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luz das normas estatuídas no regime jurídico único dos servidores públicos civis da União (Lei nº 8.112/90), a licença por motivo de doença em pessoa da família

 

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Considere as afirmativas a seguir, relacionadas aos direitos e vantagens do servidor público federal, estatuídos pela Lei nº 8.112/90.

I

Será pago ao servidor, por ocasião das férias, um adicional correspondente a 1/3 da remuneração do período das férias. O pagamento independe de solicitação.

II

O serviço extraordinário será remunerado com acréscimo de 40% em relação à hora normal de trabalho.

III

O servidor exonerado perceberá sua gratificação natalina, proporcionalmente aos meses de exercício, calculada sobre o vencimento do mês da exoneração.

IV

O serviço prestado em horário compreendido entre vinte e duas horas de um dia e cinco horas do dia seguinte, terá o valor-hora acrescido de 25%, computando-se cada hora como 52min30seg.

Dentre as afirmativas, estão corretas

 

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De acordo com os ditames da Lei nº 8.112/90, o deslocamento de servidor, a pedido ou de ofício, no âmbito do mesmo quadro funcional, com ou sem mudança de sede, denomina-se

 

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As normas do regime jurídico dos servidores públicos federais, instituído pela Lei nº 8.112/90, são aplicáveis aos

 

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As questões de 01 a 10 referem-se ao texto a seguir.


Vergonha à brasileira


Matheus Pichonelli


Veio de um usuário do Twitter um dos “melhores” comentários feitos até agora sobre a gritaria

em torno da vinda dos médicos estrangeiros (leia-se cubanos) ao Brasil. “Médico estrangeiro é 3

3 populismo. Tem que voltar a política de deixar morrer”.

Populismo, oportunismo, escravidão (?). Enquanto médicos, fariseus e doutores da lei tentam

filtrar os mosquitos, uma fila de camelos é engolida nos rincões fora da rota turística do País.

6 Em outras palavras, as pessoas seguem morrendo, sem que mereçam um franzir de testa de

quem parece disposto a armar uma Intifada1 contra o programa Mais Médicos.

Segundo mapeamento do governo, existem hoje 701 cidades no País sem um único médico a

9 postos. Sabe quantos brasileiros demonstraram, em chamada recente, interesse em trabalhar

nesses municípios? Zero. Nesses lugares, falta o básico do básico, conforme mostrou o

repórter Gabriel Bonis em sua visita a Sítio do Quinto, município do interior baiano onde a

12 população não tem para onde correr em caso de emergência (o caso mais simbólico foi a

morte, testemunhada por uma técnica em enfermagem e um vigia, de um homem que levou

uma facada e não pôde ser atendido porque não havia médico de plantão). Não estamos

15 falando de cirurgia de alta complexidade, mas de carência humana, cuja atuação garantiria o

tratamento mínimo para problemas mínimos como diarreia, gripe ou ferimentos leves, que

neste diapasão de interesses e serviços se transformam em tragédias diárias e

18 desproporcionais.

Tragédias que parecem não comover quem, de antemão, diz se sentir envergonhado pela leva

de navios negreiros a aportar por aqui atolados de médicos dispostos a nivelar por baixo a

21 medicina brasileira. Pois Jean Marie Le-Pen, o líder ultradireitista francês, de xenofobia

desavergonhada, seria capaz de corar ao ver a reação dos médicos brasileiros, de maioria

branca, que hostilizaram, vaiaram e chamaram de “escravos” os colegas cubanos, de maioria

24 negra, durante um curso de preparação em Fortaleza. O protesto, organizado pelo Sindicato

dos Médicos do Ceará, foi talvez o estágio mais alto de uma ofensiva que já teve até

presidente de conselho regional de medicina pregando, como num culto, o boicote aos

27 camaradas estrangeiros. Os manifestantes, que provavelmente se divertem ainda hoje com a

herança colonial supostamente encerrada por uma lei - não coincidentemente - denominada

Áurea, talvez inovassem a rebelião contra o estado das coisas no período anterior a 1888. O

30 método consiste em cuspir no escravo para manifestar uma repulsa fajuta à escravatura.

Parece um método pouco inteligente para quem levou seis anos para retirar o diploma. Não

cola.

33 O episódio mostra que, até mesmo quando se trata de salvar a vida humana, a vida humana é

contagiada pela mais devastadora das doenças: a ignorância d e quem enxerga o mundo entre

o certo e o errado e nada mais entre uma ponta e outra. A ignorância, neste caso, parece

36 desnudar um resquício de desumanidade presente em um dos últimos bolsões de um elitismo

pré-colonial. Um elitismo que tolera o esquecimento e a omissão, mas esperneia ao menor

sinal de desprestígio, este galgado longe, bem longe, dos salões onde mais se precisa de

39 médicos. Onde o jaleco se suja de terra ao fim do expediente.

A opção de ficar nos grandes centros é, de certo modo, compreensíve l. Não se discute as

fragilidades de um programa de emergência. Seria pouco razoável, por exemplo, negar a

42 ausência de uma estrutura adequada para a atuação de quaisquer médicos pelo interior do

País. Seria pouco razoável também negar a dificuldade para amarrar juridicamente um

contrato de trabalho que prevê a triangulação entre países (um deles, bem pouco afeito à

45 transparência) para remunerar o trabalhador. Não se nega ainda a necessidade de se regular

a atuação desse médico conforme o tamanho de sua responsabilidade. Não se discute a

necessidade de se validar diplomas com base em um critério honesto que não tenha como

48 finalidade a reserva de mercado. Da mesma forma, seria razoável (ou deveria ser) supor que a

urgência para a garantia de atendimento básico preceda os ajustes de rota – estes facilmente remediados

com boa vontade, o que não é o caso de uma vida por um fio.

51 Mas, para boa parte dos ativistas de ocasião, cruzar os braços diante da suposta politicagem,

do suposto populismo, do suposto oportunismo e do suposto navio negreiro é mais nobre do que atacar

o problema real. Parecem a versão remodelada da conferência das aranhas do

54 conto A Sereníssima República, de Machado de Assis. É a mais perfeita alegoria de nossa

incompetência histórica: “Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios retos, é o

partido retilíneo; outros pensam, ao contrário, que as teias devem ser trabalhadas com fios

57 curvos, - é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com este

postulado: as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos; é o partido reto-curvilíneo; e

finalmente, uma quarta divisão política, o partido anti-reto-curvilíneo, que fez tábua rasa de

60 todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e

leve, em que não há linhas de espécie alguma”.

Nessa conferência, a discussão gira em torno dos símbolos atribuídos a uma mesma teia. O

63 imobilismo é o único resultado da gritaria.

Como as aranhas de Machado de Assis, preferimos discutir o sexo dos anjos em vez de atingir

o cerne de uma questão urgente: o abandono de uma parte considerável da população. Seria

66 razoável que elas estivessem no centro do debate. Mas a razoabilidade é um objeto raro

quando a ala (sempre em tese) mais esclarecida do País tem como um cartão de visita a vaia,

a arrogância e a agressão.

http://www.cartacapital.com.br/saude/vergonha-a-brasileira-8881.html. [adaptado]

1. Rebelião popular palestina contra as forças de ocupação de Israel na faixa de Gaza e na Cisjordânia.

O sétimo parágrafo é introduzido por uma conjunção que liga

 

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As questões de 01 a 10 referem-se ao texto a seguir.


Vergonha à brasileira


Matheus Pichonelli


Veio de um usuário do Twitter um dos “melhores” comentários feitos até agora sobre a gritaria

em torno da vinda dos médicos estrangeiros (leia-se cubanos) ao Brasil. “Médico estrangeiro é 3

3 populismo. Tem que voltar a política de deixar morrer”.

Populismo, oportunismo, escravidão (?). Enquanto médicos, fariseus e doutores da lei tentam

filtrar os mosquitos, uma fila de camelos é engolida nos rincões fora da rota turística do País.

6 Em outras palavras, as pessoas seguem morrendo, sem que mereçam um franzir de testa de

quem parece disposto a armar uma Intifada1 contra o programa Mais Médicos.

Segundo mapeamento do governo, existem hoje 701 cidades no País sem um único médico a

9 postos. Sabe quantos brasileiros demonstraram, em chamada recente, interesse em trabalhar

nesses municípios? Zero. Nesses lugares, falta o básico do básico, conforme mostrou o

repórter Gabriel Bonis em sua visita a Sítio do Quinto, município do interior baiano onde a

12 população não tem para onde correr em caso de emergência (o caso mais simbólico foi a

morte, testemunhada por uma técnica em enfermagem e um vigia, de um homem que levou

uma facada e não pôde ser atendido porque não havia médico de plantão). Não estamos

15 falando de cirurgia de alta complexidade, mas de carência humana, cuja atuação garantiria o

tratamento mínimo para problemas mínimos como diarreia, gripe ou ferimentos leves, que

neste diapasão de interesses e serviços se transformam em tragédias diárias e

18 desproporcionais.

Tragédias que parecem não comover quem, de antemão, diz se sentir envergonhado pela leva

de navios negreiros a aportar por aqui atolados de médicos dispostos a nivelar por baixo a

21 medicina brasileira. Pois Jean Marie Le-Pen, o líder ultradireitista francês, de xenofobia

desavergonhada, seria capaz de corar ao ver a reação dos médicos brasileiros, de maioria

branca, que hostilizaram, vaiaram e chamaram de “escravos” os colegas cubanos, de maioria

24 negra, durante um curso de preparação em Fortaleza. O protesto, organizado pelo Sindicato

dos Médicos do Ceará, foi talvez o estágio mais alto de uma ofensiva que já teve até

presidente de conselho regional de medicina pregando, como num culto, o boicote aos

27 camaradas estrangeiros. Os manifestantes, que provavelmente se divertem ainda hoje com a

herança colonial supostamente encerrada por uma lei - não coincidentemente - denominada

Áurea, talvez inovassem a rebelião contra o estado das coisas no período anterior a 1888. O

30 método consiste em cuspir no escravo para manifestar uma repulsa fajuta à escravatura.

Parece um método pouco inteligente para quem levou seis anos para retirar o diploma. Não

cola.

33 O episódio mostra que, até mesmo quando se trata de salvar a vida humana, a vida humana é

contagiada pela mais devastadora das doenças: a ignorância d e quem enxerga o mundo entre

o certo e o errado e nada mais entre uma ponta e outra. A ignorância, neste caso, parece

36 desnudar um resquício de desumanidade presente em um dos últimos bolsões de um elitismo

pré-colonial. Um elitismo que tolera o esquecimento e a omissão, mas esperneia ao menor

sinal de desprestígio, este galgado longe, bem longe, dos salões onde mais se precisa de

39 médicos. Onde o jaleco se suja de terra ao fim do expediente.

A opção de ficar nos grandes centros é, de certo modo, compreensíve l. Não se discute as

fragilidades de um programa de emergência. Seria pouco razoável, por exemplo, negar a

42 ausência de uma estrutura adequada para a atuação de quaisquer médicos pelo interior do

País. Seria pouco razoável também negar a dificuldade para amarrar juridicamente um

contrato de trabalho que prevê a triangulação entre países (um deles, bem pouco afeito à

45 transparência) para remunerar o trabalhador. Não se nega ainda a necessidade de se regular

a atuação desse médico conforme o tamanho de sua responsabilidade. Não se discute a

necessidade de se validar diplomas com base em um critério honesto que não tenha como

48 finalidade a reserva de mercado. Da mesma forma, seria razoável (ou deveria ser) supor que a

urgência para a garantia de atendimento básico preceda os ajustes de rota – estes facilmente remediados

com boa vontade, o que não é o caso de uma vida por um fio.

51 Mas, para boa parte dos ativistas de ocasião, cruzar os braços diante da suposta politicagem,

do suposto populismo, do suposto oportunismo e do suposto navio negreiro é mais nobre do que atacar

o problema real. Parecem a versão remodelada da conferência das aranhas do

54 conto A Sereníssima República, de Machado de Assis. É a mais perfeita alegoria de nossa

incompetência histórica: “Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios retos, é o

partido retilíneo; outros pensam, ao contrário, que as teias devem ser trabalhadas com fios

57 curvos, - é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com este

postulado: as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos; é o partido reto-curvilíneo; e

finalmente, uma quarta divisão política, o partido anti-reto-curvilíneo, que fez tábua rasa de

60 todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e

leve, em que não há linhas de espécie alguma”.

Nessa conferência, a discussão gira em torno dos símbolos atribuídos a uma mesma teia. O

63 imobilismo é o único resultado da gritaria.

Como as aranhas de Machado de Assis, preferimos discutir o sexo dos anjos em vez de atingir

o cerne de uma questão urgente: o abandono de uma parte considerável da população. Seria

66 razoável que elas estivessem no centro do debate. Mas a razoabilidade é um objeto raro

quando a ala (sempre em tese) mais esclarecida do País tem como um cartão de visita a vaia,

a arrogância e a agressão.

http://www.cartacapital.com.br/saude/vergonha-a-brasileira-8881.html. [adaptado]

1. Rebelião popular palestina contra as forças de ocupação de Israel na faixa de Gaza e na Cisjordânia.

No quarto parágrafo, o uso de alguns advérbios revela que a atitude do autor é de
 

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As questões 07 e 08 referem-se ao período a seguir.


Enquanto médicos, fariseus e doutores da lei tentam filtrar os mosquitos, uma fila de camelos é engolida nos rincões fora da rota turística do País.

As expressões em negrito (da lei, de camelos, da rota e do País), presentes no período, correspondem a
 

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As questões 07 e 08 referem-se ao período a seguir.


Enquanto médicos, fariseus e doutores da lei tentam filtrar os mosquitos, uma fila de camelos é engolida nos rincões fora da rota turística do País.

No período, há uma relação de simultaneidade. Para essa relação manter-se, os verbos devem ser flexionados
 

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As questões de 01 a 15 referem-se ao texto a seguir.


Vergonha à brasileira


Matheus Pichonelli


Veio de um usuário do Twitter um dos “melhores” comentários feitos até agora sobre a

gritaria em torno da vinda dos médicos estrangeiros (leia-se cubanos) ao Brasil. “Médico

3 estrangeiro é populismo. Tem que voltar a política de deixar morrer”.


Populismo, oportunismo, escravidão (?). Enquanto médicos, fariseus e doutores da lei

tentam filtrar os mosquitos, uma fila de camelos é engolida nos rincões fora da rota turística

6 do País. Em outras palavras, as pessoas seguem morrendo, sem que mereçam um franzir de

testa de quem parece disposto a armar uma Intifada1 contra o programa Mais Médicos.


Segundo mapeamento do governo, existem hoje 701 cidades no País sem um único médico a

9 postos. Sabe quantos brasileiros demonstraram, em chamada recente, interess e em

trabalhar nesses municípios? Zero. Nesses lugares, falta o básico do básico, conforme

mostrou o repórter Gabriel Bonis em sua visita a Sítio do Quinto, município do interior baiano

12 onde a população não tem para onde correr em caso de emergência (o cas o mais simbólico

foi a morte, testemunhada por uma técnica em enfermagem e um vigia, de um homem que

levou uma facada e não pôde ser atendido porque não havia médico de plantão). Não

15 estamos falando de cirurgia de alta complexidade, mas de carência humana, cuja atuação

garantiria o tratamento mínimo para problemas mínimos como diarreia, gripe ou ferimentos

leves, que neste diapasão de interesses e serviços se transformam em tragédias diárias e

18 desproporcionais.


Tragédias que parecem não comover quem, de antemão, diz se sentir envergonhado pela

leva de navios negreiros a aportar por aqui atolados de médicos dispostos a nivelar por baixo

21 a medicina brasileira. Pois Jean Marie Le-Pen, o líder ultradireitista francês, de xenofobia

desavergonhada, seria capaz de corar ao ver a reação dos médicos brasileiros, de maioria

branca, que hostilizaram, vaiaram e chamaram de “escravos” os colegas cubanos, de maioria

24 negra, durante um curso de preparação em Fortaleza. O protesto, organizado pelo Sindicato

dos Médicos do Ceará, foi talvez o estágio mais alto de uma ofensiva que já teve até

presidente de conselho regional de medicina pregando, como num culto, o boicote aos

27 camaradas estrangeiros. Os manifestantes, que provavelmente se divertem ainda hoje com a

herança colonial supostamente encerrada por uma lei - não coincidentemente - denominada

Áurea, talvez inovassem a rebelião contra o estado das coisas no período anterior a 1888. O

30 método consiste em cuspir no escravo para manifestar uma repulsa fajuta à escravatura.

Parece um método pouco inteligente para quem levou seis anos para retirar o diploma. Não

cola.


33 O episódio mostra que, até mesmo quando se trata de salvar a vida humana, a vida humana

é contagiada pela mais devastadora das doenças: a ignorância de quem enxerga o mundo

entre o certo e o errado e nada mais entre uma ponta e outra. A ignorância, neste caso,

36 parece desnudar um resquício de desumanidade presente em um dos últimos bolsões de um

elitismo pré-colonial. Um elitismo que tolera o esquecimento e a omissão, m as esperneia ao

menor sinal de desprestígio, este galgado longe, bem longe, dos salões onde mais se

39 precisa de médicos. Onde o jaleco se suja de terra ao fim do expediente.


A opção de ficar nos grandes centros é, de certo modo, compreensível. Não se discut e as

fragilidades de um programa de emergência. Seria pouco razoável, por exemplo, negar a

42 ausência de uma estrutura adequada para a atuação de quaisquer médicos pelo interior do

País. Seria pouco razoável também negar a dificuldade para amarrar juridicamente um

contrato de trabalho que prevê a triangulação entre países (um deles, bem pouco afeito à

45 transparência) para remunerar o trabalhador. Não se nega ainda a necessidade de se regular

a atuação desse médico conforme o tamanho de sua responsabilidade. Não se discute a

necessidade de se validar diplomas com base em um critério honesto que não tenha como

48 finalidade a reserva de mercado. Da mesma forma, seria razoável (ou deveria ser) supor que

a urgência para a garantia de atendimento básico preceda os ajus tes de rota – estes

facilmente remediados com boa vontade, o que não é o caso de uma vida por um fio.


51 Mas, para boa parte dos ativistas de ocasião, cruzar os braços diante da suposta

politicagem, do suposto populismo, do suposto oportunismo e do suposto na vio negreiro é

mais nobre do que atacar o problema real. Parecem a versão remodelada da conferência das

54 aranhas do conto A Sereníssima República, de Machado de Assis. É a mais perfeita alegoria

de nossa incompetência histórica: “Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios

retos, é o partido retilíneo; outros pensam, ao contrário, que as teias devem ser trabalhadas

57 com fios curvos, - é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com

este postulado: as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos; é o partido reto-

curvilíneo; e finalmente, uma quarta divisão política, o partido anti-reto-curvilíneo, que fez

60 tábua rasa de todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra

transparente e leve, em que não há linhas de espécie alguma”.


Nessa conferência, a discussão gira em torno dos símbolos atribuídos a uma mesma teia. O

63 imobilismo é o único resultado da gritaria.


Como as aranhas de Machado de Assis, preferimos discutir o sexo dos anjos em vez de

atingir o cerne de uma questão urgente: o abandono de uma parte considerável da

66 população. Seria razoável que elas estivessem no centro do debate. Mas a razoabilidade é

um objeto raro quando a ala (sempre em tese) mais esclarecida do País tem como um cartão

de visita a vaia, a arrogância e a agressão.


http://www.cartacapital.com.br/saude/vergonha-a-brasileira-8881.html. [adaptado]


1. Rebelião popular palestina contra as forças de ocupação de Israel na faixa de Gaza e na Cisjordânia.

Ao trazer a conferência das aranhas do conto de Machado de Assis para a construção do texto, o autor confirma a ideia de que

 

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As questões de 01 a 15 referem-se ao texto a seguir.


Vergonha à brasileira


Matheus Pichonelli


Veio de um usuário do Twitter um dos “melhores” comentários feitos até agora sobre a

gritaria em torno da vinda dos médicos estrangeiros (leia-se cubanos) ao Brasil. “Médico

3 estrangeiro é populismo. Tem que voltar a política de deixar morrer”.


Populismo, oportunismo, escravidão (?). Enquanto médicos, fariseus e doutores da lei

tentam filtrar os mosquitos, uma fila de camelos é engolida nos rincões fora da rota turística

6 do País. Em outras palavras, as pessoas seguem morrendo, sem que mereçam um franzir de

testa de quem parece disposto a armar uma Intifada1 contra o programa Mais Médicos.


Segundo mapeamento do governo, existem hoje 701 cidades no País sem um único médico a

9 postos. Sabe quantos brasileiros demonstraram, em chamada recente, interess e em

trabalhar nesses municípios? Zero. Nesses lugares, falta o básico do básico, conforme

mostrou o repórter Gabriel Bonis em sua visita a Sítio do Quinto, município do interior baiano

12 onde a população não tem para onde correr em caso de emergência (o cas o mais simbólico

foi a morte, testemunhada por uma técnica em enfermagem e um vigia, de um homem que

levou uma facada e não pôde ser atendido porque não havia médico de plantão). Não

15 estamos falando de cirurgia de alta complexidade, mas de carência humana, cuja atuação

garantiria o tratamento mínimo para problemas mínimos como diarreia, gripe ou ferimentos

leves, que neste diapasão de interesses e serviços se transformam em tragédias diárias e

18 desproporcionais.


Tragédias que parecem não comover quem, de antemão, diz se sentir envergonhado pela

leva de navios negreiros a aportar por aqui atolados de médicos dispostos a nivelar por baixo

21 a medicina brasileira. Pois Jean Marie Le-Pen, o líder ultradireitista francês, de xenofobia

desavergonhada, seria capaz de corar ao ver a reação dos médicos brasileiros, de maioria

branca, que hostilizaram, vaiaram e chamaram de “escravos” os colegas cubanos, de maioria

24 negra, durante um curso de preparação em Fortaleza. O protesto, organizado pelo Sindicato

dos Médicos do Ceará, foi talvez o estágio mais alto de uma ofensiva que já teve até

presidente de conselho regional de medicina pregando, como num culto, o boicote aos

27 camaradas estrangeiros. Os manifestantes, que provavelmente se divertem ainda hoje com a

herança colonial supostamente encerrada por uma lei - não coincidentemente - denominada

Áurea, talvez inovassem a rebelião contra o estado das coisas no período anterior a 1888. O

30 método consiste em cuspir no escravo para manifestar uma repulsa fajuta à escravatura.

Parece um método pouco inteligente para quem levou seis anos para retirar o diploma. Não

cola.


33 O episódio mostra que, até mesmo quando se trata de salvar a vida humana, a vida humana

é contagiada pela mais devastadora das doenças: a ignorância de quem enxerga o mundo

entre o certo e o errado e nada mais entre uma ponta e outra. A ignorância, neste caso,

36 parece desnudar um resquício de desumanidade presente em um dos últimos bolsões de um

elitismo pré-colonial. Um elitismo que tolera o esquecimento e a omissão, m as esperneia ao

menor sinal de desprestígio, este galgado longe, bem longe, dos salões onde mais se

39 precisa de médicos. Onde o jaleco se suja de terra ao fim do expediente.


A opção de ficar nos grandes centros é, de certo modo, compreensível. Não se discut e as

fragilidades de um programa de emergência. Seria pouco razoável, por exemplo, negar a

42 ausência de uma estrutura adequada para a atuação de quaisquer médicos pelo interior do

País. Seria pouco razoável também negar a dificuldade para amarrar juridicamente um

contrato de trabalho que prevê a triangulação entre países (um deles, bem pouco afeito à

45 transparência) para remunerar o trabalhador. Não se nega ainda a necessidade de se regular

a atuação desse médico conforme o tamanho de sua responsabilidade. Não se discute a

necessidade de se validar diplomas com base em um critério honesto que não tenha como

48 finalidade a reserva de mercado. Da mesma forma, seria razoável (ou deveria ser) supor que

a urgência para a garantia de atendimento básico preceda os ajus tes de rota – estes

facilmente remediados com boa vontade, o que não é o caso de uma vida por um fio.


51 Mas, para boa parte dos ativistas de ocasião, cruzar os braços diante da suposta

politicagem, do suposto populismo, do suposto oportunismo e do suposto na vio negreiro é

mais nobre do que atacar o problema real. Parecem a versão remodelada da conferência das

54 aranhas do conto A Sereníssima República, de Machado de Assis. É a mais perfeita alegoria

de nossa incompetência histórica: “Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios

retos, é o partido retilíneo; outros pensam, ao contrário, que as teias devem ser trabalhadas

57 com fios curvos, - é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com

este postulado: as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos; é o partido reto-

curvilíneo; e finalmente, uma quarta divisão política, o partido anti-reto-curvilíneo, que fez

60 tábua rasa de todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra

transparente e leve, em que não há linhas de espécie alguma”.


Nessa conferência, a discussão gira em torno dos símbolos atribuídos a uma mesma teia. O

63 imobilismo é o único resultado da gritaria.


Como as aranhas de Machado de Assis, preferimos discutir o sexo dos anjos em vez de

atingir o cerne de uma questão urgente: o abandono de uma parte considerável da

66 população. Seria razoável que elas estivessem no centro do debate. Mas a razoabilidade é

um objeto raro quando a ala (sempre em tese) mais esclarecida do País tem como um cartão

de visita a vaia, a arrogância e a agressão.


http://www.cartacapital.com.br/saude/vergonha-a-brasileira-8881.html. [adaptado]


1. Rebelião popular palestina contra as forças de ocupação de Israel na faixa de Gaza e na Cisjordânia.

São contra-argumentos presentes no texto:

 

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