Leia o texto a seguir e responda a questão.
Texto 1
Bebês reborn e a infância em crise
A cena parece inofensiva: um -realista adulto empurrando
um carrinho de bebê com um boneco hiper, de silicone,
vestido com roupas de recém-nascido, com nome, certidão
de nascimento e... identidade afetiva. Mas por trás do que
aparenta ser apenas um hobby curioso, cresce um
fenômeno que desafia a psicologia, interroga a sociedade
e exige respostas da educação: a “adoção” emocional de
bebês reborn por adultos como substitutos de vínculos
reais.
Reportagens recentes têm trazido à tona casos extremos —
como pessoas que tentam registrar os bonecos como filhos,
brigam por sua guarda e os levam a consultas médicas. O
que parece inusitado, é na verdade o sintoma de uma
sociedade cada vez mais marcada pelo esvaziamento das
relações humanas, pela solidão e pela substituição do afeto
por objetos.
Essa realidade acontece em paralelo a transformações
profundas nas estruturas familiares. Dados do IBGE
mostram que a taxa de fecundidade no Brasil caiu de 2,
filhos, por mulher, em 2000, para apenas 1,57, em 2023,
com projeção de 1,44 até 2041. O tamanho médio das
famílias também encolheu: de 3,62 pessoas por domicílio,
em 2008, para 3,07 em 2018. Crescem os lares unipessoais
e as famílias com um único filho.
São modelos de vínculos que estão se reconfigurando.
Com menos filhos, mais autonomia infantil precoce e mais
presença digital que física, muitos adultos vivem hoje uma
maternidade/paternidade emocional frustrada, silenciosa.
Em vez de enfrentar o vazio, substituem o vínculo pela
ilusão do controle: o bebê reborn não chora fora de hora,
não cresce, não contesta. Ele é a fantasia da relação sem
conflito e, portanto, sem verdade.
Profissionais da saúde mental já apontam o alerta.
Psicólogos têm observado que a “rebornização” das
relações é uma tentativa inconsciente de anestesiar
frustrações, lutos não elaborados, desejos não realizados.
A Organização Mundial da Saúde já havia identificado o
isolamento social como um dos fatores mais graves na
piora da saúde mental global, agravada após a pandemia.
Mas o que podemos e devemos fazer como profissionais
da educação? A escola é, por excelência, o lugar da
experiência coletiva. É onde a criança aprende a negociar,
a dividir, a esperar, a ouvir o outro e a entender que o
mundo não gira ao seu redor. É onde se aprende que a
amizade exige paciência. Que o colega é diferente. Que
nem sempre o lanche virá na hora exata, nem o jogo
terminará com vitória.
O papel da escola, então, não é apenas ensinar conteúdo.
É reconstruir o lugar das relações verdadeiras. É frear a
lógica do consumo afetivo onde o carinho é terceirizado, a
infância é estetizada e o afeto é substituído por
performance. A “geração reborn” precisa reencontrar a dor
e a beleza da convivência. Precisa voltar a conviver com o
inesperado, o outro, o mundo real, imperfeito, barulhento,
humano. E a escola é um dos poucos espaços sociais
capazes de fazer essa travessia. Porque o afeto não se
fabrica. Se vive. Se constrói.
Tatiana Santana é diretora do Colégio Externato São José e coordenadora regional da ANEC (Associação Nacional de Educação Católica do Brasil). Fonte: Gazeta da Semana. Disponível em: https://gazetadasemana.com.br/noticia/229113/artigo-de-opiniao-bebes-reborne-a-infancia-em-crise.
“São modelos de vínculos que estão se reconfigurando. Com menos filhos, mais autonomia infantil precoce e mais presença digital que física, muitos adultos vivem hoje uma maternidade/paternidade emocional frustrada, silenciosa.” (4º parágrafo)
A relação de sentido estabelecida entre as duas frases se dá, sobretudo, por: