Encontrado no Marrocos, o mais antigo fóssil humano tem 300 mil anos
Com novos métodos, cientistas fizeram datação III) mais precisa de pelo menos cinco esqueletos de Homo sapiens; descoberta antecipa início da história da espécie em pelo menos 100 mil anos.
Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo – 7 de junho de 2017 | 14h
Um grupo internacional de cientistas descobriu no Marrocos pelo menos cinco fósseis humanos de pelo menos 300 mil anos, cercados de ferramentas de pedra e restos de animais. A descoberta, revelada em dois artigos publicados na edição de hoje da revista Nature, antecipa em pelo menos 100 mil anos a mais antiga evidência fóssil já registrada da espécie Homo sapiens.
De acordo com os autores dos estudos, a descoberta revela que a espécie humana tem uma história evolutiva muito mais complexa do que se imaginava, envolvendo provavelmente todo o continente africano. O fóssil humano mais antigo encontrado já registrado até agora tinha 195 mil anos e havia sido desenterrado no leste da África, em Omo Kibish, na Etiópia.
“Acreditávamos que o berço da humanidade havia sido o leste da África, há 200 mil anos, mas nossos novos dados revelam que o Homo sapiens já havia se espalhado por todo o continente africano há cerca de 300 mil anos”, disse o autor principal da pesquisa, o paleoantropólogo Jean-Jacques Hublin, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig (Alemanha).
A descoberta foi feita em Jebel Irhoud, no oeste do Marrocos, onde haviam sido encontrados, desde a década de 1960, seis fósseis humanos e diversos artefatos da Idade da Pedra, mas a idade dos fósseis permanecia incerta.
Um novo projeto de escavação em Jebel Irhoud, iniciado em 2004, revelou 16 novos fósseis de Homo sapiens, envolvendo crânios, dentes e ossos longos de pelo menos cinco indivíduos. As escavações foram lideradas por Hublin e por Abdelouahed Ben-Ncer, do Instituto Nacional de Arqueologia e Patrimônio do Marrocos, sediado em Rabat.
Os cientistas conseguiram precisar a cronologia dos fósseis graças à tecnologia. Eles utilizaram um método de datação por termoluminescência em pedras de sílex encontradas nos mesmos depósitos.
“Sítios bem datados dessa época são excepcionalmente raros na África, mas nós tivemos sorte, já que vários dos artefatos de sílex de Jebel Irhoud foram aquecidos no passado. Isso nos permitiu aplicar os métodos de datação por termoluminescência nesses artefatos, para estabelecer uma cronologia consistente para os novos fósseis e para as camadas de solo que os cobriam”, explicou o especialista em geocronologia III) Daniel Richter, do Instituto Max Planck.
Além da datação por meio dos artefatos de pedra, os cientistas conseguiram refazer o cálculo direto da idade de três mandíbulas encontradas em Jebel Irhoud na década de 1960.
Essas mandíbulas haviam sido anteriormente datadas em 160 mil anos, com um método por ressonância paramagnética eletrônica.
No novo estudo, porém, os cientistas aprimoraram o método e recalcularam a idade dos fósseis, encontrando um resultado coerente com as datações por termoluminescência: eles tinham quase o dobro da idade estimada inicialmente. “Utilizamos métodos de datação de última geração e adotamos as abordagens mais conservadoras para determinar a idade com precisão”, disse Richter.
Além de revelarem que o Homo sapiens é 100 mil anos mais antigo do que se pensava, os novos estudos revelaram também o cardápio dos humanos há 300 mil anos, que era composto por muita carne de gazela, alguma carne de gnu e de zebra, eventualmente ovos de avestruzes, além de antílopes IV), búfalos, porcos-espinho I), lebres, tartarugas, moluscos de água doce e serpentes.
De acordo com a paleoantropóloga Teresa Steele, da Universidade de Califórnia Davis, foram encontrados em Jebel Irhoud centenas de ossos de animais fossilizados e 472 espécies deles II) foram identificadas. Foram também observadas marcas de cortes nos ossos, indicando que suas medulas haviam sido utilizadas como alimento por humanos.
“Realmente parece que essas pessoas gostavam de caçar. A dispersão do Homo sapiens por toda a África há 300 mil anos é provavelmente resultado de mudanças na biologia e no comportamento da espécie”, disse Teresa.
As ferramentas de pedra encontradas em Jebel Irhoud eram feitas de sílex de alta qualidade, “importadas” para o sítio, de acordo com o paleoantropólogo Shannon McPherron, do Instituto Max Planck. Segundo ele, os machados, ferramentas frequentemente encontradas em outros sítios antigos, não estavam presentes em Jebel Irhoud. Mas a maior parte dos utensílios encontrados ali também existiram por toda a África na metade da Idade da Pedra.
“Os artefatos de pedra de Jebel Irhoud parecem muito semelhantes aos encontrados no leste e no sul da África. É provável que as inovações tecnológicas da metade da Idade da Pedra estejam ligadas ao surgimento do Homo sapiens”, afirmou McPherron.
Glossário:
Sílex: rocha sedimentar silicatada, constituída de quartzo criptocristalino, muito dura e com densidade elevada.
Termoluminescência: luminescência que ocorre em alguns materiais quando aquecidos. É particularmente útil na datação arqueológica.
Disponível em: <http://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,encontrado-no-marrocos-
mais-antigo-fossil-humano-tem-mais-de-300-mil-anos,700018 29124>.
[Adaptado]. Acesso em: 14 set. 2017.
Considere as seguintes afirmativas e assinale a alternativa correta.
I. A palavra “porcos-espinho” é formada por composição.
II. A palavra “deles” retoma “ossos”.
III. “Datação” e “geocronologia” são formadas pelo mesmo processo de formação de palavras.
IV. A palavra “antílope” é formada por derivação prefixal.
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