TEXTO
CLIMA EXTREMO DESAFIA
INFRAESTRUTURA DO BRASIL
Quando os radares da Defesa Civil captaram
a possibilidade de temporal sobre Santa Catarina em
dezembro de 2025, o governo do estado tomou uma
decisão drástica: suspender as aulas. Foi a primeira
vez que mais de 520 mil alunos de escolas estaduais
foram orientados a ficar em casa naquele 9 de
dezembro como medida de prevenção a desastres.
Estudantes da rede municipal em diversas cidades e
universidades também cancelaram as atividades.
A chuva e os ventos fortes eram trazidos por
um ciclone extratropical que já ganhava o selo de
atípico. Ele se formou no Paraguai, atravessou o Rio
Grande do Sul e se intensificou na costa entre esse
estado e Santa Catarina, detalha Marcelo Seluchi, do
Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de
Desastres Naturais (Cemaden).
Um dia depois, as mesmas rajadas sopraram
na cidade de São Paulo. Os ventos chegaram a 100
km/h, afetaram transformadores de energia,
cancelaram voos, derrubaram placas de trânsito e
paralisaram a vida em pelo menos dois milhões de
imóveis. A estimativa mais recente da Federação do
Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de
São Paulo calcula perdas de pelo menos R$ 2,1
bilhões no comércio e no setor de serviços.
Um mês antes, outro ciclone extratropical
formado sobre o Sul do país foi o estopim para uma
calamidade no Paraná. Nuvens pesadas ajudaram a
formar três tornados que atingiram 11 cidades e
arremessaram carros, derrubaram prédios, tombaram
caminhões. O fenômeno destruiu 80% de Rio Bonito
do Iguaçu e deixou seus 14 mil moradores em choque.
“Nós não estamos preparados para isso. Nós
não estamos adaptados para enfrentar esses eventos
climáticos extremos”, avalia José Marengo,
coordenador-geral de pesquisa do Cemaden. Os
ciclones extratropicais são um fenômeno conhecido
na meteorologia. Na América do Sul, eles se formam
próximo ao Sul do Brasil até o sul da Argentina e
precisam de um ingrediente-chave: o calor que vem
do Equador encontrando o frio que sai do polo.
O Instituto Nacional de Meteorologia não tem
um banco de dados que contabilize os ciclones
extratropicais ocorridos no Brasil, informou o órgão.
Mas a pesquisa feita por Rosmeri Porfírio da Rocha,
do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências
Atmosféricas da Universidade de São Paulo, revela
que de três a quatro ciclones se formam nesta região,
em média, por mês e “saem” para o Atlântico.
Os ciclones, explica a cientista, têm um papel
fundamental de auxiliar no transporte de calor do
Equador para o polo e do frio no caminho contrário.
“E quando fazem isso, geram ação, rotação, formam
nuvem, tempestade, a pressão muda muito no espaço,
os ventos se aceleram”, cita Rocha. A diferença do
caso mais recente foi que ele se intensificou dentro do
continente - e não no mar, como costuma ser. No
monitoramento feito por Seluchi, o sistema chegou a
2 mil km de extensão e gerou efeitos desde a
Argentina até o Rio de Janeiro.
Em Florianópolis, estado exposto a este
evento climático por sua posição geográfica, Regina
Rodrigues vivenciou três ciclones em 2025 no quintal
de sua casa. Professora na Universidade Federal de
Santa Catarina, ela é uma das brasileiras de um grupo
internacional que investiga a conexão de eventos
climáticos extremos com as mudanças climáticas.
“A força motriz dos ciclones é a diferença de
temperatura. Quanto maior for esta diferença, mais
violento ele fica. Está ficando pior porque a parte
subtropical e tropical do Brasil está ficando mais
quente”, afirma Rodrigues. No estado onde vive,
considerado uma zona de “encontros” dessas massas,
os ventos já chegaram a 109 km/h. Sem energia
elétrica e internet em casa, Rodrigues viu pela janela
telhados e toldos voando.
O despreparo para enfrentar ciclones mais
fortes e outros eventos climáticos extremos é visível
até na metrópole mais rica do país. Para moradores,
comércios e indústrias na Grande São Paulo,
ventanias e tempestades têm sido sinônimo de dias
sem eletricidade. “Isso mostra toda a vulnerabilidade
do sistema elétrico, com postes e fios aéreos — e que
estão perto das árvores”, comenta Marengo.
A Empresa de Pesquisa Energética reconhece
as lacunas do setor e a necessidade de adaptação
diante das mudanças climáticas. Um estudo publicado
no ano passado lista os potenciais impactos de
tempestades, ventos fortes e enchentes na infraestrutura e no fornecimento de energia. Mas, até
agora, as concessionárias não são cobradas por órgãos
reguladores para aumentar a resiliência.
Na capital paulista, o aterramento dos fios
anda a passos lentos: a prefeitura afirma ter
implantado 88 km de fiação subterrânea. Isso
equivale a 0,02% dos 44 mil km sob concessão da
Enel no estado, empresa distribuidora que atende 8
milhões de unidades consumidoras na região
metropolitana.
Os impactos afetam outros setores da
economia. O de seguros, em geral, é um dos primeiros
justamente por lidar diretamente com a
materialização dos riscos. “Observa-se um aumento
gigantesco no número de sinistros, o que torna o
impacto das mudanças climáticas mais evidente”,
comenta Luciane Moessa, advogada e diretora da
ONG Soluções Inclusivas Sustentáveis.
As seguradoras, afirma Moessa, têm buscado
projetar novos cenários e rever suas metodologias de
cálculo para enfrentarem os novos tempos. Mesmo
que esse setor se adapte, não há garantias de um
desfecho positivo: ao recalcular os riscos com base no
aumento da frequência e da intensidade dos sinistros,
os prêmios podem se tornar muito mais elevados do
que são hoje.
“E as pessoas podem deixar de contratar
seguros simplesmente porque não terão condições de
arcar com os custos”, complementa Moessa, citando
o exemplo do seguro agropecuário. Em nível
nacional, o país acaba de aprovar o Plano Clima
Adaptação. A política pública envolve 26 ministérios
e busca aumentar a resiliência de estados e
municípios diante de eventos extremos e, sobretudo,
evitar mortes.
O desafio será implementar as diretrizes nos
estados e cidades — onde os impactos das mudanças
climáticas se manifestam. Em outra frente, o
Ministério do Meio Ambiente vai ajudar municípios
a desenvolverem seus próprios planos com foco na
proteção de vidas, infraestrutura, transporte, saúde e
outros serviços essenciais.
“Um plano de adaptação ideal parte, antes de
tudo, do conhecimento profundo sobre onde o
território é vulnerável. Por isso, o planejamento
precisa ser participativo, envolvendo não apenas o
poder público, mas também a sociedade civil e o setor
privado”, afirma Lincoln Muniz Alves, coordenadorgeral do Departamento de Políticas para Adaptação e
Resiliência à Mudança do Clima do MMA, referindo-se ao AdaptaCidade.
Não há uma receita de bolo a ser seguida: a
ideia é que cada município, a partir de sua realidade
específica, defina suas prioridades. Em muitos casos,
os problemas estão associados tanto ao excesso
quanto à falta de água, cita como exemplo Alves.
Nesta fase inicial, 581 cidades distribuídas por todos
os estados participam desse esforço.
Para colocar o plano em prática, o acesso ao
financiamento pode ser uma barreira, já que muitos
municípios estão endividados ou têm pouca
capacidade técnica para elaborar projetos robustos.
“Embora existam recursos disponíveis, a burocracia
também é um obstáculo significativo. É necessário
que as próprias agências financiadoras reconheçam
essas limitações e adaptem seus mecanismos”,
comenta Alves sobre outra necessidade de adequação.
(...)
Disponível em:<https://www.dw.com/pt-br/eventosclimáticos-extremos-desafiam-infraestrutura-brasileira/a75216590>. . Adaptado. Acesso em: 06 de fevereiro de 2026.
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