no começo – e nem lembro agora o
motivo. Nesse livro, o autor explica que existem dois sistemas de pensamento que operam em nossa mente:
o Sistema 1, que é rápido, intuitivo e emocional, e o Sistema 2, que é lento, racional e lógico.
3 O Sistema 1 é responsável por gerar impressões, intuições e sentimentos que influenciam nossas escolhas,
mas também está sujeito a vários vieses e erros de julgamento. É com ele que lidamos com a maior parte das
coisas. E, ao contrário do que o senso comum pressupõe, é com a intuição que fazemos muitas coisas na
nossa vida, desde escovar os dentes até perceber que alguém que conhecemos está triste. O Sistema 2, por
outro lado, é capaz de analisar criticamente as informações, fazer cálculos e planejar ações, mas requer mais
esforço e atenção. Fazer uma conta complicada, pensar em melhorar um parágrafo num texto ou analisar um
argumento complexo são coisas que se encontram nesse campo. Kahneman mostra como podemos usar o
Sistema 2 para corrigir ou moderar as ilusões do Sistema 1, mas também reconhece os limites da
racionalidade humana.
4 No começo do texto eu disse que a maioria dos autores que admiro questionam a centralidade da razão. E
um deles, sobre o qual eu falo sempre, é o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Ele desenvolveu uma
metafísica pessimista baseada na ideia de que a essência de todas as coisas é a Vontade. A Vontade é uma
força cega, irracional e insaciável que impulsiona todos os seres vivos a existir e se afirmar, mas também os
condena ao sofrimento, à frustração. E isso é ainda mais forte no ser humano, pois, apesar da vida não
possuir nenhum objetivo ou finalidade maior, geramos para nós mesmos a sensação de que esse objetivo
existe, e assim sofremos muito tentando justificar nossas ações e decisões. Schopenhauer considerava que o
ser humano é menos racional do que imagina, pois está submetido à Vontade de viver, que o domina e o
engana. Mas existem algumas válvulas de escape.
5 Schopenhauer afirmava que a única forma de escapar do sofrimento causado pela Vontade era negá-la. Isso
poderia ser feito de duas maneiras: pela via ascética, que consiste em renunciar aos desejos, às paixões e aos
prazeres mundanos, buscando uma vida simples e contemplativa – o que, na prática, é para pouquíssimas
pessoas; ou pela via estética, que consiste em se libertar temporariamente da Vontade através da apreciação
da arte, que expressa a essência do mundo. No momento da criação ou da fruição da arte suspendemos
provisoriamente o desejo, e a Vontade deixa de agir sobre nós. Mas essa trégua é breve, e logo depois
retornamos ao estágio de sofrimento.
6 Relacionando o pensamento de Kahneman e a proposta de Schopenhauer dá pra dizer que o Sistema 1 de
Kahneman corresponderia à manifestação da Vontade de Schopenhauer na mente humana, pois é ele que
nos faz agir impulsivamente, emocionalmente e irracionalmente, buscando satisfazer nossos desejos e evitar
nossas perdas, mas também nos levando a cometer erros e sofrer as consequências. Já o Sistema 2 de
Kahneman corresponderia à tentativa de superar ou controlar a Vontade apresentada por Schopenhauer,
sendo que esse processo se daria, curiosamente, pela razão humana, pois é ela que nos permite avaliar
criticamente as situações, fazer escolhas mais racionais e planejar nossas ações (requerendo, claro, mais
esforço e atenção). Uma contradição nessa tentativa de aproximação se daria justamente por Schopenhauer
considerar que a razão, na maior parte do tempo, potencializa a Vontade. Para ele, muitas decisões racionais
tem, na verdade, fundamento no desejo, no querer, e não na necessidade real daquilo que acreditamos que
é importante para nós.
7 Esse é um tema que me intriga e me desafia, porque essas perguntas (que derivam da discussão) me
parecem sempre sem resposta satisfatória: será que somos capazes de usar nossa racionalidade para nos
libertarmos do sofrimento? Será que existe alguma esperança para a humanidade? Ou será que estamos
fadados a viver em um ciclo de ilusão e dor?
8 Se você adotar a postura pessimista de Schopenhauer, vai concluir que as respostas serão sempre negativas.
E vai entender que a nossa missão nessa vida não é a felicidade, mas sim fazer com que a existência, a nossa
e a dos outros, seja mais suportável. Por outro lado, se estiver do lado de Kahneman, que parece bem mais
otimista (o que, aliás, não é difícil, considerando o autor que coloquei ao lado dele), você vai acreditar que é
possível utilizar a razão não para sermos ainda mais racionais, mas sim para aprendermos a lidar melhor com
as nossas intuições e sentimentos. Com isso, podemos refletir melhor, sofrer menos e viver a felicidade
possível, a partir do autoconhecimento e do reconhecimento de quem somos.
9 Se você me perguntar, vou dizer que sempre pensei mais ou menos como Schopenhauer, mas que quero
acreditar na segunda opção; quero pensar que a razão não é uma outra forma de prisão, disfarçada de
conhecimento, mas sim uma forma de ver e entender a realidade com uma postura crítica que pode nos
ajudar a viver melhor. Não seria bom se fosse mesmo assim?
Extraído de https://marcosramon.net/posts/razao-intuicao/
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Razão, intuição e um sentido para existir
1 A racionalidade humana é um tema recorrente nas coisas que escrevo, especialmente porque lendo os
autores que mais gosto, vejo que a maioria deles concorda com o fato de que a razão não é algo que nos
torna melhores do que qualquer outra coisa no universo. Na maior parte do tempo, cada um deles me diz, à
sua maneira, que somos tapeados com a sensação de que a racionalidade nos mantém no controle de tudo.
2 Esses dias voltei para a leitura de “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, do psicólogo e economista
Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia por seus estudos sobre a tomada de decisões
humanas. Ganhei esse livro faz um tempo, mas abandonei a leitura no começo – e nem lembro agora o
motivo. Nesse livro, o autor explica que existem dois sistemas de pensamento que operam em nossa mente:
o Sistema 1, que é rápido, intuitivo e emocional, e o Sistema 2, que é lento, racional e lógico.
3 O Sistema 1 é responsável por gerar impressões, intuições e sentimentos que influenciam nossas escolhas,
mas também está sujeito a vários vieses e erros de julgamento. É com ele que lidamos com a maior parte das
coisas. E, ao contrário do que o senso comum pressupõe, é com a intuição que fazemos muitas coisas na
nossa vida, desde escovar os dentes até perceber que alguém que conhecemos está triste. O Sistema 2, por
outro lado, é capaz de analisar criticamente as informações, fazer cálculos e planejar ações, mas requer mais
esforço e atenção. Fazer uma conta complicada, pensar em melhorar um parágrafo num texto ou analisar um
argumento complexo são coisas que se encontram nesse campo. Kahneman mostra como podemos usar o
Sistema 2 para corrigir ou moderar as ilusões do Sistema 1, mas também reconhece os limites da
racionalidade humana.
4 No começo do texto eu disse que a maioria dos autores que admiro questionam a centralidade da razão. E
um deles, sobre o qual eu falo sempre, é o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Ele desenvolveu uma
metafísica pessimista baseada na ideia de que a essência de todas as coisas é a Vontade. A Vontade é uma
força cega, irracional e insaciável que impulsiona todos os seres vivos a existir e se afirmar, mas também os
condena ao sofrimento, à frustração. E isso é ainda mais forte no ser humano, pois, apesar da vida não
possuir nenhum objetivo ou finalidade maior, geramos para nós mesmos a sensação de que esse objetivo
existe, e assim sofremos muito tentando justificar nossas ações e decisões. Schopenhauer considerava que o
ser humano é menos racional do que imagina, pois está submetido à Vontade de viver, que o domina e o
engana. Mas existem algumas válvulas de escape.
5 Schopenhauer afirmava que a única forma de escapar do sofrimento causado pela Vontade era negá-la. Isso
poderia ser feito de duas maneiras: pela via ascética, que consiste em renunciar aos desejos, às paixões e aos
prazeres mundanos, buscando uma vida simples e contemplativa – o que, na prática, é para pouquíssimas
pessoas; ou pela via estética, que consiste em se libertar temporariamente da Vontade através da apreciação
da arte, que expressa a essência do mundo. No momento da criação ou da fruição da arte suspendemos
provisoriamente o desejo, e a Vontade deixa de agir sobre nós. Mas essa trégua é breve, e logo depois
retornamos ao estágio de sofrimento.
6 Relacionando o pensamento de Kahneman e a proposta de Schopenhauer dá pra dizer que o Sistema 1 de
Kahneman corresponderia à manifestação da Vontade de Schopenhauer na mente humana, pois é ele que
nos faz agir impulsivamente, emocionalmente e irracionalmente, buscando satisfazer nossos desejos e evitar
nossas perdas, mas também nos levando a cometer erros e sofrer as consequências. Já o Sistema 2 de
Kahneman corresponderia à tentativa de superar ou controlar a Vontade apresentada por Schopenhauer,
sendo que esse processo se daria, curiosamente, pela razão humana, pois é ela que nos permite avaliar
criticamente as situações, fazer escolhas mais racionais e planejar nossas ações (requerendo, claro, mais
esforço e atenção). Uma contradição nessa tentativa de aproximação se daria justamente por Schopenhauer
considerar que a razão, na maior parte do tempo, potencializa a Vontade. Para ele, muitas decisões racionais
tem, na verdade, fundamento no desejo, no querer, e não na necessidade real daquilo que acreditamos que
é importante para nós.
7 Esse é um tema que me intriga e me desafia, porque essas perguntas (que derivam da discussão) me
parecem sempre sem resposta satisfatória: será que somos capazes de usar nossa racionalidade para nos
libertarmos do sofrimento? Será que existe alguma esperança para a humanidade? Ou será que estamos
fadados a viver em um ciclo de ilusão e dor?
8 Se você adotar a postura pessimista de Schopenhauer, vai concluir que as respostas serão sempre negativas.
E vai entender que a nossa missão nessa vida não é a felicidade, mas sim fazer com que a existência, a nossa
e a dos outros, seja mais suportável. Por outro lado, se estiver do lado de Kahneman, que parece bem mais
otimista (o que, aliás, não é difícil, considerando o autor que coloquei ao lado dele), você vai acreditar que é
possível utilizar a razão não para sermos ainda mais racionais, mas sim para aprendermos a lidar melhor com
as nossas intuições e sentimentos. Com isso, podemos refletir melhor, sofrer menos e viver a felicidade
possível, a partir do autoconhecimento e do reconhecimento de quem somos.
9 Se você me perguntar, vou dizer que sempre pensei mais ou menos como Schopenhauer, mas que quero
acreditar na segunda opção; quero pensar que a razão não é uma outra forma de prisão, disfarçada de
conhecimento, mas sim uma forma de ver e entender a realidade com uma postura crítica que pode nos
ajudar a viver melhor. Não seria bom se fosse mesmo assim?
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Razão, intuição e um sentido para existir
1 A racionalidade humana é um tema recorrente nas coisas que escrevo, especialmente porque lendo os
autores que mais gosto, vejo que a maioria deles concorda com o fato de que a razão não é algo que nos
torna melhores do que qualquer outra coisa no universo. Na maior parte do tempo, cada um deles me diz, à
sua maneira, que somos tapeados com a sensação de que a racionalidade nos mantém no controle de tudo.
2 Esses dias voltei para a leitura de “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, do psicólogo e economista
Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia por seus estudos sobre a tomada de decisões
humanas. Ganhei esse livro faz um tempo, mas abandonei a leitura no começo – e nem lembro agora o
motivo. Nesse livro, o autor explica que existem dois sistemas de pensamento que operam em nossa mente:
o Sistema 1, que é rápido, intuitivo e emocional, e o Sistema 2, que é lento, racional e lógico.
3 O Sistema 1 é responsável por gerar impressões, intuições e sentimentos que influenciam nossas escolhas,
mas também está sujeito a vários vieses e erros de julgamento. É com ele que lidamos com a maior parte das
coisas. E, ao contrário do que o senso comum pressupõe, é com a intuição que fazemos muitas coisas na
nossa vida, desde escovar os dentes até perceber que alguém que conhecemos está triste. O Sistema 2, por
outro lado, é capaz de analisar criticamente as informações, fazer cálculos e planejar ações, mas requer mais
esforço e atenção. Fazer uma conta complicada, pensar em melhorar um parágrafo num texto ou analisar um
argumento complexo são coisas que se encontram nesse campo. Kahneman mostra como podemos usar o
Sistema 2 para corrigir ou moderar as ilusões do Sistema 1, mas também reconhece os limites da
racionalidade humana.
4 No começo do texto eu disse que a maioria dos autores que admiro questionam a centralidade da razão. E
um deles, sobre o qual eu falo sempre, é o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Ele desenvolveu uma
metafísica pessimista baseada na ideia de que a essência de todas as coisas é a Vontade. A Vontade é uma
força cega, irracional e insaciável que impulsiona todos os seres vivos a existir e se afirmar, mas também os
condena ao sofrimento, à frustração. E isso é ainda mais forte no ser humano, pois, apesar da vida não
possuir nenhum objetivo ou finalidade maior, geramos para nós mesmos a sensação de que esse objetivo
existe, e assim sofremos muito tentando justificar nossas ações e decisões. Schopenhauer considerava que o
ser humano é menos racional do que imagina, pois está submetido à Vontade de viver, que o domina e o
engana. Mas existem algumas válvulas de escape.
5 Schopenhauer afirmava que a única forma de escapar do sofrimento causado pela Vontade era negá-la. Isso
poderia ser feito de duas maneiras: pela via ascética, que consiste em renunciar aos desejos, às paixões e aos
prazeres mundanos, buscando uma vida simples e contemplativa – o que, na prática, é para pouquíssimas
pessoas; ou pela via estética, que consiste em se libertar temporariamente da Vontade através da apreciação
da arte, que expressa a essência do mundo. No momento da criação ou da fruição da arte suspendemos
provisoriamente o desejo, e a Vontade deixa de agir sobre nós. Mas essa trégua é breve, e logo depois
retornamos ao estágio de sofrimento.
6 Relacionando o pensamento de Kahneman e a proposta de Schopenhauer dá pra dizer que o Sistema 1 de
Kahneman corresponderia à manifestação da Vontade de Schopenhauer na mente humana, pois é ele que
nos faz agir impulsivamente, emocionalmente e irracionalmente, buscando satisfazer nossos desejos e evitar
nossas perdas, mas também nos levando a cometer erros e sofrer as consequências. Já o Sistema 2 de
Kahneman corresponderia à tentativa de superar ou controlar a Vontade apresentada por Schopenhauer,
sendo que esse processo se daria, curiosamente, pela razão humana, pois é ela que nos permite avaliar
criticamente as situações, fazer escolhas mais racionais e planejar nossas ações (requerendo, claro, mais
esforço e atenção). Uma contradição nessa tentativa de aproximação se daria justamente por Schopenhauer
considerar que a razão, na maior parte do tempo, potencializa a Vontade. Para ele, muitas decisões racionais
tem, na verdade, fundamento no desejo, no querer, e não na necessidade real daquilo que acreditamos que
é importante para nós.
7 Esse é um tema que me intriga e me desafia, porque essas perguntas (que derivam da discussão) me
parecem sempre sem resposta satisfatória: será que somos capazes de usar nossa racionalidade para nos
libertarmos do sofrimento? Será que existe alguma esperança para a humanidade? Ou será que estamos
fadados a viver em um ciclo de ilusão e dor?
8 Se você adotar a postura pessimista de Schopenhauer, vai concluir que as respostas serão sempre negativas.
E vai entender que a nossa missão nessa vida não é a felicidade, mas sim fazer com que a existência, a nossa
e a dos outros, seja mais suportável. Por outro lado, se estiver do lado de Kahneman, que parece bem mais
otimista (o que, aliás, não é difícil, considerando o autor que coloquei ao lado dele), você vai acreditar que é
possível utilizar a razão não para sermos ainda mais racionais, mas sim para aprendermos a lidar melhor com
as nossas intuições e sentimentos. Com isso, podemos refletir melhor, sofrer menos e viver a felicidade
possível, a partir do autoconhecimento e do reconhecimento de quem somos.
9 Se você me perguntar, vou dizer que sempre pensei mais ou menos como Schopenhauer, mas que quero
acreditar na segunda opção; quero pensar que a razão não é uma outra forma de prisão, disfarçada de
conhecimento, mas sim uma forma de ver e entender a realidade com uma postura crítica que pode nos
ajudar a viver melhor. Não seria bom se fosse mesmo assim?
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Questão presente nas seguintes provas
Razão, intuição e um sentido para existir
1 A racionalidade humana é um tema recorrente nas coisas que escrevo, especialmente porque lendo os
autores que mais gosto, vejo que a maioria deles concorda com o fato de que a razão não é algo que nos
torna melhores do que qualquer outra coisa no universo. Na maior parte do tempo, cada um deles me diz, à
sua maneira, que somos tapeados com a sensação de que a racionalidade nos mantém no controle de tudo.
2 Esses dias voltei para a leitura de “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, do psicólogo e economista
Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia por seus estudos sobre a tomada de decisões
humanas. Ganhei esse livro faz um tempo, mas abandonei a leitura no começo – e nem lembro agora o
motivo. Nesse livro, o autor explica que existem dois sistemas de pensamento que operam em nossa mente:
o Sistema 1, que é rápido, intuitivo e emocional, e o Sistema 2, que é lento, racional e lógico.
3 O Sistema 1 é responsável por gerar impressões, intuições e sentimentos que influenciam nossas escolhas,
mas também está sujeito a vários vieses e erros de julgamento. É com ele que lidamos com a maior parte das
coisas. E, ao contrário do que o senso comum pressupõe, é com a intuição que fazemos muitas coisas na
nossa vida, desde escovar os dentes até perceber que alguém que conhecemos está triste. O Sistema 2, por
outro lado, é capaz de analisar criticamente as informações, fazer cálculos e planejar ações, mas requer mais
esforço e atenção. Fazer uma conta complicada, pensar em melhorar um parágrafo num texto ou analisar um
argumento complexo são coisas que se encontram nesse campo. Kahneman mostra como podemos usar o
Sistema 2 para corrigir ou moderar as ilusões do Sistema 1, mas também reconhece os limites da
racionalidade humana.
4 No começo do texto eu disse que a maioria dos autores que admiro questionam a centralidade da razão. E
um deles, sobre o qual eu falo sempre, é o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Ele desenvolveu uma
metafísica pessimista baseada na ideia de que a essência de todas as coisas é a Vontade. A Vontade é uma
força cega, irracional e insaciável que impulsiona todos os seres vivos a existir e se afirmar, mas também os
condena ao sofrimento, à frustração. E isso é ainda mais forte no ser humano, pois, apesar da vida não
possuir nenhum objetivo ou finalidade maior, geramos para nós mesmos a sensação de que esse objetivo
existe, e assim sofremos muito tentando justificar nossas ações e decisões. Schopenhauer considerava que o
ser humano é menos racional do que imagina, pois está submetido à Vontade de viver, que o domina e o
engana. Mas existem algumas válvulas de escape.
5 Schopenhauer afirmava que a única forma de escapar do sofrimento causado pela Vontade era negá-la. Isso
poderia ser feito de duas maneiras: pela via ascética, que consiste em renunciar aos desejos, às paixões e aos
prazeres mundanos, buscando uma vida simples e contemplativa – o que, na prática, é para pouquíssimas
pessoas; ou pela via estética, que consiste em se libertar temporariamente da Vontade através da apreciação
da arte, que expressa a essência do mundo. No momento da criação ou da fruição da arte suspendemos
provisoriamente o desejo, e a Vontade deixa de agir sobre nós. Mas essa trégua é breve, e logo depois
retornamos ao estágio de sofrimento.
6 Relacionando o pensamento de Kahneman e a proposta de Schopenhauer dá pra dizer que o Sistema 1 de
Kahneman corresponderia à manifestação da Vontade de Schopenhauer na mente humana, pois é ele que
nos faz agir impulsivamente, emocionalmente e irracionalmente, buscando satisfazer nossos desejos e evitar
nossas perdas, mas também nos levando a cometer erros e sofrer as consequências. Já o Sistema 2 de
Kahneman corresponderia à tentativa de superar ou controlar a Vontade apresentada por Schopenhauer,
sendo que esse processo se daria, curiosamente, pela razão humana, pois é ela que nos permite avaliar
criticamente as situações, fazer escolhas mais racionais e planejar nossas ações (requerendo, claro, mais
esforço e atenção). Uma contradição nessa tentativa de aproximação se daria justamente por Schopenhauer
considerar que a razão, na maior parte do tempo, potencializa a Vontade. Para ele, muitas decisões racionais
tem, na verdade, fundamento no desejo, no querer, e não na necessidade real daquilo que acreditamos que
é importante para nós.
7 Esse é um tema que me intriga e me desafia, porque essas perguntas (que derivam da discussão) me
parecem sempre sem resposta satisfatória: será que somos capazes de usar nossa racionalidade para nos
libertarmos do sofrimento? Será que existe alguma esperança para a humanidade? Ou será que estamos
fadados a viver em um ciclo de ilusão e dor?
8 Se você adotar a postura pessimista de Schopenhauer, vai concluir que as respostas serão sempre negativas.
E vai entender que a nossa missão nessa vida não é a felicidade, mas sim fazer com que a existência, a nossa
e a dos outros, seja mais suportável. Por outro lado, se estiver do lado de Kahneman, que parece bem mais
otimista (o que, aliás, não é difícil, considerando o autor que coloquei ao lado dele), você vai acreditar que é
possível utilizar a razão não para sermos ainda mais racionais, mas sim para aprendermos a lidar melhor com
as nossas intuições e sentimentos. Com isso, podemos refletir melhor, sofrer menos e viver a felicidade
possível, a partir do autoconhecimento e do reconhecimento de quem somos.
9 Se você me perguntar, vou dizer que sempre pensei mais ou menos como Schopenhauer, mas que quero
acreditar na segunda opção; quero pensar que a razão não é uma outra forma de prisão, disfarçada de
conhecimento, mas sim uma forma de ver e entender a realidade com uma postura crítica que pode nos
ajudar a viver melhor. Não seria bom se fosse mesmo assim?
Extraído de https://marcosramon.net/posts/razao-intuicao/
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Razão, intuição e um sentido para existir
1 A racionalidade humana é um tema recorrente nas coisas que escrevo, especialmente porque lendo os
autores que mais gosto, vejo que a maioria deles concorda com o fato de que a razão não é algo que nos
torna melhores do que qualquer outra coisa no universo. Na maior parte do tempo, cada um deles me diz, à
sua maneira, que somos tapeados com a sensação de que a racionalidade nos mantém no controle de tudo.
2 Esses dias voltei para a leitura de “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, do psicólogo e economista
Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia por seus estudos sobre a tomada de decisões
humanas. Ganhei esse livro faz um tempo, mas abandonei a leitura no começo – e nem lembro agora o
motivo. Nesse livro, o autor explica que existem dois sistemas de pensamento que operam em nossa mente:
o Sistema 1, que é rápido, intuitivo e emocional, e o Sistema 2, que é lento, racional e lógico.
3 O Sistema 1 é responsável por gerar impressões, intuições e sentimentos que influenciam nossas escolhas,
mas também está sujeito a vários vieses e erros de julgamento. É com ele que lidamos com a maior parte das
coisas. E, ao contrário do que o senso comum pressupõe, é com a intuição que fazemos muitas coisas na
nossa vida, desde escovar os dentes até perceber que alguém que conhecemos está triste. O Sistema 2, por
outro lado, é capaz de analisar criticamente as informações, fazer cálculos e planejar ações, mas requer mais
esforço e atenção. Fazer uma conta complicada, pensar em melhorar um parágrafo num texto ou analisar um
argumento complexo são coisas que se encontram nesse campo. Kahneman mostra como podemos usar o
Sistema 2 para corrigir ou moderar as ilusões do Sistema 1, mas também reconhece os limites da
racionalidade humana.
4 No começo do texto eu disse que a maioria dos autores que admiro questionam a centralidade da razão. E
um deles, sobre o qual eu falo sempre, é o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Ele desenvolveu uma
metafísica pessimista baseada na ideia de que a essência de todas as coisas é a Vontade. A Vontade é uma
força cega, irracional e insaciável que impulsiona todos os seres vivos a existir e se afirmar, mas também os
condena ao sofrimento, à frustração. E isso é ainda mais forte no ser humano, pois, apesar da vida não
possuir nenhum objetivo ou finalidade maior, geramos para nós mesmos a sensação de que esse objetivo
existe, e assim sofremos muito tentando justificar nossas ações e decisões. Schopenhauer considerava que o
ser humano é menos racional do que imagina, pois está submetido à Vontade de viver, que o domina e o
engana. Mas existem algumas válvulas de escape.
5 Schopenhauer afirmava que a única forma de escapar do sofrimento causado pela Vontade era negá-la. Isso
poderia ser feito de duas maneiras: pela via ascética, que consiste em renunciar aos desejos, às paixões e aos
prazeres mundanos, buscando uma vida simples e contemplativa – o que, na prática, é para pouquíssimas
pessoas; ou pela via estética, que consiste em se libertar temporariamente da Vontade através da apreciação
da arte, que expressa a essência do mundo. No momento da criação ou da fruição da arte suspendemos
provisoriamente o desejo, e a Vontade deixa de agir sobre nós. Mas essa trégua é breve, e logo depois
retornamos ao estágio de sofrimento.
6 Relacionando o pensamento de Kahneman e a proposta de Schopenhauer dá pra dizer que o Sistema 1 de
Kahneman corresponderia à manifestação da Vontade de Schopenhauer na mente humana, pois é ele que
nos faz agir impulsivamente, emocionalmente e irracionalmente, buscando satisfazer nossos desejos e evitar
nossas perdas, mas também nos levando a cometer erros e sofrer as consequências. Já o Sistema 2 de
Kahneman corresponderia à tentativa de superar ou controlar a Vontade apresentada por Schopenhauer,
sendo que esse processo se daria, curiosamente, pela razão humana, pois é ela que nos permite avaliar
criticamente as situações, fazer escolhas mais racionais e planejar nossas ações (requerendo, claro, mais
esforço e atenção). Uma contradição nessa tentativa de aproximação se daria justamente por Schopenhauer
considerar que a razão, na maior parte do tempo, potencializa a Vontade. Para ele, muitas decisões racionais
tem, na verdade, fundamento no desejo, no querer, e não na necessidade real daquilo que acreditamos que
é importante para nós.
7 Esse é um tema que me intriga e me desafia, porque essas perguntas (que derivam da discussão) me
parecem sempre sem resposta satisfatória: será que somos capazes de usar nossa racionalidade para nos
libertarmos do sofrimento? Será que existe alguma esperança para a humanidade? Ou será que estamos
fadados a viver em um ciclo de ilusão e dor?
8 Se você adotar a postura pessimista de Schopenhauer, vai concluir que as respostas serão sempre negativas.
E vai entender que a nossa missão nessa vida não é a felicidade, mas sim fazer com que a existência, a nossa
e a dos outros, seja mais suportável. Por outro lado, se estiver do lado de Kahneman, que parece bem mais
otimista (o que, aliás, não é difícil, considerando o autor que coloquei ao lado dele), você vai acreditar que é
possível utilizar a razão não para sermos ainda mais racionais, mas sim para aprendermos a lidar melhor com
as nossas intuições e sentimentos. Com isso, podemos refletir melhor, sofrer menos e viver a felicidade
possível, a partir do autoconhecimento e do reconhecimento de quem somos.
9 Se você me perguntar, vou dizer que sempre pensei mais ou menos como Schopenhauer, mas que quero
acreditar na segunda opção; quero pensar que a razão não é uma outra forma de prisão, disfarçada de
conhecimento, mas sim uma forma de ver e entender a realidade com uma postura crítica que pode nos
ajudar a viver melhor. Não seria bom se fosse mesmo assim?
Extraído de https://marcosramon.net/posts/razao-intuicao/
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Questão presente nas seguintes provas
Razão, intuição e um sentido para existir
1 A racionalidade humana é um tema recorrente nas coisas que escrevo, especialmente porque lendo os
autores que mais gosto, vejo que a maioria deles concorda com o fato de que a razão não é algo que nos
torna melhores do que qualquer outra coisa no universo. Na maior parte do tempo, cada um deles me diz, à
sua maneira, que somos tapeados com a sensação de que a racionalidade nos mantém no controle de tudo.
2 Esses dias voltei para a leitura de “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, do psicólogo e economista
Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia por seus estudos sobre a tomada de decisões
humanas. Ganhei esse livro faz um tempo, mas abandonei a leitura no começo – e nem lembro agora o
motivo. Nesse livro, o autor explica que existem dois sistemas de pensamento que operam em nossa mente:
o Sistema 1, que é rápido, intuitivo e emocional, e o Sistema 2, que é lento, racional e lógico.
3 O Sistema 1 é responsável por gerar impressões, intuições e sentimentos que influenciam nossas escolhas,
mas também está sujeito a vários vieses e erros de julgamento. É com ele que lidamos com a maior parte das
coisas. E, ao contrário do que o senso comum pressupõe, é com a intuição que fazemos muitas coisas na
nossa vida, desde escovar os dentes até perceber que alguém que conhecemos está triste. O Sistema 2, por
outro lado, é capaz de analisar criticamente as informações, fazer cálculos e planejar ações, mas requer mais
esforço e atenção. Fazer uma conta complicada, pensar em melhorar um parágrafo num texto ou analisar um
argumento complexo são coisas que se encontram nesse campo. Kahneman mostra como podemos usar o
Sistema 2 para corrigir ou moderar as ilusões do Sistema 1, mas também reconhece os limites da
racionalidade humana.
4 No começo do texto eu disse que a maioria dos autores que admiro questionam a centralidade da razão. E
um deles, sobre o qual eu falo sempre, é o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Ele desenvolveu uma
metafísica pessimista baseada na ideia de que a essência de todas as coisas é a Vontade. A Vontade é uma
força cega, irracional e insaciável que impulsiona todos os seres vivos a existir e se afirmar, mas também os
condena ao sofrimento, à frustração. E isso é ainda mais forte no ser humano, pois, apesar da vida não
possuir nenhum objetivo ou finalidade maior, geramos para nós mesmos a sensação de que esse objetivo
existe, e assim sofremos muito tentando justificar nossas ações e decisões. Schopenhauer considerava que o
ser humano é menos racional do que imagina, pois está submetido à Vontade de viver, que o domina e o
engana. Mas existem algumas válvulas de escape.
5 Schopenhauer afirmava que a única forma de escapar do sofrimento causado pela Vontade era negá-la. Isso
poderia ser feito de duas maneiras: pela via ascética, que consiste em renunciar aos desejos, às paixões e aos
prazeres mundanos, buscando uma vida simples e contemplativa – o que, na prática, é para pouquíssimas
pessoas; ou pela via estética, que consiste em se libertar temporariamente da Vontade através da apreciação
da arte, que expressa a essência do mundo. No momento da criação ou da fruição da arte suspendemos
provisoriamente o desejo, e a Vontade deixa de agir sobre nós. Mas essa trégua é breve, e logo depois
retornamos ao estágio de sofrimento.
6 Relacionando o pensamento de Kahneman e a proposta de Schopenhauer dá pra dizer que o Sistema 1 de
Kahneman corresponderia à manifestação da Vontade de Schopenhauer na mente humana, pois é ele que
nos faz agir impulsivamente, emocionalmente e irracionalmente, buscando satisfazer nossos desejos e evitar
nossas perdas, mas também nos levando a cometer erros e sofrer as consequências. Já o Sistema 2 de
Kahneman corresponderia à tentativa de superar ou controlar a Vontade apresentada por Schopenhauer,
sendo que esse processo se daria, curiosamente, pela razão humana, pois é ela que nos permite avaliar
criticamente as situações, fazer escolhas mais racionais e planejar nossas ações (requerendo, claro, mais
esforço e atenção). Uma contradição nessa tentativa de aproximação se daria justamente por Schopenhauer
considerar que a razão, na maior parte do tempo, potencializa a Vontade. Para ele, muitas decisões racionais
tem, na verdade, fundamento no desejo, no querer, e não na necessidade real daquilo que acreditamos que
é importante para nós.
7 Esse é um tema que me intriga e me desafia, porque essas perguntas (que derivam da discussão) me
parecem sempre sem resposta satisfatória: será que somos capazes de usar nossa racionalidade para nos
libertarmos do sofrimento? Será que existe alguma esperança para a humanidade? Ou será que estamos
fadados a viver em um ciclo de ilusão e dor?
8 Se você adotar a postura pessimista de Schopenhauer, vai concluir que as respostas serão sempre negativas.
E vai entender que a nossa missão nessa vida não é a felicidade, mas sim fazer com que a existência, a nossa
e a dos outros, seja mais suportável. Por outro lado, se estiver do lado de Kahneman, que parece bem mais
otimista (o que, aliás, não é difícil, considerando o autor que coloquei ao lado dele), você vai acreditar que é
possível utilizar a razão não para sermos ainda mais racionais, mas sim para aprendermos a lidar melhor com
as nossas intuições e sentimentos. Com isso, podemos refletir melhor, sofrer menos e viver a felicidade
possível, a partir do autoconhecimento e do reconhecimento de quem somos.
9 Se você me perguntar, vou dizer que sempre pensei mais ou menos como Schopenhauer, mas que quero
acreditar na segunda opção; quero pensar que a razão não é uma outra forma de prisão, disfarçada de
conhecimento, mas sim uma forma de ver e entender a realidade com uma postura crítica que pode nos
ajudar a viver melhor. Não seria bom se fosse mesmo assim?
Extraído de https://marcosramon.net/posts/razao-intuicao/
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Razão, intuição e um sentido para existir
1 A racionalidade humana é um tema recorrente nas coisas que escrevo, especialmente porque lendo os
autores que mais gosto, vejo que a maioria deles concorda com o fato de que a razão não é algo que nos
torna melhores do que qualquer outra coisa no universo. Na maior parte do tempo, cada um deles me diz, à
sua maneira, que somos tapeados com a sensação de que a racionalidade nos mantém no controle de tudo.
2 Esses dias voltei para a leitura de “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, do psicólogo e economista
Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia por seus estudos sobre a tomada de decisões
humanas. Ganhei esse livro faz um tempo, mas abandonei a leitura no começo – e nem lembro agora o
motivo. Nesse livro, o autor explica que existem dois sistemas de pensamento que operam em nossa mente:
o Sistema 1, que é rápido, intuitivo e emocional, e o Sistema 2, que é lento, racional e lógico.
3 O Sistema 1 é responsável por gerar impressões, intuições e sentimentos que influenciam nossas escolhas,
mas também está sujeito a vários vieses e erros de julgamento. É com ele que lidamos com a maior parte das
coisas. E, ao contrário do que o senso comum pressupõe, é com a intuição que fazemos muitas coisas na
nossa vida, desde escovar os dentes até perceber que alguém que conhecemos está triste. O Sistema 2, por
outro lado, é capaz de analisar criticamente as informações, fazer cálculos e planejar ações, mas requer mais
esforço e atenção. Fazer uma conta complicada, pensar em melhorar um parágrafo num texto ou analisar um
argumento complexo são coisas que se encontram nesse campo. Kahneman mostra como podemos usar o
Sistema 2 para corrigir ou moderar as ilusões do Sistema 1, mas também reconhece os limites da
racionalidade humana.
4 No começo do texto eu disse que a maioria dos autores que admiro questionam a centralidade da razão. E
um deles, sobre o qual eu falo sempre, é o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Ele desenvolveu uma
metafísica pessimista baseada na ideia de que a essência de todas as coisas é a Vontade. A Vontade é uma
força cega, irracional e insaciável que impulsiona todos os seres vivos a existir e se afirmar, mas também os
condena ao sofrimento, à frustração. E isso é ainda mais forte no ser humano, pois, apesar da vida não
possuir nenhum objetivo ou finalidade maior, geramos para nós mesmos a sensação de que esse objetivo
existe, e assim sofremos muito tentando justificar nossas ações e decisões. Schopenhauer considerava que o
ser humano é menos racional do que imagina, pois está submetido à Vontade de viver, que o domina e o
engana. Mas existem algumas válvulas de escape.
5 Schopenhauer afirmava que a única forma de escapar do sofrimento causado pela Vontade era negá-la. Isso
poderia ser feito de duas maneiras: pela via ascética, que consiste em renunciar aos desejos, às paixões e aos
prazeres mundanos, buscando uma vida simples e contemplativa – o que, na prática, é para pouquíssimas
pessoas; ou pela via estética, que consiste em se libertar temporariamente da Vontade através da apreciação
da arte, que expressa a essência do mundo. No momento da criação ou da fruição da arte suspendemos
provisoriamente o desejo, e a Vontade deixa de agir sobre nós. Mas essa trégua é breve, e logo depois
retornamos ao estágio de sofrimento.
6 Relacionando o pensamento de Kahneman e a proposta de Schopenhauer dá pra dizer que o Sistema 1 de
Kahneman corresponderia à manifestação da Vontade de Schopenhauer na mente humana, pois é ele que
nos faz agir impulsivamente, emocionalmente e irracionalmente, buscando satisfazer nossos desejos e evitar
nossas perdas, mas também nos levando a cometer erros e sofrer as consequências. Já o Sistema 2 de
Kahneman corresponderia à tentativa de superar ou controlar a Vontade apresentada por Schopenhauer,
sendo que esse processo se daria, curiosamente, pela razão humana, pois é ela que nos permite avaliar
criticamente as situações, fazer escolhas mais racionais e planejar nossas ações (requerendo, claro, mais
esforço e atenção). Uma contradição nessa tentativa de aproximação se daria justamente por Schopenhauer
considerar que a razão, na maior parte do tempo, potencializa a Vontade. Para ele, muitas decisões racionais
tem, na verdade, fundamento no desejo, no querer, e não na necessidade real daquilo que acreditamos que
é importante para nós.
7 Esse é um tema que me intriga e me desafia, porque essas perguntas (que derivam da discussão) me
parecem sempre sem resposta satisfatória: será que somos capazes de usar nossa racionalidade para nos
libertarmos do sofrimento? Será que existe alguma esperança para a humanidade? Ou será que estamos
fadados a viver em um ciclo de ilusão e dor?
8 Se você adotar a postura pessimista de Schopenhauer, vai concluir que as respostas serão sempre negativas.
E vai entender que a nossa missão nessa vida não é a felicidade, mas sim fazer com que a existência, a nossa
e a dos outros, seja mais suportável. Por outro lado, se estiver do lado de Kahneman, que parece bem mais
otimista (o que, aliás, não é difícil, considerando o autor que coloquei ao lado dele), você vai acreditar que é
possível utilizar a razão não para sermos ainda mais racionais, mas sim para aprendermos a lidar melhor com
as nossas intuições e sentimentos. Com isso, podemos refletir melhor, sofrer menos e viver a felicidade
possível, a partir do autoconhecimento e do reconhecimento de quem somos.
9 Se você me perguntar, vou dizer que sempre pensei mais ou menos como Schopenhauer, mas que quero
acreditar na segunda opção; quero pensar que a razão não é uma outra forma de prisão, disfarçada de
conhecimento, mas sim uma forma de ver e entender a realidade com uma postura crítica que pode nos
ajudar a viver melhor. Não seria bom se fosse mesmo assim?
Extraído de https://marcosramon.net/posts/razao-intuicao/
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3304794
Ano: 2024
Disciplina: Inglês (Língua Inglesa)
Banca: IVIN
Orgão: Pref. Conceição Canindé-PI
Disciplina: Inglês (Língua Inglesa)
Banca: IVIN
Orgão: Pref. Conceição Canindé-PI
Provas:
Women's History Month: How It Started
By Andrea Wurzburger - Updated on March 1, 2024 05:35AM EST

PHOTO: GETTY IMAGES
1. Women's History Month was initially just International Women's Day, a day that commemorated
the Feb. 28 meeting of socialists and suffragists in Manhattan in 1909. One year later, on March 8,
1910, according to the BBC, a German activist named Clara Zetkin suggested they recognize
International Women’s Day at na International Conference of Working Women in Copenhagen.
With 17 countries in attendance at the conference, they all agreed.
2. On March 8, 1911, the first International Women’s Day was celebrated in Austria, Switzerland, Germany and
Denmark, though the holiday wasn’t widely celebrated in the United States until the United Nations began
sponsoring it in 1975.
3. In 1977, in order to persuade school principals to comply with the recently passed Title IX, a task force in
California created Women’s History Week. In March 1980, after celebrations had spread across the country,
President Jimmy Carter declared that March 8 was officially the start of National Women’s History Week.
That same year, Utah Senator Orrin Hatch and Maryland Representative Barbara Mikulski co-sponsored the
first Joint Congressional Resolution declaring the week of March 8, 1981, National Women’s History Week.
4. By 1987, Congress declared the entire month of March Women's History Month. Since then, every
president has proclaimed the month of March Women's History Month. We celebrate Women's History
Month to remind everyone of the achievements of women throughout the years in our culture and society,
and why it's important to study them and their important moments in history. From science to politics to
entertainment, it is a chance to reflect on the trailblazing women who lead the way for change.
People Staff. (2023, march). Women's History Month: Facts Explainer.
People Staff. (2023, march). Women's History Month: Facts Explainer. People. Disponível em: https://people.com/human-interest/womens-history-month-facts-explainer/.
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Baseado na imagem do Microsoft Excel 2023
abaixo, qual o resultado da fórmula “=(A1+B1+C1)”
quando digitada na célula D1?


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