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Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 6.

TEXTO 01

Narciso sob medida

1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como

2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande

3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso

4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções

5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se

6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se

7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma

8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”

9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização

10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a

11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver

12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio

13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não

14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da

15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo

16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.

17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta

18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma

19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,

20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos

21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da

22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes

23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das

24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro

25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e

26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre

27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das

28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa

29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada

30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.

31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e

32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de

33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,

34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um

35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados

36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,

37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus

38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos

39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou

40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de

41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal

42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e

43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma

44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social

45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e

46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.

LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).

Na frase “A despolitização e a ‘dessindicalização’ atingem proporções jamais vistas” (linhas 4 e 5), o termo oracional “A despolitização e a ‘dessindicalização’” exerce a mesma função sintática que

 

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