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Planejando seu texto: falado e escrito
Vamos supor que começássemos a escrever usando a mesma variedade da língua que se usa na fala: chamei ela, a casa que eu moro, tá bem etc. Isso não significaria, em absoluto, que os textos escritos ficariam idênticos ao que vou chamar, por comodidade, de textos falados. Acontece que há outras diferenças, que acabam sendo mais importantes do que as diferenças gramaticais, e que são impossíveis de eliminar, porque não decorrem de convenção social, mas das limitações e recursos do meio empregado: a fala ou a escrita.
Para dar um exemplo: um leitor pode diminuir a velocidade de leitura, e pode reler um trecho se achar que não entendeu direito. Mas um ouvinte não tem esses recursos: se não entendeu, precisa pedir ao falante que repita – e não pode ficar fazendo isso o tempo todo, para não perturbar a própria situação de comunicação, e acabarem os dois se confundindo na conversa. Isso tem consequências para a estruturação do texto. Um autor pode escrever de maneira muito mais sintética, sem repetições e construindo suas frases em um plano amplo, como por exemplo:
O Durval, que toma conta da escola, saiu correndo atrás dos meninos da terceira série, que tinham ido para a rua, a fim de vigiá-los.
Essa frase funciona perfeitamente na escrita. Mas se for falada desse jeito – e principalmente se as outras frases do texto forem todas estruturadas assim – vai ficar difícil de entender. O ouvinte, que não pode voltar atrás, pode não se lembrar de quem é que vai “vigiar”, ou quem são “-los”, ou quem é que tinha ido para a rua. Essa passagem apareceria (e, na verdade, apareceu) em um texto falado com a seguinte forma:
aí, saiu o Durval saiu correndo atrás dos menino, né, o que toma conta lá da escola, pra poder, saiu correndo atrás dos menino, poder tomar conta dos menino. Os menino tinha ido pra rua, menino da terceira série.
PERINI, Mário A. A língua do Brasil amanhã e outros mistérios.
São Paulo: Parábola Editorial, 2004. p. 65-67.
Considerando as versões escrita e falada do exemplo dado no texto, assinale a alternativa correta.
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Texto 5
Fala e escrita
Uma diversidade, muito sutil e falaz, é a que existe entre a fala e a escrita. […] O estudante já vem para a escola falando satisfatoriamente, embora seja em regra deficiente no registro formal do uso culto; o que ele domina plenamente é a linguagem familiar, na maioria dos casos. Como quer que seja, a técnica da língua escrita ele tem de aprender na escola. Os professores partem da ilusão de que, ensinando-a, estão ao mesmo tempo ensinando uma fala satisfatória. […]
A língua escrita se manifesta em condições muito diversas da língua oral. […] A fala se desdobra numa situação concreta, sob o estímulo de um falante ou vários falantes outros, bem individualizados. Uma e outra coisa desaparecem na língua escrita. Já aí se tem uma primeira e profunda diferença entre os dois tipos de comunicação linguística.
Depois, a escrita não reproduz fielmente a fala, como sugere a metáfora tantas vezes repetida de que “ela é a roupagem da língua oral”.
CAMARA Jr., Joaquim Mattoso. Estrutura da língua portuguesa. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1972. p. 9-10.
Texto 6
Fala e escrita
Uma primeira observação a ser feita é a que diz respeito ....... própria visão comparativa da relação entre fala e escrita. Quando se olha para ....... escrita tem-se a impressão de que se está contemplando algo naturalmente claro e definido. Tudo se passa como se ao nos referirmos ...... escrita estivéssemos apontando para um fenômeno se não homogêneo, pelo menos bastante estável e com pouca variação. O contrário ocorre com a consciência espontânea que se desenvolveu respeito da fala. Esta se apresenta como variada e, curiosamente, não nos vem ...... mente em primeira mão a fala padrão. É o caso de dizer que fala e escrita são intuitivamente construídas como tipos ideais concebidos com princípios opostos e que não correspondem ....... realidade alguma, a menos que identifiquemos um fenômeno que as realize.
A hipótese que defendemos supõe que: as diferenças entre fala e escrita se dão dentro do continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e não na relação dicotômica de dois polos opostos. [grifos do autor]
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita:
atividades de retextualização. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2007. p. 37.
Analise as afirmativas abaixo, considerando os textos 5 e 6.
1. Os autores dos dois textos compartilham a mesma visão acerca dos princípios de natureza cognitiva que regem a linguagem humana e, consequentemente, as semelhanças e diferenças entre fala e escrita.
2. Para Camara Jr., fala e escrita são dois tipos de comunicação que se distinguem basicamente por aspectos de natureza pragmática; para Marcuschi, fala e escrita refletem, em alguma medida, a organização da sociedade.
3. No texto 5, há implicitamente um juízo de valor acerca da preponderância da fala sobre a escrita; já no texto 6, há uma avaliação explícita que prioriza e sobrepõe a escrita à fala.
4. Uma situação de aula expositiva seria classificada, na perspectiva do texto 5, como um evento de fala; sob a ótica do texto 6, pode-se considerar a possibilidade de domínio misto, com mescla de leituras comentadas e exposições pessoais.
5. Tanto no texto 5 como no texto 6 está presente a ideia de que fala e escrita são códigos que se distinguem no sentido de que o segundo é representação espelhada do primeiro.
Assinale a alternativa que indica todas as afirmativas corretas.
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Texto 6
Fala e escrita
Uma primeira observação a ser feita é a que diz respeito ....... própria visão comparativa da relação entre fala e escrita. Quando se olha para ....... escrita tem-se a impressão de que se está contemplando algo naturalmente claro e definido. Tudo se passa como se ao nos referirmos ...... escrita estivéssemos apontando para um fenômeno se não homogêneo, pelo menos bastante estável e com pouca variação. O contrário ocorre com a consciência espontânea que se desenvolveu respeito da fala. Esta se apresenta como variada e, curiosamente, não nos vem ...... mente em primeira mão a fala padrão. É o caso de dizer que fala e escrita são intuitivamente construídas como tipos ideais concebidos com princípios opostos e que não correspondem ....... realidade alguma, a menos que identifiquemos um fenômeno que as realize.
A hipótese que defendemos supõe que: as diferenças entre fala e escrita se dão dentro do continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e não na relação dicotômica de dois polos opostos. [grifos do autor]
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita:
atividades de retextualização. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2007. p. 37.
Identifique abaixo as afirmativas verdadeiras ( V ) e as falsas ( F ) de acordo com texto 6.
( ) Infere-se do texto que Marcuschi estabelece um contraste entre fala e escrita: enquanto a primeira é concreta, simples e contextualizada, a segunda é abstrata, complexa e descontextualizada.
( ) O autor acredita que a diferença básica entre fala e escrita diz respeito à propriedade de heterogeneidade vs. homogeneidade, respectivamente.
( ) Segundo Marcuschi, a polarização entre fala e escrita é um construto teórico idealizado, não sujeito à verificação empírica.
( ) Deduz-se, a partir do último parágrafo, que fala e escrita se situam em um continuum que envolve gêneros textuais.
( ) Em conformidade com a hipótese defendida pelo autor, fala e escrita fazem parte do mesmo sistema da língua, sendo realizações de uma gramática única.
Assinale a alternativa que indica a sequência correta, de cima para baixo.
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Do prescritivismo preconceituoso ao normativismo racional
O que aqui defendemos é um prescritivismo funcional e ilustrado, que caracterizamos por três traços: relativismo, gradação e elasticidade. Um prescritivismo relativista, que proclama a importância pragmática e simbólica da diversidade linguística, reconhece o valor de cada uma das variedades da língua e assume a convencionalidade dos padrões. Um prescritivismo graduado, que sustenta que as prescrições têm mais força e validade para certos estilos de comunicação que para outros, e inclusive que carecem de justificação para alguns, ao mesmo tempo em que defende que as exigências de conformidade à língua normativa não devem ser as mesmas para todos os falantes em todas as situações. Um prescritivismo elástico, que postula que as normas linguísticas devem se oferecer como orientações para o comportamento linguístico e não se impor como ditames imperativos para o comum dos falantes. Resumindo, um prescritivismo atento ao uso comum, e preocupado com que os padrões linguísticos não se afastem desnecessariamente dele.
Com tais pressupostos, talvez estejamos mais bem equipados para responder aos desafios de uma melhora significativa, equitativamente compartilhada, das competências linguístico-comunicativas do conjunto dos falantes, e da imprescindível e urgente democratização dos complexos instrumentos de poder e de saber que são as línguas.
MONTEAGUDO, Henrique. Variação e norma linguística: subsídios para uma (re)visão.
In: LAGARES, Xoán C.; G BAGNO, Marcos (orgs.) Políticas da norma e conflitos linguísticos. São Paulo: Parábola Editorial, 2011. p. 46. [Adaptado]
Identifique abaixo as afirmativas verdadeiras ( V ) e as falsas ( F ), a partir do texto.
( ) O texto apresenta uma valoração positiva do autor em relação ao que ele concebe como “normativismo racional”.
( ) Infere-se que o “prescritivismo preconceituoso” seria dogmático, impositivo, rígido e alheio ao uso linguístico, em oposição ao “normativismo racional”.
( ) O “normativismo racional” é uma forma velada de prescritivismo, pois ainda defende o ensino da norma padrão como forma de empoderamento.
( ) A compreensão de uma norma linguística contextualizada, situada e variável traria efeitos benéficos para a democratização das línguas tomadas como instrumentos de poder.
( ) Os três traços que definem o prescritivismo funcional e ilustrado são incompatíveis entre si, pois mesclam concepções pragmáticas, discursivas e sociolinguísticas de língua.
Assinale a alternativa que indica a sequência correta, de cima para baixo.
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Texto 3
Os segredos
O que acontece às vezes com minha ignorância é que ela deixa de ser sentida como uma omissão e se torna quase palpável, assim como a escuridão, a gente às vezes parece que pode ser pegada. Quando é sentida como uma omissão, pode dar a sensação de mal-estar, uma sensação de não estar a par, enfim de ignorância mesmo. Quando ela se torna quase palpável como a escuridão, ela me ofende. O que ultimamente tem-me ofendido – e é uma ofensa mesmo porque dessa eu não tenho culpa, é uma ignorância que me é imposta – o que tem ultimamente me ofendido é sentir que em vários países há cientistas que mantêm em segredo coisas que revolucionariam meu modo de ver, de viver e de saber. Por que não contam o segredo? Porque precisam dele para criar novas coisas, e porque temem que a revelação cause pânico, por ser precoce ainda.
Então eu me sinto hoje mesmo como se estivesse na Idade Média. Sou roubada de minha própria época. Mas entenderia eu o segredo se me fosse revelado? Ah, haveria, tinha de haver um modo de eu me pôr em contato com ele.
Ao mesmo tempo estou cheia de esperanças no que o segredo encerra. Estão nos tratando como criança a quem não se assusta com verdades antes do tempo. Mas a criança sente que vem uma verdade por aí, sente como um rumor que não sabe de onde vem. E eu sinto um sussurro que promete. Pelo menos sei que há segredos, que o mundo físico e psíquico seria visto por mim de um modo totalmente novo – se ao menos eu soubesse. Eu tenho que ficar com a tênue alegria mínima do condicional “se eu soubesse”. Mas tenho que ter modéstia com a alegria. Quanto mais tênue é a alegria, mais difícil e mais precioso de captá-la – e mais amado o fio quase invisível da esperança de vir a saber.
LISPECTOR, Clarice. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. p. 32-33.
No que se refere a aspectos linguísticos do texto 3, considere as afirmativas abaixo.
1. Em “Quando é sentida como uma omissão, pode dar a sensação […]. Quando ela se torna quase palpável como a escuridão, ela me ofende.”, encontram-se evidências de variação na forma de realização do sujeito.
2. Alguns padrões de uso podem ser identificados no texto, tais como preenchimento de sujeito de primeira pessoa do singular e uso de clíticos.
3. No primeiro parágrafo, as construções “O que ultimamente tem-me ofendido” e “o que tem ultimamente me ofendido” evidenciam o uso variável de ordenação do pronome oblíquo.
4. A conjunção “mas”, em cada um dos empregos – “Mas entenderia eu o segredo […] (segundo parágrafo); “Mas a criança sente […]” e “Mas tenho que ter modéstia […] (terceiro parágrafo) –, estabelece relações lógico-semânticas de oposição ou adversidade entre dois fatos.
5. No primeiro parágrafo, em “de ignorância mesmo” e “é uma ofensa mesmo”, a palavra “mesmo” atua anaforicamente como instrumento de coesão textual, podendo ser chamada de determinante remissivo.
Assinale a alternativa que indica todas as afirmativas corretas.
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Texto 4
A construção dos sentidos no texto: coesão e coerência
Podemos conceituar a coesão como o fenômeno que diz respeito ao modo como os elementos linguísticos presentes na superfície textual se encontram interligados, por meio de recursos também linguísticos, formando sequências veiculadoras de sentidos. Existem duas grandes modalidades de coesão: a remissão e a sequenciação.
A coerência diz respeito ao modo como os elementos subjacentes à superfície textual vêm a constituir, na mente dos interlocutores, uma configuração veiculadora de sentidos. É resultado da atuação conjunta de uma série de fatores de ordem cognitiva, situacional, sociocultural e interacional. Embora coesão e coerência constituam fenômenos diferentes, opera-se, muitas vezes, uma imbricação entre eles por ocasião do processamento textual.
KOCH, Ingedore V. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1997. p. 35-45. [Adaptado].
Verifique se as afirmativas abaixo estão em consonância com o texto 4 e identifique as verdadeiras ( V ) e as falsas ( F ).
( ) A coerência não está no texto, mas é construída a partir dele.
( ) Em “Existem duas grandes modalidades de coesão: a remissão e a sequenciação.”, ocorre uma remissão por referenciação catafórica.
( ) O conhecimento compartilhado pelos interlocutores orienta a distribuição das informações no texto em termos de informação dada, nova e inferível. Esse é um caso típico de coesão textual por sequenciação.
( ) Na última frase do texto, o pronome pessoal “eles” ilustra um caso típico de coesão remissiva por inferenciação.
( ) Remissões por meio de diminutivos podem revelar carinho ou empatia, permitindo ao interlocutor depreender a orientação argumentativa que o produtor deseja imprimir ao seu discurso. Esse é um caso que ilustra a imbricação entre coesão e coerência.
Assinale a alternativa que indica a sequência correta, de cima para baixo.
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Teses
A jovem estudante queria ‘qualquer coisa, dona Célia, que fale sobre A mulher e seu condicionamento de explorada pelo machismo’. Era este o título da obra. ‘Vale muitos pontos, sabe?’ Cursava a última série do segundo grau e usava muito mal as palavras, o que me predispunha a uma raiva perigosa das escolas, que eu certamente iria descontar nela. Fiz de desentendida: condicionamento de explorada? É, ela falou meio confusa, essas coisas de apanhar de homem, ser estrupada, ganhar de menos que eles, a senhora entende, né? Serve uma poesia? Perguntei já com um autor na cabeça. Não, poesia, não, poesia é sempre coisa muito – como é que é gente? –, muito assim de leve, não é? E eu quero uma coisa forte, a senhora entende, a professora é fogo na jaca. Meio macha? Ah, dona Célia, como é que a senhora adivinhou? Eu estava gostando da tortura: então, você quer um texto em prosa? Em prosa? Repetiu como se ouvisse língua estrangeira. Não, decidiu categórica, não. Não é nem em poesia, nem em prosa. Quero é um artigo de umas vinte linhas, tipo artigo de jornal, arrematou quase doutora, olhando no relógio. Dá pra senhora fazer? Nem repare eu não entrar, tenho ainda pesquisa de ecologia pra fazer. A moça era muito bonita e preferia que fosse analfabeta. A deficientíssima instrução burlava nela algo muito delicado, punha em sua voz uns meios-tons acima do natural, tisnava de ansiedade sua respiração, com a horrível qualidade dos males inconscientes. É sal em carne podre, pensei, não vou fazer artigo nenhum. Primeiro, porque as mulheres são as culpadas de todo mal, portanto merecem o que sofrem. Segundo, porque não vou salvar a escola do Brasil, nem esta menina, escrevendo lugares-comuns sobre nossa condição. Terceiro porque não quero colaborar com esta mania estúpida das escolas de ‘trabalharem o folclore’, ‘trabalharem o social’ e o que mais seja, nestas ocasiões fixas como calendários lunares: trabalhinhos, textinhos, exposiçõezinhas, tudo como num ritual de boas maneiras. Nada desce aos intestinos, vero lugar da aprendizagem. Dia da Mulher? Ah, sei. E daí? Não posso te ajudar, não, Neide Ângela. Não?? Ela falou assustada. Mas vou te emprestar um livro. Livro? Ah, disse decepcionada demais. Não tenho tempo de ler, não, dona Célia, é matéria demais, uma outra hora a senhora me empresta. Tão bonita ela, podia cuidar da vida enquanto descobria sua vocação real, ser uma manicura competente, uma doceira de fama, mas não, quer ‘fazer faculdade’. Quer porque quer. De quem é a culpa, já que as escolas são ma-ra-vi-lho-sas? Ela periga tomar bomba. Está aí, vou contribuir caprichadamente para que ela tome bomba, para que volte este acontecimento formidável da escola antiga, a Bomba, e recuperemos todos a capacidade de sentir medo e respeito. E nem vale ela me olhar com este olhar pidão.
PRADO, Adélia. Filandras. Rio de Janeiro: Record, 2001. p.129-131.
Em relação ao texto, selecione a alternativa correta.
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Planejando seu texto: falado e escrito
Vamos supor que começássemos a escrever usando a mesma variedade da língua que se usa na fala: chamei ela, a casa que eu moro, tá bem etc. Isso não significaria, em absoluto, que os textos escritos ficariam idênticos ao que vou chamar, por comodidade, de textos falados. Acontece que há outras diferenças, que acabam sendo mais importantes do que as diferenças gramaticais, e que são impossíveis de eliminar, porque não decorrem de convenção social, mas das limitações e recursos do meio empregado: a fala ou a escrita.
Para dar um exemplo: um leitor pode diminuir a velocidade de leitura, e pode reler um trecho se achar que não entendeu direito. Mas um ouvinte não tem esses recursos: se não entendeu, precisa pedir ao falante que repita – e não pode ficar fazendo isso o tempo todo, para não perturbar a própria situação de comunicação, e acabarem os dois se confundindo na conversa. Isso tem consequências para a estruturação do texto. Um autor pode escrever de maneira muito mais sintética, sem repetições e construindo suas frases em um plano amplo, como por exemplo:
O Durval, que toma conta da escola, saiu correndo atrás dos meninos da terceira série, que tinham ido para a rua, a fim de vigiá-los.
Essa frase funciona perfeitamente na escrita. Mas se for falada desse jeito – e principalmente se as outras frases do texto forem todas estruturadas assim – vai ficar difícil de entender. O ouvinte, que não pode voltar atrás, pode não se lembrar de quem é que vai “vigiar”, ou quem são “-los”, ou quem é que tinha ido para a rua. Essa passagem apareceria (e, na verdade, apareceu) em um texto falado com a seguinte forma:
aí, saiu o Durval saiu correndo atrás dos menino, né, o que toma conta lá da escola, pra poder, saiu correndo atrás dos menino, poder tomar conta dos menino. Os menino tinha ido pra rua, menino da terceira série.
PERINI, Mário A. A língua do Brasil amanhã e outros mistérios.
São Paulo: Parábola Editorial, 2004. p. 65-67.
Considere os trechos extraídos do texto.
1. “Para dar um exemplo: um leitor pode diminuir a velocidade de leitura, e pode reler um trecho se achar que não entendeu direito. Mas um ouvinte não tem esses recursos: se não entendeu, precisa pedir ao falante que repita – e não pode ficar fazendo isso o tempo todo, para não perturbar a própria situação de comunicação, e acabarem os dois se confundindo na conversa.”
2. “O ouvinte, que não pode voltar atrás, pode não se lembrar de quem é que vai ‘vigiar’, ou quem são ‘-los’, ou quem é que tinha ido para a rua.”
Identifique abaixo as afirmativas verdadeiras ( V ) e as falsas ( F ).
( ) Em 1, o artigo indefinido, sublinhado nas duas ocorrências, particulariza, respectivamente, um leitor e um ouvinte específico que o autor tem em mente.
( ) Em 1, a ordenação das sentenças condicionais sublinhadas relativamente às respectivas principais promove a manutenção do paralelismo estrutural entre os períodos.
( ) Em 1, “esses recursos” e “isso” são mecanismos coesivos para indicar progressão referencial, caracterizados, respectivamente, como uso de descrição definida e de forma remissiva demonstrativa.
( ) Em 2, as duas orações sublinhadas apresentam valores distintos para o auxiliar modal “poder”: modalidade voltada ao eixo da conduta e modalidade voltada ao eixo da possibilidade epistêmica, respectivamente.
( ) Em 2, as duas ocorrências de “é que” sinalizam focalização do conteúdo de orações objetivas diretas.
Assinale a alternativa que indica a sequência correta, de cima para baixo.
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Considere a citação abaixo:
“A causalidade é uma macrorrelação que se especifica por meio de quatro valores: causa, condição, consequência e finalidade.”
(AZEREDO, 2008. p. 323.)
Identifique se são verdadeiras ( V ) ou falsas ( F ) as relações semânticas indicadas a seguir.
( ) Você pode usar os aparelhos para treinar, contanto que deixe a sala liberada antes das 17 h. (condição)
( ) Bastou uma discussão entre as crianças para que elas fossem tachadas de agressivas. (consequência)
( ) A criança já está bem crescidinha para continuar dormindo no quarto dos pais. (finalidade)
( ) Não pararam nenhuma vez durante a viagem posto que estivessem cansados. (causa)
( ) O atleta não pretende mudar de clube, a menos que a proposta seja muito boa. (condição)
Assinale a alternativa que indica a sequência correta, de cima para baixo.
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Texto 2
Norma prescritiva & escrita literária
As obras dos grandes poetas e ficcionistas representam produções linguísticas em gêneros escritos bastante particulares – usar essas produções como modelo a ser descrito e/ou prescrito implicaria na omissão e desconsideração de todos os demais usos da língua. Assim, se os gramáticos podem colher, nas obras literárias, exemplos de usos “corretos” das estruturas gramaticais do idioma, também seria possível coletar, nessas mesmas obras, exemplos contrários, isto é, de usos não “exemplares”, de usos que contrariam precisamente as regras prescritas como “melhores” ou “mais recomendáveis” pelos mesmos gramáticos. As duas práticas são injustificáveis, uma vez que ambas traem o objetivo do escritor, que não é transformar-se em régua para medir os usos linguísticos de todos os demais usuários da língua, mas, sim, construir obras de arte que lhe permitam dar vazão à sua necessidade de expressão, a seu desejo de comunicação, à sua ânsia de criação.
***
A maior parte das citações extraídas de Laços de Família mostra que Cunha & Cintra, responsáveis pela Nova gramática do português contemporâneo, conseguiram realizar uma façanha e tanto: encontrar em Clarice Lispector frases banais, construções sintáticas básicas, que qualquer falante nativo de português minimamente letrado poderia escrever, não havendo necessidade de extraí-las da obra de uma escritora deste porte. É quase como se os gramáticos quisessem evitar mostrar precisamente o que há de “efeito mágico” na linguagem da ficcionista… Alguns exemplos:
Mas – quem daria dinheiro aos pobres? (p. 140)
Vivi com Daniel perto de dois anos. (p. 148)
Acerca do emprego dos pronomes ele, ela, eles, elas como objeto direto, assim se manifestam Cunha & Cintra (p. 281):
Na fala vulgar e familiar do Brasil é muito frequente o uso do pronome ele(s), ela(s) como objeto direto em frases do tipo:
Vi ele. Encontrei ela.
Embora esta construção tenha raízes antigas no idioma, pois se documenta em escritores portugueses dos séculos XIII e XIV, deve ser hoje evitada.
Só que essa construção “vulgar e familiar” que supostamente deve ser “evitada” (mas por quê? por ser uma “interferência da fala na escrita”?) ocorre em A hora da estrela, de Lispector, a mesma escritora que é chamada na gramática de Cunha & Cintra a oferecer exemplos de uso correto:
Se sei quase tudo de Macabéa é que já peguei uma vez de relance o olhar de uma nordestina amarelada. Esse relance me deu ela de corpo inteiro. (p. 57).
BAGNO, Marcos. In: CORREA, D. A.; SALEH, P. B. de O. (Org.) Práticas de letramento no ensino:
leitura, escrita e discurso. São Paulo: Parábola Editorial; Ponta Grossa, PR: UEPG, 2007. p. 28-38. [Adaptado.]
Considerando o texto 2, analise as afirmativas abaixo tendo em vista a organização textual e a norma culta da língua portuguesa.
1. Na primeira frase do texto, em “implicaria na omissão”, ocorre um uso inovador da preposição em, provavelmente por influência de sinônimos como ‘redundar’ e ‘resultar’.
2. Na terceira frase do texto, em “[…] não é transformar-se em régua para medir os usos linguísticos de todos os demais usuários da língua, mas, sim, construir obras de arte […]”, a substituição de “mas” por “e” resultaria em: “[…] não é transformar-se em régua para medir os usos linguísticos de todos os demais usuários da língua, e sim construir obras de arte […]”.
3. Na terceira frase do texto, em “[…] dar vazão à sua necessidade de expressão, a seu desejo de comunicação, à sua ânsia de criação”, o sinal indicativo de crase poderia, por paralelismo estrutural, ser excluído.
4. No segundo parágrafo, em “A maior parte das citações extraídas de Laços de Família mostra que […]”, o verbo deveria estar no plural em concordância com “citações”.
5. No segundo parágrafo, em “É quase como se os gramáticos quisessem evitar mostrar”, a preposição “de” deveria ser inserida entre os dois verbos no infinitivo.
Assinale a alternativa que indica todas as afirmativas corretas.
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