A lenda urbana surge com a oportunidade do inusitado, do espetacular, do fantasioso. É o momento em que se pode(a) romper com a realidade e crer que existe algo além do que se conhece(b). Em primeiro lugar, a lenda urbana apresenta personagens quase sempre construídos em busca do indivíduo comum: desperta-se(c) o interesse do ouvinte. Também se espalha(d) por meios muito próximos dos simples mortais, seja oralmente, seja por e-mail, seja até em jornais sensacionalistas. As lendas urbanas se inserem no fenômeno chamado folkcomunicação, segundo o qual a expressão das classes mais baixas ou marginalizadas encontra vazão na produção de cultura popular e, muitas vezes, na cultura de massa. Esse folclore — em seu sentido mais amplo — traz à luz a compreensão de determinados povos sobre o meio que os cerca, mas de maneira bastante particular. As manifestações populares trazem tanto seus medos cotidianos quanto as influências sofridas por aquela população. As lendas urbanas são, assim, resultantes da criação contemporânea, modernamente adaptadas ao universo do século XXI e seus problemas. Hoje o homem comum conhece a ciência (ou a pseudociência, como diz Carl Sagan) e se utiliza(e) dela em seu cotidiano. Também por isso, as representações mais fantásticas ganham, muitas vezes, aspectos científicos. Surgem assim narrativas completas, em certa medida críveis, sobre o universo urbano moderno.
Andréa Neiva e Luciano R. Segura. Sem mistério: discutindo língua portuguesa, ano 2, n.º 12, p. 26-32 (com adaptações).
O pronome “se” refere-se a “lenda urbana” em