Magna Concursos
207953 Ano: 2010
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: IBGE
Provas:

OS VENENOSOS

O veneno é um furo na teoria da evolução. De

acordo com o darwinismo clássico os bichos desen-

volvem, por seleção natural, as características que ga-

rantem a sua sobrevivência. Adquirem seus mecanis-

mos de defesa e ataque num longo processo em que

o acaso tem papel importante: a arma ou o disfarce

que o salva dos seus predadores ou facilita o assédio

a suas presas é reproduzido na sua descendência, ou

na descendência dos que sobrevivem, e lentamente

incorporado à espécie. Mas a teoria darwiniana de pro-

gressivo aparelhamento das espécies para a sobrevi-

vência não explica o veneno. O veneno não evoluiu.

O veneno esteve sempre lá.

Nenhum bicho venenoso pode alegar que a luta

pela vida o fez assim. Que ele foi ficando venenoso

com o tempo, que só descobriu que sua picada era

tóxica por acidente, que nunca pensou etc. O veneno

sugere que existe, sim, o mal-intencionado nato. O ruim

desde o princípio. E o que vale para serpentes vale

para o ser humano. Sem querer entrar na velha dis-

cussão sobre o valor relativo da genética e da cultura

na formação da personalidade, o fato é que não dá

para evitar a constatação de que há pessoas veneno-

sas, naturalmente venenosas, assim como há pesso-

as desafinadas.

A comparação não é descabida. Acredito que a

mente é um produto cultural, e que descontadas coi-

sas inexplicáveis como um gosto congênito por cou-

ve-flor ou pelo “Bolero” de Ravel, somos todos dota-

dos de basicamente o mesmo material cefálico, pron-

to para ser moldado pelas nossas circunstâncias. Mas

então como é que ninguém aprende a ser afinado?

Quem é desafinado não tem remédio. Nasce e está

condenado a morrer desafinado. No peito de um de-

safinado também bate um coração, certo, e o desafi-

nado não tem culpa de ser um desafio às teses psico-

lógicas mais simpáticas. Mas é. Matemática se apren-

de, até alemão se aprende, mas desafinado nunca fica

afinado. Como venenoso é de nascença.

O que explica não apenas o crime patológico como

as pequenas vilanias que nos cercam. A pura malda-

de inerente a tanto que se vê, ouve ou lê por aí. O

insulto gratuito, a mentira infamante, a busca da noto-

riedade pela ofensa aos outros. Ressentimento ou

amargura são características humanas adquiridas,

compreensíveis, que explicam muito disto. Pura mal-

dade, só o veneno explica.

VERISSIMO, Luis Fernando. O Globo. 24 fev. 05.

A crônica se inicia negando a tese da "Teoria da Evolução". Essa estratégia tem como objetivo
 

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