Foram encontradas 100 questões.
- SintaxeTermos Integrantes da OraçãoComplementos VerbaisObjeto Indireto
- SintaxeTermos Integrantes da OraçãoComplemento Nominal
- SintaxeTermos Acessórios e IndependentesTermos AcessóriosAdjunto Adnominal
- SintaxeTermos Acessórios e IndependentesTermos AcessóriosAposto
- SintaxeTermos Acessórios e IndependentesTermos AcessóriosAdjunto Adverbial
Texto I
“Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais
1 A morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado por seguranças irregulares e terceirizados de uma
2 loja da rede francesa de supermercados Carrefour, em 2020, trouxe mais uma vez à tona o debate sobre o racismo estrutural da
3 sociedade brasileira e escancarou um dos mais antigos problemas da segurança pública: a enorme lei do silêncio que impera
4 quando falamos das relações entre seguranças pública e privada no país.
5 O caso João Alberto explicitou que mesmo uma das principais redes de varejo do mundo não controla quem faz e como
6 é feita a vigilância de suas unidades no Brasil. Mais que isso: aceita que empresas por ela contratadas subcontratem profissionais
7 da segurança pública, mesmo que estes sejam legalmente impedidos de terem um segundo emprego. Sim, por lei, o popular
8 “bico”, o segundo trabalho exercido por profissionais de segurança, é proibido. Mas o Brasil não tem regras de compliance e
9 governança que evitem tais situações e mitiguem potenciais conflitos de interesse.
10 Ao contrário, é comum ouvirmos que, quando algum crime envolvendo seguranças privados ganha repercussão, a razão
11 de tais atos seja derivada de uma alegada falta de preparo dos profissionais. Isso não é verdade. Afinal, seja a parcela contratada
12 por empresas formais e legais de segurança privada, seja a parcela da segurança pública que faz “bico” na segurança privada,
13 os profissionais possuem treinamento e formação para uso de armas e em técnicas de defesa pessoal.
14 No que diz respeito à segurança pública, é impressionante que a falta de regulamentação do “bico” não seja vista como
15 uma das mais urgentes pautas de valorização e modernização dos profissionais da área. Vivemos um tácito e leniente pacto que
16 oficialmente faz de conta que não sabe que esse tipo de atividade extra é exercido. Em vários outros países, como os Estados
17 Unidos, não há problema algum em que profissionais de segurança tenham um segundo emprego, desde que regulado e
18 auditado.
19 Dado ainda inédito da pesquisa Escuta de Policiais e demais profissionais da segurança pública do Brasil, realizada pelo
20 Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que 6% dos entrevistados declararam fazer atividades de segurança privada para
21 complementar a renda. Ou seja, se considerarmos que, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e com o IBGE,
22 há aproximadamente 687 mil policiais e bombeiros e 99 mil guardas municipais no Brasil, o percentual de profissionais que
23 respondeu que faz “bico” equivaleria, mesmo com todas as limitações metodológicas envolvidas em uma projeção dessa
24 natureza, a pelo menos 47 mil policiais, bombeiros e guardas municipais – isso considerando só a projeção em relação ao
25 profissional da segurança pública que não vê problemas em assumir o segundo emprego. O número, portanto, pode ser ainda
26 maior.
27 Esses quase 50 mil profissionais têm por missão garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem – mas, por
28 negligência de parte do poder público, vivem na fronteira da ilegalidade e, na prática, não estão sujeitos a nenhum mecanismo
29 de fiscalização e controle. Ficam reféns de escalas de trabalho definidas pelas chefias e suscetíveis aos discursos populistas que
30 prometem céus e maravilhas, mas que, quando no poder, omitem-se de suas responsabilidades. Também ficam suscetíveis às
31 tentações milicianas, à ideia de lucro fácil e à lei do mais forte – aqui a autorização do porte e posse de armas de fogo tem um
32 papel importante no recrutamento irregular desses profissionais para atividades de segurança privada.
33 No fundo, o profissional da segurança pública vale mais pela autorização do porte da arma de fogo que ele possui do
34 que por outros atributos e/ou experiência. Eles são usados, muitas vezes, por empresários e executivos na privatização da
35 segurança sem maiores constrangimentos éticos. E isso ocorre em detrimento do próprio setor econômico, sujeito a regras e
36 controles que, talvez na cabeça de alguns mercadores, mais atrapalham do que ajudam.
37 Dados compilados pela Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores) e
38 publicados na 15ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o setor formal de segurança privada tem
39 reduzido a quantidade de pessoas contratadas nos últimos anos. Em 2018, excluídos os profissionais da segurança pública, havia
40 no país 604.746 seguranças privados aptos a exercer a profissão na ativa. Em 2020, esse número foi reduzido para 526.108.
41 Dito de outro modo, em dois anos, 78.638 seguranças privados foram demitidos no Brasil. Esse contingente pode ser
42 explicado por questões econômicas, como retração da economia em função da pandemia, e/ou a adoção de novas tecnologias
43 e sistemas pelas empresas do setor. Mas tem relação direta com a contratação de policiais exercendo “bicos” em atividades
44 irregulares de segurança privada – e seria 60% menor se o poder público efetivamente fiscalizasse a área e não apenas as
45 empresas devidamente registradas e legalizadas.
46 A questão é, assim, mais complexa. Estamos diante de um enorme paradoxo. Temos profissionais da segurança pública
47 atuando como seguranças privados para complementar a renda. Temos também que só as empresas legalizadas é que acabam
48 sendo fiscalizadas regularmente e, mesmo assim, apenas em seus aspectos mais formais e burocráticos. Mas pouco
49 monitoramos o dia a dia da segurança privada, abrindo margem para a oferta de serviços de má qualidade, clandestinos e que
50 mesmo assim usam como cartão de visita o recrutamento de profissionais da segurança pública para suas equipes. A Polícia
51 Federal não tem estrutura suficiente para fiscalizar o setor como um todo.
52 Isso fica ainda mais patente quando olhamos para os dados de registros de armas de fogo e munições em poder das
53 empresas de segurança privada. De acordo com dados da Polícia Federal constantes no Anuário, as empresas privadas
54 adquiriram, em 2020, 17,8 milhões de novas munições, número 64,7% superior ao de 2019, quando elas tinham adquirido 10,8
55 milhões de munições. E isso ocorre em um período de pandemia, com queda de 29% nos crimes patrimoniais, como roubos de
56 carga, entre outros.
57 Nessa enorme zona de sombra, empresas clandestinas e/ou a contratação irregular de seguranças privados só são
58 investigadas em casos de repercussão. Perdem a segurança pública; o setor privado, que se esforça para atuar dentro das regras
59 do jogo e da legislação vigente; e a sociedade como um todo, que não consegue separar o que é um serviço legalizado de um
60 irregular.
61 Esse limbo só interessa às milícias e aos empresários que aproveitam para aumentar suas taxas de lucros às custas da
62 insegurança da população e da exploração dos policiais brasileiros. E tudo isso sob os olhares de vidro de governos e autoridades.
Fonte: LIMA, Renato Sérgio de. “Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais. Piauí, 29 jul. 2021. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/bico-proibido-
emprega-ao-menos-47-mil-guardas-e-policiais/>. (Adaptado.)
Na frase em que está inserido, o segmento No que diz respeito à segurança pública (linha 14) desempenha função sintática de
Provas
Texto I
“Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais
1 A morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado por seguranças irregulares e terceirizados de uma
2 loja da rede francesa de supermercados Carrefour, em 2020, trouxe mais uma vez à tona o debate sobre o racismo estrutural da
3 sociedade brasileira e escancarou um dos mais antigos problemas da segurança pública: a enorme lei do silêncio que impera
4 quando falamos das relações entre seguranças pública e privada no país.
5 O caso João Alberto explicitou que mesmo uma das principais redes de varejo do mundo não controla quem faz e como
6 é feita a vigilância de suas unidades no Brasil. Mais que isso: aceita que empresas por ela contratadas subcontratem profissionais
7 da segurança pública, mesmo que estes sejam legalmente impedidos de terem um segundo emprego. Sim, por lei, o popular
8 “bico”, o segundo trabalho exercido por profissionais de segurança, é proibido. Mas o Brasil não tem regras de compliance e
9 governança que evitem tais situações e mitiguem potenciais conflitos de interesse.
10 Ao contrário, é comum ouvirmos que, quando algum crime envolvendo seguranças privados ganha repercussão, a razão
11 de tais atos seja derivada de uma alegada falta de preparo dos profissionais. Isso não é verdade. Afinal, seja a parcela contratada
12 por empresas formais e legais de segurança privada, seja a parcela da segurança pública que faz “bico” na segurança privada,
13 os profissionais possuem treinamento e formação para uso de armas e em técnicas de defesa pessoal.
14 No que diz respeito à segurança pública, é impressionante que a falta de regulamentação do “bico” não seja vista como
15 uma das mais urgentes pautas de valorização e modernização dos profissionais da área. Vivemos um tácito e leniente pacto que
16 oficialmente faz de conta que não sabe que esse tipo de atividade extra é exercido. Em vários outros países, como os Estados
17 Unidos, não há problema algum em que profissionais de segurança tenham um segundo emprego, desde que regulado e
18 auditado.
19 Dado ainda inédito da pesquisa Escuta de Policiais e demais profissionais da segurança pública do Brasil, realizada pelo
20 Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que 6% dos entrevistados declararam fazer atividades de segurança privada para
21 complementar a renda. Ou seja, se considerarmos que, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e com o IBGE,
22 há aproximadamente 687 mil policiais e bombeiros e 99 mil guardas municipais no Brasil, o percentual de profissionais que
23 respondeu que faz “bico” equivaleria, mesmo com todas as limitações metodológicas envolvidas em uma projeção dessa
24 natureza, a pelo menos 47 mil policiais, bombeiros e guardas municipais – isso considerando só a projeção em relação ao
25 profissional da segurança pública que não vê problemas em assumir o segundo emprego. O número, portanto, pode ser ainda
26 maior.
27 Esses quase 50 mil profissionais têm por missão garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem – mas, por
28 negligência de parte do poder público, vivem na fronteira da ilegalidade e, na prática, não estão sujeitos a nenhum mecanismo
29 de fiscalização e controle. Ficam reféns de escalas de trabalho definidas pelas chefias e suscetíveis aos discursos populistas que
30 prometem céus e maravilhas, mas que, quando no poder, omitem-se de suas responsabilidades. Também ficam suscetíveis às
31 tentações milicianas, à ideia de lucro fácil e à lei do mais forte – aqui a autorização do porte e posse de armas de fogo tem um
32 papel importante no recrutamento irregular desses profissionais para atividades de segurança privada.
33 No fundo, o profissional da segurança pública vale mais pela autorização do porte da arma de fogo que ele possui do
34 que por outros atributos e/ou experiência. Eles são usados, muitas vezes, por empresários e executivos na privatização da
35 segurança sem maiores constrangimentos éticos. E isso ocorre em detrimento do próprio setor econômico, sujeito a regras e
36 controles que, talvez na cabeça de alguns mercadores, mais atrapalham do que ajudam.
37 Dados compilados pela Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores) e
38 publicados na 15ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o setor formal de segurança privada tem
39 reduzido a quantidade de pessoas contratadas nos últimos anos. Em 2018, excluídos os profissionais da segurança pública, havia
40 no país 604.746 seguranças privados aptos a exercer a profissão na ativa. Em 2020, esse número foi reduzido para 526.108.
41 Dito de outro modo, em dois anos, 78.638 seguranças privados foram demitidos no Brasil. Esse contingente pode ser
42 explicado por questões econômicas, como retração da economia em função da pandemia, e/ou a adoção de novas tecnologias
43 e sistemas pelas empresas do setor. Mas tem relação direta com a contratação de policiais exercendo “bicos” em atividades
44 irregulares de segurança privada – e seria 60% menor se o poder público efetivamente fiscalizasse a área e não apenas as
45 empresas devidamente registradas e legalizadas.
46 A questão é, assim, mais complexa. Estamos diante de um enorme paradoxo. Temos profissionais da segurança pública
47 atuando como seguranças privados para complementar a renda. Temos também que só as empresas legalizadas é que acabam
48 sendo fiscalizadas regularmente e, mesmo assim, apenas em seus aspectos mais formais e burocráticos. Mas pouco
49 monitoramos o dia a dia da segurança privada, abrindo margem para a oferta de serviços de má qualidade, clandestinos e que
50 mesmo assim usam como cartão de visita o recrutamento de profissionais da segurança pública para suas equipes. A Polícia
51 Federal não tem estrutura suficiente para fiscalizar o setor como um todo.
52 Isso fica ainda mais patente quando olhamos para os dados de registros de armas de fogo e munições em poder das
53 empresas de segurança privada. De acordo com dados da Polícia Federal constantes no Anuário, as empresas privadas
54 adquiriram, em 2020, 17,8 milhões de novas munições, número 64,7% superior ao de 2019, quando elas tinham adquirido 10,8
55 milhões de munições. E isso ocorre em um período de pandemia, com queda de 29% nos crimes patrimoniais, como roubos de
56 carga, entre outros.
57 Nessa enorme zona de sombra, empresas clandestinas e/ou a contratação irregular de seguranças privados só são
58 investigadas em casos de repercussão. Perdem a segurança pública; o setor privado, que se esforça para atuar dentro das regras
59 do jogo e da legislação vigente; e a sociedade como um todo, que não consegue separar o que é um serviço legalizado de um
60 irregular.
61 Esse limbo só interessa às milícias e aos empresários que aproveitam para aumentar suas taxas de lucros às custas da
62 insegurança da população e da exploração dos policiais brasileiros. E tudo isso sob os olhares de vidro de governos e autoridades.
Fonte: LIMA, Renato Sérgio de. “Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais. Piauí, 29 jul. 2021. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/bico-proibido-
emprega-ao-menos-47-mil-guardas-e-policiais/>. (Adaptado.)
No trecho aceita que empresas por ela contratadas subcontratem profissionais da segurança pública (linhas 6 e 7), a palavra destacada foi grafada corretamente. Assinale a alternativa em que o emprego do prefixo sub- também esteja correto.
Provas
- MorfologiaVerbosConjugaçãoFlexão Verbal de ModoIndicativo
- MorfologiaVerbosConjugaçãoFlexão Verbal de ModoSubjuntivo
- MorfologiaVerbosConjugaçãoFlexão Verbal de TempoEmprego dos Tempos Verbais
Texto I
“Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais
1 A morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado por seguranças irregulares e terceirizados de uma
2 loja da rede francesa de supermercados Carrefour, em 2020, trouxe mais uma vez à tona o debate sobre o racismo estrutural da
3 sociedade brasileira e escancarou um dos mais antigos problemas da segurança pública: a enorme lei do silêncio que impera
4 quando falamos das relações entre seguranças pública e privada no país.
5 O caso João Alberto explicitou que mesmo uma das principais redes de varejo do mundo não controla quem faz e como
6 é feita a vigilância de suas unidades no Brasil. Mais que isso: aceita que empresas por ela contratadas subcontratem profissionais
7 da segurança pública, mesmo que estes sejam legalmente impedidos de terem um segundo emprego. Sim, por lei, o popular
8 “bico”, o segundo trabalho exercido por profissionais de segurança, é proibido. Mas o Brasil não tem regras de compliance e
9 governança que evitem tais situações e mitiguem potenciais conflitos de interesse.
10 Ao contrário, é comum ouvirmos que, quando algum crime envolvendo seguranças privados ganha repercussão, a razão
11 de tais atos seja derivada de uma alegada falta de preparo dos profissionais. Isso não é verdade. Afinal, seja a parcela contratada
12 por empresas formais e legais de segurança privada, seja a parcela da segurança pública que faz “bico” na segurança privada,
13 os profissionais possuem treinamento e formação para uso de armas e em técnicas de defesa pessoal.
14 No que diz respeito à segurança pública, é impressionante que a falta de regulamentação do “bico” não seja vista como
15 uma das mais urgentes pautas de valorização e modernização dos profissionais da área. Vivemos um tácito e leniente pacto que
16 oficialmente faz de conta que não sabe que esse tipo de atividade extra é exercido. Em vários outros países, como os Estados
17 Unidos, não há problema algum em que profissionais de segurança tenham um segundo emprego, desde que regulado e
18 auditado.
19 Dado ainda inédito da pesquisa Escuta de Policiais e demais profissionais da segurança pública do Brasil, realizada pelo
20 Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que 6% dos entrevistados declararam fazer atividades de segurança privada para
21 complementar a renda. Ou seja, se considerarmos que, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e com o IBGE,
22 há aproximadamente 687 mil policiais e bombeiros e 99 mil guardas municipais no Brasil, o percentual de profissionais que
23 respondeu que faz “bico” equivaleria, mesmo com todas as limitações metodológicas envolvidas em uma projeção dessa
24 natureza, a pelo menos 47 mil policiais, bombeiros e guardas municipais – isso considerando só a projeção em relação ao
25 profissional da segurança pública que não vê problemas em assumir o segundo emprego. O número, portanto, pode ser ainda
26 maior.
27 Esses quase 50 mil profissionais têm por missão garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem – mas, por
28 negligência de parte do poder público, vivem na fronteira da ilegalidade e, na prática, não estão sujeitos a nenhum mecanismo
29 de fiscalização e controle. Ficam reféns de escalas de trabalho definidas pelas chefias e suscetíveis aos discursos populistas que
30 prometem céus e maravilhas, mas que, quando no poder, omitem-se de suas responsabilidades. Também ficam suscetíveis às
31 tentações milicianas, à ideia de lucro fácil e à lei do mais forte – aqui a autorização do porte e posse de armas de fogo tem um
32 papel importante no recrutamento irregular desses profissionais para atividades de segurança privada.
33 No fundo, o profissional da segurança pública vale mais pela autorização do porte da arma de fogo que ele possui do
34 que por outros atributos e/ou experiência. Eles são usados, muitas vezes, por empresários e executivos na privatização da
35 segurança sem maiores constrangimentos éticos. E isso ocorre em detrimento do próprio setor econômico, sujeito a regras e
36 controles que, talvez na cabeça de alguns mercadores, mais atrapalham do que ajudam.
37 Dados compilados pela Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores) e
38 publicados na 15ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o setor formal de segurança privada tem
39 reduzido a quantidade de pessoas contratadas nos últimos anos. Em 2018, excluídos os profissionais da segurança pública, havia
40 no país 604.746 seguranças privados aptos a exercer a profissão na ativa. Em 2020, esse número foi reduzido para 526.108.
41 Dito de outro modo, em dois anos, 78.638 seguranças privados foram demitidos no Brasil. Esse contingente pode ser
42 explicado por questões econômicas, como retração da economia em função da pandemia, e/ou a adoção de novas tecnologias
43 e sistemas pelas empresas do setor. Mas tem relação direta com a contratação de policiais exercendo “bicos” em atividades
44 irregulares de segurança privada – e seria 60% menor se o poder público efetivamente fiscalizasse a área e não apenas as
45 empresas devidamente registradas e legalizadas.
46 A questão é, assim, mais complexa. Estamos diante de um enorme paradoxo. Temos profissionais da segurança pública
47 atuando como seguranças privados para complementar a renda. Temos também que só as empresas legalizadas é que acabam
48 sendo fiscalizadas regularmente e, mesmo assim, apenas em seus aspectos mais formais e burocráticos. Mas pouco
49 monitoramos o dia a dia da segurança privada, abrindo margem para a oferta de serviços de má qualidade, clandestinos e que
50 mesmo assim usam como cartão de visita o recrutamento de profissionais da segurança pública para suas equipes. A Polícia
51 Federal não tem estrutura suficiente para fiscalizar o setor como um todo.
52 Isso fica ainda mais patente quando olhamos para os dados de registros de armas de fogo e munições em poder das
53 empresas de segurança privada. De acordo com dados da Polícia Federal constantes no Anuário, as empresas privadas
54 adquiriram, em 2020, 17,8 milhões de novas munições, número 64,7% superior ao de 2019, quando elas tinham adquirido 10,8
55 milhões de munições. E isso ocorre em um período de pandemia, com queda de 29% nos crimes patrimoniais, como roubos de
56 carga, entre outros.
57 Nessa enorme zona de sombra, empresas clandestinas e/ou a contratação irregular de seguranças privados só são
58 investigadas em casos de repercussão. Perdem a segurança pública; o setor privado, que se esforça para atuar dentro das regras
59 do jogo e da legislação vigente; e a sociedade como um todo, que não consegue separar o que é um serviço legalizado de um
60 irregular.
61 Esse limbo só interessa às milícias e aos empresários que aproveitam para aumentar suas taxas de lucros às custas da
62 insegurança da população e da exploração dos policiais brasileiros. E tudo isso sob os olhares de vidro de governos e autoridades.
Fonte: LIMA, Renato Sérgio de. “Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais. Piauí, 29 jul. 2021. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/bico-proibido-
emprega-ao-menos-47-mil-guardas-e-policiais/>. (Adaptado.)
Considere as afirmações acerca de formas verbais e as relações de sentido por elas expressas no texto.
I. As formas verbais trouxe (linha 2), impera (linha 3) e falamos (linha 4) expressam, respectivamente, presente, presente e passado.
II. As formas verbais evitem (linha 9) e fiscalizasse (linha 44) indicam, respectivamente, certeza e suposição, ao representarem conjugações em diferentes modos.
III. As formas verbais equivaleria (linha 23) e seria (linha 44) exprimem possibilidade, ao se apresentarem condicionadas a outras afirmações.
Assinale
Provas
Texto I
“Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais
1 A morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado por seguranças irregulares e terceirizados de uma
2 loja da rede francesa de supermercados Carrefour, em 2020, trouxe mais uma vez à tona o debate sobre o racismo estrutural da
3 sociedade brasileira e escancarou um dos mais antigos problemas da segurança pública: a enorme lei do silêncio que impera
4 quando falamos das relações entre seguranças pública e privada no país.
5 O caso João Alberto explicitou que mesmo uma das principais redes de varejo do mundo não controla quem faz e como
6 é feita a vigilância de suas unidades no Brasil. Mais que isso: aceita que empresas por ela contratadas subcontratem profissionais
7 da segurança pública, mesmo que estes sejam legalmente impedidos de terem um segundo emprego. Sim, por lei, o popular
8 “bico”, o segundo trabalho exercido por profissionais de segurança, é proibido. Mas o Brasil não tem regras de compliance e
9 governança que evitem tais situações e mitiguem potenciais conflitos de interesse.
10 Ao contrário, é comum ouvirmos que, quando algum crime envolvendo seguranças privados ganha repercussão, a razão
11 de tais atos seja derivada de uma alegada falta de preparo dos profissionais. Isso não é verdade. Afinal, seja a parcela contratada
12 por empresas formais e legais de segurança privada, seja a parcela da segurança pública que faz “bico” na segurança privada,
13 os profissionais possuem treinamento e formação para uso de armas e em técnicas de defesa pessoal.
14 No que diz respeito à segurança pública, é impressionante que a falta de regulamentação do “bico” não seja vista como
15 uma das mais urgentes pautas de valorização e modernização dos profissionais da área. Vivemos um tácito e leniente pacto que
16 oficialmente faz de conta que não sabe que esse tipo de atividade extra é exercido. Em vários outros países, como os Estados
17 Unidos, não há problema algum em que profissionais de segurança tenham um segundo emprego, desde que regulado e
18 auditado.
19 Dado ainda inédito da pesquisa Escuta de Policiais e demais profissionais da segurança pública do Brasil, realizada pelo
20 Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que 6% dos entrevistados declararam fazer atividades de segurança privada para
21 complementar a renda. Ou seja, se considerarmos que, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e com o IBGE,
22 há aproximadamente 687 mil policiais e bombeiros e 99 mil guardas municipais no Brasil, o percentual de profissionais que
23 respondeu que faz “bico” equivaleria, mesmo com todas as limitações metodológicas envolvidas em uma projeção dessa
24 natureza, a pelo menos 47 mil policiais, bombeiros e guardas municipais – isso considerando só a projeção em relação ao
25 profissional da segurança pública que não vê problemas em assumir o segundo emprego. O número, portanto, pode ser ainda
26 maior.
27 Esses quase 50 mil profissionais têm por missão garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem – mas, por
28 negligência de parte do poder público, vivem na fronteira da ilegalidade e, na prática, não estão sujeitos a nenhum mecanismo
29 de fiscalização e controle. Ficam reféns de escalas de trabalho definidas pelas chefias e suscetíveis aos discursos populistas que
30 prometem céus e maravilhas, mas que, quando no poder, omitem-se de suas responsabilidades. Também ficam suscetíveis às
31 tentações milicianas, à ideia de lucro fácil e à lei do mais forte – aqui a autorização do porte e posse de armas de fogo tem um
32 papel importante no recrutamento irregular desses profissionais para atividades de segurança privada.
33 No fundo, o profissional da segurança pública vale mais pela autorização do porte da arma de fogo que ele possui do
34 que por outros atributos e/ou experiência. Eles são usados, muitas vezes, por empresários e executivos na privatização da
35 segurança sem maiores constrangimentos éticos. E isso ocorre em detrimento do próprio setor econômico, sujeito a regras e
36 controles que, talvez na cabeça de alguns mercadores, mais atrapalham do que ajudam.
37 Dados compilados pela Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores) e
38 publicados na 15ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o setor formal de segurança privada tem
39 reduzido a quantidade de pessoas contratadas nos últimos anos. Em 2018, excluídos os profissionais da segurança pública, havia
40 no país 604.746 seguranças privados aptos a exercer a profissão na ativa. Em 2020, esse número foi reduzido para 526.108.
41 Dito de outro modo, em dois anos, 78.638 seguranças privados foram demitidos no Brasil. Esse contingente pode ser
42 explicado por questões econômicas, como retração da economia em função da pandemia, e/ou a adoção de novas tecnologias
43 e sistemas pelas empresas do setor. Mas tem relação direta com a contratação de policiais exercendo “bicos” em atividades
44 irregulares de segurança privada – e seria 60% menor se o poder público efetivamente fiscalizasse a área e não apenas as
45 empresas devidamente registradas e legalizadas.
46 A questão é, assim, mais complexa. Estamos diante de um enorme paradoxo. Temos profissionais da segurança pública
47 atuando como seguranças privados para complementar a renda. Temos também que só as empresas legalizadas é que acabam
48 sendo fiscalizadas regularmente e, mesmo assim, apenas em seus aspectos mais formais e burocráticos. Mas pouco
49 monitoramos o dia a dia da segurança privada, abrindo margem para a oferta de serviços de má qualidade, clandestinos e que
50 mesmo assim usam como cartão de visita o recrutamento de profissionais da segurança pública para suas equipes. A Polícia
51 Federal não tem estrutura suficiente para fiscalizar o setor como um todo.
52 Isso fica ainda mais patente quando olhamos para os dados de registros de armas de fogo e munições em poder das
53 empresas de segurança privada. De acordo com dados da Polícia Federal constantes no Anuário, as empresas privadas
54 adquiriram, em 2020, 17,8 milhões de novas munições, número 64,7% superior ao de 2019, quando elas tinham adquirido 10,8
55 milhões de munições. E isso ocorre em um período de pandemia, com queda de 29% nos crimes patrimoniais, como roubos de
56 carga, entre outros.
57 Nessa enorme zona de sombra, empresas clandestinas e/ou a contratação irregular de seguranças privados só são
58 investigadas em casos de repercussão. Perdem a segurança pública; o setor privado, que se esforça para atuar dentro das regras
59 do jogo e da legislação vigente; e a sociedade como um todo, que não consegue separar o que é um serviço legalizado de um
60 irregular.
61 Esse limbo só interessa às milícias e aos empresários que aproveitam para aumentar suas taxas de lucros às custas da
62 insegurança da população e da exploração dos policiais brasileiros. E tudo isso sob os olhares de vidro de governos e autoridades.
Fonte: LIMA, Renato Sérgio de. “Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais. Piauí, 29 jul. 2021. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/bico-proibido-
emprega-ao-menos-47-mil-guardas-e-policiais/>. (Adaptado.)
O acento indicativo de crase destacado no segmento Esse limbo só interessa às milícias e aos empresários (linha 61) é obrigatório. Assinale a alternativa em que seja facultativo o emprego do acento grave.
Provas
Texto I
“Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais
1 A morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado por seguranças irregulares e terceirizados de uma
2 loja da rede francesa de supermercados Carrefour, em 2020, trouxe mais uma vez à tona o debate sobre o racismo estrutural da
3 sociedade brasileira e escancarou um dos mais antigos problemas da segurança pública: a enorme lei do silêncio que impera
4 quando falamos das relações entre seguranças pública e privada no país.
5 O caso João Alberto explicitou que mesmo uma das principais redes de varejo do mundo não controla quem faz e como
6 é feita a vigilância de suas unidades no Brasil. Mais que isso: aceita que empresas por ela contratadas subcontratem profissionais
7 da segurança pública, mesmo que estes sejam legalmente impedidos de terem um segundo emprego. Sim, por lei, o popular
8 “bico”, o segundo trabalho exercido por profissionais de segurança, é proibido. Mas o Brasil não tem regras de compliance e
9 governança que evitem tais situações e mitiguem potenciais conflitos de interesse.
10 Ao contrário, é comum ouvirmos que, quando algum crime envolvendo seguranças privados ganha repercussão, a razão
11 de tais atos seja derivada de uma alegada falta de preparo dos profissionais. Isso não é verdade. Afinal, seja a parcela contratada
12 por empresas formais e legais de segurança privada, seja a parcela da segurança pública que faz “bico” na segurança privada,
13 os profissionais possuem treinamento e formação para uso de armas e em técnicas de defesa pessoal.
14 No que diz respeito à segurança pública, é impressionante que a falta de regulamentação do “bico” não seja vista como
15 uma das mais urgentes pautas de valorização e modernização dos profissionais da área. Vivemos um tácito e leniente pacto que
16 oficialmente faz de conta que não sabe que esse tipo de atividade extra é exercido. Em vários outros países, como os Estados
17 Unidos, não há problema algum em que profissionais de segurança tenham um segundo emprego, desde que regulado e
18 auditado.
19 Dado ainda inédito da pesquisa Escuta de Policiais e demais profissionais da segurança pública do Brasil, realizada pelo
20 Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que 6% dos entrevistados declararam fazer atividades de segurança privada para
21 complementar a renda. Ou seja, se considerarmos que, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e com o IBGE,
22 há aproximadamente 687 mil policiais e bombeiros e 99 mil guardas municipais no Brasil, o percentual de profissionais que
23 respondeu que faz “bico” equivaleria, mesmo com todas as limitações metodológicas envolvidas em uma projeção dessa
24 natureza, a pelo menos 47 mil policiais, bombeiros e guardas municipais – isso considerando só a projeção em relação ao
25 profissional da segurança pública que não vê problemas em assumir o segundo emprego. O número, portanto, pode ser ainda
26 maior.
27 Esses quase 50 mil profissionais têm por missão garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem – mas, por
28 negligência de parte do poder público, vivem na fronteira da ilegalidade e, na prática, não estão sujeitos a nenhum mecanismo
29 de fiscalização e controle. Ficam reféns de escalas de trabalho definidas pelas chefias e suscetíveis aos discursos populistas que
30 prometem céus e maravilhas, mas que, quando no poder, omitem-se de suas responsabilidades. Também ficam suscetíveis às
31 tentações milicianas, à ideia de lucro fácil e à lei do mais forte – aqui a autorização do porte e posse de armas de fogo tem um
32 papel importante no recrutamento irregular desses profissionais para atividades de segurança privada.
33 No fundo, o profissional da segurança pública vale mais pela autorização do porte da arma de fogo que ele possui do
34 que por outros atributos e/ou experiência. Eles são usados, muitas vezes, por empresários e executivos na privatização da
35 segurança sem maiores constrangimentos éticos. E isso ocorre em detrimento do próprio setor econômico, sujeito a regras e
36 controles que, talvez na cabeça de alguns mercadores, mais atrapalham do que ajudam.
37 Dados compilados pela Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores) e
38 publicados na 15ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o setor formal de segurança privada tem
39 reduzido a quantidade de pessoas contratadas nos últimos anos. Em 2018, excluídos os profissionais da segurança pública, havia
40 no país 604.746 seguranças privados aptos a exercer a profissão na ativa. Em 2020, esse número foi reduzido para 526.108.
41 Dito de outro modo, em dois anos, 78.638 seguranças privados foram demitidos no Brasil. Esse contingente pode ser
42 explicado por questões econômicas, como retração da economia em função da pandemia, e/ou a adoção de novas tecnologias
43 e sistemas pelas empresas do setor. Mas tem relação direta com a contratação de policiais exercendo “bicos” em atividades
44 irregulares de segurança privada – e seria 60% menor se o poder público efetivamente fiscalizasse a área e não apenas as
45 empresas devidamente registradas e legalizadas.
46 A questão é, assim, mais complexa. Estamos diante de um enorme paradoxo. Temos profissionais da segurança pública
47 atuando como seguranças privados para complementar a renda. Temos também que só as empresas legalizadas é que acabam
48 sendo fiscalizadas regularmente e, mesmo assim, apenas em seus aspectos mais formais e burocráticos. Mas pouco
49 monitoramos o dia a dia da segurança privada, abrindo margem para a oferta de serviços de má qualidade, clandestinos e que
50 mesmo assim usam como cartão de visita o recrutamento de profissionais da segurança pública para suas equipes. A Polícia
51 Federal não tem estrutura suficiente para fiscalizar o setor como um todo.
52 Isso fica ainda mais patente quando olhamos para os dados de registros de armas de fogo e munições em poder das
53 empresas de segurança privada. De acordo com dados da Polícia Federal constantes no Anuário, as empresas privadas
54 adquiriram, em 2020, 17,8 milhões de novas munições, número 64,7% superior ao de 2019, quando elas tinham adquirido 10,8
55 milhões de munições. E isso ocorre em um período de pandemia, com queda de 29% nos crimes patrimoniais, como roubos de
56 carga, entre outros.
57 Nessa enorme zona de sombra, empresas clandestinas e/ou a contratação irregular de seguranças privados só são
58 investigadas em casos de repercussão. Perdem a segurança pública; o setor privado, que se esforça para atuar dentro das regras
59 do jogo e da legislação vigente; e a sociedade como um todo, que não consegue separar o que é um serviço legalizado de um
60 irregular.
61 Esse limbo só interessa às milícias e aos empresários que aproveitam para aumentar suas taxas de lucros às custas da
62 insegurança da população e da exploração dos policiais brasileiros. E tudo isso sob os olhares de vidro de governos e autoridades.
Fonte: LIMA, Renato Sérgio de. “Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais. Piauí, 29 jul. 2021. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/bico-proibido-
emprega-ao-menos-47-mil-guardas-e-policiais/>. (Adaptado.)
Perdem a segurança pública; o setor privado, que se esforça para atuar dentro das regras do jogo e da legislação vigente; e a sociedade como um todo, que não consegue separar o que é um serviço legalizado de um irregular. (linhas 58 a 60)
No período acima, empregou-se corretamente ponto e vírgula, seguindo regra específica. Assinale a alternativa em que essa regra tenha sido igualmente empregada.
Provas
Texto I
“Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais
1 A morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado por seguranças irregulares e terceirizados de uma
2 loja da rede francesa de supermercados Carrefour, em 2020, trouxe mais uma vez à tona o debate sobre o racismo estrutural da
3 sociedade brasileira e escancarou um dos mais antigos problemas da segurança pública: a enorme lei do silêncio que impera
4 quando falamos das relações entre seguranças pública e privada no país.
5 O caso João Alberto explicitou que mesmo uma das principais redes de varejo do mundo não controla quem faz e como
6 é feita a vigilância de suas unidades no Brasil. Mais que isso: aceita que empresas por ela contratadas subcontratem profissionais
7 da segurança pública, mesmo que estes sejam legalmente impedidos de terem um segundo emprego. Sim, por lei, o popular
8 “bico”, o segundo trabalho exercido por profissionais de segurança, é proibido. Mas o Brasil não tem regras de compliance e
9 governança que evitem tais situações e mitiguem potenciais conflitos de interesse.
10 Ao contrário, é comum ouvirmos que, quando algum crime envolvendo seguranças privados ganha repercussão, a razão
11 de tais atos seja derivada de uma alegada falta de preparo dos profissionais. Isso não é verdade. Afinal, seja a parcela contratada
12 por empresas formais e legais de segurança privada, seja a parcela da segurança pública que faz “bico” na segurança privada,
13 os profissionais possuem treinamento e formação para uso de armas e em técnicas de defesa pessoal.
14 No que diz respeito à segurança pública, é impressionante que a falta de regulamentação do “bico” não seja vista como
15 uma das mais urgentes pautas de valorização e modernização dos profissionais da área. Vivemos um tácito e leniente pacto que
16 oficialmente faz de conta que não sabe que esse tipo de atividade extra é exercido. Em vários outros países, como os Estados
17 Unidos, não há problema algum em que profissionais de segurança tenham um segundo emprego, desde que regulado e
18 auditado.
19 Dado ainda inédito da pesquisa Escuta de Policiais e demais profissionais da segurança pública do Brasil, realizada pelo
20 Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que 6% dos entrevistados declararam fazer atividades de segurança privada para
21 complementar a renda. Ou seja, se considerarmos que, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e com o IBGE,
22 há aproximadamente 687 mil policiais e bombeiros e 99 mil guardas municipais no Brasil, o percentual de profissionais que
23 respondeu que faz “bico” equivaleria, mesmo com todas as limitações metodológicas envolvidas em uma projeção dessa
24 natureza, a pelo menos 47 mil policiais, bombeiros e guardas municipais – isso considerando só a projeção em relação ao
25 profissional da segurança pública que não vê problemas em assumir o segundo emprego. O número, portanto, pode ser ainda
26 maior.
27 Esses quase 50 mil profissionais têm por missão garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem – mas, por
28 negligência de parte do poder público, vivem na fronteira da ilegalidade e, na prática, não estão sujeitos a nenhum mecanismo
29 de fiscalização e controle. Ficam reféns de escalas de trabalho definidas pelas chefias e suscetíveis aos discursos populistas que
30 prometem céus e maravilhas, mas que, quando no poder, omitem-se de suas responsabilidades. Também ficam suscetíveis às
31 tentações milicianas, à ideia de lucro fácil e à lei do mais forte – aqui a autorização do porte e posse de armas de fogo tem um
32 papel importante no recrutamento irregular desses profissionais para atividades de segurança privada.
33 No fundo, o profissional da segurança pública vale mais pela autorização do porte da arma de fogo que ele possui do
34 que por outros atributos e/ou experiência. Eles são usados, muitas vezes, por empresários e executivos na privatização da
35 segurança sem maiores constrangimentos éticos. E isso ocorre em detrimento do próprio setor econômico, sujeito a regras e
36 controles que, talvez na cabeça de alguns mercadores, mais atrapalham do que ajudam.
37 Dados compilados pela Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores) e
38 publicados na 15ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o setor formal de segurança privada tem
39 reduzido a quantidade de pessoas contratadas nos últimos anos. Em 2018, excluídos os profissionais da segurança pública, havia
40 no país 604.746 seguranças privados aptos a exercer a profissão na ativa. Em 2020, esse número foi reduzido para 526.108.
41 Dito de outro modo, em dois anos, 78.638 seguranças privados foram demitidos no Brasil. Esse contingente pode ser
42 explicado por questões econômicas, como retração da economia em função da pandemia, e/ou a adoção de novas tecnologias
43 e sistemas pelas empresas do setor. Mas tem relação direta com a contratação de policiais exercendo “bicos” em atividades
44 irregulares de segurança privada – e seria 60% menor se o poder público efetivamente fiscalizasse a área e não apenas as
45 empresas devidamente registradas e legalizadas.
46 A questão é, assim, mais complexa. Estamos diante de um enorme paradoxo. Temos profissionais da segurança pública
47 atuando como seguranças privados para complementar a renda. Temos também que só as empresas legalizadas é que acabam
48 sendo fiscalizadas regularmente e, mesmo assim, apenas em seus aspectos mais formais e burocráticos. Mas pouco
49 monitoramos o dia a dia da segurança privada, abrindo margem para a oferta de serviços de má qualidade, clandestinos e que
50 mesmo assim usam como cartão de visita o recrutamento de profissionais da segurança pública para suas equipes. A Polícia
51 Federal não tem estrutura suficiente para fiscalizar o setor como um todo.
52 Isso fica ainda mais patente quando olhamos para os dados de registros de armas de fogo e munições em poder das
53 empresas de segurança privada. De acordo com dados da Polícia Federal constantes no Anuário, as empresas privadas
54 adquiriram, em 2020, 17,8 milhões de novas munições, número 64,7% superior ao de 2019, quando elas tinham adquirido 10,8
55 milhões de munições. E isso ocorre em um período de pandemia, com queda de 29% nos crimes patrimoniais, como roubos de
56 carga, entre outros.
57 Nessa enorme zona de sombra, empresas clandestinas e/ou a contratação irregular de seguranças privados só são
58 investigadas em casos de repercussão. Perdem a segurança pública; o setor privado, que se esforça para atuar dentro das regras
59 do jogo e da legislação vigente; e a sociedade como um todo, que não consegue separar o que é um serviço legalizado de um
60 irregular.
61 Esse limbo só interessa às milícias e aos empresários que aproveitam para aumentar suas taxas de lucros às custas da
62 insegurança da população e da exploração dos policiais brasileiros. E tudo isso sob os olhares de vidro de governos e autoridades.
Fonte: LIMA, Renato Sérgio de. “Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais. Piauí, 29 jul. 2021. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/bico-proibido-
emprega-ao-menos-47-mil-guardas-e-policiais/>. (Adaptado.)
Considere as frases do texto.
I. Eles são usados, muitas vezes, por empresários e executivos na privatização da segurança sem maiores constrangimentos éticos. (linhas 34 e 35)
II. Esse contingente pode ser explicado por questões econômicas, como retração da economia em função da pandemia, e/ou a adoção de novas tecnologias e sistemas pelas empresas do setor. (linhas 41 a 43)
III. Temos também que só as empresas legalizadas é que acabam sendo fiscalizadas regularmente e, mesmo assim, apenas em seus aspectos mais formais e burocráticos. (linhas 47 e 48)
Assinale
Provas
Texto I
“Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais
1 A morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado por seguranças irregulares e terceirizados de uma
2 loja da rede francesa de supermercados Carrefour, em 2020, trouxe mais uma vez à tona o debate sobre o racismo estrutural da
3 sociedade brasileira e escancarou um dos mais antigos problemas da segurança pública: a enorme lei do silêncio que impera
4 quando falamos das relações entre seguranças pública e privada no país.
5 O caso João Alberto explicitou que mesmo uma das principais redes de varejo do mundo não controla quem faz e como
6 é feita a vigilância de suas unidades no Brasil. Mais que isso: aceita que empresas por ela contratadas subcontratem profissionais
7 da segurança pública, mesmo que estes sejam legalmente impedidos de terem um segundo emprego. Sim, por lei, o popular
8 “bico”, o segundo trabalho exercido por profissionais de segurança, é proibido. Mas o Brasil não tem regras de compliance e
9 governança que evitem tais situações e mitiguem potenciais conflitos de interesse.
10 Ao contrário, é comum ouvirmos que, quando algum crime envolvendo seguranças privados ganha repercussão, a razão
11 de tais atos seja derivada de uma alegada falta de preparo dos profissionais. Isso não é verdade. Afinal, seja a parcela contratada
12 por empresas formais e legais de segurança privada, seja a parcela da segurança pública que faz “bico” na segurança privada,
13 os profissionais possuem treinamento e formação para uso de armas e em técnicas de defesa pessoal.
14 No que diz respeito à segurança pública, é impressionante que a falta de regulamentação do “bico” não seja vista como
15 uma das mais urgentes pautas de valorização e modernização dos profissionais da área. Vivemos um tácito e leniente pacto que
16 oficialmente faz de conta que não sabe que esse tipo de atividade extra é exercido. Em vários outros países, como os Estados
17 Unidos, não há problema algum em que profissionais de segurança tenham um segundo emprego, desde que regulado e
18 auditado.
19 Dado ainda inédito da pesquisa Escuta de Policiais e demais profissionais da segurança pública do Brasil, realizada pelo
20 Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que 6% dos entrevistados declararam fazer atividades de segurança privada para
21 complementar a renda. Ou seja, se considerarmos que, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e com o IBGE,
22 há aproximadamente 687 mil policiais e bombeiros e 99 mil guardas municipais no Brasil, o percentual de profissionais que
23 respondeu que faz “bico” equivaleria, mesmo com todas as limitações metodológicas envolvidas em uma projeção dessa
24 natureza, a pelo menos 47 mil policiais, bombeiros e guardas municipais – isso considerando só a projeção em relação ao
25 profissional da segurança pública que não vê problemas em assumir o segundo emprego. O número, portanto, pode ser ainda
26 maior.
27 Esses quase 50 mil profissionais têm por missão garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem – mas, por
28 negligência de parte do poder público, vivem na fronteira da ilegalidade e, na prática, não estão sujeitos a nenhum mecanismo
29 de fiscalização e controle. Ficam reféns de escalas de trabalho definidas pelas chefias e suscetíveis aos discursos populistas que
30 prometem céus e maravilhas, mas que, quando no poder, omitem-se de suas responsabilidades. Também ficam suscetíveis às
31 tentações milicianas, à ideia de lucro fácil e à lei do mais forte – aqui a autorização do porte e posse de armas de fogo tem um
32 papel importante no recrutamento irregular desses profissionais para atividades de segurança privada.
33 No fundo, o profissional da segurança pública vale mais pela autorização do porte da arma de fogo que ele possui do
34 que por outros atributos e/ou experiência. Eles são usados, muitas vezes, por empresários e executivos na privatização da
35 segurança sem maiores constrangimentos éticos. E isso ocorre em detrimento do próprio setor econômico, sujeito a regras e
36 controles que, talvez na cabeça de alguns mercadores, mais atrapalham do que ajudam.
37 Dados compilados pela Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores) e
38 publicados na 15ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o setor formal de segurança privada tem
39 reduzido a quantidade de pessoas contratadas nos últimos anos. Em 2018, excluídos os profissionais da segurança pública, havia
40 no país 604.746 seguranças privados aptos a exercer a profissão na ativa. Em 2020, esse número foi reduzido para 526.108.
41 Dito de outro modo, em dois anos, 78.638 seguranças privados foram demitidos no Brasil. Esse contingente pode ser
42 explicado por questões econômicas, como retração da economia em função da pandemia, e/ou a adoção de novas tecnologias
43 e sistemas pelas empresas do setor. Mas tem relação direta com a contratação de policiais exercendo “bicos” em atividades
44 irregulares de segurança privada – e seria 60% menor se o poder público efetivamente fiscalizasse a área e não apenas as
45 empresas devidamente registradas e legalizadas.
46 A questão é, assim, mais complexa. Estamos diante de um enorme paradoxo. Temos profissionais da segurança pública
47 atuando como seguranças privados para complementar a renda. Temos também que só as empresas legalizadas é que acabam
48 sendo fiscalizadas regularmente e, mesmo assim, apenas em seus aspectos mais formais e burocráticos. Mas pouco
49 monitoramos o dia a dia da segurança privada, abrindo margem para a oferta de serviços de má qualidade, clandestinos e que
50 mesmo assim usam como cartão de visita o recrutamento de profissionais da segurança pública para suas equipes. A Polícia
51 Federal não tem estrutura suficiente para fiscalizar o setor como um todo.
52 Isso fica ainda mais patente quando olhamos para os dados de registros de armas de fogo e munições em poder das
53 empresas de segurança privada. De acordo com dados da Polícia Federal constantes no Anuário, as empresas privadas
54 adquiriram, em 2020, 17,8 milhões de novas munições, número 64,7% superior ao de 2019, quando elas tinham adquirido 10,8
55 milhões de munições. E isso ocorre em um período de pandemia, com queda de 29% nos crimes patrimoniais, como roubos de
56 carga, entre outros.
57 Nessa enorme zona de sombra, empresas clandestinas e/ou a contratação irregular de seguranças privados só são
58 investigadas em casos de repercussão. Perdem a segurança pública; o setor privado, que se esforça para atuar dentro das regras
59 do jogo e da legislação vigente; e a sociedade como um todo, que não consegue separar o que é um serviço legalizado de um
60 irregular.
61 Esse limbo só interessa às milícias e aos empresários que aproveitam para aumentar suas taxas de lucros às custas da
62 insegurança da população e da exploração dos policiais brasileiros. E tudo isso sob os olhares de vidro de governos e autoridades.
Fonte: LIMA, Renato Sérgio de. “Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais. Piauí, 29 jul. 2021. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/bico-proibido-
emprega-ao-menos-47-mil-guardas-e-policiais/>. (Adaptado.)
Assinale a alternativa que relacione corretamente o verbo com seu respectivo sujeito.
Provas
Texto I
“Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais
1 A morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado por seguranças irregulares e terceirizados de uma
2 loja da rede francesa de supermercados Carrefour, em 2020, trouxe mais uma vez à tona o debate sobre o racismo estrutural da
3 sociedade brasileira e escancarou um dos mais antigos problemas da segurança pública: a enorme lei do silêncio que impera
4 quando falamos das relações entre seguranças pública e privada no país.
5 O caso João Alberto explicitou que mesmo uma das principais redes de varejo do mundo não controla quem faz e como
6 é feita a vigilância de suas unidades no Brasil. Mais que isso: aceita que empresas por ela contratadas subcontratem profissionais
7 da segurança pública, mesmo que estes sejam legalmente impedidos de terem um segundo emprego. Sim, por lei, o popular
8 “bico”, o segundo trabalho exercido por profissionais de segurança, é proibido. Mas o Brasil não tem regras de compliance e
9 governança que evitem tais situações e mitiguem potenciais conflitos de interesse.
10 Ao contrário, é comum ouvirmos que, quando algum crime envolvendo seguranças privados ganha repercussão, a razão
11 de tais atos seja derivada de uma alegada falta de preparo dos profissionais. Isso não é verdade. Afinal, seja a parcela contratada
12 por empresas formais e legais de segurança privada, seja a parcela da segurança pública que faz “bico” na segurança privada,
13 os profissionais possuem treinamento e formação para uso de armas e em técnicas de defesa pessoal.
14 No que diz respeito à segurança pública, é impressionante que a falta de regulamentação do “bico” não seja vista como
15 uma das mais urgentes pautas de valorização e modernização dos profissionais da área. Vivemos um tácito e leniente pacto que
16 oficialmente faz de conta que não sabe que esse tipo de atividade extra é exercido. Em vários outros países, como os Estados
17 Unidos, não há problema algum em que profissionais de segurança tenham um segundo emprego, desde que regulado e
18 auditado.
19 Dado ainda inédito da pesquisa Escuta de Policiais e demais profissionais da segurança pública do Brasil, realizada pelo
20 Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que 6% dos entrevistados declararam fazer atividades de segurança privada para
21 complementar a renda. Ou seja, se considerarmos que, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e com o IBGE,
22 há aproximadamente 687 mil policiais e bombeiros e 99 mil guardas municipais no Brasil, o percentual de profissionais que
23 respondeu que faz “bico” equivaleria, mesmo com todas as limitações metodológicas envolvidas em uma projeção dessa
24 natureza, a pelo menos 47 mil policiais, bombeiros e guardas municipais – isso considerando só a projeção em relação ao
25 profissional da segurança pública que não vê problemas em assumir o segundo emprego. O número, portanto, pode ser ainda
26 maior.
27 Esses quase 50 mil profissionais têm por missão garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem – mas, por
28 negligência de parte do poder público, vivem na fronteira da ilegalidade e, na prática, não estão sujeitos a nenhum mecanismo
29 de fiscalização e controle. Ficam reféns de escalas de trabalho definidas pelas chefias e suscetíveis aos discursos populistas que
30 prometem céus e maravilhas, mas que, quando no poder, omitem-se de suas responsabilidades. Também ficam suscetíveis às
31 tentações milicianas, à ideia de lucro fácil e à lei do mais forte – aqui a autorização do porte e posse de armas de fogo tem um
32 papel importante no recrutamento irregular desses profissionais para atividades de segurança privada.
33 No fundo, o profissional da segurança pública vale mais pela autorização do porte da arma de fogo que ele possui do
34 que por outros atributos e/ou experiência. Eles são usados, muitas vezes, por empresários e executivos na privatização da
35 segurança sem maiores constrangimentos éticos. E isso ocorre em detrimento do próprio setor econômico, sujeito a regras e
36 controles que, talvez na cabeça de alguns mercadores, mais atrapalham do que ajudam.
37 Dados compilados pela Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores) e
38 publicados na 15ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o setor formal de segurança privada tem
39 reduzido a quantidade de pessoas contratadas nos últimos anos. Em 2018, excluídos os profissionais da segurança pública, havia
40 no país 604.746 seguranças privados aptos a exercer a profissão na ativa. Em 2020, esse número foi reduzido para 526.108.
41 Dito de outro modo, em dois anos, 78.638 seguranças privados foram demitidos no Brasil. Esse contingente pode ser
42 explicado por questões econômicas, como retração da economia em função da pandemia, e/ou a adoção de novas tecnologias
43 e sistemas pelas empresas do setor. Mas tem relação direta com a contratação de policiais exercendo “bicos” em atividades
44 irregulares de segurança privada – e seria 60% menor se o poder público efetivamente fiscalizasse a área e não apenas as
45 empresas devidamente registradas e legalizadas.
46 A questão é, assim, mais complexa. Estamos diante de um enorme paradoxo. Temos profissionais da segurança pública
47 atuando como seguranças privados para complementar a renda. Temos também que só as empresas legalizadas é que acabam
48 sendo fiscalizadas regularmente e, mesmo assim, apenas em seus aspectos mais formais e burocráticos. Mas pouco
49 monitoramos o dia a dia da segurança privada, abrindo margem para a oferta de serviços de má qualidade, clandestinos e que
50 mesmo assim usam como cartão de visita o recrutamento de profissionais da segurança pública para suas equipes. A Polícia
51 Federal não tem estrutura suficiente para fiscalizar o setor como um todo.
52 Isso fica ainda mais patente quando olhamos para os dados de registros de armas de fogo e munições em poder das
53 empresas de segurança privada. De acordo com dados da Polícia Federal constantes no Anuário, as empresas privadas
54 adquiriram, em 2020, 17,8 milhões de novas munições, número 64,7% superior ao de 2019, quando elas tinham adquirido 10,8
55 milhões de munições. E isso ocorre em um período de pandemia, com queda de 29% nos crimes patrimoniais, como roubos de
56 carga, entre outros.
57 Nessa enorme zona de sombra, empresas clandestinas e/ou a contratação irregular de seguranças privados só são
58 investigadas em casos de repercussão. Perdem a segurança pública; o setor privado, que se esforça para atuar dentro das regras
59 do jogo e da legislação vigente; e a sociedade como um todo, que não consegue separar o que é um serviço legalizado de um
60 irregular.
61 Esse limbo só interessa às milícias e aos empresários que aproveitam para aumentar suas taxas de lucros às custas da
62 insegurança da população e da exploração dos policiais brasileiros. E tudo isso sob os olhares de vidro de governos e autoridades.
Fonte: LIMA, Renato Sérgio de. “Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais. Piauí, 29 jul. 2021. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/bico-proibido-
emprega-ao-menos-47-mil-guardas-e-policiais/>. (Adaptado.)
Assinale a alternativa que apresente exclusivamente palavras regidas pela mesma preposição.
Provas
Texto I
“Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais
1 A morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado por seguranças irregulares e terceirizados de uma
2 loja da rede francesa de supermercados Carrefour, em 2020, trouxe mais uma vez à tona o debate sobre o racismo estrutural da
3 sociedade brasileira e escancarou um dos mais antigos problemas da segurança pública: a enorme lei do silêncio que impera
4 quando falamos das relações entre seguranças pública e privada no país.
5 O caso João Alberto explicitou que mesmo uma das principais redes de varejo do mundo não controla quem faz e como
6 é feita a vigilância de suas unidades no Brasil. Mais que isso: aceita que empresas por ela contratadas subcontratem profissionais
7 da segurança pública, mesmo que estes sejam legalmente impedidos de terem um segundo emprego. Sim, por lei, o popular
8 “bico”, o segundo trabalho exercido por profissionais de segurança, é proibido. Mas o Brasil não tem regras de compliance e
9 governança que evitem tais situações e mitiguem potenciais conflitos de interesse.
10 Ao contrário, é comum ouvirmos que, quando algum crime envolvendo seguranças privados ganha repercussão, a razão
11 de tais atos seja derivada de uma alegada falta de preparo dos profissionais. Isso não é verdade. Afinal, seja a parcela contratada
12 por empresas formais e legais de segurança privada, seja a parcela da segurança pública que faz “bico” na segurança privada,
13 os profissionais possuem treinamento e formação para uso de armas e em técnicas de defesa pessoal.
14 No que diz respeito à segurança pública, é impressionante que a falta de regulamentação do “bico” não seja vista como
15 uma das mais urgentes pautas de valorização e modernização dos profissionais da área. Vivemos um tácito e leniente pacto que
16 oficialmente faz de conta que não sabe que esse tipo de atividade extra é exercido. Em vários outros países, como os Estados
17 Unidos, não há problema algum em que profissionais de segurança tenham um segundo emprego, desde que regulado e
18 auditado.
19 Dado ainda inédito da pesquisa Escuta de Policiais e demais profissionais da segurança pública do Brasil, realizada pelo
20 Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que 6% dos entrevistados declararam fazer atividades de segurança privada para
21 complementar a renda. Ou seja, se considerarmos que, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e com o IBGE,
22 há aproximadamente 687 mil policiais e bombeiros e 99 mil guardas municipais no Brasil, o percentual de profissionais que
23 respondeu que faz “bico” equivaleria, mesmo com todas as limitações metodológicas envolvidas em uma projeção dessa
24 natureza, a pelo menos 47 mil policiais, bombeiros e guardas municipais – isso considerando só a projeção em relação ao
25 profissional da segurança pública que não vê problemas em assumir o segundo emprego. O número, portanto, pode ser ainda
26 maior.
27 Esses quase 50 mil profissionais têm por missão garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem – mas, por
28 negligência de parte do poder público, vivem na fronteira da ilegalidade e, na prática, não estão sujeitos a nenhum mecanismo
29 de fiscalização e controle. Ficam reféns de escalas de trabalho definidas pelas chefias e suscetíveis aos discursos populistas que
30 prometem céus e maravilhas, mas que, quando no poder, omitem-se de suas responsabilidades. Também ficam suscetíveis às
31 tentações milicianas, à ideia de lucro fácil e à lei do mais forte – aqui a autorização do porte e posse de armas de fogo tem um
32 papel importante no recrutamento irregular desses profissionais para atividades de segurança privada.
33 No fundo, o profissional da segurança pública vale mais pela autorização do porte da arma de fogo que ele possui do
34 que por outros atributos e/ou experiência. Eles são usados, muitas vezes, por empresários e executivos na privatização da
35 segurança sem maiores constrangimentos éticos. E isso ocorre em detrimento do próprio setor econômico, sujeito a regras e
36 controles que, talvez na cabeça de alguns mercadores, mais atrapalham do que ajudam.
37 Dados compilados pela Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores) e
38 publicados na 15ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o setor formal de segurança privada tem
39 reduzido a quantidade de pessoas contratadas nos últimos anos. Em 2018, excluídos os profissionais da segurança pública, havia
40 no país 604.746 seguranças privados aptos a exercer a profissão na ativa. Em 2020, esse número foi reduzido para 526.108.
41 Dito de outro modo, em dois anos, 78.638 seguranças privados foram demitidos no Brasil. Esse contingente pode ser
42 explicado por questões econômicas, como retração da economia em função da pandemia, e/ou a adoção de novas tecnologias
43 e sistemas pelas empresas do setor. Mas tem relação direta com a contratação de policiais exercendo “bicos” em atividades
44 irregulares de segurança privada – e seria 60% menor se o poder público efetivamente fiscalizasse a área e não apenas as
45 empresas devidamente registradas e legalizadas.
46 A questão é, assim, mais complexa. Estamos diante de um enorme paradoxo. Temos profissionais da segurança pública
47 atuando como seguranças privados para complementar a renda. Temos também que só as empresas legalizadas é que acabam
48 sendo fiscalizadas regularmente e, mesmo assim, apenas em seus aspectos mais formais e burocráticos. Mas pouco
49 monitoramos o dia a dia da segurança privada, abrindo margem para a oferta de serviços de má qualidade, clandestinos e que
50 mesmo assim usam como cartão de visita o recrutamento de profissionais da segurança pública para suas equipes. A Polícia
51 Federal não tem estrutura suficiente para fiscalizar o setor como um todo.
52 Isso fica ainda mais patente quando olhamos para os dados de registros de armas de fogo e munições em poder das
53 empresas de segurança privada. De acordo com dados da Polícia Federal constantes no Anuário, as empresas privadas
54 adquiriram, em 2020, 17,8 milhões de novas munições, número 64,7% superior ao de 2019, quando elas tinham adquirido 10,8
55 milhões de munições. E isso ocorre em um período de pandemia, com queda de 29% nos crimes patrimoniais, como roubos de
56 carga, entre outros.
57 Nessa enorme zona de sombra, empresas clandestinas e/ou a contratação irregular de seguranças privados só são
58 investigadas em casos de repercussão. Perdem a segurança pública; o setor privado, que se esforça para atuar dentro das regras
59 do jogo e da legislação vigente; e a sociedade como um todo, que não consegue separar o que é um serviço legalizado de um
60 irregular.
61 Esse limbo só interessa às milícias e aos empresários que aproveitam para aumentar suas taxas de lucros às custas da
62 insegurança da população e da exploração dos policiais brasileiros. E tudo isso sob os olhares de vidro de governos e autoridades.
Fonte: LIMA, Renato Sérgio de. “Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais. Piauí, 29 jul. 2021. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/bico-proibido-
emprega-ao-menos-47-mil-guardas-e-policiais/>. (Adaptado.)
Conforme o Texto I, é correto inferir que, no Brasil,
Provas
Texto I
“Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais
1 A morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado por seguranças irregulares e terceirizados de uma
2 loja da rede francesa de supermercados Carrefour, em 2020, trouxe mais uma vez à tona o debate sobre o racismo estrutural da
3 sociedade brasileira e escancarou um dos mais antigos problemas da segurança pública: a enorme lei do silêncio que impera
4 quando falamos das relações entre seguranças pública e privada no país.
5 O caso João Alberto explicitou que mesmo uma das principais redes de varejo do mundo não controla quem faz e como
6 é feita a vigilância de suas unidades no Brasil. Mais que isso: aceita que empresas por ela contratadas subcontratem profissionais
7 da segurança pública, mesmo que estes sejam legalmente impedidos de terem um segundo emprego. Sim, por lei, o popular
8 “bico”, o segundo trabalho exercido por profissionais de segurança, é proibido. Mas o Brasil não tem regras de compliance e
9 governança que evitem tais situações e mitiguem potenciais conflitos de interesse.
10 Ao contrário, é comum ouvirmos que, quando algum crime envolvendo seguranças privados ganha repercussão, a razão
11 de tais atos seja derivada de uma alegada falta de preparo dos profissionais. Isso não é verdade. Afinal, seja a parcela contratada
12 por empresas formais e legais de segurança privada, seja a parcela da segurança pública que faz “bico” na segurança privada,
13 os profissionais possuem treinamento e formação para uso de armas e em técnicas de defesa pessoal.
14 No que diz respeito à segurança pública, é impressionante que a falta de regulamentação do “bico” não seja vista como
15 uma das mais urgentes pautas de valorização e modernização dos profissionais da área. Vivemos um tácito e leniente pacto que
16 oficialmente faz de conta que não sabe que esse tipo de atividade extra é exercido. Em vários outros países, como os Estados
17 Unidos, não há problema algum em que profissionais de segurança tenham um segundo emprego, desde que regulado e
18 auditado.
19 Dado ainda inédito da pesquisa Escuta de Policiais e demais profissionais da segurança pública do Brasil, realizada pelo
20 Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que 6% dos entrevistados declararam fazer atividades de segurança privada para
21 complementar a renda. Ou seja, se considerarmos que, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e com o IBGE,
22 há aproximadamente 687 mil policiais e bombeiros e 99 mil guardas municipais no Brasil, o percentual de profissionais que
23 respondeu que faz “bico” equivaleria, mesmo com todas as limitações metodológicas envolvidas em uma projeção dessa
24 natureza, a pelo menos 47 mil policiais, bombeiros e guardas municipais – isso considerando só a projeção em relação ao
25 profissional da segurança pública que não vê problemas em assumir o segundo emprego. O número, portanto, pode ser ainda
26 maior.
27 Esses quase 50 mil profissionais têm por missão garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem – mas, por
28 negligência de parte do poder público, vivem na fronteira da ilegalidade e, na prática, não estão sujeitos a nenhum mecanismo
29 de fiscalização e controle. Ficam reféns de escalas de trabalho definidas pelas chefias e suscetíveis aos discursos populistas que
30 prometem céus e maravilhas, mas que, quando no poder, omitem-se de suas responsabilidades. Também ficam suscetíveis às
31 tentações milicianas, à ideia de lucro fácil e à lei do mais forte – aqui a autorização do porte e posse de armas de fogo tem um
32 papel importante no recrutamento irregular desses profissionais para atividades de segurança privada.
33 No fundo, o profissional da segurança pública vale mais pela autorização do porte da arma de fogo que ele possui do
34 que por outros atributos e/ou experiência. Eles são usados, muitas vezes, por empresários e executivos na privatização da
35 segurança sem maiores constrangimentos éticos. E isso ocorre em detrimento do próprio setor econômico, sujeito a regras e
36 controles que, talvez na cabeça de alguns mercadores, mais atrapalham do que ajudam.
37 Dados compilados pela Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores) e
38 publicados na 15ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o setor formal de segurança privada tem
39 reduzido a quantidade de pessoas contratadas nos últimos anos. Em 2018, excluídos os profissionais da segurança pública, havia
40 no país 604.746 seguranças privados aptos a exercer a profissão na ativa. Em 2020, esse número foi reduzido para 526.108.
41 Dito de outro modo, em dois anos, 78.638 seguranças privados foram demitidos no Brasil. Esse contingente pode ser
42 explicado por questões econômicas, como retração da economia em função da pandemia, e/ou a adoção de novas tecnologias
43 e sistemas pelas empresas do setor. Mas tem relação direta com a contratação de policiais exercendo “bicos” em atividades
44 irregulares de segurança privada – e seria 60% menor se o poder público efetivamente fiscalizasse a área e não apenas as
45 empresas devidamente registradas e legalizadas.
46 A questão é, assim, mais complexa. Estamos diante de um enorme paradoxo. Temos profissionais da segurança pública
47 atuando como seguranças privados para complementar a renda. Temos também que só as empresas legalizadas é que acabam
48 sendo fiscalizadas regularmente e, mesmo assim, apenas em seus aspectos mais formais e burocráticos. Mas pouco
49 monitoramos o dia a dia da segurança privada, abrindo margem para a oferta de serviços de má qualidade, clandestinos e que
50 mesmo assim usam como cartão de visita o recrutamento de profissionais da segurança pública para suas equipes. A Polícia
51 Federal não tem estrutura suficiente para fiscalizar o setor como um todo.
52 Isso fica ainda mais patente quando olhamos para os dados de registros de armas de fogo e munições em poder das
53 empresas de segurança privada. De acordo com dados da Polícia Federal constantes no Anuário, as empresas privadas
54 adquiriram, em 2020, 17,8 milhões de novas munições, número 64,7% superior ao de 2019, quando elas tinham adquirido 10,8
55 milhões de munições. E isso ocorre em um período de pandemia, com queda de 29% nos crimes patrimoniais, como roubos de
56 carga, entre outros.
57 Nessa enorme zona de sombra, empresas clandestinas e/ou a contratação irregular de seguranças privados só são
58 investigadas em casos de repercussão. Perdem a segurança pública; o setor privado, que se esforça para atuar dentro das regras
59 do jogo e da legislação vigente; e a sociedade como um todo, que não consegue separar o que é um serviço legalizado de um
60 irregular.
61 Esse limbo só interessa às milícias e aos empresários que aproveitam para aumentar suas taxas de lucros às custas da
62 insegurança da população e da exploração dos policiais brasileiros. E tudo isso sob os olhares de vidro de governos e autoridades.
Fonte: LIMA, Renato Sérgio de. “Bico” proibido emprega ao menos 47 mil guardas e policiais. Piauí, 29 jul. 2021. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/bico-proibido-
emprega-ao-menos-47-mil-guardas-e-policiais/>. (Adaptado.)
De acordo com o Texto I, é correto afirmar que
Provas
Caderno Container