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2439931 Ano: 2012
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
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Iracema

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.

Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva.

Enquanto repousa, empluma das penas do guará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.

A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.

Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.

Diante dela e todo a contemplá-la está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.

De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.

O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém, a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.

A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.

O guerreiro falou:

— Quebras comigo a flecha da paz?

— Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?

— Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus.

— Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema.

José de Alencar. Iracema. São Paulo: Ed. Ática, 1991, p. 23.

Considerando o trecho acima, da obra Iracema, de José de Alencar, julgue o item a seguir.

No Romantismo brasileiro, a natureza tropical é caracterizada literariamente como expressão da nacionalidade, o que se verifica no romance Iracema.

 

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2439923 Ano: 2012
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
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Iracema

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.

Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva.

Enquanto repousa, empluma das penas do guará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.

A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.

Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.

Diante dela e todo a contemplá-la está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.

De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.

O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém, a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.

A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.

O guerreiro falou:

— Quebras comigo a flecha da paz?

— Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?

— Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus.

— Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema.

José de Alencar. Iracema. São Paulo: Ed. Ática, 1991, p. 23.

Considerando o trecho acima, da obra Iracema, de José de Alencar, julgue o item a seguir.

A figura do índio apresentada por José de Alencar em Iracema e a criada por Mário de Andrade em Macunaíma são semelhantes e fortemente influenciadas pelo conceito do bom selvagem, formulado por Rousseau.

 

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2439921 Ano: 2012
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
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Iracema

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.

Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva.

Enquanto repousa, empluma das penas do guará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.

A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.

Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.

Diante dela e todo a contemplá-la está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.

De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.

O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém, a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.

A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.

O guerreiro falou:

— Quebras comigo a flecha da paz?

— Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?

— Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus.

— Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema.

José de Alencar. Iracema. São Paulo: Ed. Ática, 1991, p. 23.

Considerando o trecho acima, da obra Iracema, de José de Alencar, julgue o item a seguir.

Nesse fragmento, mecanismos de descrição consagrados pelo Romantismo representam simbolicamente o encontro entre índio americano e explorador europeu.

 

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2439911 Ano: 2012
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
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Trecho 1: Nhenhem? Eu cacei onça, demais. (...) Eu não mato mais onça, mato não. Onça meu parente.

Trecho 2: Eu sou onça... Eu-onça! (...) Mecê acha que eu pareço onça? Mas tem horas em que eu pareço mais.

Trecho 3: Hum, nhem? Cê fala que eu matei? Eu sou onça. Jaguaretê tio meu, irmão de minha mãe, tutira... Meus parentes! Meus parentes!

Trecho 4: De repente, eh, eu oncei... Iá. (...) Levei pra o Papa — Gente. Papa gente, onça chefe, onço comeu jababora Gugué.

Trecho 5: Mecê tá ouvindo, nhem? Tá aperceiando... Eu sou onça, não falei? Axi. Não falei — eu viro onça? Onça grande, tubixaba.

Trecho 6: Mecê brinca não, vira esse revólver pra lá. (...) Ói: cê quer me matar, ui?

João Guimarães Rosa. Meu tio, o Iauaretê. In: Ficção completa.
V. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 825-52.

Com base nos trechos apresentados acima, julgue o item a seguir.

Guimarães Rosa, no trabalho metapoético com a materialidade da linguagem, uma das bases da construção de sua ficção, rompe com os padrões morfossintáticos do português padrão.

 

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2439910 Ano: 2012
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
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Trecho 1: Nhenhem? Eu cacei onça, demais. (...) Eu não mato mais onça, mato não. Onça meu parente.

Trecho 2: Eu sou onça... Eu-onça! (...) Mecê acha que eu pareço onça? Mas tem horas em que eu pareço mais.

Trecho 3: Hum, nhem? Cê fala que eu matei? Eu sou onça. Jaguaretê tio meu, irmão de minha mãe, tutira... Meus parentes! Meus parentes!

Trecho 4: De repente, eh, eu oncei... Iá. (...) Levei pra o Papa — Gente. Papa gente, onça chefe, onço comeu jababora Gugué.

Trecho 5: Mecê tá ouvindo, nhem? Tá aperceiando... Eu sou onça, não falei? Axi. Não falei — eu viro onça? Onça grande, tubixaba.

Trecho 6: Mecê brinca não, vira esse revólver pra lá. (...) Ói: cê quer me matar, ui?

João Guimarães Rosa. Meu tio, o Iauaretê. In: Ficção completa.
V. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 825-52.

Com base nos trechos apresentados acima, julgue o item a seguir.

A obra literária de João Guimarães Rosa é uma das grandes realizações da literatura brasileira que tratam da urbanidade, sendo fortemente influenciada pelo recurso literário da ironia machadiana.

 

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2439909 Ano: 2012
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
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O conto Meu Tio, o Iauaretê — publicado, em 1961, na revista Senhor, e republicado, em 1969, em Estas Histórias — representa, a nosso ver, o estágio mais avançado do experimento de Guimarães Rosa com a prosa. O conto é um longo monólogo-diálogo (o diálogo é pressuposto, pois um só protagonista pergunta e responde) de um onceiro, perdido na solidão dos gerais, que recebe, em seu rancho, a visita inesperada de um viajante. Filho de pai branco e de mãe índia, o onceiro, que fora contratado por um proprietário de terras para ‘desonçar’ suas propriedades, arrependido de ter matado ‘seus parentes’, passa a matar gente. A fala do onceiro é tematizada por um ‘Nhem?’ intercorrente, que é, antes, um ‘Nhennhem’ — do tupi, Nhehê ou nheeng —, que significa, simplesmente, ‘falar’. Rosa cria também o verbo ‘nheengar’, de pura aclimatação tupi, e, juntando a ‘jaguaretê’ — tupinismo para onça verdadeira — a terminação nhennhém, ou nhem, como se fora uma desinência verbal, forma outras palavras, para exprimir o linguajar das onças. O texto fica, por assim dizer, mosqueado de nheengatu, e esses rastros que nele aparecem preparam e anunciam o momento da metamorfose (...): o tigreiro, em seu rancho encravado na “jaguaretama”, enquanto conta para seu hóspede os ‘causos’ de caçada e morte, está também falando uma linguagem de onça. À medida que a história flui, tudo vai convergindo para o clímax metamórfico. Este não é apresentado, mas presentificado pelo texto: o onceiro acaba, arrastado por sua narrativa, transformando-se em onça, diante dos olhos do interlocutor (e dos leitores). A transfiguração se dá no momento em que a linguagem se desarticula, quebra-se em resíduos fônicos, que soam como um rugido ou um estertor, pois o interlocutor virtual, tomando consciência da metamorfose, dispara contra o homem-iauaretê o revólver que mantivera engatilhado durante toda a conversa. Neste Iaueretê, não é a história que cede o primeiro plano à palavra, mas a palavra, que, ao irromper em primeiro plano, configura a personagem e a ação, desenvolvendo a história.

Haroldo de Campos. A linguagem do Iauaretê. Metalinguagem & outras metas: ensaios
de teoria e crítica literária. 4.ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 57-64 (com adaptações).

Tendo como base o texto de Haroldo de Campos e as questões por ele suscitadas, julgue o item a seguir.

A partir da oposição estabelecida em “Este não é apresentado, mas presentificado pelo texto”, o crítico literário realça a qualidade narrativa da obra analisada, sugerindo a possibilidade de aceitação do clímax do conto narrado (transformação do onceiro em onça) como fato ocorrido.

 

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2439904 Ano: 2012
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
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O conto Meu Tio, o Iauaretê — publicado, em 1961, na revista Senhor, e republicado, em 1969, em Estas Histórias — representa, a nosso ver, o estágio mais avançado do experimento de Guimarães Rosa com a prosa. O conto é um longo monólogo-diálogo (o diálogo é pressuposto, pois um só protagonista pergunta e responde) de um onceiro, perdido na solidão dos gerais, que recebe, em seu rancho, a visita inesperada de um viajante. Filho de pai branco e de mãe índia, o onceiro, que fora contratado por um proprietário de terras para ‘desonçar’ suas propriedades, arrependido de ter matado ‘seus parentes’, passa a matar gente. A fala do onceiro é tematizada por um ‘Nhem?’ intercorrente, que é, antes, um ‘Nhennhem’ — do tupi, Nhehê ou nheeng —, que significa, simplesmente, ‘falar’. Rosa cria também o verbo ‘nheengar’, de pura aclimatação tupi, e, juntando a ‘jaguaretê’ — tupinismo para onça verdadeira — a terminação nhennhém, ou nhem, como se fora uma desinência verbal, forma outras palavras, para exprimir o linguajar das onças. O texto fica, por assim dizer, mosqueado de nheengatu, e esses rastros que nele aparecem preparam e anunciam o momento da metamorfose (...): o tigreiro, em seu rancho encravado na “jaguaretama”, enquanto conta para seu hóspede os ‘causos’ de caçada e morte, está também falando uma linguagem de onça. À medida que a história flui, tudo vai convergindo para o clímax metamórfico. Este não é apresentado, mas presentificado pelo texto: o onceiro acaba, arrastado por sua narrativa, transformando-se em onça, diante dos olhos do interlocutor (e dos leitores). A transfiguração se dá no momento em que a linguagem se desarticula, quebra-se em resíduos fônicos, que soam como um rugido ou um estertor, pois o interlocutor virtual, tomando consciência da metamorfose, dispara contra o homem-iauaretê o revólver que mantivera engatilhado durante toda a conversa. Neste Iaueretê, não é a história que cede o primeiro plano à palavra, mas a palavra, que, ao irromper em primeiro plano, configura a personagem e a ação, desenvolvendo a história.

Haroldo de Campos. A linguagem do Iauaretê. Metalinguagem & outras metas: ensaios
de teoria e crítica literária. 4.ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 57-64 (com adaptações).

Tendo como base o texto de Haroldo de Campos e as questões por ele suscitadas, julgue o item a seguir.

Depreende-se do texto que a estrutura do conto Meu Tio, o Iauaretê, que representa, na visão do crítico Haroldo Campos, a fase rosiana de experimentação linguística do tupi, aproxima-se da narrativa das fábulas.

 

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2439903 Ano: 2012
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
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O conto Meu Tio, o Iauaretê — publicado, em 1961, na revista Senhor, e republicado, em 1969, em Estas Histórias — representa, a nosso ver, o estágio mais avançado do experimento de Guimarães Rosa com a prosa. O conto é um longo monólogo-diálogo (o diálogo é pressuposto, pois um só protagonista pergunta e responde) de um onceiro, perdido na solidão dos gerais, que recebe, em seu rancho, a visita inesperada de um viajante. Filho de pai branco e de mãe índia, o onceiro, que fora contratado por um proprietário de terras para ‘desonçar’ suas propriedades, arrependido de ter matado ‘seus parentes’, passa a matar gente. A fala do onceiro é tematizada por um ‘Nhem?’ intercorrente, que é, antes, um ‘Nhennhem’ — do tupi, Nhehê ou nheeng —, que significa, simplesmente, ‘falar’. Rosa cria também o verbo ‘nheengar’, de pura aclimatação tupi, e, juntando a ‘jaguaretê’ — tupinismo para onça verdadeira — a terminação nhennhém, ou nhem, como se fora uma desinência verbal, forma outras palavras, para exprimir o linguajar das onças. O texto fica, por assim dizer, mosqueado de nheengatu, e esses rastros que nele aparecem preparam e anunciam o momento da metamorfose (...): o tigreiro, em seu rancho encravado na “jaguaretama”, enquanto conta para seu hóspede os ‘causos’ de caçada e morte, está também falando uma linguagem de onça. À medida que a história flui, tudo vai convergindo para o clímax metamórfico. Este não é apresentado, mas presentificado pelo texto: o onceiro acaba, arrastado por sua narrativa, transformando-se em onça, diante dos olhos do interlocutor (e dos leitores). A transfiguração se dá no momento em que a linguagem se desarticula, quebra-se em resíduos fônicos, que soam como um rugido ou um estertor, pois o interlocutor virtual, tomando consciência da metamorfose, dispara contra o homem-iauaretê o revólver que mantivera engatilhado durante toda a conversa. Neste Iaueretê, não é a história que cede o primeiro plano à palavra, mas a palavra, que, ao irromper em primeiro plano, configura a personagem e a ação, desenvolvendo a história.

Haroldo de Campos. A linguagem do Iauaretê. Metalinguagem & outras metas: ensaios
de teoria e crítica literária. 4.ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 57-64 (com adaptações).

Tendo como base o texto de Haroldo de Campos e as questões por ele suscitadas, julgue o item a seguir.

Segundo o crítico Haroldo de Campos, o verbo que representa o linguajar das onças, formado do elemento tupi “nhennhém” ou “nhem”, equivale, no que se refere ao léxico da língua portuguesa, a um verbo que denota estado.

 

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2438816 Ano: 2012
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: ESCS
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Texto I

Bucólica

Agora vamos correr o pomar antigo Bicos aéreos de patos selvagens Tetas verdes entre folhas E uma passarinhada nos vaia Num tamarindo Que decola para o anil Árvores sentadas Quitandas vivas de laranjas maduras Vespas.

Oswald de Andrade. Pau Brasil. 2.ª ed. São Paulo: Globo, 2003, p. 132.

Texto II

O trovador

Sentimentos em mim do asperamente dos homens das primeiras eras... As primaveras de sarcasmo intermitentemente no meu coração arlequinal... Intermitentemente... Outras vezes é um doente, um frio na minha alma doente como um longo som redondo Cantabona! Cantabona! Dlorom...

Sou um tupi tangendo um alaúde!

Mário de Andrade. Poesia reunida. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005, p. 83.

Com base nos textos I e II, assinale a opção correta.

 

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2438815 Ano: 2012
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: ESCS
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Texto I

Bucólica

Agora vamos correr o pomar antigo
Bicos aéreos de patos selvagens
Tetas verdes entre folhas
E uma passarinhada nos vaia
Num tamarindo
Que decola para o anil
Árvores sentadas
Quitandas vivas de laranjas maduras
Vespas.

Oswald de Andrade. Pau Brasil. 2.ª ed. São Paulo: Globo, 2003, p. 132.

Texto II

O trovador

Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras de sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal...
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...

Sou um tupi tangendo um alaúde!

Mário de Andrade. Poesia reunida. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005, p. 83.

Os textos acima exemplificam a estética da poesia modernista de 1922, cuja característica marcante foi

 

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