Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CETREDE
Orgão: CISVALE
Retrolâmpago
A Manhã ainda nua
saiu da montanha
com a coroa de plumas
vermelhas à cabeça.
Depois, por sua vez,
é o Dia português
que salta das ondas
qual pássaro branco
ruflando a asa enorme
das velas redondas...
Por último é a Noite
africana que chega
no porão do navio,
tremendo de frio,
com os seus orixás,
com os seus amuletos
e é trazida pra terra
nos ombros dos pretos.
E os heróis ainda obscuros,
nascidos na Terra:
o gigante tostado
pelo sol da manhã;
o gigante marcado
com o fogo do Dia;
e o gigante criado
com o leite da Noite,
todos três
calçam as botas sete – léguas
e era uma vez...
E o paroara, o caucheiro,
o matuto cearense;
valentões, pala ao ombro,
chilenas de prata
arrastadas ao chão
com o barulho das botas;
topetudos de todos os naipes
tabaréus, canhamboras,
capangas, jagunços,
caborés, curimbabas;
piraquaras, caiçaras,
boiadeiros, laranjos,
canoeiros agrestes,
caboclos,cafuzos
vararam a terra pra Oeste, pro Sul
e pro Norte
Crianças do mato
brincando com a morte!
E o Brasil ficou sendo
o que é, liricamente.
E o Brasil ficou tendo
a forma de uma harpa,
geograficamente.
E o Brasil é este poema
menino que acontece na vida da gente...
Cassiano Ricardo
Pela estrutura e pelo assunto, o poema classifica-se como