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2593353 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: TRT-9

Não me correu tranquilo o S. João de 185...

Duas semanas antes do dia em que a Igreja celebra o evangelista, recebi pelo correio o seguinte bilhete, sem assinatura e de letra desconhecida:

“O Dr. *** é convidado a ir à vila de... tomar conta de um processo. O objeto é digno do talento e das habilitações do advogado. Despesas e honorários ser-lhe-ão satisfeitos antecipadamente, mal puser pé no estribo. O réu está na cadeia da mesma vila e chamase Julião. Note que o Dr. é convidado a ir defender o réu.”

Li e reli este bilhete; voltei-o em todos os sentidos; comparei a letra com todas as letras dos meus amigos e conhecidos... Nada pude descobrir.

Entretanto, picava-me a curiosidade. Luzia-me um romance através daquele misterioso e anônimo bilhete. Tomei uma resolução definitiva. Ultimei uns negócios, dei de mão outros, e oito dias depois de receber o bilhete tinha à porta um cavalo e um camarada para seguir viagem. No momento em que me dispunha a sair, entrou-me em casa um sujeito desconhecido, e entregou-me um rolo de papel contendo uma avultada soma, importância aproximada das despesas e dos honorários. Recusei apesar das instâncias, montei a cavalo e parti.

Só depois de ter feito algumas léguas é que me lembrei de que justamente na vila a que eu ia morava um amigo meu, antigo companheiro da academia.

Poucos dias depois apeava eu à porta do referido amigo. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abraçar o meu antigo companheiro de estudos,(I) que me recebeu alvoroçado e admirado.

− A que vens, meu amigo? A que vens? perguntava-me ele.

− Vais sabê-lo. Creio que há um romance para deslindar. Há quinze dias recebi no meu escritório, na corte, um bilhete anônimo em que se me convidava com instância a vir a esta vila para tomar conta de uma defesa. Não pude conhecer a letra; era desigual e trêmula, como escrita por mão cansada...

− Tens o bilhete contigo?(II)

− Tenho.

Tirei do bolso o misterioso bilhete e entreguei-o aberto ao meu amigo. Ele, depois de lê-lo, disse:

− É a letra de Pai de todos.

− Quem é Pai de todos?

− É um fazendeiro destas paragens, o velho Pio. O povo dá-lhe o nome de Pai de todos, porque o velho Pio o é na verdade.(III)

− Bem dizia eu que há romance no fundo!... Que faz esse velho para que lhe deem semelhante título?

− Pouca coisa. Pio é, por assim dizer, a justiça e a caridade fundidas em uma só pessoa. Só as grandes causas vão ter às autoridades judiciárias, policiais ou municipais; mas tudo o que não sai de certa ordem é decidido na fazenda de Pio, cuja sentença todos acatam e cumprem. Seja ela contra Pedro ou contra Paulo, Paulo e Pedro submetem-se, como se fora uma decisão divina.

Quando dois contendores saem da fazenda de Pio, saem amigos. É caso de consciência aderir ao julgamento de Pai de todos.

O meu amigo continuou a desfiar as virtudes do fazendeiro. Meu espírito apreendia-se cada vez mais de que eu ia entrar em um romance. Finalmente o meu amigo dispunha-se a contar-me a história do crime em cujo conhecimento devia eu entrar daí a poucas horas. Detive-o.

− Não, disse-lhe, deixa-me saber de tudo por boca do próprio réu. Depois compararei com o que me contarás.

− É melhor. Julião é inocente...

(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Obra Completa, v. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994)

Considere os seguintes trechos:

I. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abraçar o meu antigo companheiro de estudos.

II. – Tens o bilhete contigo?

III. O povo dá-lhe o nome de Pai de todos, porque o velho Pio o é na verdade.

Retoma uma expressão mencionada anteriormente no texto o termo sublinhado APENAS em

 

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2593352 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: TRT-9

Não me correu tranquilo o S. João de 185...

Duas semanas antes do dia em que a Igreja celebra o evangelista, recebi pelo correio o seguinte bilhete, sem assinatura e de letra desconhecida:

“O Dr. *** é convidado a ir à vila de... tomar conta de um processo. O objeto é digno do talento e das habilitações do advogado. Despesas e honorários ser-lhe-ão satisfeitos antecipadamente, mal puser pé no estribo. O réu está na cadeia da mesma vila e chamase Julião. Note que o Dr. é convidado a ir defender o réu.”

Li e reli este bilhete; voltei-o em todos os sentidos; comparei a letra com todas as letras dos meus amigos e conhecidos... Nada pude descobrir.

Entretanto, picava-me a curiosidade. Luzia-me um romance através daquele misterioso e anônimo bilhete. Tomei uma resolução definitiva. Ultimei uns negócios, dei de mão outros, e oito dias depois de receber o bilhete tinha à porta um cavalo e um camarada para seguir viagem. No momento em que me dispunha a sair, entrou-me em casa um sujeito desconhecido, e entregou-me um rolo de papel contendo uma avultada soma, importância aproximada das despesas e dos honorários. Recusei apesar das instâncias, montei a cavalo e parti.

Só depois de ter feito algumas léguas é que me lembrei de que justamente na vila a que eu ia morava um amigo meu, antigo companheiro da academia.

Poucos dias depois apeava eu à porta do referido amigo. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abraçar o meu antigo companheiro de estudos, que me recebeu alvoroçado e admirado.

− A que vens, meu amigo? A que vens? perguntava-me ele.

− Vais sabê-lo. Creio que há um romance para deslindar. Há quinze dias recebi no meu escritório, na corte, um bilhete anônimo em que se me convidava com instância a vir a esta vila para tomar conta de uma defesa. Não pude conhecer a letra; era desigual e trêmula, como escrita por mão cansada...

− Tens o bilhete contigo?

− Tenho.

Tirei do bolso o misterioso bilhete e entreguei-o aberto ao meu amigo. Ele, depois de lê-lo, disse:

− É a letra de Pai de todos.

− Quem é Pai de todos?

− É um fazendeiro destas paragens, o velho Pio. O povo dá-lhe o nome de Pai de todos, porque o velho Pio o é na verdade.

− Bem dizia eu que há romance no fundo!... Que faz esse velho para que lhe deem semelhante título?

− Pouca coisa. Pio é, por assim dizer, a justiça e a caridade fundidas em uma só pessoa. Só as grandes causas vão ter às autoridades judiciárias, policiais ou municipais; mas tudo o que não sai de certa ordem é decidido na fazenda de Pio, cuja sentença todos acatam e cumprem. Seja ela contra Pedro ou contra Paulo, Paulo e Pedro submetem-se, como se fora uma decisão divina.

Quando dois contendores saem da fazenda de Pio, saem amigos. É caso de consciência aderir ao julgamento de Pai de todos.

O meu amigo continuou a desfiar as virtudes do fazendeiro. Meu espírito apreendia-se cada vez mais de que eu ia entrar em um romance. Finalmente o meu amigo dispunha-se a contar-me a história do crime em cujo conhecimento devia eu entrar daí a poucas horas. Detive-o.

− Não, disse-lhe, deixa-me saber de tudo por boca do próprio réu. Depois compararei com o que me contarás.

− É melhor. Julião é inocente...

(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Obra Completa, v. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994)

Em “Nada pude descobrir. Entretanto, picava-me a curiosidade.”, o termo sublinhado pode ser substituído, sem prejuízo para o sentido do texto, por:

 

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2593351 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: TRT-9

Não me correu tranquilo o S. João de 185...

Duas semanas antes do dia em que a Igreja celebra o evangelista, recebi pelo correio o seguinte bilhete, sem assinatura e de letra desconhecida:

“O Dr. *** é convidado a ir à vila de... tomar conta de um processo. O objeto é digno do talento e das habilitações do advogado. Despesas e honorários ser-lhe-ão satisfeitos antecipadamente, mal puser pé no estribo. O réu está na cadeia da mesma vila e chamase Julião. Note que o Dr. é convidado a ir defender o réu.”

Li e reli este bilhete; voltei-o em todos os sentidos; comparei a letra com todas as letras dos meus amigos e conhecidos... Nada pude descobrir.

Entretanto, picava-me a curiosidade. Luzia-me um romance através daquele misterioso e anônimo bilhete. Tomei uma resolução definitiva. Ultimei uns negócios, dei de mão outros, e oito dias depois de receber o bilhete tinha à porta um cavalo e um camarada para seguir viagem. No momento em que me dispunha a sair, entrou-me em casa um sujeito desconhecido, e entregou-me um rolo de papel contendo uma avultada soma, importância aproximada das despesas e dos honorários. Recusei apesar das instâncias, montei a cavalo e parti.

Só depois de ter feito algumas léguas é que me lembrei de que justamente na vila a que eu ia morava um amigo meu, antigo companheiro da academia.

Poucos dias depois apeava eu à porta do referido amigo. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abraçar o meu antigo companheiro de estudos, que me recebeu alvoroçado e admirado.

− A que vens, meu amigo? A que vens? perguntava-me ele.

− Vais sabê-lo. Creio que há um romance para deslindar. Há quinze dias recebi no meu escritório, na corte, um bilhete anônimo em que se me convidava com instância a vir a esta vila para tomar conta de uma defesa. Não pude conhecer a letra; era desigual e trêmula, como escrita por mão cansada...

− Tens o bilhete contigo?

− Tenho.

Tirei do bolso o misterioso bilhete e entreguei-o aberto ao meu amigo. Ele, depois de lê-lo, disse:

− É a letra de Pai de todos.

− Quem é Pai de todos?

− É um fazendeiro destas paragens, o velho Pio. O povo dá-lhe o nome de Pai de todos, porque o velho Pio o é na verdade.

− Bem dizia eu que há romance no fundo!... Que faz esse velho para que lhe deem semelhante título?

− Pouca coisa. Pio é, por assim dizer, a justiça e a caridade fundidas em uma só pessoa. Só as grandes causas vão ter às autoridades judiciárias, policiais ou municipais; mas tudo o que não sai de certa ordem é decidido na fazenda de Pio, cuja sentença todos acatam e cumprem. Seja ela contra Pedro ou contra Paulo, Paulo e Pedro submetem-se, como se fora uma decisão divina.

Quando dois contendores saem da fazenda de Pio, saem amigos. É caso de consciência aderir ao julgamento de Pai de todos.

O meu amigo continuou a desfiar as virtudes do fazendeiro. Meu espírito apreendia-se cada vez mais de que eu ia entrar em um romance. Finalmente o meu amigo dispunha-se a contar-me a história do crime em cujo conhecimento devia eu entrar daí a poucas horas. Detive-o.

− Não, disse-lhe, deixa-me saber de tudo por boca do próprio réu. Depois compararei com o que me contarás.

− É melhor. Julião é inocente...

(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Obra Completa, v. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994)

De acordo com o amigo do narrador, o título atribuído a Pio mostra-se

 

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2593350 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: TRT-9

Antigamente, se morria.

1907, digamos, aquilo sim

é que era morrer.

Morria gente todo dia,

e morria com muito prazer,

já que todo mundo sabia

que o Juízo, afinal, viria,

e todo mundo ia renascer.

Morria-se praticamente de tudo.

De doença, de parto, de tosse.

E ainda se morria de amor,

como se o amar morte fosse.

Pra morrer, bastava um susto,

um lenço no vento, um suspiro e pronto,

lá se ia nosso defunto(b)

para a terra dos pés juntos.(b)

Dia de anos, casamento, batizado,

morrer era um tipo de festa,

uma das coisas da vida,

como ser ou não ser convidado.

O escândalo era de praxe.

Mas os danos eram pequenos.

Descansou. Partiu. Deus o tenha.

Sempre alguém tinha uma frase

que deixava aquilo mais ou menos.

Tinha coisas que matavam na certa.

Pepino com leite, vento encanado,

praga de velha e amor mal curado.

Tinha coisas que tem que morrer,

tinha coisas que tem que matar.

A honra, a terra e o sangue

mandou muita gente praquele lugar.

Que mais podia um velho fazer,

nos idos de 1916,

a não ser pegar pneumonia,

deixar tudo para os filhos

e virar fotografia?

Ninguém vivia pra sempre.

Afinal, a vida é um upa.

Não deu pra ir mais além.

Mas ninguém tem culpa.

Quem mandou não ser devoto

de Santo Inácio de Acapulco,

Menino Jesus de Praga?

O diabo anda solto.

Aqui se faz, aqui se paga.

Almoçou e fez a barba,(c)

tomou banho e foi no vento.(d)

Não tem o que reclamar.

Agora, vamos ao testamento.(a)

Hoje, a morte está difícil.

Tem recursos, tem asilos, tem remédios.

Agora, a morte tem limites.

E, em caso de necessidade,

a ciência da eternidade(e)

inventou a criônica.(e)

Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

(LEMINSKI, Paulo. Toda poesia, 2013)

Considerando a regência verbal recomendada pela norma-padrão da língua portuguesa, verifica-se um desvio em:

 

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2593349 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: TRT-9

Antigamente, se morria.

1907, digamos, aquilo sim

é que era morrer.

Morria gente todo dia,

e morria com muito prazer,

já que todo mundo sabia

que o Juízo, afinal, viria,

e todo mundo ia renascer.(a)

Morria-se praticamente de tudo.

De doença, de parto, de tosse.

E ainda se morria de amor,

como se o amar morte fosse.(c)

Pra morrer, bastava um susto,(b)

um lenço no vento, um suspiro e pronto,

lá se ia nosso defunto

para a terra dos pés juntos.

Dia de anos, casamento, batizado,

morrer era um tipo de festa,

uma das coisas da vida,

como ser ou não ser convidado.

O escândalo era de praxe.

Mas os danos eram pequenos.

Descansou. Partiu. Deus o tenha.

Sempre alguém tinha uma frase

que deixava aquilo mais ou menos.

Tinha coisas que matavam na certa.

Pepino com leite, vento encanado,

praga de velha e amor mal curado.

Tinha coisas que tem que morrer,

tinha coisas que tem que matar.

A honra, a terra e o sangue

mandou muita gente praquele lugar.

Que mais podia um velho fazer,

nos idos de 1916,

a não ser pegar pneumonia,

deixar tudo para os filhos(d)

e virar fotografia?

Ninguém vivia pra sempre.

Afinal, a vida é um upa.

Não deu pra ir mais além.

Mas ninguém tem culpa.

Quem mandou não ser devoto

de Santo Inácio de Acapulco,

Menino Jesus de Praga?

O diabo anda solto.

Aqui se faz, aqui se paga.

Almoçou e fez a barba,

tomou banho e foi no vento.

Não tem o que reclamar.(e)

Agora, vamos ao testamento.

Hoje, a morte está difícil.

Tem recursos, tem asilos, tem remédios.

Agora, a morte tem limites.

E, em caso de necessidade,

a ciência da eternidade

inventou a criônica.

Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

(LEMINSKI, Paulo. Toda poesia, 2013)

Um vocábulo pode ser formado quando passa de uma classe gramatical a outra, sem a modificação de sua forma. É o que se denomina derivação imprópria.

Constitui exemplo de derivação imprópria o termo sublinhado em:

 

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2593348 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: TRT-9

Antigamente, se morria.

1907, digamos, aquilo sim(e)

é que era morrer.(e)

Morria gente todo dia,

e morria com muito prazer,

já que todo mundo sabia

que o Juízo, afinal, viria,

e todo mundo ia renascer.

Morria-se praticamente de tudo.

De doença, de parto, de tosse.

E ainda se morria de amor,

como se o amar morte fosse.

Pra morrer, bastava um susto,

um lenço no vento, um suspiro e pronto,

lá se ia nosso defunto

para a terra dos pés juntos.

Dia de anos, casamento, batizado,

morrer era um tipo de festa,

uma das coisas da vida,

como ser ou não ser convidado.

O escândalo era de praxe.(b)

Mas os danos eram pequenos.(b)

Descansou. Partiu. Deus o tenha.

Sempre alguém tinha uma frase(c)

que deixava aquilo mais ou menos.(c)

Tinha coisas que matavam na certa.

Pepino com leite, vento encanado,

praga de velha e amor mal curado.

Tinha coisas que tem que morrer,

tinha coisas que tem que matar.

A honra, a terra e o sangue(d)

mandou muita gente praquele lugar.(d)

Que mais podia um velho fazer,

nos idos de 1916,

a não ser pegar pneumonia,

deixar tudo para os filhos

e virar fotografia?

Ninguém vivia pra sempre.

Afinal, a vida é um upa.

Não deu pra ir mais além.(a)

Mas ninguém tem culpa.(a)

Quem mandou não ser devoto

de Santo Inácio de Acapulco,

Menino Jesus de Praga?

O diabo anda solto.

Aqui se faz, aqui se paga.

Almoçou e fez a barba,

tomou banho e foi no vento.

Não tem o que reclamar.

Agora, vamos ao testamento.

Hoje, a morte está difícil.

Tem recursos, tem asilos, tem remédios.

Agora, a morte tem limites.

E, em caso de necessidade,

a ciência da eternidade

inventou a criônica.

Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

(LEMINSKI, Paulo. Toda poesia, 2013)

Expressão expletiva é uma expressão que não exerce função sintática. (Evanildo Bechara. Moderna gramática portuguesa, 2009. Adaptado.)

Verifica-se uma expressão expletiva em:

 

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2593347 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: TRT-9

Antigamente, se morria.

1907, digamos, aquilo sim

é que era morrer.

Morria gente todo dia,

e morria com muito prazer,

já que todo mundo sabia

que o Juízo, afinal, viria,

e todo mundo ia renascer.

Morria-se praticamente de tudo.

De doença, de parto, de tosse.

E ainda se morria de amor,

como se o amar morte fosse.

Pra morrer, bastava um susto,

um lenço no vento, um suspiro e pronto,

lá se ia nosso defunto

para a terra dos pés juntos.

Dia de anos, casamento, batizado,

morrer era um tipo de festa,

uma das coisas da vida,

como ser ou não ser convidado.

O escândalo era de praxe.

Mas os danos eram pequenos.

Descansou. Partiu. Deus o tenha.(e)

Sempre alguém tinha uma frase(b)

que deixava aquilo mais ou menos.

Tinha coisas que matavam na certa.

Pepino com leite, vento encanado,

praga de velha e amor mal curado.

Tinha coisas que tem que morrer,

tinha coisas que tem que matar.

A honra, a terra e o sangue

mandou muita gente praquele lugar.

Que mais podia um velho fazer,

nos idos de 1916,

a não ser pegar pneumonia,

deixar tudo para os filhos

e virar fotografia?

Ninguém vivia pra sempre.

Afinal, a vida é um upa.(d)

Não deu pra ir mais além.

Mas ninguém tem culpa.(c)

Quem mandou não ser devoto

de Santo Inácio de Acapulco,

Menino Jesus de Praga?

O diabo anda solto.

Aqui se faz, aqui se paga.

Almoçou e fez a barba,

tomou banho e foi no vento.

Não tem o que reclamar.

Agora, vamos ao testamento.

Hoje, a morte está difícil.

Tem recursos, tem asilos, tem remédios.

Agora, a morte tem limites.(a)

E, em caso de necessidade,

a ciência da eternidade

inventou a criônica.

Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

(LEMINSKI, Paulo. Toda poesia, 2013)

O trecho sublinhado expressa um desejo em:

 

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2593346 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: TRT-9

Antigamente, se morria.

1907, digamos, aquilo sim

é que era morrer.

Morria gente todo dia,

e morria com muito prazer,

já que todo mundo sabia

que o Juízo, afinal, viria,

e todo mundo ia renascer.

Morria-se praticamente de tudo.

De doença, de parto, de tosse.

E ainda se morria de amor,

como se o amar morte fosse.

Pra morrer, bastava um susto,

um lenço no vento, um suspiro e pronto,

lá se ia nosso defunto

para a terra dos pés juntos.

Dia de anos, casamento, batizado,

morrer era um tipo de festa,

uma das coisas da vida,

como ser ou não ser convidado.

O escândalo era de praxe.

Mas os danos eram pequenos.

Descansou. Partiu. Deus o tenha.(I)

Sempre alguém tinha uma frase

que deixava aquilo mais ou menos.

Tinha coisas que matavam na certa.

Pepino com leite, vento encanado,

praga de velha e amor mal curado.

Tinha coisas que tem que morrer,

tinha coisas que tem que matar.

A honra, a terra e o sangue

mandou muita gente praquele lugar.

Que mais podia um velho fazer,

nos idos de 1916,

a não ser pegar pneumonia,

deixar tudo para os filhos(II)

e virar fotografia?(II)

Ninguém vivia pra sempre.

Afinal, a vida é um upa.

Não deu pra ir mais além.

Mas ninguém tem culpa.(III)

Quem mandou não ser devoto

de Santo Inácio de Acapulco,

Menino Jesus de Praga?

O diabo anda solto.

Aqui se faz, aqui se paga.

Almoçou e fez a barba,

tomou banho e foi no vento.

Não tem o que reclamar.

Agora, vamos ao testamento.

Hoje, a morte está difícil.

Tem recursos, tem asilos, tem remédios.

Agora, a morte tem limites.

E, em caso de necessidade,

a ciência da eternidade

inventou a criônica.

Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

(LEMINSKI, Paulo. Toda poesia, 2013)

Considere os seguintes trechos:

I. “Descansou. Partiu. Deus o tenha.”

II. “deixar tudo para os filhos / e virar fotografia?”

III. “Mas ninguém tem culpa.”

Ocorre eufemismo em

 

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Questão presente nas seguintes provas
2593345 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: TRT-9

Antigamente, se morria.

1907, digamos, aquilo sim

é que era morrer.

Morria gente todo dia,

e morria com muito prazer,

já que todo mundo sabia

que o Juízo, afinal, viria,

e todo mundo ia renascer.

Morria-se praticamente de tudo.

De doença, de parto, de tosse.

E ainda se morria de amor,

como se o amar morte fosse.

Pra morrer, bastava um susto,

um lenço no vento, um suspiro e pronto,

lá se ia nosso defunto

para a terra dos pés juntos.

Dia de anos, casamento, batizado,

morrer era um tipo de festa,

uma das coisas da vida,

como ser ou não ser convidado.

O escândalo era de praxe.

Mas os danos eram pequenos.

Descansou. Partiu. Deus o tenha.

Sempre alguém tinha uma frase

que deixava aquilo mais ou menos.

Tinha coisas que matavam na certa.

Pepino com leite, vento encanado,

praga de velha e amor mal curado.

Tinha coisas que tem que morrer,

tinha coisas que tem que matar.

A honra, a terra e o sangue

mandou muita gente praquele lugar.

Que mais podia um velho fazer,

nos idos de 1916,

a não ser pegar pneumonia,

deixar tudo para os filhos

e virar fotografia?

Ninguém vivia pra sempre.

Afinal, a vida é um upa.

Não deu pra ir mais além.

Mas ninguém tem culpa.

Quem mandou não ser devoto

de Santo Inácio de Acapulco,

Menino Jesus de Praga?

O diabo anda solto.

Aqui se faz, aqui se paga.

Almoçou e fez a barba,

tomou banho e foi no vento.

Não tem o que reclamar.

Agora, vamos ao testamento.

Hoje, a morte está difícil.

Tem recursos, tem asilos, tem remédios.

Agora, a morte tem limites.

E, em caso de necessidade,

a ciência da eternidade

inventou a criônica.

Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

(LEMINSKI, Paulo. Toda poesia, 2013)

“Agora, a morte tem limites.”

Implícito a esse verso está a ideia de que, antes, a morte mostrava-se

 

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2593344 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: TRT-9

Antigamente, se morria.

1907, digamos, aquilo sim(b)

é que era morrer.(b)

Morria gente todo dia,

e morria com muito prazer,

já que todo mundo sabia

que o Juízo, afinal, viria,

e todo mundo ia renascer.

Morria-se praticamente de tudo.(a)

De doença, de parto, de tosse.(a)

E ainda se morria de amor,(c)

como se o amar morte fosse.(c)

Pra morrer, bastava um susto,

um lenço no vento, um suspiro e pronto,

lá se ia nosso defunto

para a terra dos pés juntos.

Dia de anos, casamento, batizado,

morrer era um tipo de festa,

uma das coisas da vida,

como ser ou não ser convidado.

O escândalo era de praxe.(e)

Mas os danos eram pequenos.(e)

Descansou. Partiu. Deus o tenha.

Sempre alguém tinha uma frase

que deixava aquilo mais ou menos.

Tinha coisas que matavam na certa.

Pepino com leite, vento encanado,

praga de velha e amor mal curado.

Tinha coisas que tem que morrer,

tinha coisas que tem que matar.

A honra, a terra e o sangue

mandou muita gente praquele lugar.

Que mais podia um velho fazer,

nos idos de 1916,

a não ser pegar pneumonia,

deixar tudo para os filhos

e virar fotografia?

Ninguém vivia pra sempre.

Afinal, a vida é um upa.

Não deu pra ir mais além.

Mas ninguém tem culpa.

Quem mandou não ser devoto

de Santo Inácio de Acapulco,

Menino Jesus de Praga?

O diabo anda solto.

Aqui se faz, aqui se paga.

Almoçou e fez a barba,(d)

tomou banho e foi no vento.(d)

Não tem o que reclamar.

Agora, vamos ao testamento.

Hoje, a morte está difícil.

Tem recursos, tem asilos, tem remédios.

Agora, a morte tem limites.

E, em caso de necessidade,

a ciência da eternidade

inventou a criônica.

Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

(LEMINSKI, Paulo. Toda poesia, 2013)

O eu lírico manifesta-se explicitamente no poema em:

 

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