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3696490 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: UERJ

TEXTO:

Jorge Amado e o tribunal das redes

Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do

romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas,

33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu.

“Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela

levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver

se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer

lhe conhecer”.

Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no

meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado

estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem

conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava

afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia

há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.

Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o

assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido

algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas,

graças a Deus, o assinou e me deu.

Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar;

estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me

incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E

escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação

como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram,

com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de

um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal

com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo

de maneira muito especial.

Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor.

Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake

news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia

barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que

a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes

insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc.

Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um

julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais

motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal

pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2

à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele

enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado

com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas

comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi

grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge

Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo

sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa

celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra

dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante.

Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura.

Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o

tribunal das redes.

 

 

 

VIEIRA Jr., Itamar.

Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado).

Geralmente, o adjunto adverbial pode ocupar diferentes posições no período em que se encontra. O período em que a mudança na posição do adjunto adverbial “recentemente” mantém inalterado o significado que ele acrescenta ao trecho “Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o ‘cancelamento’ do escritor.” (l. 27) é:

 

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3696489 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: UERJ

TEXTO:

Jorge Amado e o tribunal das redes

Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do

romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas,

33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu.

“Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela

levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver

se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer

lhe conhecer”.

Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no

meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado

estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem

conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava

afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia

há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.

Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o

assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido

algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas,

graças a Deus, o assinou e me deu.

Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar;

estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me

incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E

escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação

como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram,

com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de

um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal

com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo

de maneira muito especial.

Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor.

Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake

news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia

barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que

a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes

insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc.

Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um

julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais

motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal

pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2

à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele

enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado

com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas

comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi

grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge

Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo

sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa

celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra

dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante.

Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura.

Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o

tribunal das redes.

 

 

 

VIEIRA Jr., Itamar.

Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado).

Em “Recuperaram uma notícia de jornal (...), dizendo que Jorge Amado havia barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa.” (l. 28-30), a locução verbal assinalada pode ser substituída, sem alteração de seu significado no trecho, por:

 

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3696488 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: UERJ

TEXTO:

Jorge Amado e o tribunal das redes

Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do

romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas,

33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu.

“Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela

levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver

se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer

lhe conhecer”.

Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no

meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado

estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem

conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava

afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia

há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.

Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o

assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido

algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas,

graças a Deus, o assinou e me deu.

Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar;

estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me

incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E

escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação

como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram,

com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de

um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal

com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo

de maneira muito especial.

Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor.

Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake

news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia

barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que

a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes

insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc.

Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um

julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais

motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal

pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2

à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele

enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado

com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas

comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi

grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge

Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo

sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa

celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra

dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante.

Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura.

Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o

tribunal das redes.

 

 

 

VIEIRA Jr., Itamar.

Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado).

A modalização do discurso revela a subjetividade do enunciador em relação ao que enuncia. Em “Guardo essa recordação como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso...” (l. 21-22), uma palavra que se constitui como marca de modalização é:

 

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3696487 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: UERJ

TEXTO:

Jorge Amado e o tribunal das redes

Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do

romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas,

33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu.

“Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela

levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver

se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer

lhe conhecer”.

Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no

meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado

estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem

conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava

afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia

há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.

Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o

assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido

algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas,

graças a Deus, o assinou e me deu.

Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar;

estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me

incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E

escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação

como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram,

com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de

um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal

com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo

de maneira muito especial.

Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor.

Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake

news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia

barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que

a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes

insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc.

Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um

julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais

motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal

pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2

à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele

enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado

com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas

comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi

grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge

Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo

sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa

celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra

dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante.

Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura.

Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o

tribunal das redes.

 

 

 

VIEIRA Jr., Itamar.

Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado).

A reescrita do período “Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.” (l. 13) que mantém o significado básico que o trecho tem no texto, atendendo às normas da escrita padrão, corresponde a:

 

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3696486 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: UERJ

TEXTO:

Jorge Amado e o tribunal das redes

Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do

romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas,

33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu.

“Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela

levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver

se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer

lhe conhecer”.

Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no

meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado

estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem

conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava

afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia

há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.

Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o

assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido

algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas,

graças a Deus, o assinou e me deu.

Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar;

estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me

incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E

escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação

como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram,

com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de

um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal

com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo

de maneira muito especial.

Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor.

Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake

news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia

barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que

a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes

insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc.

Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um

julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais

motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal

pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2

à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele

enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado

com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas

comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi

grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge

Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo

sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa

celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra

dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante.

Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura.

Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o

tribunal das redes.

 

 

 

VIEIRA Jr., Itamar.

Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado).

O conector que explicita a relação semântica existente, no contexto da crônica, entre os períodos “Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor” (l. 19) e “Ela me incentivou a escrever” (l. 19-20) é:

 

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3696485 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: UERJ
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Jorge Amado e o tribunal das redes




Jorge Amado e o tribunal das redes

Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do

romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas,

33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu.

“Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela

levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver

se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer

lhe conhecer”.

Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no

meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado

estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem

conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava

afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia

há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.

Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o

assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido

algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas,

graças a Deus, o assinou e me deu.

Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar;

estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me

incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E

escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação

como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram,

com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de

um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal

com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo

de maneira muito especial.

Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor.

Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake

news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia

barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que

a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes

insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc.

Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um

julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais

motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal

pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2

à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele

enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado

com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas

comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi

grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge

Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo

sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa

celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra

dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante.

Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura.

Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o

tribunal das redes.



VIEIRA Jr., Itamar.

Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado).

Pelo mecanismo de coesão, um termo pode retomar outro anteriormente apresentado, mas também pode retomar uma porção maior de texto, resumindo a ideia nela contida. Nesse texto, o termo que retoma um trecho anterior maior é:
 

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3696484 Ano: 2025
Disciplina: Português
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Jorge Amado e o tribunal das redes

Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do

romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas,

33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu.

“Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela

levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver

se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer

lhe conhecer”.

Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no

meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado

estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem

conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava

afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia

há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.

Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o

assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido

algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas,

graças a Deus, o assinou e me deu.

Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar;

estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me

incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E

escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação

como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram,

com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de

um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal

com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo

de maneira muito especial.

Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor.

Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake

news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia

barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que

a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes

insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc.

Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um

julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais

motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal

pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2

à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele

enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado

com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas

comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi

grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge

Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo

sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa

celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra

dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante.

Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura.

Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o

tribunal das redes.



VIEIRA Jr., Itamar.

Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado).

Na crônica, a linguagem utilizada costuma ser marcada pela informalidade. O trecho do texto que apresenta marca de linguagem informal é:
 

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3696483 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: UERJ

TEXTO:


Jorge Amado e o tribunal das redes




Jorge Amado e o tribunal das redes

Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do

romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas,

33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu.

“Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela

levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver

se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer

lhe conhecer”.

Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no

meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado

estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem

conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava

afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia

há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.

Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o

assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido

algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas,

graças a Deus, o assinou e me deu.

Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar;

estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me

incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E

escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação

como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram,

com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de

um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal

com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo

de maneira muito especial.

Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor.

Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake

news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia

barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que

a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes

insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc.

Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um

julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais

motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal

pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2

à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele

enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado

com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas

comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi

grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge

Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo

sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa

celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra

dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante.

Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura.

Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o

tribunal das redes.



VIEIRA Jr., Itamar.

Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado).

Com o objetivo de provocar uma reflexão por meio da defesa de uma ideia, essa crônica caracteriza-se como predominantemente argumentativa, embora haja nela outras sequências textuais. O trecho do texto que se caracteriza como narrativo é:
 

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3696482 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: UERJ

TEXTO:


Jorge Amado e o tribunal das redes




Jorge Amado e o tribunal das redes

Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do

romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas,

33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu.

“Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela

levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver

se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer

lhe conhecer”.

Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no

meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado

estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem

conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava

afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia

há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.

Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o

assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido

algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas,

graças a Deus, o assinou e me deu.

Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar;

estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me

incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E

escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação

como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram,

com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de

um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal

com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo

de maneira muito especial.

Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor.

Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake

news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia

barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que

a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes

insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc.

Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um

julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais

motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal

pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2

à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele

enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado

com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas

comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi

grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge

Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo

sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa

celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra

dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante.

Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura.

Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o

tribunal das redes.



VIEIRA Jr., Itamar.

Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado).

Essa crônica parte de um episódio ocorrido na infância do autor, que testemunhou a generosidade de Jorge Amado. No texto, esse relato funciona como uma estratégia cujo objetivo é de:
 

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3696481 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: UERJ
Orgão: UERJ

TEXTO:


Jorge Amado e o tribunal das redes




Jorge Amado e o tribunal das redes

Em 1998, eu era um jovem muito tímido, mas ao mesmo tempo ousado. Comprei um exemplar do

romance Capitães da areia a preço popular numa banca de revistas e caminhei até a rua Alagoinhas,

33. Subi as escadas com azulejos e arte de Carybé e toquei a campainha. Uma senhora atendeu.

“Será que Sr. Jorge poderia assinar este livro?”, perguntei, estendendo o exemplar para que ela

levasse, enquanto aguardava na porta. Ela me pediu um instante, retornou ao interior da casa para ver

se Jorge Amado estava disponível. Pouco tempo depois, voltou: “Entre, venha comigo, dona Zélia quer

lhe conhecer”.

Nessa hora o coração parecia querer saltar pela boca. Eu havia planejado conseguir um autógrafo no

meu exemplar de páginas amarelas, não achava que conheceria o autor. Entrei na sala; Jorge Amado

estava sentado numa poltrona e Zélia Gattai, de pé junto à mesa. Ela me convidou a sentar. Quem

conheceu Zélia Gattai sabe que era uma mulher adorável, generosa, de sorriso largo e que emanava

afeto e gentileza. Jorge estava quieto na poltrona, me cumprimentou. Eu não sabia, mas ele já convivia

há alguns anos com uma grave depressão. Entreguei o livro, ele leu o título, pareceu aborrecido.

Chamou Zélia para mostrar. O título estava grafado como Capitães “de” areia. Abriu o exemplar e o

assinou. Seus dois cães da raça pug se sentaram no meu colo. Zélia me perguntou se eu já havia lido

algum dos seus livros. Eu respondi que não. Ela foi até a estante, retirou um exemplar de Anarquistas,

graças a Deus, o assinou e me deu.

Durante esse tempo, Zélia me fazia perguntas, enquanto Jorge observava. Ele chegou a cochilar;

estávamos numa hora próxima ao almoço. Eu contei que escrevia, que gostaria de ser escritor. Ela me

incentivou a escrever. Contou que publicou o primeiro livro com mais de 60 anos. “Leia muito. E

escreva”, foi o que me disse. “Um dia você poderá publicar seu próprio livro.” Guardo essa recordação

como um bom exemplo do que um escritor deveria ser: generoso e afetuoso com os que o admiram,

com os que dispõem de parte do seu tempo para ler suas histórias. Deve, em contrapartida, dispor de

um pequeno tempo para responder mensagens. Jorge e Zélia costumavam enviar cartões de Natal

com votos de boas-novas para os leitores que lhes escreviam. Eu mesmo recebi um cartão, que guardo

de maneira muito especial.

Recordei tudo isso porque recentemente vi circular nas redes sociais o “cancelamento” do escritor.

Recuperaram uma notícia de jornal da década de 1960, sem qualquer comprovação – como se as fake

news tivessem surgido apenas neste momento da nossa história –, dizendo que Jorge Amado havia

barrado a entrada de Carolina Maria de Jesus em sua casa. Que ele tinha inveja da vendagem que

a autora atingiu com seu livro Quarto de despejo. Acompanhando o compartilhamento, os mais tristes

insultos: “Amado pilantra”, “Racista” etc.

Vivemos neste tempo, quando qualquer notícia sem comprovação se torna evidência para um

julgamento impiedoso dos tribunais das redes. Não por acaso, sabemos de linchamentos reais

motivados por boatos espalhados na internet. Se esquecem que Jorge Amado foi deputado federal

pelo Partido Comunista Brasileiro por dois anos e deixou, como parte do seu legado, a emenda 3.2

à Constituição Brasileira promulgada em 1946, lei que tratava do livre exercício de crença religiosa. Ele

enfrentou resistência no seu próprio partido. Se esquecem também que a intenção principal de Amado

com a lei era acabar com a perseguição do Estado sofrida pelas religiões de matrizes africanas. Nas

comunidades de terreiro em Salvador, Jorge Amado era obá muito querido pelo povo de santo e foi

grande amigo de muitas yalorixás que fazem parte da história da cidade. Se esquecem que Jorge

Amado contribuiu para colocar em evidência o protagonismo negro na nossa literatura, escrevendo

sobre homens e mulheres fortes e divulgando a nossa cultura e diversidade mundo afora. Toda essa

celeuma apequena também outra grande autora, Carolina Maria de Jesus, como se sua obra

dependesse da aceitação de outros autores para ser considerada relevante.

Este texto é o meu testemunho da generosidade de um escritor fundamental para a nossa literatura.

Reverencio tanto Jorge Amado quanto Carolina Maria de Jesus, e a literatura só tem a perder com o

tribunal das redes.



VIEIRA Jr., Itamar.

Disponível em: https://rascunho.com.br/liberado/jorge-amado-e-o-tribunal-das-redes/. Acesso em: 07 fev. 2025 (adaptado).

A relevante temática central, discutida na crônica de Itamar Vieira Jr., está resumida na frase:
 

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