Magna Concursos

Foram encontradas 4.890 questões.

2402281 Ano: 2010
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Provas:

Pela segunda vez, a moça tomou coragem; a pretexto de dor de dente, conseguiu licença para faltar ao serviço. Não lhe foi difícil descobrir o endereço da gorda e exageradamente gentil madama Carlota, atual cartomante bem-sucedida, moradora de apartamento próprio, fã de Jesus, “doidinha por Ele”, que sempre a ajudou.

Mais falando de si mesma do que de sua “cliente”, a cartomante concluiu: “Mas, Macabeazinha, que vida horrível a sua! Que meu amigo Jesus tenha dó de você, filhinha! Mas que horror!” Resolveu, então, animar a pobre coitada. “Tenho grandes notícias para lhe dar:

Sua vida vai mudar completamente! Até seu namorado vai voltar e propor casamento e seu chefe não vai mais lhe despedir! E tem mais! Um dinheiro grande vai lhe entrar pela porta adentro em horas da noite trazido por um homem estrangeiro. Ele é alourado e tem olhos azuis ou verdes ou castanhos ou pretos. Parece se chamar Hans, e é ele quem vai se casar com você!”

Saiu da casa da cartomante mudada. “Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro”.

Ao dar o passo para descer da calçada, Macabéa foi atropelada por um luxuoso Mercedes amarelo, que fugiu, sem que o motorista prestasse socorro. Ela bateu na quina do meio-fio com a cabeça, que começou a sangrar. Tomada por uma espécie de delírio oco, observou que havia capim na rua. “O Destino tinha escolhido para ela um beco no escuro e uma sarjeta” como se ela fosse “uma galinha de pescoço mal cortado que corre espavorida pingando sangue”. Só que Macabéa lutava muda. Então começou levemente a garoar: Olímpico tinha razão ela só sabia mesmo era chover!

Os curiosos que se aproximaram nada fizeram “como antes pessoas nada haviam feito por ela, só que agora pelo menos a espiavam. O que lhe dava uma existência”.

“Ela se mexeu devagar, acomodou o corpo em posição fetal. Era uma maldita e não sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar eu sou, eu sou. Eu sou. Teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte. Um gosto suave, arrepiante, gélido e agudo como no amor. Seria esta a graça a que vós chamais Deus? Sim? Se iria morrer, na morte passava de virgem a mulher. Então ela pronunciou uma frase que ninguém entendeu: “Quanto ao futuro.” Vomitou um pouco de sangue. Estava enfim livre de si e de nós.

Viver é um luxo. Pronto, passou.”

Clarice Lispector. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (com adaptações).

A partir do texto acima, julgue o item.

O questionamento de aspectos mais profundos do ser humano, ligados ao seu ‘estar no mundo’, manifesta-se em uma estrutura narrativa de técnica impressionista, caracterizada pela ruptura da verossimilhança e da sequência linear do relato.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2402280 Ano: 2010
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Provas:

Pela segunda vez, a moça tomou coragem; a pretexto de dor de dente, conseguiu licença para faltar ao serviço. Não lhe foi difícil descobrir o endereço da gorda e exageradamente gentil madama Carlota, atual cartomante bem-sucedida, moradora de apartamento próprio, fã de Jesus, “doidinha por Ele”, que sempre a ajudou.

Mais falando de si mesma do que de sua “cliente”, a cartomante concluiu: “Mas, Macabeazinha, que vida horrível a sua! Que meu amigo Jesus tenha dó de você, filhinha! Mas que horror!” Resolveu, então, animar a pobre coitada. “Tenho grandes notícias para lhe dar:

Sua vida vai mudar completamente! Até seu namorado vai voltar e propor casamento e seu chefe não vai mais lhe despedir! E tem mais! Um dinheiro grande vai lhe entrar pela porta adentro em horas da noite trazido por um homem estrangeiro. Ele é alourado e tem olhos azuis ou verdes ou castanhos ou pretos. Parece se chamar Hans, e é ele quem vai se casar com você!”

Saiu da casa da cartomante mudada. “Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro”.

Ao dar o passo para descer da calçada, Macabéa foi atropelada por um luxuoso Mercedes amarelo, que fugiu, sem que o motorista prestasse socorro. Ela bateu na quina do meio-fio com a cabeça, que começou a sangrar. Tomada por uma espécie de delírio oco, observou que havia capim na rua. “O Destino tinha escolhido para ela um beco no escuro e uma sarjeta” como se ela fosse “uma galinha de pescoço mal cortado que corre espavorida pingando sangue”. Só que Macabéa lutava muda. Então começou levemente a garoar: Olímpico tinha razão ela só sabia mesmo era chover!

Os curiosos que se aproximaram nada fizeram “como antes pessoas nada haviam feito por ela, só que agora pelo menos a espiavam. O que lhe dava uma existência”.

“Ela se mexeu devagar, acomodou o corpo em posição fetal. Era uma maldita e não sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar eu sou, eu sou. Eu sou. Teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte. Um gosto suave, arrepiante, gélido e agudo como no amor. Seria esta a graça a que vós chamais Deus? Sim? Se iria morrer, na morte passava de virgem a mulher. Então ela pronunciou uma frase que ninguém entendeu: “Quanto ao futuro.” Vomitou um pouco de sangue. Estava enfim livre de si e de nós.

Viver é um luxo. Pronto, passou.”

Clarice Lispector. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (com adaptações).

A partir do texto acima, julgue o item.

No romance A hora da estrela, o narrador Rodrigo, onisciente, desconstrói a si próprio e a personagem Macabéa, no que se refere à importância da existência de cada um deles na sociedade.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2402279 Ano: 2010
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Provas:

Pela segunda vez, a moça tomou coragem; a pretexto de dor de dente, conseguiu licença para faltar ao serviço. Não lhe foi difícil descobrir o endereço da gorda e exageradamente gentil madama Carlota, atual cartomante bem-sucedida, moradora de apartamento próprio, fã de Jesus, “doidinha por Ele”, que sempre a ajudou.

Mais falando de si mesma do que de sua “cliente”, a cartomante concluiu: “Mas, Macabeazinha, que vida horrível a sua! Que meu amigo Jesus tenha dó de você, filhinha! Mas que horror!” Resolveu, então, animar a pobre coitada. “Tenho grandes notícias para lhe dar:

Sua vida vai mudar completamente! Até seu namorado vai voltar e propor casamento e seu chefe não vai mais lhe despedir! E tem mais! Um dinheiro grande vai lhe entrar pela porta adentro em horas da noite trazido por um homem estrangeiro. Ele é alourado e tem olhos azuis ou verdes ou castanhos ou pretos. Parece se chamar Hans, e é ele quem vai se casar com você!”

Saiu da casa da cartomante mudada. “Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro”.

Ao dar o passo para descer da calçada, Macabéa foi atropelada por um luxuoso Mercedes amarelo, que fugiu, sem que o motorista prestasse socorro. Ela bateu na quina do meio-fio com a cabeça, que começou a sangrar. Tomada por uma espécie de delírio oco, observou que havia capim na rua. “O Destino tinha escolhido para ela um beco no escuro e uma sarjeta” como se ela fosse “uma galinha de pescoço mal cortado que corre espavorida pingando sangue”. Só que Macabéa lutava muda. Então começou levemente a garoar: Olímpico tinha razão ela só sabia mesmo era chover!

Os curiosos que se aproximaram nada fizeram “como antes pessoas nada haviam feito por ela, só que agora pelo menos a espiavam. O que lhe dava uma existência”.

“Ela se mexeu devagar, acomodou o corpo em posição fetal. Era uma maldita e não sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar eu sou, eu sou. Eu sou. Teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte. Um gosto suave, arrepiante, gélido e agudo como no amor. Seria esta a graça a que vós chamais Deus? Sim? Se iria morrer, na morte passava de virgem a mulher. Então ela pronunciou uma frase que ninguém entendeu: “Quanto ao futuro.” Vomitou um pouco de sangue. Estava enfim livre de si e de nós.

Viver é um luxo. Pronto, passou.”

Clarice Lispector. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (com adaptações).

A partir do texto acima, julgue o item.

No que se refere à dicotomia vida/morte e à sua valorização na literatura, e considerando a possibilidade de se focalizar, do lado da vida, o sentimento de inadequação à realidade, o ócio e o desgosto de viver, a obra A hora da estrela não fugiria ao modo como, no gosto do modelo da geração ultrarromântica, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire, por exemplo, trataram essa temática.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2402276 Ano: 2010
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Provas:

Pela segunda vez, a moça tomou coragem; a pretexto de dor de dente, conseguiu licença para faltar ao serviço. Não lhe foi difícil descobrir o endereço da gorda e exageradamente gentil madama Carlota, atual cartomante bem-sucedida, moradora de apartamento próprio, fã de Jesus, “doidinha por Ele”, que sempre a ajudou.

Mais falando de si mesma do que de sua “cliente”, a cartomante concluiu: “Mas, Macabeazinha, que vida horrível a sua! Que meu amigo Jesus tenha dó de você, filhinha! Mas que horror!” Resolveu, então, animar a pobre coitada. “Tenho grandes notícias para lhe dar:

Sua vida vai mudar completamente! Até seu namorado vai voltar e propor casamento e seu chefe não vai mais lhe despedir! E tem mais! Um dinheiro grande vai lhe entrar pela porta adentro em horas da noite trazido por um homem estrangeiro. Ele é alourado e tem olhos azuis ou verdes ou castanhos ou pretos. Parece se chamar Hans, e é ele quem vai se casar com você!”

Saiu da casa da cartomante mudada. “Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro”.

Ao dar o passo para descer da calçada, Macabéa foi atropelada por um luxuoso Mercedes amarelo, que fugiu, sem que o motorista prestasse socorro. Ela bateu na quina do meio-fio com a cabeça, que começou a sangrar. Tomada por uma espécie de delírio oco, observou que havia capim na rua. “O Destino tinha escolhido para ela um beco no escuro e uma sarjeta” como se ela fosse “uma galinha de pescoço mal cortado que corre espavorida pingando sangue”. Só que Macabéa lutava muda. Então começou levemente a garoar: Olímpico tinha razão ela só sabia mesmo era chover!

Os curiosos que se aproximaram nada fizeram “como antes pessoas nada haviam feito por ela, só que agora pelo menos a espiavam. O que lhe dava uma existência”.

“Ela se mexeu devagar, acomodou o corpo em posição fetal. Era uma maldita e não sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar eu sou, eu sou. Eu sou. Teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte. Um gosto suave, arrepiante, gélido e agudo como no amor. Seria esta a graça a que vós chamais Deus? Sim? Se iria morrer, na morte passava de virgem a mulher. Então ela pronunciou uma frase que ninguém entendeu: “Quanto ao futuro.” Vomitou um pouco de sangue. Estava enfim livre de si e de nós.

Viver é um luxo. Pronto, passou.”

Clarice Lispector. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (com adaptações).

A partir do texto acima, julgue o item.

Clarice Lispector, na obra A hora da estrela, traz visão da morte como epifania, entendida como a realização do ser, na apreensão do instante em que se dá a revelação de uma realidade fragmentária, ou seja, a vida cotidiana de Macabéa, com a superação do ‘não-ser’,
visão essa que não se opõe, no entanto, à promessa feita pela cartomante a Macabéa.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2402260 Ano: 2010
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Provas:

A palo seco

Belchior

Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava.
De olhos abertos, lhe direi:
— Amigo, eu me desesperava.

Sei que, assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 76.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português:
— Tenho vinte e cinco anos de sonho e

De sangue e de América do Sul.
Por força deste destino,
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues.
Sei, que assim falando, pensas

Que esse desespero é moda em 76.
E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.

Considerando a composição acima e os aspectos que ela suscita, julgue o seguinte item.

A declaração “Que esse desespero é moda em 76” alude a um momento da literatura brasileira em que escritores, entre eles Nélida Piñon, tentavam construir, em prosa, o contexto histórico brasileiro a partir da dicotomia realidade/sonho, reinaugurando, com essa perspectiva, o subjetivismo ou individualismo do modelo romântico.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2402259 Ano: 2010
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Provas:

A palo seco

Belchior

Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava.
De olhos abertos, lhe direi:
— Amigo, eu me desesperava.

Sei que, assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 76.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português:
— Tenho vinte e cinco anos de sonho e

De sangue e de América do Sul.
Por força deste destino,
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues.
Sei, que assim falando, pensas

Que esse desespero é moda em 76.
E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.

Considerando a composição acima e os aspectos que ela suscita, julgue o seguinte item.

O autor declara-se contrário a atitudes escapistas, ao mesmo tempo em que se apresenta como sonhador, conforme expressam os versos 9 e 10.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2402257 Ano: 2010
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Provas:

SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS

Mario Quintana

A vida são uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6.ª feira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem — um dia — uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das
horas.

Com base no poema acima, de Mario Quintana, julgue o item.

As estruturas oracionais representadas nos versos 6, 7 e 8 seriam mantidas com correção gramatical, no que diz respeito à sintaxe de pontuação, se empregadas em texto de prosa não poética.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2402256 Ano: 2010
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Provas:

SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS

Mario Quintana

A vida são uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6.ª feira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem — um dia — uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das
horas.

Com base no poema acima, de Mario Quintana, julgue o item.

No poema apresentado, a ideia de morte, apoiada em visão que evoca temáticas do modelo árcade tanto quanto do modelo barroco, surge por oposição à de vida, que, por sua vez, é satirizada, a partir de sua definição, apresentada no primeiro verso.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2402209 Ano: 2010
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Provas:

[...]
— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,

deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino

da Maria do Zacarias,

lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia

com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra

magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,

no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos

iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,

a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam

melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

João Cabral de Melo Neto. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: Sabiá, 1967 (com adaptações

Considerando o poema Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, o fragmento desse poema transcrito ao lado e as características da obra desse autor, julgue o iten a seguir.

João Cabral de Melo Neto, desde sua obra de estreia, pautou sua poesia pela economia de termos.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2402204 Ano: 2010
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
Provas:

[...]
— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,

deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino

da Maria do Zacarias,

lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia

com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra

magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,

no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos

iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,

a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam

melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

João Cabral de Melo Neto. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: Sabiá, 1967 (com adaptações

Considerando o poema Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, o fragmento desse poema transcrito ao lado e as características da obra desse autor, julgue o iten a seguir.

Presente no poema, a palavra “sesmaria” remete ao processo de distribuição de terras desenvolvido no Segundo Reinado brasileiro, no contexto da extinção do tráfico negreiro e do trabalho escravo.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas