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Ah, o brasileiro mata e morre por uma frase.
Há um velho e obtuso preconceito segundo o qual todas as frases querem dizer alguma coisa. Nem sempre. Certas frases vivem, precisamente, de mistério e de suspense. A nitidez seria fatal. Escrevi isso para chegar a uma verdade eterna, ou seja: a pequena causa, ou o motivo irrelevante, pode produzir um grande efeito.
Não sei se vocês acompanharam, pelos jornais, o episódio do paletó. Era em Brasília. E para lá embarcou uma comissão dos “Cem mil” que ia avistar-se com o presidente Costa e Silva. Um dos seus membros era meu amigo, que pôs o seu melhor terno e a sua melhor gravata. A comissão ia resolver problemas de alta transcendência, ia propor nobilíssimas e urgentíssimas reivindicações.
E lá chegam os intelectuais e estudantes. Entra a comissão e vem o assessor da presidência espavorido. Os dois estudantes não têm paletó, nem gravata. E, como o protocolo exigia uma coisa e outra, era preciso que ambos se compusessem.
Pode, não pode, e criou-se o impasse. O diabo é que o problema era aparentemente insolúvel. Felizmente, surgiu a ideia: — dois contínuos emprestariam tanto o paletó como a gravata. Mas os estudantes não aceitaram. Absolutamente. Queriam ser recebidos sem paletó e sem gravata. Outros assessores vieram. Discute daqui, dali. Apelos patéticos.
Vejam como um nada pode mudar a direção da História. De repente, os estudantes presos, o Calabouço, as Reformas, tudo, tudo passou para um plano secundário ou nulo. Os dois estudantes faziam pé firme. O paletó e a gravata eram agora “O inimigo”. Vesti-los seria a abjeção suprema, a humilhação total, a derrota irreversível.
O rádio e a TV pediam paletós e gravatas, assim como quem pede remédios salvadores. Paletós de luxo e gravatas de Paris, de Londres, de Berlim foram doados. Mas os dois permaneciam inexpugnáveis. Gravata, não! Paletó, jamais! O Poder os esperava e, dócil ao protocolo, de gravata e paletó.
Se um de nós por lá aparecesse, haveria de imaginar que tudo estava resolvido, e tinham sido atendidas as reivindicações específicas da classe. Claro! Uma vez que se discutiam paletós e gravatas, como se aquilo fosse uma assembleia acadêmica de alfaiates, a “Grande Causa” estava vitoriosa. Libertados os estudantes, aberto, e de par em par, o Calabouço, e substituída toda a estrutura do ensino. E continuava a “Resistência”, muito mais épica e muito mais obstinada do que a francesa na guerra. Até que, de repente, veio do alto a ordem: — “Manda entrar, mesmo sem paletó, mesmo sem gravata.” Era a vitória. E, por um momento, os presentes tiveram a vontade de cantar o Hino Nacional.
Nelson Rodrigues. A frase. In: A cabra vadia – novas confissões. Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 267-70 (com adaptações).
Considerando os aspectos linguísticos e estilísticos do texto, bem como a argumentação nele desenvolvida, julgue (C ou E) o item.
No segundo e no quarto parágrafos do texto, emprega-se o presente do indicativo com a mesma finalidade: a de realçar fatos ocorridos no passado.
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Ah, o brasileiro mata e morre por uma frase.
Há um velho e obtuso preconceito segundo o qual todas as frases querem dizer alguma coisa. Nem sempre. Certas frases vivem, precisamente, de mistério e de suspense. A nitidez seria fatal. Escrevi isso para chegar a uma verdade eterna, ou seja: a pequena causa, ou o motivo irrelevante, pode produzir um grande efeito.
Não sei se vocês acompanharam, pelos jornais, o episódio do paletó. Era em Brasília. E para lá embarcou uma comissão dos “Cem mil” que ia avistar-se com o presidente Costa e Silva. Um dos seus membros era meu amigo, que pôs o seu melhor terno e a sua melhor gravata. A comissão ia resolver problemas de alta transcendência, ia propor nobilíssimas e urgentíssimas reivindicações.
E lá chegam os intelectuais e estudantes. Entra a comissão e vem o assessor da presidência espavorido. Os dois estudantes não têm paletó, nem gravata. E, como o protocolo exigia uma coisa e outra, era preciso que ambos se compusessem.
Pode, não pode, e criou-se o impasse. O diabo é que o problema era aparentemente insolúvel. Felizmente, surgiu a ideia: — dois contínuos emprestariam tanto o paletó como a gravata. Mas os estudantes não aceitaram. Absolutamente. Queriam ser recebidos sem paletó e sem gravata. Outros assessores vieram. Discute daqui, dali. Apelos patéticos.
Vejam como um nada pode mudar a direção da História. De repente, os estudantes presos, o Calabouço, as Reformas, tudo, tudo passou para um plano secundário ou nulo. Os dois estudantes faziam pé firme. O paletó e a gravata eram agora “O inimigo”. Vesti-los seria a abjeção suprema, a humilhação total, a derrota irreversível.
O rádio e a TV pediam paletós e gravatas, assim como quem pede remédios salvadores. Paletós de luxo e gravatas de Paris, de Londres, de Berlim foram doados. Mas os dois permaneciam inexpugnáveis. Gravata, não! Paletó, jamais! O Poder os esperava e, dócil ao protocolo, de gravata e paletó.
Se um de nós por lá aparecesse, haveria de imaginar que tudo estava resolvido, e tinham sido atendidas as reivindicações específicas da classe. Claro! Uma vez que se discutiam paletós e gravatas, como se aquilo fosse uma assembleia acadêmica de alfaiates, a “Grande Causa” estava vitoriosa. Libertados os estudantes, aberto, e de par em par, o Calabouço, e substituída toda a estrutura do ensino. E continuava a “Resistência”, muito mais épica e muito mais obstinada do que a francesa na guerra. Até que, de repente, veio do alto a ordem: — “Manda entrar, mesmo sem paletó, mesmo sem gravata.” Era a vitória. E, por um momento, os presentes tiveram a vontade de cantar o Hino Nacional.
Nelson Rodrigues. A frase. In: A cabra vadia – novas confissões. Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 267-70 (com adaptações).
Considerando os aspectos linguísticos e estilísticos do texto, bem como a argumentação nele desenvolvida, julgue (C ou E) o item.
O trecho “a pequena causa, ou o motivo irrelevante, pode produzir um grande efeito” (linhas 3-4) poderia ser reescrito, sem prejuízo para a correção gramatical ou para os sentidos do texto, da seguinte forma: a causa pouco significativa, ou o pequeno motivo, pode provocar um resultado de extensa repercussão.
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Ah, o brasileiro mata e morre por uma frase.
Há um velho e obtuso preconceito segundo o qual todas as frases querem dizer alguma coisa. Nem sempre. Certas frases vivem, precisamente, de mistério e de suspense. A nitidez seria fatal. Escrevi isso para chegar a uma verdade eterna, ou seja: a pequena causa, ou o motivo irrelevante, pode produzir um grande efeito.
Não sei se vocês acompanharam, pelos jornais, o episódio do paletó. Era em Brasília. E para lá embarcou uma comissão dos “Cem mil” que ia avistar-se com o presidente Costa e Silva. Um dos seus membros era meu amigo, que pôs o seu melhor terno e a sua melhor gravata. A comissão ia resolver problemas de alta transcendência, ia propor nobilíssimas e urgentíssimas reivindicações.
E lá chegam os intelectuais e estudantes. Entra a comissão e vem o assessor da presidência espavorido. Os dois estudantes não têm paletó, nem gravata. E, como o protocolo exigia uma coisa e outra, era preciso que ambos se compusessem.
Pode, não pode, e criou-se o impasse. O diabo é que o problema era aparentemente insolúvel. Felizmente, surgiu a ideia: — dois contínuos emprestariam tanto o paletó como a gravata. Mas os estudantes não aceitaram. Absolutamente. Queriam ser recebidos sem paletó e sem gravata. Outros assessores vieram. Discute daqui, dali. Apelos patéticos.
Vejam como um nada pode mudar a direção da História. De repente, os estudantes presos, o Calabouço, as Reformas, tudo, tudo passou para um plano secundário ou nulo. Os dois estudantes faziam pé firme. O paletó e a gravata eram agora “O inimigo”. Vesti-los seria a abjeção suprema, a humilhação total, a derrota irreversível.
O rádio e a TV pediam paletós e gravatas, assim como quem pede remédios salvadores. Paletós de luxo e gravatas de Paris, de Londres, de Berlim foram doados. Mas os dois permaneciam inexpugnáveis. Gravata, não! Paletó, jamais! O Poder os esperava e, dócil ao protocolo, de gravata e paletó.
Se um de nós por lá aparecesse, haveria de imaginar que tudo estava resolvido, e tinham sido atendidas as reivindicações específicas da classe. Claro! Uma vez que se discutiam paletós e gravatas, como se aquilo fosse uma assembleia acadêmica de alfaiates, a “Grande Causa” estava vitoriosa. Libertados os estudantes, aberto, e de par em par, o Calabouço, e substituída toda a estrutura do ensino. E continuava a “Resistência”, muito mais épica e muito mais obstinada do que a francesa na guerra. Até que, de repente, veio do alto a ordem: — “Manda entrar, mesmo sem paletó, mesmo sem gravata.” Era a vitória. E, por um momento, os presentes tiveram a vontade de cantar o Hino Nacional.
Nelson Rodrigues. A frase. In: A cabra vadia – novas confissões. Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 267-70 (com adaptações).
Considerando os aspectos linguísticos e estilísticos do texto, bem como a argumentação nele desenvolvida, julgue ( C ou E) o item.
O cronista ironiza tanto a causa dos estudantes quanto a decisão das autoridades, como comprovam os trechos “O paletó e a gravata eram agora ‘O inimigo’” (linha 14) e “O rádio e a TV pediam paletós e gravatas, assim como quem pede remédios salvadores” (linha 16).
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Nas narrativas que produziu nos últimos anos de sua vida, Clarice Lispector problematiza alguns mitos ou pressupostos literários. Segundo seus termos em Relatório da Coisa, ela buscou “desmistificar a ficção”. O uso de certas estratégias que apagam o limite entre o autobiográfico e o ficcional revela um desejo de questionar a noção da ficção como espaço autônomo em relação à realidade exterior. Além disso, o gosto por certos modos de composição (a montagem e, em outros casos, a aproximação da escrita à estrutura casual de uma conversa) parece igualmente indicar esse intento de desmistificar a ficção. Para a autora, nos últimos anos, a escrita literária seria uma prática sem sentido (e, às vezes, até mesmo imoral) se fosse puramente estética, ou seja, se permanecesse presa a certos decoros literários. Vários textos de suas coletâneas dos anos 70 produzem ou estão destinados a produzir um efeito de “mau gosto”, também descrito pela autora como um “susto de constrangimento”.
Sônia Roncador. Poéticas do empobrecimento: a escrita derradeira de Clarice. São Paulo: Annablume, 2002, p. 135-6 (com adaptações).
Assinale a opção correta a respeito do texto acima.
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É certo que, de modo geral, toda obra literária deve ser a expressão, a revelação de uma personalidade. Há, porém, nos temperamentos masculinos, uma maior tendência para fazer do autor uma figura escondida por detrás das suas criações, operando-se um desligamento quando a obra já esteja feita e acabada. Isto significa que um escritor pode colocar toda a sua personalidade na obra, contudo nela se diluindo de tal modo que o espectador só vê o objeto e não o homem.
Álvaro Lins. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963, p. 27.
Com relação ao fragmento de texto acima, assinale a opção correta.
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Estou tão perdida. Mas é assim mesmo que se vive: perdida no tempo e no espaço.
Morro de medo de comparecer diante de um Juiz. Emeretíssimo, dá licença de eu fumar? Dou, sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo. Obrigada, Vossa Eminência. Trato bem o Juiz, Juiz é Brasília. Mas não vou abrir processo contra Brasília. Ela não me ofendeu. (...)
Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói, mas a gente finge que não dói. Estou com tanta saudade de Deus.
E agora vou morrer um pouquinho. Estou tão precisada.
Sim. Aceito, my Lord. Sob protesto.
Mas Brasília é esplendor.
Estou assustadíssima.
Clarice Lispector. Para não esquecer. São Paulo: Círculo do Livro, 1981, p. 106-7.
No que concerne a aspectos gramaticais do texto acima, julgue (C ou E) o item a seguir.
Da combinação inusitada do verbo morrer, flexionado no pretérito perfeito do indicativo, com a expressão adverbial “desde pequena” (linha 4) infere-se uma compreensão da morte diferente da que estaria implícita caso tivesse sido empregada a locução verbal Venho morrendo.
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Estou tão perdida. Mas é assim mesmo que se vive: perdida no tempo e no espaço.
Morro de medo de comparecer diante de um Juiz. Emeretíssimo, dá licença de eu fumar? Dou, sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo. Obrigada, Vossa Eminência. Trato bem o Juiz, Juiz é Brasília. Mas não vou abrir processo contra Brasília. Ela não me ofendeu. (...)
Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói, mas a gente finge que não dói. Estou com tanta saudade de Deus.
E agora vou morrer um pouquinho. Estou tão precisada.
Sim. Aceito, my Lord. Sob protesto.
Mas Brasília é esplendor.
Estou assustadíssima.
Clarice Lispector. Para não esquecer. São Paulo: Círculo do Livro, 1981, p. 106-7.
No que concerne a aspectos gramaticais do texto acima, julgue (C ou E) o item a seguir.
Na frase “Dou, sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo.” (linha 2), a escolha vocabular e o emprego do advérbio de afirmação seguido, sem pausa, do vocativo “senhora” caracterizam a fala formal de um juiz, a qual contrasta com o conteúdo intimista e o coloquialismo, predominantes no texto.
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Estou tão perdida. Mas é assim mesmo que se vive: perdida no tempo e no espaço.
Morro de medo de comparecer diante de um Juiz. Emeretíssimo, dá licença de eu fumar? Dou, sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo. Obrigada, Vossa Eminência. Trato bem o Juiz, Juiz é Brasília. Mas não vou abrir processo contra Brasília. Ela não me ofendeu. (...)
Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói, mas a gente finge que não dói. Estou com tanta saudade de Deus.
E agora vou morrer um pouquinho. Estou tão precisada.
Sim. Aceito, my Lord. Sob protesto.
Mas Brasília é esplendor.
Estou assustadíssima.
Clarice Lispector. Para não esquecer. São Paulo: Círculo do Livro, 1981, p. 106-7.
No que concerne a aspectos gramaticais do texto acima, julgue ( C ou E) o item a seguir.
A inadequação no emprego do pronome de tratamento em “Emeretíssimo, dá licença de eu fumar?” (linha 2) é sanada pela escritora no período “Obrigada, Vossa Eminência.” (linha 3), o que evidencia o deliberado desrespeito a padrões normativos da língua portuguesa.
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As críticas, de um modo geral, não me fazem bem. A do Álvaro Lins (...) me abateu e isso foi bom de certo modo. Escrevi para ele dizendo que não conhecia Joyce nem Virginia Woolf nem Proust quando fiz o livro, porque o diabo do homem só faltou me chamar de representante comercial deles. Não gosto quando dizem que tenho afinidades com Virginia Woolf (só li, aliás, depois de escrever o meu primeiro livro): é que não quero perdoar o fato de ela se ter suicidado. O horrível dever é ir até o fim.
Clarice Lispector. Carta a Tania Lispector Kaufmann. In: Olga Borelli. Clarice Lispector: esboço para um possível retrato. 2.ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 45.
Julgue (C ou E) o item seguinte, relativo ao fragmento de texto acima, extraído de carta escrita por Clarisse Lispector.
No terceiro período do texto, a oração iniciada pelo conector “quando” (linha 2) e a iniciada pelo conector “porque” (linha 2) indicam, respectivamente, as circunstâncias de tempo e causa relacionadas ao fato expresso na oração “que não conhecia Joyce nem Virginia Woolf nem Proust” (linhas 1 e 2).
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As críticas, de um modo geral, não me fazem bem. A do Álvaro Lins (...) me abateu e isso foi bom de certo modo. Escrevi para ele dizendo que não conhecia Joyce nem Virginia Woolf nem Proust quando fiz o livro, porque o diabo do homem só faltou me chamar de representante comercial deles. Não gosto quando dizem que tenho afinidades com Virginia Woolf (só li, aliás, depois de escrever o meu primeiro livro): é que não quero perdoar o fato de ela se ter suicidado. O horrível dever é ir até o fim.
Clarice Lispector. Carta a Tania Lispector Kaufmann. In: Olga Borelli. Clarice Lispector: esboço para um possível retrato. 2.ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 45.
Julgue (C ou E) o item seguinte, relativo ao fragmento de texto acima, extraído de carta escrita por Clarisse Lispector.
Admite-se como forma alternativa de reescrita da expressão coloquial “o diabo do homem só faltou me chamar de” (linha 2) a estrutura só faltou o diabo do homem me chamar de , na qual o verbo faltar é empregado como impessoal e, portanto, integra uma oração sem sujeito.
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