Foram encontradas 120 questões.
Os laços de família
A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente
no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e
recontava as duas malas tentando convencer-se de
que ambas estavam no carro. Afilha, com seus olhos
escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um
contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.
- Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe
- Não, não, não esqueceu de nada, respondia
a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio
cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da
despedida. Durante as duas semanas da visita da
velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias
e as boas-tardes soavam a cada momento com uma
delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis
que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi,
a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido
se tornara o bom genro. “Perdoe alguma palavra mal
dita”, dissera a velha senhora, e Catarina, com
alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer
das malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser
o bom genro. “Se eu rio, eles pensam que estou
louca”, pensara Catarina franzindo as sobrancelhas.
“Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma
filha ganha mais um”, acrescentara a mãe, e Antônio
aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé,
observava com malícia o marido, cuja segurança se
desvanecera para dar lugar a um homem moreno e
miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha
grisalha... Foi então que a vontade de rir tornou-se
mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato
quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam
uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais
estrábicos - e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um
pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra:
desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.
[...]
- Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe,
quando uma freada súbita do carro lançou-as uma
contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah!
- exclamou a mãe como a um desastre irremediável,
ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de
repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha,
e também a Catarina acontecera um desastre? seus
olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa
as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente
possível remediar a catástrofe. Porque de fato
sucedera alguma coisa, seria inútil esconder:
Catarina fora lançada contra Severina, numa
intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do
tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca
se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai,
sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe
enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais,
os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a
mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e
depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por
que não chegavam logo à Estação?
- Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe
Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão
- Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe
perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas
foram dispostas no trem, depois de trocados os
beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava
envelhecida e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter
o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e
examinou-se no seu chapéu novo, comprado no
mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um
ar excessivamente severo onde não faltava alguma
admiração por si mesma. A filha observava divertida.
Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a
mulher rindo pelos olhos ; e o peso da
responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de
sangue. Como se “mãe e filha” fosse vida e
repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua
mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o
espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo.
LISPECTOR, Clarice. In: Os melhores contos de Clarice
Lispector. Seleção de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo:Global,1996.p 70-7.
I. “Mas NADA podia fazer contra"
II. Não esqueci DE NADA?''
Sobre elas pode-se afirmar que, no contexto:
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Os laços de família
A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente
no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e
recontava as duas malas tentando convencer-se de
que ambas estavam no carro. Afilha, com seus olhos
escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um
contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.
- Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe
- Não, não, não esqueceu de nada, respondia
a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio
cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da
despedida. Durante as duas semanas da visita da
velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias
e as boas-tardes soavam a cada momento com uma
delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis
que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi,
a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido
se tornara o bom genro. “Perdoe alguma palavra mal
dita”, dissera a velha senhora, e Catarina, com
alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer
das malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser
o bom genro. “Se eu rio, eles pensam que estou
louca”, pensara Catarina franzindo as sobrancelhas.
“Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma
filha ganha mais um”, acrescentara a mãe, e Antônio
aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé,
observava com malícia o marido, cuja segurança se
desvanecera para dar lugar a um homem moreno e
miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha
grisalha... Foi então que a vontade de rir tornou-se
mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato
quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam
uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais
estrábicos - e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um
pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra:
desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.
[...]
- Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe,
quando uma freada súbita do carro lançou-as uma
contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah!
- exclamou a mãe como a um desastre irremediável,
ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de
repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha,
e também a Catarina acontecera um desastre? seus
olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa
as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente
possível remediar a catástrofe. Porque de fato
sucedera alguma coisa, seria inútil esconder:
Catarina fora lançada contra Severina, numa
intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do
tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca
se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai,
sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe
enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais,
os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a
mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e
depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por
que não chegavam logo à Estação?
- Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe
Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão
- Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe
perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas
foram dispostas no trem, depois de trocados os
beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava
envelhecida e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter
o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e
examinou-se no seu chapéu novo, comprado no
mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um
ar excessivamente severo onde não faltava alguma
admiração por si mesma. A filha observava divertida.
Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a
mulher rindo pelos olhos ; e o peso da
responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de
sangue. Como se “mãe e filha” fosse vida e
repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua
mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o
espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo.
LISPECTOR, Clarice. In: Os melhores contos de Clarice
Lispector. Seleção de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo:Global,1996.p 70-7.
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no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e
recontava as duas malas tentando convencer-se de
que ambas estavam no carro. Afilha, com seus olhos
escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um
contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.
- Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe
- Não, não, não esqueceu de nada, respondia
a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio
cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da
despedida. Durante as duas semanas da visita da
velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias
e as boas-tardes soavam a cada momento com uma
delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis
que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi,
a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido
se tornara o bom genro. “Perdoe alguma palavra mal
dita”, dissera a velha senhora, e Catarina, com
alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer
das malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser
o bom genro. “Se eu rio, eles pensam que estou
louca”, pensara Catarina franzindo as sobrancelhas.
“Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma
filha ganha mais um”, acrescentara a mãe, e Antônio
aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé,
observava com malícia o marido, cuja segurança se
desvanecera para dar lugar a um homem moreno e
miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha
grisalha... Foi então que a vontade de rir tornou-se
mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato
quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam
uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais
estrábicos - e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um
pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra:
desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.
[...]
- Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe,
quando uma freada súbita do carro lançou-as uma
contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah!
- exclamou a mãe como a um desastre irremediável,
ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de
repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha,
e também a Catarina acontecera um desastre? seus
olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa
as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente
possível remediar a catástrofe. Porque de fato
sucedera alguma coisa, seria inútil esconder:
Catarina fora lançada contra Severina, numa
intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do
tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca
se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai,
sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe
enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais,
os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a
mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e
depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por
que não chegavam logo à Estação?
- Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe
Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão
- Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe
perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas
foram dispostas no trem, depois de trocados os
beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava
envelhecida e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter
o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e
examinou-se no seu chapéu novo, comprado no
mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um
ar excessivamente severo onde não faltava alguma
admiração por si mesma. A filha observava divertida.
Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a
mulher rindo pelos olhos ; e o peso da
responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de
sangue. Como se “mãe e filha” fosse vida e
repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua
mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o
espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo.
LISPECTOR, Clarice. In: Os melhores contos de Clarice
Lispector. Seleção de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo:Global,1996.p 70-7.
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Os laços de família
A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente
no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e
recontava as duas malas tentando convencer-se de
que ambas estavam no carro. Afilha, com seus olhos
escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um
contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.
- Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe
- Não, não, não esqueceu de nada, respondia
a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio
cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da
despedida. Durante as duas semanas da visita da
velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias
e as boas-tardes soavam a cada momento com uma
delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis
que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi,
a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido
se tornara o bom genro. “Perdoe alguma palavra mal
dita”, dissera a velha senhora, e Catarina, com
alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer
das malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser
o bom genro. “Se eu rio, eles pensam que estou
louca”, pensara Catarina franzindo as sobrancelhas.
“Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma
filha ganha mais um”, acrescentara a mãe, e Antônio
aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé,
observava com malícia o marido, cuja segurança se
desvanecera para dar lugar a um homem moreno e
miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha
grisalha... Foi então que a vontade de rir tornou-se
mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato
quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam
uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais
estrábicos - e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um
pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra:
desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.
[...]
- Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe,
quando uma freada súbita do carro lançou-as uma
contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah!
- exclamou a mãe como a um desastre irremediável,
ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de
repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha,
e também a Catarina acontecera um desastre? seus
olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa
as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente
possível remediar a catástrofe. Porque de fato
sucedera alguma coisa, seria inútil esconder:
Catarina fora lançada contra Severina, numa
intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do
tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca
se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai,
sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe
enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais,
os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a
mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e
depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por
que não chegavam logo à Estação?
- Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe
Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão
- Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe
perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas
foram dispostas no trem, depois de trocados os
beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava
envelhecida e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter
o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e
examinou-se no seu chapéu novo, comprado no
mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um
ar excessivamente severo onde não faltava alguma
admiração por si mesma. A filha observava divertida.
Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a
mulher rindo pelos olhos ; e o peso da
responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de
sangue. Como se “mãe e filha” fosse vida e
repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua
mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o
espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo.
LISPECTOR, Clarice. In: Os melhores contos de Clarice
Lispector. Seleção de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo:Global,1996.p 70-7.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Os laços de família
A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente
no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e
recontava as duas malas tentando convencer-se de
que ambas estavam no carro. Afilha, com seus olhos
escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um
contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.
- Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe
- Não, não, não esqueceu de nada, respondia
a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio
cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da
despedida. Durante as duas semanas da visita da
velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias
e as boas-tardes soavam a cada momento com uma
delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis
que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi,
a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido
se tornara o bom genro. “Perdoe alguma palavra mal
dita”, dissera a velha senhora, e Catarina, com
alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer
das malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser
o bom genro. “Se eu rio, eles pensam que estou
louca”, pensara Catarina franzindo as sobrancelhas.
“Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma
filha ganha mais um”, acrescentara a mãe, e Antônio
aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé,
observava com malícia o marido, cuja segurança se
desvanecera para dar lugar a um homem moreno e
miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha
grisalha... Foi então que a vontade de rir tornou-se
mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato
quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam
uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais
estrábicos - e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um
pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra:
desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.
[...]
- Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe,
quando uma freada súbita do carro lançou-as uma
contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah!
- exclamou a mãe como a um desastre irremediável,
ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de
repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha,
e também a Catarina acontecera um desastre? seus
olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa
as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente
possível remediar a catástrofe. Porque de fato
sucedera alguma coisa, seria inútil esconder:
Catarina fora lançada contra Severina, numa
intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do
tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca
se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai,
sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe
enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais,
os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a
mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e
depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por
que não chegavam logo à Estação?
- Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe
Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão
- Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe
perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas
foram dispostas no trem, depois de trocados os
beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava
envelhecida e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter
o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e
examinou-se no seu chapéu novo, comprado no
mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um
ar excessivamente severo onde não faltava alguma
admiração por si mesma. A filha observava divertida.
Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a
mulher rindo pelos olhos ; e o peso da
responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de
sangue. Como se “mãe e filha” fosse vida e
repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua
mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o
espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo.
LISPECTOR, Clarice. In: Os melhores contos de Clarice
Lispector. Seleção de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo:Global,1996.p 70-7.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Os laços de família
A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente
no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e
recontava as duas malas tentando convencer-se de
que ambas estavam no carro. Afilha, com seus olhos
escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um
contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.
- Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe
- Não, não, não esqueceu de nada, respondia
a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio
cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da
despedida. Durante as duas semanas da visita da
velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias
e as boas-tardes soavam a cada momento com uma
delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis
que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi,
a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido
se tornara o bom genro. “Perdoe alguma palavra mal
dita”, dissera a velha senhora, e Catarina, com
alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer
das malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser
o bom genro. “Se eu rio, eles pensam que estou
louca”, pensara Catarina franzindo as sobrancelhas.
“Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma
filha ganha mais um”, acrescentara a mãe, e Antônio
aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé,
observava com malícia o marido, cuja segurança se
desvanecera para dar lugar a um homem moreno e
miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha
grisalha... Foi então que a vontade de rir tornou-se
mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato
quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam
uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais
estrábicos - e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um
pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra:
desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.
[...]
- Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe,
quando uma freada súbita do carro lançou-as uma
contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah!
- exclamou a mãe como a um desastre irremediável,
ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de
repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha,
e também a Catarina acontecera um desastre? seus
olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa
as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente
possível remediar a catástrofe. Porque de fato
sucedera alguma coisa, seria inútil esconder:
Catarina fora lançada contra Severina, numa
intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do
tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca
se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai,
sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe
enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais,
os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a
mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e
depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por
que não chegavam logo à Estação?
- Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe
Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão
- Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe
perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas
foram dispostas no trem, depois de trocados os
beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava
envelhecida e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter
o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e
examinou-se no seu chapéu novo, comprado no
mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um
ar excessivamente severo onde não faltava alguma
admiração por si mesma. A filha observava divertida.
Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a
mulher rindo pelos olhos ; e o peso da
responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de
sangue. Como se “mãe e filha” fosse vida e
repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua
mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o
espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo.
LISPECTOR, Clarice. In: Os melhores contos de Clarice
Lispector. Seleção de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo:Global,1996.p 70-7.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Os laços de família
A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente
no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e
recontava as duas malas tentando convencer-se de
que ambas estavam no carro. Afilha, com seus olhos
escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um
contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.
- Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe
- Não, não, não esqueceu de nada, respondia
a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio
cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da
despedida. Durante as duas semanas da visita da
velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias
e as boas-tardes soavam a cada momento com uma
delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis
que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi,
a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido
se tornara o bom genro. “Perdoe alguma palavra mal
dita”, dissera a velha senhora, e Catarina, com
alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer
das malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser
o bom genro. “Se eu rio, eles pensam que estou
louca”, pensara Catarina franzindo as sobrancelhas.
“Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma
filha ganha mais um”, acrescentara a mãe, e Antônio
aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé,
observava com malícia o marido, cuja segurança se
desvanecera para dar lugar a um homem moreno e
miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha
grisalha... Foi então que a vontade de rir tornou-se
mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato
quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam
uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais
estrábicos - e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um
pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra:
desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.
[...]
- Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe,
quando uma freada súbita do carro lançou-as uma
contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah!
- exclamou a mãe como a um desastre irremediável,
ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de
repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha,
e também a Catarina acontecera um desastre? seus
olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa
as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente
possível remediar a catástrofe. Porque de fato
sucedera alguma coisa, seria inútil esconder:
Catarina fora lançada contra Severina, numa
intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do
tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca
se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai,
sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe
enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais,
os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a
mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e
depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por
que não chegavam logo à Estação?
- Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe
Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão
- Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe
perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas
foram dispostas no trem, depois de trocados os
beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava
envelhecida e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter
o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e
examinou-se no seu chapéu novo, comprado no
mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um
ar excessivamente severo onde não faltava alguma
admiração por si mesma. A filha observava divertida.
Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a
mulher rindo pelos olhos ; e o peso da
responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de
sangue. Como se “mãe e filha” fosse vida e
repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua
mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o
espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo.
LISPECTOR, Clarice. In: Os melhores contos de Clarice
Lispector. Seleção de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo:Global,1996.p 70-7.
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- Organização dos PoderesPoder LegislativoDeputados e SenadoresImpeachment e Crimes Comuns e de Responsabilidade
- Organização dos PoderesPoder Executivo
Os crimes de responsabilidade do Presidente da
República são infrações político-administrativas
definidas em lei e praticadas no desempenho da
função presidencial. Atentam contra a própria
Constituição Federal e, especialmente, contra a(o):
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O Poder executivo da União é exercido pelo
Presidente da República eleito por maioria dos votos
em primeiro ou segundo turno de votação, auxiliado
pelos Ministros de Estado. Entretanto, no caso de
impedimento do Presidente, outras pessoas poderão
substituí-lo , sempre seguindo um a ordem
constitucionalmente definida. Assim , entre as
alternativa s a seguir, assinale aquela que
corretamente ordena a substituição sucessiva, do primeiro substituto ao último.
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Segundo a Lei n° 8.112/1990 (Regime Jurídico dos
Servidores Públicos Federais), é concedida sem
prejuízo da remuneração a licença:
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