Leia o texto para responder às questões de números 01 a 08.
Depois da infância
Depois da infância, não é fácil dizer “eu te amo” para os pais. Não há mais abundância de vontade, destinamos as declarações de amor para as relações amorosas, economizamos os cumprimentos jurando que eles já sabem e que não precisam mais escutar afirmações do nosso amor. Crescemos e nos desidratamos de afeto. Não há mais a obrigação de trabalhinho da escola para dias comemorativos. Não há mais desenhos e bilhetes, nem abraços de saudade.
Nem o filho adulto entende direito o que aconteceu, como aconteceu, como pela primeira vez se calou na hora de falar e se acostumou a não dizer mais. Antes, quando pequeno, era tão simples dizer “eu te amo, pai”; “eu te amo, mãe”. Fluía a toda hora, como agradecimento e pedido de socorro.
Mas o hábito de ter os próprios segredos e sua própria vida fez com que o afeto se escondesse dos pais dali por diante. Não é que o “eu te amo” tenha sumido. Ele vem à garganta e é engolido de volta. Não é transformado em voz, porque há o medo de parecer criança novamente.
O “eu te amo” continua vivo, só que o orgulho não o deixa vir. O orgulho substitui o amor e traz a indiferença. E os pais ficam esperando que um dia, de modo involuntário ou por pura distração, o “eu te amo” venha de novo aos seus ouvidos.
Os pais esperam no deserto das palavras que morrem, no jejum imposto pelos tabus e preconceitos. Baixam a cabeça para ouvir melhor as nossas conversas, aguardando um milagre, como se estivessem encontrando uma estação perdida num radinho de pilha.
(Fabrício Carpinejar. Família é tudo. 4ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2020. Adaptado)
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