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A função social da escola
Todos nos desenvolvemos em diferentes contextos educativos, e a escola é apenas um deles. Assim como sucede atualmente em muitas culturas, na nossa também não existia escola
até um momento histórico bastante recente. Diante da falta das
instituições de educação formal, a tarefa de fazer com que os
novos membros façam parte do grupo social correspondente,
desenvolvendo neles as capacidades próprias de sua cultura, é
garantida mediante outro tipo de práticas sociais, fundamentalmente aquelas que se desenvolvem no contexto da família e dos
grupos de pares, e mediante a progressiva incorporação das crianças e dos jovens às atividades produtivas dos adultos. Nesses
casos, a socialização e o desenvolvimento individual dos membros das novas gerações se tornam possíveis graças à sua
participação nas atividades e práticas sociais que ocorrem em
tais contextos de desenvolvimento (Solé, 1998).
Nas sociedades modernas, o aumento do conhecimento e
da especialização exige novas aprendizagens cuja aquisição não
pode ser garantida mediante a participação desses tipos de práticas e de atividades, mas requer uma ajuda intencional, planejada e sistemática. A institucionalização da educação escolar no
decorrer do século XIX, assim como sua universalização e ampliação progressiva durante o século XX são justificadas pelo fato
de que tal ajuda é decisiva para que crianças e jovens possam
adquirir e desenvolver determinadas capacidades consideradas
fundamentais no grupo social do qual fazem parte. Embora seja
evidente que, objetivamente, a instituição escolar desempenha
muitas outras funções – transmissão da cultura, construção da
identidade nacional, reprodução da ordem social, formação da
mão de obra de acordo com as exigências do mercado de trabalho etc. – a existência da educação escolar, especialmente, em
seus níveis básicos e obrigatórios, só se legitima plenamente
mediante sua indispensável função de contribuir para que as crianças e os jovens adquiram e desenvolvam as competências necessárias para se incorporarem como membros de pleno direito
à sociedade à qual pertencem.
Desse ponto de vista, a escola é uma instituição utilizada
pela sociedade para oferecer aos membros das novas gerações
as experiências de aprendizagem que lhes permitam se incorporar ativa e criticamente a ela. A importância de sua função justifica que a escolarização seja considerada um direito de qualquer
cidadão, e seu descumprimento represente um ataque à igualdade de oportunidades (Puelles, 1996). A escola assim entendida é
um dos recursos educativos que os grupos sociais possuem, assim como é depositária de uma missão concreta. De fato, ao
contrário do que sucede na maioria dos outros contextos de desenvolvimento, a instituição escolar precisa definir explicitamente suas intenções educativas, isto é, estabelecer sua parcela
de responsabilidade na tarefa de contribuir com o desenvolvimento e com a socialização das pessoas.
(COLL, César; MARTÍN, Elena. Aprender conteúdos e desenvolver
capacidades. Porto Alegre: Artmed, 2004. Adaptado.)
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A função social da escola
Todos nos desenvolvemos em diferentes contextos educativos, e a escola é apenas um deles. Assim como sucede atualmente em muitas culturas, na nossa também não existia escola
até um momento histórico bastante recente. Diante da falta das
instituições de educação formal, a tarefa de fazer com que os
novos membros façam parte do grupo social correspondente,
desenvolvendo neles as capacidades próprias de sua cultura, é
garantida mediante outro tipo de práticas sociais, fundamentalmente aquelas que se desenvolvem no contexto da família e dos
grupos de pares, e mediante a progressiva incorporação das crianças e dos jovens às atividades produtivas dos adultos. Nesses
casos, a socialização e o desenvolvimento individual dos membros das novas gerações se tornam possíveis graças à sua
participação nas atividades e práticas sociais que ocorrem em
tais contextos de desenvolvimento (Solé, 1998).
Nas sociedades modernas, o aumento do conhecimento e
da especialização exige novas aprendizagens cuja aquisição não
pode ser garantida mediante a participação desses tipos de práticas e de atividades, mas requer uma ajuda intencional, planejada e sistemática. A institucionalização da educação escolar no
decorrer do século XIX, assim como sua universalização e ampliação progressiva durante o século XX são justificadas pelo fato
de que tal ajuda é decisiva para que crianças e jovens possam
adquirir e desenvolver determinadas capacidades consideradas
fundamentais no grupo social do qual fazem parte. Embora seja
evidente que, objetivamente, a instituição escolar desempenha
muitas outras funções – transmissão da cultura, construção da
identidade nacional, reprodução da ordem social, formação da
mão de obra de acordo com as exigências do mercado de trabalho etc. – a existência da educação escolar, especialmente, em
seus níveis básicos e obrigatórios, só se legitima plenamente
mediante sua indispensável função de contribuir para que as crianças e os jovens adquiram e desenvolvam as competências necessárias para se incorporarem como membros de pleno direito
à sociedade à qual pertencem.
Desse ponto de vista, a escola é uma instituição utilizada
pela sociedade para oferecer aos membros das novas gerações
as experiências de aprendizagem que lhes permitam se incorporar ativa e criticamente a ela. A importância de sua função justifica que a escolarização seja considerada um direito de qualquer
cidadão, e seu descumprimento represente um ataque à igualdade de oportunidades (Puelles, 1996). A escola assim entendida é
um dos recursos educativos que os grupos sociais possuem, assim como é depositária de uma missão concreta. De fato, ao
contrário do que sucede na maioria dos outros contextos de desenvolvimento, a instituição escolar precisa definir explicitamente suas intenções educativas, isto é, estabelecer sua parcela
de responsabilidade na tarefa de contribuir com o desenvolvimento e com a socialização das pessoas.
(COLL, César; MARTÍN, Elena. Aprender conteúdos e desenvolver
capacidades. Porto Alegre: Artmed, 2004. Adaptado.)
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O excerto contextualiza a questão.
Num vilarejo da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-
-me, há muito tempo vivia um fidalgo dos de lança em lanceiro,
adarga antiga, rocim magro e cão corredor. Uma olha com algo
mais de vaca que de carneiro, salpicão na maioria das noites, duelos y quebrantos aos sábados, lentilhas às sextas, algum pombinho
como prato especial aos domingos consumiam três quartos de sua
renda. O restante dela, acabavam-no saio de velarte, calças de veludo para os dias santos, com seus pantufos do mesmo pano e nos
dias de semana se honrava com sua burelina de mais fina.
(CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. O engenhoso fidalgo D. Quixote da
Mancha. Tradução de José Sánchez e Carlos Nougué. São Paulo: Abril,
2010. p. 51.)
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O excerto contextualiza a questão.
Num vilarejo da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-
-me, há muito tempo vivia um fidalgo dos de lança em lanceiro,
adarga antiga, rocim magro e cão corredor. Uma olha com algo
mais de vaca que de carneiro, salpicão na maioria das noites, duelos y quebrantos aos sábados, lentilhas às sextas, algum pombinho
como prato especial aos domingos consumiam três quartos de sua
renda. O restante dela, acabavam-no saio de velarte, calças de veludo para os dias santos, com seus pantufos do mesmo pano e nos
dias de semana se honrava com sua burelina de mais fina.
(CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. O engenhoso fidalgo D. Quixote da
Mancha. Tradução de José Sánchez e Carlos Nougué. São Paulo: Abril,
2010. p. 51.)
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O excerto contextualiza a questão.
Num vilarejo da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-
-me, há muito tempo vivia um fidalgo dos de lança em lanceiro,
adarga antiga, rocim magro e cão corredor. Uma olha com algo
mais de vaca que de carneiro, salpicão na maioria das noites, duelos y quebrantos aos sábados, lentilhas às sextas, algum pombinho
como prato especial aos domingos consumiam três quartos de sua
renda. O restante dela, acabavam-no saio de velarte, calças de veludo para os dias santos, com seus pantufos do mesmo pano e nos
dias de semana se honrava com sua burelina de mais fina.
(CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. O engenhoso fidalgo D. Quixote da
Mancha. Tradução de José Sánchez e Carlos Nougué. São Paulo: Abril,
2010. p. 51.)
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Texto para responder à questão.
As palavras e nós
A língua é viva e pertence aos usuários. Regras consagradas mudam. A grande questão é que existe um equilíbrio desejável entre a tradição e o uso do Português, por exemplo. Sim, a
língua não pertence apenas aos especialistas. É justo supor que
ela também não é só minha.
Shakespeare inventou muitas palavras. Algum tradicionalista que invoque os grandes autores do passado, em relação ao Inglês, deveria imaginar que clássicos eram, também, transgressores. Guimarães Rosa era um gênio da composição de termos não dicionarizados ou de usos linguísticos
pouco usuais. Difícil saber se o autor do Grande Sertão: Veredas
inventava ou apenas registrava oralidades e falas populares mineiras. Quando alguém me diz que temos de imitar os clássicos,
sempre imagino que a pessoa saiba pouco da capacidade inventiva e rebelde de escritores de primeira linha.
Devo e posso adaptar os usos da língua ao momento atual.
“Delivery”, abaixo do Equador, não existia há poucos anos. Hoje,
é termo necessário. Profetizo vida longa a “air bag”, “milk
shake”, “trailer” e “shopping center”. Num dia, podem vestir trajes adequados à última flor do Lácio. Assim ocorreu com os termos basquete, iate, uísque e xampu (grafo sem aspas ou itálico,
porque eram anglicismos que foram adaptados). Eram convidados com passaporte estrangeiro; hoje, pertencem ao time verde
e amarelo.
Os termos de origem francesa ou inglesa interagem sem
um debate forte. A língua tropeça quando estamos falando dos
novos usos de gênero. Usar o masculino, implicando toda a espécie humana, é norma vigente há séculos. Reconheçamos: a
norma nasceu de um mundo patriarcal e misógino. Evita-se o
feminino não apenas como prática gramatical, todavia pela exclusão real das mulheres. Gramática tem gênero, ideologia e
preconceito. É estranho querer manter uma norma da época de
Dom Dinis (1261-1325) lendo um texto no seu smartphone contemporâneo. A língua não é de pedra, nem é de vapor. Ela não
me pertence; ela não me ignora.
Gosto de usar “todas e todos” para abandonar o invisível
do feminino. Não tenho raiva, mas ainda não consigo empregar
regularmente “todes”. Acho exótico grafar txdxs, deixando o x
como incógnita a ser preenchida pela identidade de cada pessoa.
Vamos refletir. Uma pessoa tem raiva porque vê “todes”.
Alega que isso não existe. Se eu escrevi e alguns usam, existe.
Porém, a mesma pessoa não apresenta raiva contra as outras
mudanças. Vejamos. “Vossa Mercê” era usado apenas para os
reis que concediam benefícios, mercês. O “vós” também era exclusivo de altos aristocratas. No fim da Idade Média, pelo uso,
grandes comerciantes passaram a usar Vossa Mercê entre si. Na
Idade Moderna, Vossa Mercê reduziu-se para “você”. Eclodem formas populares no Brasil como “vosmecê”. Claro: o uso do
você encontrou vozes contrárias. Avancemos para o mundo
da digitação. A forma sem vogais é quase consagrada: “vc”.
Que “você” seja uma palavra consagrada sem disputas,
mas o uso de “todas e todos” desperte tantos debates é apenas
sinal de que os irritados nunca estudaram linguística ou gramática histórica. Volto a dizer: eu estranho “todes”.
Em 2050, na prova de Redação no Enem, pode existir uma
questão sobre os tempos primitivos quando um grupo impunha
o masculino, subentendendo o feminino. Lembre-se disto: pelas
normas atuais, Camões não seria aprovado em prova de redação.
(KARNAL, Leandro. As palavras e nós. O Estado de S. Paulo. São Paulo,
ano 143, nº. 47115, 16 out., 2022. Cultura & Comportamento, p. C12.
Adaptado.)
( ) Em “Hoje, é termo necessário.”, a ordem dos termos da oração está inversa, caracterizando um hipérbato.
( ) Em “Ela não me pertence; ela não me ignora”, a ausência de conjunção ligando as duas orações caracteriza um polissíndeto.
( ) Em “A língua é viva e pertence aos usuários.”, há a omissão de um termo facilmente identificável no contexto, o que caracteriza uma elipse.
( ) Em “Usar o masculino, implicando toda a espécie humana, é norma vigente a séculos.”, a oração intercalada nesse período caracteriza um anacoluto.
A sequência está correta em
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Texto para responder à questão.
As palavras e nós
A língua é viva e pertence aos usuários. Regras consagradas mudam. A grande questão é que existe um equilíbrio desejável entre a tradição e o uso do Português, por exemplo. Sim, a
língua não pertence apenas aos especialistas. É justo supor que
ela também não é só minha.
Shakespeare inventou muitas palavras. Algum tradicionalista que invoque os grandes autores do passado, em relação ao Inglês, deveria imaginar que clássicos eram, também, transgressores. Guimarães Rosa era um gênio da composição de termos não dicionarizados ou de usos linguísticos
pouco usuais. Difícil saber se o autor do Grande Sertão: Veredas
inventava ou apenas registrava oralidades e falas populares mineiras. Quando alguém me diz que temos de imitar os clássicos,
sempre imagino que a pessoa saiba pouco da capacidade inventiva e rebelde de escritores de primeira linha.
Devo e posso adaptar os usos da língua ao momento atual.
“Delivery”, abaixo do Equador, não existia há poucos anos. Hoje,
é termo necessário. Profetizo vida longa a “air bag”, “milk
shake”, “trailer” e “shopping center”. Num dia, podem vestir trajes adequados à última flor do Lácio. Assim ocorreu com os termos basquete, iate, uísque e xampu (grafo sem aspas ou itálico,
porque eram anglicismos que foram adaptados). Eram convidados com passaporte estrangeiro; hoje, pertencem ao time verde
e amarelo.
Os termos de origem francesa ou inglesa interagem sem
um debate forte. A língua tropeça quando estamos falando dos
novos usos de gênero. Usar o masculino, implicando toda a espécie humana, é norma vigente há séculos. Reconheçamos: a
norma nasceu de um mundo patriarcal e misógino. Evita-se o
feminino não apenas como prática gramatical, todavia pela exclusão real das mulheres. Gramática tem gênero, ideologia e
preconceito. É estranho querer manter uma norma da época de
Dom Dinis (1261-1325) lendo um texto no seu smartphone contemporâneo. A língua não é de pedra, nem é de vapor. Ela não
me pertence; ela não me ignora.
Gosto de usar “todas e todos” para abandonar o invisível
do feminino. Não tenho raiva, mas ainda não consigo empregar
regularmente “todes”. Acho exótico grafar txdxs, deixando o x
como incógnita a ser preenchida pela identidade de cada pessoa.
Vamos refletir. Uma pessoa tem raiva porque vê “todes”.
Alega que isso não existe. Se eu escrevi e alguns usam, existe.
Porém, a mesma pessoa não apresenta raiva contra as outras
mudanças. Vejamos. “Vossa Mercê” era usado apenas para os
reis que concediam benefícios, mercês. O “vós” também era exclusivo de altos aristocratas. No fim da Idade Média, pelo uso,
grandes comerciantes passaram a usar Vossa Mercê entre si. Na
Idade Moderna, Vossa Mercê reduziu-se para “você”. Eclodem formas populares no Brasil como “vosmecê”. Claro: o uso do
você encontrou vozes contrárias. Avancemos para o mundo
da digitação. A forma sem vogais é quase consagrada: “vc”.
Que “você” seja uma palavra consagrada sem disputas,
mas o uso de “todas e todos” desperte tantos debates é apenas
sinal de que os irritados nunca estudaram linguística ou gramática histórica. Volto a dizer: eu estranho “todes”.
Em 2050, na prova de Redação no Enem, pode existir uma
questão sobre os tempos primitivos quando um grupo impunha
o masculino, subentendendo o feminino. Lembre-se disto: pelas
normas atuais, Camões não seria aprovado em prova de redação.
(KARNAL, Leandro. As palavras e nós. O Estado de S. Paulo. São Paulo,
ano 143, nº. 47115, 16 out., 2022. Cultura & Comportamento, p. C12.
Adaptado.)
I. Em “Eram convidados com passaporte estrangeiro; hoje, pertencem ao time verde e amarelo.”, o uso do ponto e vírgula está adequado, pois separam orações coordenadas que já apresentam vírgula.
II. Em “Gramática tem gênero, ideologia e preconceito.”, a vírgula foi usada com a mesma finalidade que as vírgulas empregadas neste trecho: “Assim ocorreu com os termos basquete, iate, uísque e xampu [...].”, no caso, separar os elementos formadores de um termo composto.
III. Em “Algum tradicionalista que invoque os grandes autores do passado, em relação ao Inglês, deveria imaginar que clássicos eram, também, transgressores.”, a ausência de vírgula antes da palavra “que” implica desvio da norma padrão, uma vez que o sentido da oração é explicativo e não restritivo.
Está correto o que se afirma apenas em
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- SemânticaSinônimos e Antônimos
- Interpretação de TextosCoesão e Coerência
- Interpretação de TextosSubstituição/Reescritura de Texto
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A língua é viva e pertence aos usuários. Regras consagradas mudam. A grande questão é que existe um equilíbrio desejável entre a tradição e o uso do Português, por exemplo. Sim, a
língua não pertence apenas aos especialistas. É justo supor que
ela também não é só minha.
Shakespeare inventou muitas palavras. Algum tradicionalista que invoque os grandes autores do passado, em relação ao Inglês, deveria imaginar que clássicos eram, também, transgressores. Guimarães Rosa era um gênio da composição de termos não dicionarizados ou de usos linguísticos
pouco usuais. Difícil saber se o autor do Grande Sertão: Veredas
inventava ou apenas registrava oralidades e falas populares mineiras. Quando alguém me diz que temos de imitar os clássicos,
sempre imagino que a pessoa saiba pouco da capacidade inventiva e rebelde de escritores de primeira linha.
Devo e posso adaptar os usos da língua ao momento atual.
“Delivery”, abaixo do Equador, não existia há poucos anos. Hoje,
é termo necessário. Profetizo vida longa a “air bag”, “milk
shake”, “trailer” e “shopping center”. Num dia, podem vestir trajes adequados à última flor do Lácio. Assim ocorreu com os termos basquete, iate, uísque e xampu (grafo sem aspas ou itálico,
porque eram anglicismos que foram adaptados). Eram convidados com passaporte estrangeiro; hoje, pertencem ao time verde
e amarelo.
Os termos de origem francesa ou inglesa interagem sem
um debate forte. A língua tropeça quando estamos falando dos
novos usos de gênero. Usar o masculino, implicando toda a espécie humana, é norma vigente há séculos. Reconheçamos: a
norma nasceu de um mundo patriarcal e misógino. Evita-se o
feminino não apenas como prática gramatical, todavia pela exclusão real das mulheres. Gramática tem gênero, ideologia e
preconceito. É estranho querer manter uma norma da época de
Dom Dinis (1261-1325) lendo um texto no seu smartphone contemporâneo. A língua não é de pedra, nem é de vapor. Ela não
me pertence; ela não me ignora.
Gosto de usar “todas e todos” para abandonar o invisível
do feminino. Não tenho raiva, mas ainda não consigo empregar
regularmente “todes”. Acho exótico grafar txdxs, deixando o x
como incógnita a ser preenchida pela identidade de cada pessoa.
Vamos refletir. Uma pessoa tem raiva porque vê “todes”.
Alega que isso não existe. Se eu escrevi e alguns usam, existe.
Porém, a mesma pessoa não apresenta raiva contra as outras
mudanças. Vejamos. “Vossa Mercê” era usado apenas para os
reis que concediam benefícios, mercês. O “vós” também era exclusivo de altos aristocratas. No fim da Idade Média, pelo uso,
grandes comerciantes passaram a usar Vossa Mercê entre si. Na
Idade Moderna, Vossa Mercê reduziu-se para “você”. Eclodem formas populares no Brasil como “vosmecê”. Claro: o uso do
você encontrou vozes contrárias. Avancemos para o mundo
da digitação. A forma sem vogais é quase consagrada: “vc”.
Que “você” seja uma palavra consagrada sem disputas,
mas o uso de “todas e todos” desperte tantos debates é apenas
sinal de que os irritados nunca estudaram linguística ou gramática histórica. Volto a dizer: eu estranho “todes”.
Em 2050, na prova de Redação no Enem, pode existir uma
questão sobre os tempos primitivos quando um grupo impunha
o masculino, subentendendo o feminino. Lembre-se disto: pelas
normas atuais, Camões não seria aprovado em prova de redação.
(KARNAL, Leandro. As palavras e nós. O Estado de S. Paulo. São Paulo,
ano 143, nº. 47115, 16 out., 2022. Cultura & Comportamento, p. C12.
Adaptado.)
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As palavras e nós
A língua é viva e pertence aos usuários. Regras consagradas mudam. A grande questão é que existe um equilíbrio desejável entre a tradição e o uso do Português, por exemplo. Sim, a
língua não pertence apenas aos especialistas. É justo supor que
ela também não é só minha.
Shakespeare inventou muitas palavras. Algum tradicionalista que invoque os grandes autores do passado, em relação ao Inglês, deveria imaginar que clássicos eram, também, transgressores. Guimarães Rosa era um gênio da composição de termos não dicionarizados ou de usos linguísticos
pouco usuais. Difícil saber se o autor do Grande Sertão: Veredas
inventava ou apenas registrava oralidades e falas populares mineiras. Quando alguém me diz que temos de imitar os clássicos,
sempre imagino que a pessoa saiba pouco da capacidade inventiva e rebelde de escritores de primeira linha.
Devo e posso adaptar os usos da língua ao momento atual.
“Delivery”, abaixo do Equador, não existia há poucos anos. Hoje,
é termo necessário. Profetizo vida longa a “air bag”, “milk
shake”, “trailer” e “shopping center”. Num dia, podem vestir trajes adequados à última flor do Lácio. Assim ocorreu com os termos basquete, iate, uísque e xampu (grafo sem aspas ou itálico,
porque eram anglicismos que foram adaptados). Eram convidados com passaporte estrangeiro; hoje, pertencem ao time verde
e amarelo.
Os termos de origem francesa ou inglesa interagem sem
um debate forte. A língua tropeça quando estamos falando dos
novos usos de gênero. Usar o masculino, implicando toda a espécie humana, é norma vigente há séculos. Reconheçamos: a
norma nasceu de um mundo patriarcal e misógino. Evita-se o
feminino não apenas como prática gramatical, todavia pela exclusão real das mulheres. Gramática tem gênero, ideologia e
preconceito. É estranho querer manter uma norma da época de
Dom Dinis (1261-1325) lendo um texto no seu smartphone contemporâneo. A língua não é de pedra, nem é de vapor. Ela não
me pertence; ela não me ignora.
Gosto de usar “todas e todos” para abandonar o invisível
do feminino. Não tenho raiva, mas ainda não consigo empregar
regularmente “todes”. Acho exótico grafar txdxs, deixando o x
como incógnita a ser preenchida pela identidade de cada pessoa.
Vamos refletir. Uma pessoa tem raiva porque vê “todes”.
Alega que isso não existe. Se eu escrevi e alguns usam, existe.
Porém, a mesma pessoa não apresenta raiva contra as outras
mudanças. Vejamos. “Vossa Mercê” era usado apenas para os
reis que concediam benefícios, mercês. O “vós” também era exclusivo de altos aristocratas. No fim da Idade Média, pelo uso,
grandes comerciantes passaram a usar Vossa Mercê entre si. Na
Idade Moderna, Vossa Mercê reduziu-se para “você”. Eclodem formas populares no Brasil como “vosmecê”. Claro: o uso do
você encontrou vozes contrárias. Avancemos para o mundo
da digitação. A forma sem vogais é quase consagrada: “vc”.
Que “você” seja uma palavra consagrada sem disputas,
mas o uso de “todas e todos” desperte tantos debates é apenas
sinal de que os irritados nunca estudaram linguística ou gramática histórica. Volto a dizer: eu estranho “todes”.
Em 2050, na prova de Redação no Enem, pode existir uma
questão sobre os tempos primitivos quando um grupo impunha
o masculino, subentendendo o feminino. Lembre-se disto: pelas
normas atuais, Camões não seria aprovado em prova de redação.
(KARNAL, Leandro. As palavras e nós. O Estado de S. Paulo. São Paulo,
ano 143, nº. 47115, 16 out., 2022. Cultura & Comportamento, p. C12.
Adaptado.)
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- Interpretação de TextosCoesão e Coerência
- Interpretação de TextosSubstituição/Reescritura de Texto
Texto para responder à questão.
As palavras e nós
A língua é viva e pertence aos usuários. Regras consagradas mudam. A grande questão é que existe um equilíbrio desejável entre a tradição e o uso do Português, por exemplo. Sim, a
língua não pertence apenas aos especialistas. É justo supor que
ela também não é só minha.
Shakespeare inventou muitas palavras. Algum tradicionalista que invoque os grandes autores do passado, em relação ao Inglês, deveria imaginar que clássicos eram, também, transgressores. Guimarães Rosa era um gênio da composição de termos não dicionarizados ou de usos linguísticos
pouco usuais. Difícil saber se o autor do Grande Sertão: Veredas
inventava ou apenas registrava oralidades e falas populares mineiras. Quando alguém me diz que temos de imitar os clássicos,
sempre imagino que a pessoa saiba pouco da capacidade inventiva e rebelde de escritores de primeira linha.
Devo e posso adaptar os usos da língua ao momento atual.
“Delivery”, abaixo do Equador, não existia há poucos anos. Hoje,
é termo necessário. Profetizo vida longa a “air bag”, “milk
shake”, “trailer” e “shopping center”. Num dia, podem vestir trajes adequados à última flor do Lácio. Assim ocorreu com os termos basquete, iate, uísque e xampu (grafo sem aspas ou itálico,
porque eram anglicismos que foram adaptados). Eram convidados com passaporte estrangeiro; hoje, pertencem ao time verde
e amarelo.
Os termos de origem francesa ou inglesa interagem sem
um debate forte. A língua tropeça quando estamos falando dos
novos usos de gênero. Usar o masculino, implicando toda a espécie humana, é norma vigente há séculos. Reconheçamos: a
norma nasceu de um mundo patriarcal e misógino. Evita-se o
feminino não apenas como prática gramatical, todavia pela exclusão real das mulheres. Gramática tem gênero, ideologia e
preconceito. É estranho querer manter uma norma da época de
Dom Dinis (1261-1325) lendo um texto no seu smartphone contemporâneo. A língua não é de pedra, nem é de vapor. Ela não
me pertence; ela não me ignora.
Gosto de usar “todas e todos” para abandonar o invisível
do feminino. Não tenho raiva, mas ainda não consigo empregar
regularmente “todes”. Acho exótico grafar txdxs, deixando o x
como incógnita a ser preenchida pela identidade de cada pessoa.
Vamos refletir. Uma pessoa tem raiva porque vê “todes”.
Alega que isso não existe. Se eu escrevi e alguns usam, existe.
Porém, a mesma pessoa não apresenta raiva contra as outras
mudanças. Vejamos. “Vossa Mercê” era usado apenas para os
reis que concediam benefícios, mercês. O “vós” também era exclusivo de altos aristocratas. No fim da Idade Média, pelo uso,
grandes comerciantes passaram a usar Vossa Mercê entre si. Na
Idade Moderna, Vossa Mercê reduziu-se para “você”. Eclodem formas populares no Brasil como “vosmecê”. Claro: o uso do
você encontrou vozes contrárias. Avancemos para o mundo
da digitação. A forma sem vogais é quase consagrada: “vc”.
Que “você” seja uma palavra consagrada sem disputas,
mas o uso de “todas e todos” desperte tantos debates é apenas
sinal de que os irritados nunca estudaram linguística ou gramática histórica. Volto a dizer: eu estranho “todes”.
Em 2050, na prova de Redação no Enem, pode existir uma
questão sobre os tempos primitivos quando um grupo impunha
o masculino, subentendendo o feminino. Lembre-se disto: pelas
normas atuais, Camões não seria aprovado em prova de redação.
(KARNAL, Leandro. As palavras e nós. O Estado de S. Paulo. São Paulo,
ano 143, nº. 47115, 16 out., 2022. Cultura & Comportamento, p. C12.
Adaptado.)
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