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O COLECIONADOR DE PALAVRAS
Por: Chico Viana. Disponível em: http://revistalingua.com.br/textos/blogponta/o-colecionador-de-palavras-342472-1.asp
Acesso em: 22 abr 2016
O hábito começou muito cedo. Dizia "papá" e
"mãmã" com um prazer especial em jogar com as sílabas.
"Pa... pá", "mã... mã" - os sons iam e voltavam até que ele
os guardava para depois, quando quisesse, brincar de
novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas ("bu... bu",
"pi... pi", "tó...tó"). Um dia teve febre e ouviu "dodói";
enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora
prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao
casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a
união lhe parecia perfeita, como em "croque" (sentia o
atrito de um fonema no outro), "bafo" (a palavra terminava
num sopro) ou "empecilho" (pronunciar essa foi um
obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram
como estranhos. "Erisipela", por exemplo. Ficaria bem para
designar um metal precioso ("Usava um colar de erisipela
legítima"), mas não para indicar uma doença. [...] Teve
pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não
combinava em nada com as ulcerações que havia em suas
pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga
ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas
para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas,
assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e
outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso.
O mais das vezes - foi aprendendo - o nome era uma falsa
aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da
coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir
as palavras conforme a semelhança que tinham com os
objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, "sanfona",
"crocodilo", "miosótis", "turmalina" (se bem que essa mais
parecesse nome de mulher) - e do outro "presidente",
"cadeira", "promotor", "recurso" (palavras que não
excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não
tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais
exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe
pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do
baú. Uma das primeiras que jogou fora foi "jucundo", cuja
hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste,
mas significava "alegre"). Trocou "jucundo" por
"meditabundo", palavra mais honesta e de acordo com seu
atual estado de espírito. Jogou fora também "vagar",
"flanar", "leviano", e por pouco não se livrava de "paciente"
("prudência", que ia substituir a outra, aconselhou-o a
esperar mais um pouco).
A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos,
mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia
transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi
inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o
impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar,
morria). Um dos novos termos foi "achaque", que
vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo
africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação
poética). Outro foi "próstata", que lhe pareceu o som de
uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi "tumor", que
ele sem graça botou no lugar de "humor".
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram
intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e
nada encontraram em seu interior. "Ele era meio tantã",
comentou a mulher. "Passava horas diante desse baú
vazio." Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos
poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
Chico Viana é doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor de português e
redação e assina no site de “Língua” o blog “Na ponta do lápis”. www.chicoviana.com
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- MorfologiaVerbosConjugaçãoFlexão Verbal de Pessoa
- MorfologiaVerbosConjugaçãoFlexão Verbal de Tempo
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O COLECIONADOR DE PALAVRAS
Por: Chico Viana. Disponível em: http://revistalingua.com.br/textos/blogponta/o-colecionador-de-palavras-342472-1.asp
Acesso em: 22 abr 2016
O hábito começou muito cedo. Dizia "papá" e
"mãmã" com um prazer especial em jogar com as sílabas.
"Pa... pá", "mã... mã" - os sons iam e voltavam até que ele
os guardava para depois, quando quisesse, brincar de
novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas ("bu... bu",
"pi... pi", "tó...tó"). Um dia teve febre e ouviu "dodói";
enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora
prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao
casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a
união lhe parecia perfeita, como em "croque" (sentia o
atrito de um fonema no outro), "bafo" (a palavra terminava
num sopro) ou "empecilho" (pronunciar essa foi um
obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram
como estranhos. "Erisipela", por exemplo. Ficaria bem para
designar um metal precioso ("Usava um colar de erisipela
legítima"), mas não para indicar uma doença. [...] Teve
pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não
combinava em nada com as ulcerações que havia em suas
pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga
ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas
para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas,
assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e
outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso.
O mais das vezes - foi aprendendo - o nome era uma falsa
aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da
coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir
as palavras conforme a semelhança que tinham com os
objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, "sanfona",
"crocodilo", "miosótis", "turmalina" (se bem que essa mais
parecesse nome de mulher) - e do outro "presidente",
"cadeira", "promotor", "recurso" (palavras que não
excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não
tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais
exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe
pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do
baú. Uma das primeiras que jogou fora foi "jucundo", cuja
hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste,
mas significava "alegre"). Trocou "jucundo" por
"meditabundo", palavra mais honesta e de acordo com seu
atual estado de espírito. Jogou fora também "vagar",
"flanar", "leviano", e por pouco não se livrava de "paciente"
("prudência", que ia substituir a outra, aconselhou-o a
esperar mais um pouco).
A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos,
mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia
transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi
inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o
impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar,
morria). Um dos novos termos foi "achaque", que
vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo
africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação
poética). Outro foi "próstata", que lhe pareceu o som de
uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi "tumor", que
ele sem graça botou no lugar de "humor".
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram
intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e
nada encontraram em seu interior. "Ele era meio tantã",
comentou a mulher. "Passava horas diante desse baú
vazio." Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos
poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
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O hábito começou muito cedo. Dizia "papá" e
"mãmã" com um prazer especial em jogar com as sílabas.
"Pa... pá", "mã... mã" - os sons iam e voltavam até que ele
os guardava para depois, quando quisesse, brincar de
novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas ("bu... bu",
"pi... pi", "tó...tó"). Um dia teve febre e ouviu "dodói";
enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora
prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao
casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a
união lhe parecia perfeita, como em "croque" (sentia o
atrito de um fonema no outro), "bafo" (a palavra terminava
num sopro) ou "empecilho" (pronunciar essa foi um
obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram
como estranhos. "Erisipela", por exemplo. Ficaria bem para
designar um metal precioso ("Usava um colar de erisipela
legítima"), mas não para indicar uma doença. [...] Teve
pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não
combinava em nada com as ulcerações que havia em suas
pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga
ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas
para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas,
assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e
outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso.
O mais das vezes - foi aprendendo - o nome era uma falsa
aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da
coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir
as palavras conforme a semelhança que tinham com os
objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, "sanfona",
"crocodilo", "miosótis", "turmalina" (se bem que essa mais
parecesse nome de mulher) - e do outro "presidente",
"cadeira", "promotor", "recurso" (palavras que não
excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não
tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais
exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe
pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do
baú. Uma das primeiras que jogou fora foi "jucundo", cuja
hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste,
mas significava "alegre"). Trocou "jucundo" por
"meditabundo", palavra mais honesta e de acordo com seu
atual estado de espírito. Jogou fora também "vagar",
"flanar", "leviano", e por pouco não se livrava de "paciente"
("prudência", que ia substituir a outra, aconselhou-o a
esperar mais um pouco).
A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos,
mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia
transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi
inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o
impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar,
morria). Um dos novos termos foi "achaque", que
vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo
africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação
poética). Outro foi "próstata", que lhe pareceu o som de
uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi "tumor", que
ele sem graça botou no lugar de "humor".
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram
intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e
nada encontraram em seu interior. "Ele era meio tantã",
comentou a mulher. "Passava horas diante desse baú
vazio." Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos
poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
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O hábito começou muito cedo. Dizia "papá" e
"mãmã" com um prazer especial em jogar com as sílabas.
"Pa... pá", "mã... mã" - os sons iam e voltavam até que ele
os guardava para depois, quando quisesse, brincar de
novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas ("bu... bu",
"pi... pi", "tó...tó"). Um dia teve febre e ouviu "dodói";
enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora
prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao
casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a
união lhe parecia perfeita, como em "croque" (sentia o
atrito de um fonema no outro), "bafo" (a palavra terminava
num sopro) ou "empecilho" (pronunciar essa foi um
obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram
como estranhos. "Erisipela", por exemplo. Ficaria bem para
designar um metal precioso ("Usava um colar de erisipela
legítima"), mas não para indicar uma doença. [...] Teve
pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não
combinava em nada com as ulcerações que havia em suas
pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga
ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas
para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas,
assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e
outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso.
O mais das vezes - foi aprendendo - o nome era uma falsa
aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da
coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir
as palavras conforme a semelhança que tinham com os
objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, "sanfona",
"crocodilo", "miosótis", "turmalina" (se bem que essa mais
parecesse nome de mulher) - e do outro "presidente",
"cadeira", "promotor", "recurso" (palavras que não
excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não
tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais
exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe
pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do
baú. Uma das primeiras que jogou fora foi "jucundo", cuja
hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste,
mas significava "alegre"). Trocou "jucundo" por
"meditabundo", palavra mais honesta e de acordo com seu
atual estado de espírito. Jogou fora também "vagar",
"flanar", "leviano", e por pouco não se livrava de "paciente"
("prudência", que ia substituir a outra, aconselhou-o a
esperar mais um pouco).
A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos,
mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia
transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi
inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o
impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar,
morria). Um dos novos termos foi "achaque", que
vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo
africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação
poética). Outro foi "próstata", que lhe pareceu o som de
uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi "tumor", que
ele sem graça botou no lugar de "humor".
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram
intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e
nada encontraram em seu interior. "Ele era meio tantã",
comentou a mulher. "Passava horas diante desse baú
vazio." Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos
poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
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"mãmã" com um prazer especial em jogar com as sílabas.
"Pa... pá", "mã... mã" - os sons iam e voltavam até que ele
os guardava para depois, quando quisesse, brincar de
novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas ("bu... bu",
"pi... pi", "tó...tó"). Um dia teve febre e ouviu "dodói";
enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora
prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao
casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a
união lhe parecia perfeita, como em "croque" (sentia o
atrito de um fonema no outro), "bafo" (a palavra terminava
num sopro) ou "empecilho" (pronunciar essa foi um
obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram
como estranhos. "Erisipela", por exemplo. Ficaria bem para
designar um metal precioso ("Usava um colar de erisipela
legítima"), mas não para indicar uma doença. [...] Teve
pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não
combinava em nada com as ulcerações que havia em suas
pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga
ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas
para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas,
assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e
outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso.
O mais das vezes - foi aprendendo - o nome era uma falsa
aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da
coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir
as palavras conforme a semelhança que tinham com os
objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, "sanfona",
"crocodilo", "miosótis", "turmalina" (se bem que essa mais
parecesse nome de mulher) - e do outro "presidente",
"cadeira", "promotor", "recurso" (palavras que não
excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não
tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais
exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe
pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do
baú. Uma das primeiras que jogou fora foi "jucundo", cuja
hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste,
mas significava "alegre"). Trocou "jucundo" por
"meditabundo", palavra mais honesta e de acordo com seu
atual estado de espírito. Jogou fora também "vagar",
"flanar", "leviano", e por pouco não se livrava de "paciente"
("prudência", que ia substituir a outra, aconselhou-o a
esperar mais um pouco).
A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos,
mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia
transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi
inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o
impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar,
morria). Um dos novos termos foi "achaque", que
vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo
africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação
poética). Outro foi "próstata", que lhe pareceu o som de
uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi "tumor", que
ele sem graça botou no lugar de "humor".
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram
intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e
nada encontraram em seu interior. "Ele era meio tantã",
comentou a mulher. "Passava horas diante desse baú
vazio." Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos
poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
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Em relação à Classificação ABC de materiais, pode-se
afirmar:
I. A Classe A é formada por um pequeno número de
itens.
II. Para as atividades de Normalização de Materiais, o
valor gasto no ano para cada material pode ser um
dos critérios usados para efetuar uma classificação
ABC.
III. Uma alternativa que atende a várias funções da
Administração de Material é efetuar a Classificação
ABC em função do custo unitário dos itens.
IV. O conjunto de itens da Classe C tem uma pequena
participação no resultado global objeto da
classificação.
Em atenção as assertivas acima, podemos afirmar que:
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Dentre as ferramentas disponíveis à Administração de
Recursos Humanos, uma extremamente importante é a
Avaliação de Desempenho. Sobre esta ferramenta,
podemos afirmar que:
I. Tem como objetivo diagnosticar e analisar o
desempenho individual e grupal dos funcionários,
promovendo o crescimento pessoal e profissional.
II. É um processo que serve para julgar ou estimar o
valor, a excelência e as qualidades de uma pessoa
e, sobretudo, a sua contribuição para o negócio da
organização.
III. Permite conhecer quais as necessidades de
treinamento e orientar ações e programas de
desenvolvimento.
IV. Proporciona informações para aumentos salariais,
promoções e transferências.
Em atenção as assertivas acima, podemos afirmar que:
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Nas licitações para aquisição de bens e serviços comuns será obrigatória a modalidade ___________, sendo preferencial a utilização da sua forma ____________. As palavras correspondentes as lacunas, em ordem, são?
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novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas ("bu... bu",
"pi... pi", "tó...tó"). Um dia teve febre e ouviu "dodói";
enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora
prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao
casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a
união lhe parecia perfeita, como em "croque" (sentia o
atrito de um fonema no outro), "bafo" (a palavra terminava
num sopro) ou "empecilho" (pronunciar essa foi um
obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram
como estranhos. "Erisipela", por exemplo. Ficaria bem para
designar um metal precioso ("Usava um colar de erisipela
legítima"), mas não para indicar uma doença. [...] Teve
pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não
combinava em nada com as ulcerações que havia em suas
pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga
ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas
para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas,
assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e
outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso.
O mais das vezes - foi aprendendo - o nome era uma falsa
aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da
coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir
as palavras conforme a semelhança que tinham com os
objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, "sanfona",
"crocodilo", "miosótis", "turmalina" (se bem que essa mais
parecesse nome de mulher) - e do outro "presidente",
"cadeira", "promotor", "recurso" (palavras que não
excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não
tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais
exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe
pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do
baú. Uma das primeiras que jogou fora foi "jucundo", cuja
hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste,
mas significava "alegre"). Trocou "jucundo" por
"meditabundo", palavra mais honesta e de acordo com seu
atual estado de espírito. Jogou fora também "vagar",
"flanar", "leviano", e por pouco não se livrava de "paciente"
("prudência", que ia substituir a outra, aconselhou-o a
esperar mais um pouco).
A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos,
mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia
transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi
inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o
impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar,
morria). Um dos novos termos foi "achaque", que
vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo
africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação
poética). Outro foi "próstata", que lhe pareceu o som de
uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi "tumor", que
ele sem graça botou no lugar de "humor".
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram
intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e
nada encontraram em seu interior. "Ele era meio tantã",
comentou a mulher. "Passava horas diante desse baú
vazio." Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos
poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
Chico Viana é doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor de português e
redação e assina no site de “Língua” o blog “Na ponta do lápis”. www.chicoviana.com
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Acesso em: 22 abr 2016
O hábito começou muito cedo. Dizia "papá" e
"mãmã" com um prazer especial em jogar com as sílabas.
"Pa... pá", "mã... mã" - os sons iam e voltavam até que ele
os guardava para depois, quando quisesse, brincar de
novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas ("bu... bu",
"pi... pi", "tó...tó"). Um dia teve febre e ouviu "dodói";
enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.
Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora
prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao
casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a
união lhe parecia perfeita, como em "croque" (sentia o
atrito de um fonema no outro), "bafo" (a palavra terminava
num sopro) ou "empecilho" (pronunciar essa foi um
obstáculo que venceu a duras penas).
Noutras vezes, achava que palavra e som eram
como estranhos. "Erisipela", por exemplo. Ficaria bem para
designar um metal precioso ("Usava um colar de erisipela
legítima"), mas não para indicar uma doença. [...] Teve
pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não
combinava em nada com as ulcerações que havia em suas
pernas.
Descompassos como esse lhe deram uma vaga
ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas
para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas,
assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e
outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso.
O mais das vezes - foi aprendendo - o nome era uma falsa
aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da
coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir
as palavras conforme a semelhança que tinham com os
objetos ou seres que designavam.
Agrupou de um lado, por exemplo, "sanfona",
"crocodilo", "miosótis", "turmalina" (se bem que essa mais
parecesse nome de mulher) - e do outro "presidente",
"cadeira", "promotor", "recurso" (palavras que não
excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não
tinha a curiosidade de saber o que significavam).
À medida que envelhecia, tornava-se mais
exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe
pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do
baú. Uma das primeiras que jogou fora foi "jucundo", cuja
hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste,
mas significava "alegre"). Trocou "jucundo" por
"meditabundo", palavra mais honesta e de acordo com seu
atual estado de espírito. Jogou fora também "vagar",
"flanar", "leviano", e por pouco não se livrava de "paciente"
("prudência", que ia substituir a outra, aconselhou-o a
esperar mais um pouco).
A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos,
mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia
transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi
inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o
impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar,
morria). Um dos novos termos foi "achaque", que
vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo
africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação
poética). Outro foi "próstata", que lhe pareceu o som de
uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi "tumor", que
ele sem graça botou no lugar de "humor".
Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram
intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e
nada encontraram em seu interior. "Ele era meio tantã",
comentou a mulher. "Passava horas diante desse baú
vazio." Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos
poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.
Chico Viana é doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor de português e
redação e assina no site de “Língua” o blog “Na ponta do lápis”. www.chicoviana.com
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