Magna Concursos
207959 Ano: 2010
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: IBGE
Provas:

TITANIC NEGREIRO

O Brasil é um navio negreiro em direção ao futuro.

Um negreiro, com milhões de pobres excluídos nos

porões – sem comida, educação, saúde – e uma elite

no convés, usufruindo de elevado padrão de consumo

em direção a um futuro desastroso. O Brasil é um Titanic

negreiro: insensível aos porões e aos icebergs. Porque

nossa economia tem sido baseada na exclusão social

e no curto prazo.

[...]

Durante toda nossa história, o convés jogou restos

para os porões, na tentativa de manter uma mão de obra

viva e evitar a violência. Fizemos uma economia para

poucos e uma assistência para enganar os outros. [...]

O sistema escravocrata acabou, mas continuamos

nos tempos da assistência, no lugar da abolição. A eco-

nomia brasileira, ao longo de nossa história, desde 18

e sobretudo nas últimas duas décadas, em plena de-

mocracia, não é comprometida com a abolição. No

máximo incentiva a assistência. Assistimos meninos de

rua, mas não nos propomos a abolir a infância abando-

nada; assistimos prostitutas infantis, mas nem ao me-

nos acreditamos ser possível abolir a prostituição de

crianças; anunciamos com orgulho que diminuímos o

número de meninos trabalhando, mas não fazemos o

esforço necessário para abolir o trabalho infantil; dize-

mos ter 95% das crianças matriculadas, esquecendo

de pedir desculpas às 5% abandonadas, tanto quanto

se dizia, em 1870, que apenas 70% dos negros eram

escravos.

[...]Na época da escravidão, muitos eram a favor da

abolição, mas diziam que não havia recursos para aten-

der o direito adquirido do dono, comprando os escra-

vos antes de liberá-los. Outros diziam que a abolição

desorganizaria o processo produtivo. Hoje dizemos o

mesmo em relação aos gastos com educação, saúde,

alimentação do nosso povo. Os compromissos do setor

público com direitos adquiridos não permitem atender

às necessidades de recursos para educação e saúde

nos orçamentos do setor público.

Uma economia da abolição tem a obrigação de ze-

lar pela estabilidade monetária, porque a inflação pesa

sobretudo nos porões do barco Brasil; não é possível

tampouco aumentar a enorme carga fiscal que já pesa

sobre todo o país; nem podemos ignorar a força dos

credores. Mas uma nação com a nossa renda nacional,

com o poder de arrecadação do nosso setor público,

tem os recursos necessários para implementar uma

economia da abolição, a serviço do povo, garantindo

educação, saúde, alimentação para todos. [...]

BUARQUE, Cristovam. O Globo. 03 abr.




A ideia central do artigo baseia-se na visão de que é preciso estabelecer uma "economia da abolição", dando acesso a todos, evitando, assim, uma política assistencialista e excludente. Qual dos trechos do artigo transcritos a seguir NÃO apresenta o argumento de consistência compatível com essa tese?
 

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