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A tradição teológica e filosófica nunca conseguiu
explicar o “mistério da iniquidade”, a existência do mal
como potência do desejo e da ação humanas.
Ora, a corrupção é o mal do nosso tempo.
Curiosamente, ela aparece como uma nova regra de
conduta, uma contraditória “moral imoral”. Da
governalidade aos atos cotidianos, o mundo da vida no
qual ética e moral se cindiram há muito tempo
transformou-se na sempre saqueável terra de ninguém.
Como toda moral, a corrupção é rígida. Daí a
impossibilidade do seu combate por meios comuns, seja
o direito, seja a polícia. Do contrário, meio mundo
estaria na prisão. A mesma polícia que combate o
narcotráfico nas favelas das grandes cidades poderia
ocupar o Congresso e outros espaços do governo onde
a corrupção é a regra.
Mas o problema é que a força da corrupção é a do
costume, é a da “moral”, aquela mesma do malandro
que age “na moral”, que é “cheio de moral”. Ela é muito
mais forte do que a delicada reflexão ética que
envolveria a autonomia de cada sujeito agente. E que só
surgiria pela educação política que buscasse um
pensamento reflexivo.
O sistema da corrupção é composto de um jogo de
forças do qual uma das mais importantes é a “força do
sentido”. É ela que faz perguntar, por exemplo, “como é
possível que um policial pobre se negue a aceitar
dinheiro para agir ilegalmente?”
O simples fato de que essa pergunta seja colocada
implica o pressuposto de que uma verdade ética tal
como a honestidade foi transvalorada. Isso significa que
foi também desvalorizada.
Se a conduta de praxe seria não apenas aceitar,
mas exigir dinheiro em troca de uma ação qualquer na
contramão do dever, é porque no sistema da corrupção
o valor da honestidade, que garantiria ao sujeito a sua
autonomia, foi substituído pela vantagem do dinheiro.
Mas não somente. Aquele que age na direção da lei
como que age contra a moral caracterizada pelo “fazer
como a grande maioria”, levando em conta que no
âmbito da corrupção se entende que o que a maioria
quer é “dinheiro”.
Verdade é que a ação em nome de um universal
por si só caracteriza qualquer moral. É por meio dela
que se faz o cálculo do “sentido” no qual, fora da
vantagem que define a regra, o sujeito honesto se
transfigura imediatamente em otário.
Se a moral é medida em dinheiro, não entregar-se a
ele poderá parecer um luxo. Mas um contraditório luxo
de pobre, já que a questão da honestidade não se
coloca para os ricos, para quem tal valor parece de
antemão assegurado.
Daí que jamais se louve nos noticiários a
honestidade de alguém que não se enquadra no
estereótipo do “pobre”. Honesto é sempre o pobre
elevado a cidadão exótico. Na verdade, por meio desse
gesto o pobre é colocado à prova pelo sistema. Afinal
ele teria tudo para ser corrupto, ou seja, teria todo o
motivo para sê-lo. Mas teria também todo o perdão?
O cidadão exótico – pobre e honesto – que deixa de
agir na direção de uma vantagem pessoal como que
estaria perdoado por antecipação ao agir imoralmente
sendo pobre, mas não está. A frase de Brecht seria sua
jurisprudência mais básica: “O que é roubar um banco
comparado a fundar um?”
Ora, sabemos que essa “moral imoral” tem sempre
dois pesos e duas medidas, diferentes para ricos e
pobres. No vão que as separa vem à tona a
incompreensibilidade diante do mistério da
honestidade. De categoria ética, ela desce ao posto de
irrespondível problema metafísico.
Pois quem terá hoje a coragem de perguntar como
alguém se torna o que é quando a subjetividade, a
individualidade e a biografia já não valem nada e
sentimos apenas o miasma que exala da vala comum
das celebridades da qual o cidadão pode se salvar
apenas alcançando o posto de um herói exótico,
máscara do otário da vez?
(Marcia Tiburi. Cult, dezembro de 2011)
I. Ser honesto, sendo pobre, significaria agir na contramão das expectativas.
II. Aos pobres, a imoralidade é perdoada.
III. Fugir à moral do “fazer como a grande maioria” significaria ser otário.
Assinale
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Presente perfeito
Aproveito a chegada do 13° salário e a proximidade
do Natal para discutir o presente perfeito. Num mundo
perfeitamente racional, ninguém nem pestanejaria antes
de presentear seus familiares e amigos com dinheiro
vivo.
Em princípio, nada pode ser melhor. Elimina-se o
risco de errar, pois o presenteado escolhe o que quiser, e
no tamanho certo. Melhor, ele pode juntar recursos de
diversas origens e comprar um item mais caro, que
ninguém sozinho poderia oferecer-lhe.
Só que o mundo não é um lugar racional. Se você
regalar sua mulher com um caríssimo jantar na
expectativa de uma noite tórrida de amor, estará sendo
romântico. Mas, se ousar oferecer-lhe dinheiro para o
mesmo fim, torna-se um simples cafajeste.
Analogamente, você ficará bem se levar um bom
vinho para o almoço de Dia das Mães na casa da sogra.
Experimente, porém, sacar a carteira e estender-lhe R$
200 ao fim da refeição e se tornará “persona non grata”
para sempre naquele lar.
Essas incongruências chamaram a atenção de
economistas comportamentais, que desenvolveram
modelos para explicá-las. Aparentemente, vivemos em
dois mundos distintos, o das relações sociais e o da
economia de mercado. Enquanto o primeiro é regido por
valores como amor e lealdade, o segundo tem como
marca indexadores monetários e contratos. Sempre que
misturamos os dois registros, surgem mal-entendidos.
O economista Dan Ariely vai mais longe e propõe
que, no mundo das relações sociais, o presente serve
para aliviar culpas: ofereça ao presenteado algo de que
ele goste, mas acha bobagem comprar, como um jantar
naquele restaurante chique ou um perfume um pouco
mais caro. O que você está lhe dando, na verdade, é uma
licença para ser extravagante.
Segundo Ariely, é esse mecanismo que explica o
sucesso de vales-presentes e congêneres, que nada mais
são que dinheiro com prazo de validade e restrições de
onde pode ser gasto.
(Hélio Schwartsman. Folha de S.Paulo, 4/12/2011, com adaptações)
Provas
- SintaxeRegência
- SemânticaSinônimos e Antônimos
- Interpretação de TextosSubstituição/Reescritura de Texto
Presente perfeito
Aproveito a chegada do 13° salário e a proximidade
do Natal para discutir o presente perfeito. Num mundo
perfeitamente racional, ninguém nem pestanejaria antes
de presentear seus familiares e amigos com dinheiro
vivo.
Em princípio, nada pode ser melhor. Elimina-se o
risco de errar, pois o presenteado escolhe o que quiser, e
no tamanho certo. Melhor, ele pode juntar recursos de
diversas origens e comprar um item mais caro, que
ninguém sozinho poderia oferecer-lhe.
Só que o mundo não é um lugar racional. Se você
regalar sua mulher com um caríssimo jantar na
expectativa de uma noite tórrida de amor, estará sendo
romântico. Mas, se ousar oferecer-lhe dinheiro para o
mesmo fim, torna-se um simples cafajeste.
Analogamente, você ficará bem se levar um bom
vinho para o almoço de Dia das Mães na casa da sogra.
Experimente, porém, sacar a carteira e estender-lhe R$
200 ao fim da refeição e se tornará “persona non grata”
para sempre naquele lar.
Essas incongruências chamaram a atenção de
economistas comportamentais, que desenvolveram
modelos para explicá-las. Aparentemente, vivemos em
dois mundos distintos, o das relações sociais e o da
economia de mercado. Enquanto o primeiro é regido por
valores como amor e lealdade, o segundo tem como
marca indexadores monetários e contratos. Sempre que
misturamos os dois registros, surgem mal-entendidos.
O economista Dan Ariely vai mais longe e propõe
que, no mundo das relações sociais, o presente serve
para aliviar culpas: ofereça ao presenteado algo de que
ele goste, mas acha bobagem comprar, como um jantar
naquele restaurante chique ou um perfume um pouco
mais caro. O que você está lhe dando, na verdade, é uma
licença para ser extravagante.
Segundo Ariely, é esse mecanismo que explica o
sucesso de vales-presentes e congêneres, que nada mais
são que dinheiro com prazo de validade e restrições de
onde pode ser gasto.
(Hélio Schwartsman. Folha de S.Paulo, 4/12/2011, com adaptações)
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Presente perfeito
Aproveito a chegada do 13° salário e a proximidade
do Natal para discutir o presente perfeito. Num mundo
perfeitamente racional, ninguém nem pestanejaria antes
de presentear seus familiares e amigos com dinheiro
vivo.
Em princípio, nada pode ser melhor. Elimina-se o
risco de errar, pois o presenteado escolhe o que quiser, e
no tamanho certo. Melhor, ele pode juntar recursos de
diversas origens e comprar um item mais caro, que
ninguém sozinho poderia oferecer-lhe.
Só que o mundo não é um lugar racional. Se você
regalar sua mulher com um caríssimo jantar na
expectativa de uma noite tórrida de amor, estará sendo
romântico. Mas, se ousar oferecer-lhe dinheiro para o
mesmo fim, torna-se um simples cafajeste.
Analogamente, você ficará bem se levar um bom
vinho para o almoço de Dia das Mães na casa da sogra.
Experimente, porém, sacar a carteira e estender-lhe R$
200 ao fim da refeição e se tornará “persona non grata”
para sempre naquele lar.
Essas incongruências chamaram a atenção de
economistas comportamentais, que desenvolveram
modelos para explicá-las. Aparentemente, vivemos em
dois mundos distintos, o das relações sociais e o da
economia de mercado. Enquanto o primeiro é regido por
valores como amor e lealdade, o segundo tem como
marca indexadores monetários e contratos. Sempre que
misturamos os dois registros, surgem mal-entendidos.
O economista Dan Ariely vai mais longe e propõe
que, no mundo das relações sociais, o presente serve
para aliviar culpas: ofereça ao presenteado algo de que
ele goste, mas acha bobagem comprar, como um jantar
naquele restaurante chique ou um perfume um pouco
mais caro. O que você está lhe dando, na verdade, é uma
licença para ser extravagante.
Segundo Ariely, é esse mecanismo que explica o
sucesso de vales-presentes e congêneres, que nada mais
são que dinheiro com prazo de validade e restrições de
onde pode ser gasto.
(Hélio Schwartsman. Folha de S.Paulo, 4/12/2011, com adaptações)
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A tradição teológica e filosófica nunca conseguiu
explicar o “mistério da iniquidade”, a existência do mal
como potência do desejo e da ação humanas.
Ora, a corrupção é o mal do nosso tempo.
Curiosamente, ela aparece como uma nova regra de
conduta, uma contraditória “moral imoral”. Da
governalidade aos atos cotidianos, o mundo da vida no
qual ética e moral se cindiram há muito tempo
transformou-se na sempre saqueável terra de ninguém.
Como toda moral, a corrupção é rígida. Daí a
impossibilidade do seu combate por meios comuns, seja
o direito, seja a polícia. Do contrário, meio mundo
estaria na prisão. A mesma polícia que combate o
narcotráfico nas favelas das grandes cidades poderia
ocupar o Congresso e outros espaços do governo onde
a corrupção é a regra.
Mas o problema é que a força da corrupção é a do
costume, é a da “moral”, aquela mesma do malandro
que age “na moral”, que é “cheio de moral”. Ela é muito
mais forte do que a delicada reflexão ética que
envolveria a autonomia de cada sujeito agente. E que só
surgiria pela educação política que buscasse um
pensamento reflexivo.
O sistema da corrupção é composto de um jogo de
forças do qual uma das mais importantes é a “força do
sentido”. É ela que faz perguntar, por exemplo, “como é
possível que um policial pobre se negue a aceitar
dinheiro para agir ilegalmente?”
O simples fato de que essa pergunta seja colocada
implica o pressuposto de que uma verdade ética tal
como a honestidade foi transvalorada. Isso significa que
foi também desvalorizada.
Se a conduta de praxe seria não apenas aceitar,
mas exigir dinheiro em troca de uma ação qualquer na
contramão do dever, é porque no sistema da corrupção
o valor da honestidade, que garantiria ao sujeito a sua
autonomia, foi substituído pela vantagem do dinheiro.
Mas não somente. Aquele que age na direção da lei
como que age contra a moral caracterizada pelo “fazer
como a grande maioria”, levando em conta que no
âmbito da corrupção se entende que o que a maioria
quer é “dinheiro”.
Verdade é que a ação em nome de um universal
por si só caracteriza qualquer moral. É por meio dela
que se faz o cálculo do “sentido” no qual, fora da
vantagem que define a regra, o sujeito honesto se
transfigura imediatamente em otário.
Se a moral é medida em dinheiro, não entregar-se a
ele poderá parecer um luxo. Mas um contraditório luxo
de pobre, já que a questão da honestidade não se
coloca para os ricos, para quem tal valor parece de
antemão assegurado.
Daí que jamais se louve nos noticiários a
honestidade de alguém que não se enquadra no
estereótipo do “pobre”. Honesto é sempre o pobre
elevado a cidadão exótico. Na verdade, por meio desse
gesto o pobre é colocado à prova pelo sistema. Afinal
ele teria tudo para ser corrupto, ou seja, teria todo o
motivo para sê-lo. Mas teria também todo o perdão?
O cidadão exótico – pobre e honesto – que deixa de
agir na direção de uma vantagem pessoal como que
estaria perdoado por antecipação ao agir imoralmente
sendo pobre, mas não está. A frase de Brecht seria sua
jurisprudência mais básica: “O que é roubar um banco
comparado a fundar um?”
Ora, sabemos que essa “moral imoral” tem sempre
dois pesos e duas medidas, diferentes para ricos e
pobres. No vão que as separa vem à tona a
incompreensibilidade diante do mistério da
honestidade. De categoria ética, ela desce ao posto de
irrespondível problema metafísico.
Pois quem terá hoje a coragem de perguntar como
alguém se torna o que é quando a subjetividade, a
individualidade e a biografia já não valem nada e
sentimos apenas o miasma que exala da vala comum
das celebridades da qual o cidadão pode se salvar
apenas alcançando o posto de um herói exótico,
máscara do otário da vez?
(Marcia Tiburi. Cult, dezembro de 2011)
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A tradição teológica e filosófica nunca conseguiu
explicar o “mistério da iniquidade”, a existência do mal
como potência do desejo e da ação humanas.
Ora, a corrupção é o mal do nosso tempo.
Curiosamente, ela aparece como uma nova regra de
conduta, uma contraditória “moral imoral”. Da
governalidade aos atos cotidianos, o mundo da vida no
qual ética e moral se cindiram há muito tempo
transformou-se na sempre saqueável terra de ninguém.
Como toda moral, a corrupção é rígida. Daí a
impossibilidade do seu combate por meios comuns, seja
o direito, seja a polícia. Do contrário, meio mundo
estaria na prisão. A mesma polícia que combate o
narcotráfico nas favelas das grandes cidades poderia
ocupar o Congresso e outros espaços do governo onde
a corrupção é a regra.
Mas o problema é que a força da corrupção é a do
costume, é a da “moral”, aquela mesma do malandro
que age “na moral”, que é “cheio de moral”. Ela é muito
mais forte do que a delicada reflexão ética que
envolveria a autonomia de cada sujeito agente. E que só
surgiria pela educação política que buscasse um
pensamento reflexivo.
O sistema da corrupção é composto de um jogo de
forças do qual uma das mais importantes é a “força do
sentido”. É ela que faz perguntar, por exemplo, “como é
possível que um policial pobre se negue a aceitar
dinheiro para agir ilegalmente?”
O simples fato de que essa pergunta seja colocada
implica o pressuposto de que uma verdade ética tal
como a honestidade foi transvalorada. Isso significa que
foi também desvalorizada.
Se a conduta de praxe seria não apenas aceitar,
mas exigir dinheiro em troca de uma ação qualquer na
contramão do dever, é porque no sistema da corrupção
o valor da honestidade, que garantiria ao sujeito a sua
autonomia, foi substituído pela vantagem do dinheiro.
Mas não somente. Aquele que age na direção da lei
como que age contra a moral caracterizada pelo “fazer
como a grande maioria”, levando em conta que no
âmbito da corrupção se entende que o que a maioria
quer é “dinheiro”.
Verdade é que a ação em nome de um universal
por si só caracteriza qualquer moral. É por meio dela
que se faz o cálculo do “sentido” no qual, fora da
vantagem que define a regra, o sujeito honesto se
transfigura imediatamente em otário.
Se a moral é medida em dinheiro, não entregar-se a
ele poderá parecer um luxo. Mas um contraditório luxo
de pobre, já que a questão da honestidade não se
coloca para os ricos, para quem tal valor parece de
antemão assegurado.
Daí que jamais se louve nos noticiários a
honestidade de alguém que não se enquadra no
estereótipo do “pobre”. Honesto é sempre o pobre
elevado a cidadão exótico. Na verdade, por meio desse
gesto o pobre é colocado à prova pelo sistema. Afinal
ele teria tudo para ser corrupto, ou seja, teria todo o
motivo para sê-lo. Mas teria também todo o perdão?
O cidadão exótico – pobre e honesto – que deixa de
agir na direção de uma vantagem pessoal como que
estaria perdoado por antecipação ao agir imoralmente
sendo pobre, mas não está. A frase de Brecht seria sua
jurisprudência mais básica: “O que é roubar um banco
comparado a fundar um?”
Ora, sabemos que essa “moral imoral” tem sempre
dois pesos e duas medidas, diferentes para ricos e
pobres. No vão que as separa vem à tona a
incompreensibilidade diante do mistério da
honestidade. De categoria ética, ela desce ao posto de
irrespondível problema metafísico.
Pois quem terá hoje a coragem de perguntar como
alguém se torna o que é quando a subjetividade, a
individualidade e a biografia já não valem nada e
sentimos apenas o miasma que exala da vala comum
das celebridades da qual o cidadão pode se salvar
apenas alcançando o posto de um herói exótico,
máscara do otário da vez?
(Marcia Tiburi. Cult, dezembro de 2011)
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Texto para a questão.
A tradição teológica(a) e filosófica nunca conseguiu explicar o “mistério da iniquidade”, a existência do mal como potência do desejo e da ação humanas.
Ora, a corrupção é o mal do nosso tempo. Curiosamente, ela aparece como uma nova regra de conduta, uma contraditória “moral imoral”. Da governalidade aos atos cotidianos, o mundo da vida no qual ética e moral se cindiram há muito tempo transformou-se na sempre saqueável terra de ninguém.
Como toda moral, a corrupção é rígida. Daí a impossibilidade do seu combate por meios comuns, seja o direito, seja a polícia. Do contrário, meio mundo estaria na prisão. A mesma polícia que combate o narcotráfico(c) nas favelas das grandes cidades poderia ocupar o Congresso e outros espaços do governo onde a corrupção é a regra.
Mas o problema é que a força da corrupção é a do costume, é a da “moral”, aquela mesma do malandro que age “na moral”, que é “cheio de moral”. Ela é muito mais forte do que a delicada reflexão ética que envolveria a autonomia de cada sujeito agente. E que só surgiria pela educação política que buscasse um pensamento reflexivo.
O sistema da corrupção é composto de um jogo de forças do qual uma das mais importantes é a “força do sentido”. É ela que faz perguntar, por exemplo, “como é possível que um policial pobre se negue a aceitar dinheiro para agir ilegalmente?”
O simples fato de que essa pergunta seja colocada implica o pressuposto de que uma verdade ética tal como a honestidade foi transvalorada. Isso significa que foi também desvalorizada(d).
Se a conduta de praxe seria não apenas aceitar, mas exigir dinheiro em troca de uma ação qualquer na contramão do dever, é porque no sistema da corrupção o valor da honestidade, que garantiria ao sujeito a sua autonomia, foi substituído pela vantagem do dinheiro.
Mas não somente. Aquele que age na direção da lei como que age contra a moral caracterizada pelo “fazer como a grande maioria”, levando em conta que no âmbito da corrupção se entende que o que a maioria quer é “dinheiro”.
Verdade é que a ação em nome de um universal por si só caracteriza qualquer moral. É por meio dela que se faz o cálculo do “sentido” no qual, fora da vantagem que define a regra, o sujeito honesto se transfigura imediatamente em otário.
Se a moral é medida em dinheiro, não entregar-se a ele poderá parecer um luxo. Mas um contraditório luxo de pobre, já que a questão da honestidade não se coloca para os ricos, para quem tal valor parece de antemão assegurado.
Daí que jamais se louve nos noticiários a honestidade de alguém que não se enquadra no estereótipo do “pobre”. Honesto é sempre o pobre elevado a cidadão exótico. Na verdade, por meio desse gesto o pobre é colocado à prova pelo sistema. Afinal ele teria tudo para ser corrupto, ou seja, teria todo o motivo para sê-lo. Mas teria também todo o perdão?
O cidadão exótico – pobre e honesto – que deixa de agir na direção de uma vantagem pessoal como que estaria perdoado por antecipação ao agir imoralmente sendo pobre, mas não está. A frase de Brecht seria sua jurisprudência mais básica: “O que é roubar um banco comparado a fundar um?”
Ora, sabemos que essa “moral imoral” tem sempre dois pesos e duas medidas, diferentes para ricos e pobres. No vão que as separa vem à tona a incompreensibilidade diante do mistério da honestidade. De categoria ética, ela desce ao posto de irrespondível problema metafísico.
Pois quem terá hoje a coragem de perguntar como alguém se torna o que é quando a subjetividade, a individualidade e a biografia(b) já não valem nada e sentimos apenas o miasma que exala da vala comum das celebridades da qual o cidadão pode se salvar apenas alcançando o posto de um herói exótico, máscara do otário da vez?
(Marcia Tiburi. Cult, dezembro de 2011)
Assinale a palavra que tenha sido formada por processo DISTINTO do das demais.
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A tradição teológica e filosófica nunca conseguiu
explicar o “mistério da iniquidade”, a existência do mal
como potência do desejo e da ação humanas.
Ora, a corrupção é o mal do nosso tempo.
Curiosamente, ela aparece como uma nova regra de
conduta, uma contraditória “moral imoral”. Da
governalidade aos atos cotidianos, o mundo da vida no
qual ética e moral se cindiram há muito tempo
transformou-se na sempre saqueável terra de ninguém.
Como toda moral, a corrupção é rígida. Daí a
impossibilidade do seu combate por meios comuns, seja
o direito, seja a polícia. Do contrário, meio mundo
estaria na prisão. A mesma polícia que combate o
narcotráfico nas favelas das grandes cidades poderia
ocupar o Congresso e outros espaços do governo onde
a corrupção é a regra.
Mas o problema é que a força da corrupção é a do
costume, é a da “moral”, aquela mesma do malandro
que age “na moral”, que é “cheio de moral”. Ela é muito
mais forte do que a delicada reflexão ética que
envolveria a autonomia de cada sujeito agente. E que só
surgiria pela educação política que buscasse um
pensamento reflexivo.
O sistema da corrupção é composto de um jogo de
forças do qual uma das mais importantes é a “força do
sentido”. É ela que faz perguntar, por exemplo, “como é
possível que um policial pobre se negue a aceitar
dinheiro para agir ilegalmente?”
O simples fato de que essa pergunta seja colocada
implica o pressuposto de que uma verdade ética tal
como a honestidade foi transvalorada. Isso significa que
foi também desvalorizada.
Se a conduta de praxe seria não apenas aceitar,
mas exigir dinheiro em troca de uma ação qualquer na
contramão do dever, é porque no sistema da corrupção
o valor da honestidade, que garantiria ao sujeito a sua
autonomia, foi substituído pela vantagem do dinheiro.
Mas não somente. Aquele que age na direção da lei
como que age contra a moral caracterizada pelo “fazer
como a grande maioria”, levando em conta que no
âmbito da corrupção se entende que o que a maioria
quer é “dinheiro”.
Verdade é que a ação em nome de um universal
por si só caracteriza qualquer moral. É por meio dela
que se faz o cálculo do “sentido” no qual, fora da
vantagem que define a regra, o sujeito honesto se
transfigura imediatamente em otário.
Se a moral é medida em dinheiro, não entregar-se a
ele poderá parecer um luxo. Mas um contraditório luxo
de pobre, já que a questão da honestidade não se
coloca para os ricos, para quem tal valor parece de
antemão assegurado.
Daí que jamais se louve nos noticiários a
honestidade de alguém que não se enquadra no
estereótipo do “pobre”. Honesto é sempre o pobre
elevado a cidadão exótico. Na verdade, por meio desse
gesto o pobre é colocado à prova pelo sistema. Afinal
ele teria tudo para ser corrupto, ou seja, teria todo o
motivo para sê-lo. Mas teria também todo o perdão?
O cidadão exótico – pobre e honesto – que deixa de
agir na direção de uma vantagem pessoal como que
estaria perdoado por antecipação ao agir imoralmente
sendo pobre, mas não está. A frase de Brecht seria sua
jurisprudência mais básica: “O que é roubar um banco
comparado a fundar um?”
Ora, sabemos que essa “moral imoral” tem sempre
dois pesos e duas medidas, diferentes para ricos e
pobres. No vão que as separa vem à tona a
incompreensibilidade diante do mistério da
honestidade. De categoria ética, ela desce ao posto de
irrespondível problema metafísico.
Pois quem terá hoje a coragem de perguntar como
alguém se torna o que é quando a subjetividade, a
individualidade e a biografia já não valem nada e
sentimos apenas o miasma que exala da vala comum
das celebridades da qual o cidadão pode se salvar
apenas alcançando o posto de um herói exótico,
máscara do otário da vez?
(Marcia Tiburi. Cult, dezembro de 2011)
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- OrtografiaPontuação
- SintaxeColocação Pronominal
- SintaxeConectivos
- MorfologiaPronomes
- SemânticaSinônimos e Antônimos
- Interpretação de TextosSubstituição/Reescritura de Texto
Presente perfeito
Aproveito a chegada do 13° salário e a proximidade
do Natal para discutir o presente perfeito. Num mundo
perfeitamente racional, ninguém nem pestanejaria antes
de presentear seus familiares e amigos com dinheiro
vivo.
Em princípio, nada pode ser melhor. Elimina-se o
risco de errar, pois o presenteado escolhe o que quiser, e
no tamanho certo. Melhor, ele pode juntar recursos de
diversas origens e comprar um item mais caro, que
ninguém sozinho poderia oferecer-lhe.
Só que o mundo não é um lugar racional. Se você
regalar sua mulher com um caríssimo jantar na
expectativa de uma noite tórrida de amor, estará sendo
romântico. Mas, se ousar oferecer-lhe dinheiro para o
mesmo fim, torna-se um simples cafajeste.
Analogamente, você ficará bem se levar um bom
vinho para o almoço de Dia das Mães na casa da sogra.
Experimente, porém, sacar a carteira e estender-lhe R$
200 ao fim da refeição e se tornará “persona non grata”
para sempre naquele lar.
Essas incongruências chamaram a atenção de
economistas comportamentais, que desenvolveram
modelos para explicá-las. Aparentemente, vivemos em
dois mundos distintos, o das relações sociais e o da
economia de mercado. Enquanto o primeiro é regido por
valores como amor e lealdade, o segundo tem como
marca indexadores monetários e contratos. Sempre que
misturamos os dois registros, surgem mal-entendidos.
O economista Dan Ariely vai mais longe e propõe
que, no mundo das relações sociais, o presente serve
para aliviar culpas: ofereça ao presenteado algo de que
ele goste, mas acha bobagem comprar, como um jantar
naquele restaurante chique ou um perfume um pouco
mais caro. O que você está lhe dando, na verdade, é uma
licença para ser extravagante.
Segundo Ariely, é esse mecanismo que explica o
sucesso de vales-presentes e congêneres, que nada mais
são que dinheiro com prazo de validade e restrições de
onde pode ser gasto.
(Hélio Schwartsman. Folha de S.Paulo, 4/12/2011, com adaptações)
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