Foram encontradas 320 questões.
Visão
Rubem Braga
No centro do dia cinzento, no meio da banal
viagem, e nesse momento em que a custo equilibramos
todos os motivos de agir e de cruzar os braços, de
insistir e desesperar, e ficamos quietos, neutros, presos
ao mais medíocre equilíbrio – foi então que aconteceu.
Eu vinha sem raiva nem desejo – no fundo do coração as
feridas mal cicatrizadas, e a esperança humilde como ave doméstica – eu vinha como um homem que vem e vai, e
já teve noites de tormentas e madrugadas de seda, e dias
vividos com todos os nervos e com toda a alma, e
charnecas de tédio atravessadas com a longa paciência
dos pobres – eu vinha como um homem que faz parte da
sua cidade, e é menos um homem que um transeunte, e me sentia como aquele que se vê nos cartões-postais, de
longe, dobrando uma esquina – eu vinha como um
elemento altamente banal, de paletó e gravata, integrado
no horário coletivo, acertando o relógio do meu pulso
pelo grande relógio da estrada de ferro central do meu
país, acertando a batida do meu pulso pelo ritmo da faina quotidiana – eu vinha, portanto, extremamente sem
importância, mas tendo em mim a força da conformação,
da resistência e da inércia que faz com que um minuto
depois das grandes revoluções e catástrofes o sapateiro
volte a sentar na sua banca e o linotipista na sua
máquina, e a cidade apareça estranhamente normal – eu
vinha como um homem de quarenta anos que dispõe de
regular saúde, e está com suas letras nos bancos
regularmente reformadas e seus negócios sentimentais
aplacados de maneira cordial e se sente bem disposto
para as tarefas da rotina, e com pequenas reservas para
enfrentar eventualidades não muito excêntricas – e que
cessou de fazer planos gratuitos para a vida, mas ainda
não começou a levar em conta a faina da própria morte –
assim eu vinha, como que ama as mulheres de seu país,
as comidas de sua infância e as toalhas do seu lar –
quando aconteceu. Não foi algo que tivesse qualquer
consequência, ou implicasse novo programa de
atividades; nem uma revelação do Alto nem uma
demonstração súbita e cruel da miséria de nossa
condição, como às vezes já tive.
Foi apenas um instante antes de se abrir um
sinal numa esquina, dentro de um grande carro negro,
uma figura de mulher que nesse instante me fitou e
sorriu com seus grandes olhos de azul límpido e a boca
fresca e viva; que depois ainda moveu de leve os lábios
como se fosse dizer alguma coisa – e se perdeu, a um
arranco do carro, na confusão do trafego da rua estreita e
rápida. Mas foi como se, preso na penumbra da mesma
cela eternamente, eu visse uma parede se abrir sobre
uma paisagem úmida e brilhante de todos os sonhos de
luz. Com vento agitando árvores e derrubando flores, e o
mar cantando ao sol.
FONTE: https://contobrasileiro.com.br/visao-cronica-de-rubem-braga/
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O amor é um pássaro que não sobrevive em gaiolas
Rebeca Bedone
Tive um canário quando era criança. A avezinha cabia na
palma da minha mão. Alegre, distinto e bonito, o pássaro
amarelo cantava o tempo todo. Seu canto pacífico era
deliciosamente agradável: parecia uma composição
poética e ritmada. A gaiola ficava pendurada na varanda
de casa, e o vento que passava levava a melodia para
quem estivesse por perto.
Certo dia, fui até a gaiola e chamei pelo passarinho; mas
ele não apareceu, como sempre fazia. Tomada por um
estranhamento, subi na cadeira para procurá-lo: o
canário estava deitado, quieto, imóvel. Chamei pelo meu
pai, que examinou o bichinho e, tristemente, me informou
que ele havia morrido. Dizem que o canário vive cerca de
10 anos, mas aquele teve uma vida breve.
Já faz muito tempo que o canarinho se foi. Naquela
época, eu não sabia nada sobre aves; nem sobre tantas
outras coisas, como o amor. Não imaginava que seria
impossível viver uma vida sem decepções ou
arrependimentos. Que pessoas me desapontariam. Que
eu magoaria alguém. Que sentiria remorso por ter sido
egoísta, como quando prendi a avezinha que tanto
gostava. Que pela necessidade de ter alguém ou pelo
medo de ficar só, tentaria prender um companheiro ou
um amigo.
Assim, houve um tempo em que resolvi andar sozinha.
No decorrer dos anos, entre uma e outra decepção
amorosa, meu coração calejado se fechou. Prendi a mim
mesma, como no poema de Charles Bukowski: “há um
pássaro azul em meu peito que quer sair, mas sou duro
demais com ele, eu digo, fique aí, não deixarei que
ninguém o veja”.
É que eu não queria mais sentir frio na barriga, aperto no
peito e dores de adeus. Parecia quase impossível
encontrar alguém que estivesse disposto ao amor e ao
relacionamento — só mais tarde fui descobrir que era eu
quem não estava disposta a me entregar. O silêncio após
as partidas nunca deixou de tocar a minha alma, como a
ausência do canto do meu canarinho.
Até que um dia, num desses dias em que não se espera
da vida nada além do que ela já nos ofereceu, resolvi
deixar de ser tão dura comigo mesma. Não foi fácil,
houve um longo processo de paciência e
autoconhecimento; mas houve, sobretudo, vontade de
voar outra vez. O pássaro em meu peito partiu sem rumo
nem expectativas, ele só queria ser livre das minhas
dores e inseguranças.
Conheci meu namorado. Não foi amor à primeira vista,
como nos contos de fadas; mas foi paixão da vida real:
“você se apaixona quando se desprende da necessidade
de ter alguém”. Quando você menos espera, as
conversas ao telefone se perdem nas horas, junto com a
alegria que chega na proximidade do reencontro; de
repente, o tempo em que não houve afeto recíproco se
preenche com um sentimento bom. E ao perceber a felicidade explodir dentro do peito, percebe-se que ela é
verdadeira porque não tem obrigação.
O amor é um pássaro que não sobrevive em gaiolas.
Gaiolas podem ser o ciúme, a insegurança ou o próprio
egoísmo. Gaiolas podem ser o medo de amar outra vez;
ou pode ser a incompreensão de que amor e liberdade
caminham juntos: amamos porque somos livres e temos
liberdade porque confiamos no amor.
Há pessoas que têm receio da palavra liberdade; alguns
até acreditam que ser livre é individualismo. Talvez, faltalhes a compreensão da honestidade de Bukowski, aquela
que “não me deixa fingir que sou uma coisa que não
sou”. Talvez, falta-lhes saber que a vida é efêmera, como
o canto que inicia e termina antes de que gostaríamos.
Mas, com a janela do coração aberta, os pássaros voam;
e a pessoa permanece no relacionamento não por estar
presa a ele, mas porque é genuíno o seu desejo de ficar.
FONTE: https://www.revistabula.com/23923-o-amor-e-um-passaro-que-nao-sobreviveem-gaiolas/
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Rubem Braga
No centro do dia cinzento, no meio da banal
viagem, e nesse momento em que a custo equilibramos
todos os motivos de agir e de cruzar os braços, de
insistir e desesperar, e ficamos quietos, neutros, presos
ao mais medíocre equilíbrio – foi então que aconteceu.
Eu vinha sem raiva nem desejo – no fundo do coração as
feridas mal cicatrizadas, e a esperança humilde como ave doméstica – eu vinha como um homem que vem e vai, e
já teve noites de tormentas e madrugadas de seda, e dias
vividos com todos os nervos e com toda a alma, e
charnecas de tédio atravessadas com a longa paciência
dos pobres – eu vinha como um homem que faz parte da
sua cidade, e é menos um homem que um transeunte, e me sentia como aquele que se vê nos cartões-postais, de
longe, dobrando uma esquina – eu vinha como um
elemento altamente banal, de paletó e gravata, integrado
no horário coletivo, acertando o relógio do meu pulso
pelo grande relógio da estrada de ferro central do meu
país, acertando a batida do meu pulso pelo ritmo da faina quotidiana – eu vinha, portanto, extremamente sem
importância, mas tendo em mim a força da conformação,
da resistência e da inércia que faz com que um minuto
depois das grandes revoluções e catástrofes o sapateiro
volte a sentar na sua banca e o linotipista na sua
máquina, e a cidade apareça estranhamente normal – eu
vinha como um homem de quarenta anos que dispõe de
regular saúde, e está com suas letras nos bancos
regularmente reformadas e seus negócios sentimentais
aplacados de maneira cordial e se sente bem disposto
para as tarefas da rotina, e com pequenas reservas para
enfrentar eventualidades não muito excêntricas – e que
cessou de fazer planos gratuitos para a vida, mas ainda
não começou a levar em conta a faina da própria morte –
assim eu vinha, como que ama as mulheres de seu país,
as comidas de sua infância e as toalhas do seu lar –
quando aconteceu. Não foi algo que tivesse qualquer
consequência, ou implicasse novo programa de
atividades; nem uma revelação do Alto nem uma
demonstração súbita e cruel da miséria de nossa
condição, como às vezes já tive.
Foi apenas um instante antes de se abrir um
sinal numa esquina, dentro de um grande carro negro,
uma figura de mulher que nesse instante me fitou e
sorriu com seus grandes olhos de azul límpido e a boca
fresca e viva; que depois ainda moveu de leve os lábios
como se fosse dizer alguma coisa – e se perdeu, a um
arranco do carro, na confusão do trafego da rua estreita e
rápida. Mas foi como se, preso na penumbra da mesma
cela eternamente, eu visse uma parede se abrir sobre
uma paisagem úmida e brilhante de todos os sonhos de
luz. Com vento agitando árvores e derrubando flores, e o
mar cantando ao sol.
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- SintaxeConcordância
- MorfologiaVerbosConjugaçãoFlexão Verbal de Modo
- MorfologiaVerbosConjugaçãoFlexão Verbal de Tempo
- MorfologiaVerbosLocução Verbal
O amor é um pássaro que não sobrevive em gaiolas
Rebeca Bedone
Tive um canário quando era criança. A avezinha cabia na
palma da minha mão. Alegre, distinto e bonito, o pássaro
amarelo cantava o tempo todo. Seu canto pacífico era
deliciosamente agradável: parecia uma composição
poética e ritmada. A gaiola ficava pendurada na varanda
de casa, e o vento que passava levava a melodia para
quem estivesse por perto.
Certo dia, fui até a gaiola e chamei pelo passarinho; mas
ele não apareceu, como sempre fazia. Tomada por um
estranhamento, subi na cadeira para procurá-lo: o
canário estava deitado, quieto, imóvel. Chamei pelo meu
pai, que examinou o bichinho e, tristemente, me informou
que ele havia morrido. Dizem que o canário vive cerca de
10 anos, mas aquele teve uma vida breve.
Já faz muito tempo que o canarinho se foi. Naquela
época, eu não sabia nada sobre aves; nem sobre tantas
outras coisas, como o amor. Não imaginava que seria
impossível viver uma vida sem decepções ou
arrependimentos. Que pessoas me desapontariam. Que
eu magoaria alguém. Que sentiria remorso por ter sido
egoísta, como quando prendi a avezinha que tanto
gostava. Que pela necessidade de ter alguém ou pelo
medo de ficar só, tentaria prender um companheiro ou
um amigo.
Assim, houve um tempo em que resolvi andar sozinha.
No decorrer dos anos, entre uma e outra decepção
amorosa, meu coração calejado se fechou. Prendi a mim
mesma, como no poema de Charles Bukowski: “há um
pássaro azul em meu peito que quer sair, mas sou duro
demais com ele, eu digo, fique aí, não deixarei que
ninguém o veja”.
É que eu não queria mais sentir frio na barriga, aperto no
peito e dores de adeus. Parecia quase impossível
encontrar alguém que estivesse disposto ao amor e ao
relacionamento — só mais tarde fui descobrir que era eu
quem não estava disposta a me entregar. O silêncio após
as partidas nunca deixou de tocar a minha alma, como a
ausência do canto do meu canarinho.
Até que um dia, num desses dias em que não se espera
da vida nada além do que ela já nos ofereceu, resolvi
deixar de ser tão dura comigo mesma. Não foi fácil,
houve um longo processo de paciência e
autoconhecimento; mas houve, sobretudo, vontade de
voar outra vez. O pássaro em meu peito partiu sem rumo
nem expectativas, ele só queria ser livre das minhas
dores e inseguranças.
Conheci meu namorado. Não foi amor à primeira vista,
como nos contos de fadas; mas foi paixão da vida real:
“você se apaixona quando se desprende da necessidade
de ter alguém”. Quando você menos espera, as
conversas ao telefone se perdem nas horas, junto com a
alegria que chega na proximidade do reencontro; de
repente, o tempo em que não houve afeto recíproco se
preenche com um sentimento bom. E ao perceber a felicidade explodir dentro do peito, percebe-se que ela é
verdadeira porque não tem obrigação.
O amor é um pássaro que não sobrevive em gaiolas.
Gaiolas podem ser o ciúme, a insegurança ou o próprio
egoísmo. Gaiolas podem ser o medo de amar outra vez;
ou pode ser a incompreensão de que amor e liberdade
caminham juntos: amamos porque somos livres e temos
liberdade porque confiamos no amor.
Há pessoas que têm receio da palavra liberdade; alguns
até acreditam que ser livre é individualismo. Talvez, faltalhes a compreensão da honestidade de Bukowski, aquela
que “não me deixa fingir que sou uma coisa que não
sou”. Talvez, falta-lhes saber que a vida é efêmera, como
o canto que inicia e termina antes de que gostaríamos.
Mas, com a janela do coração aberta, os pássaros voam;
e a pessoa permanece no relacionamento não por estar
presa a ele, mas porque é genuíno o seu desejo de ficar.
FONTE: https://www.revistabula.com/23923-o-amor-e-um-passaro-que-nao-sobreviveem-gaiolas/
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No centro do dia cinzento, no meio da banal
viagem, e nesse momento em que a custo equilibramos
todos os motivos de agir e de cruzar os braços, de
insistir e desesperar, e ficamos quietos, neutros, presos
ao mais medíocre equilíbrio – foi então que aconteceu.
Eu vinha sem raiva nem desejo – no fundo do coração as
feridas mal cicatrizadas, e a esperança humilde como ave doméstica – eu vinha como um homem que vem e vai, e
já teve noites de tormentas e madrugadas de seda, e dias
vividos com todos os nervos e com toda a alma, e
charnecas de tédio atravessadas com a longa paciência
dos pobres – eu vinha como um homem que faz parte da
sua cidade, e é menos um homem que um transeunte, e me sentia como aquele que se vê nos cartões-postais, de
longe, dobrando uma esquina – eu vinha como um
elemento altamente banal, de paletó e gravata, integrado
no horário coletivo, acertando o relógio do meu pulso
pelo grande relógio da estrada de ferro central do meu
país, acertando a batida do meu pulso pelo ritmo da faina quotidiana – eu vinha, portanto, extremamente sem
importância, mas tendo em mim a força da conformação,
da resistência e da inércia que faz com que um minuto
depois das grandes revoluções e catástrofes o sapateiro
volte a sentar na sua banca e o linotipista na sua
máquina, e a cidade apareça estranhamente normal – eu
vinha como um homem de quarenta anos que dispõe de
regular saúde, e está com suas letras nos bancos
regularmente reformadas e seus negócios sentimentais
aplacados de maneira cordial e se sente bem disposto
para as tarefas da rotina, e com pequenas reservas para
enfrentar eventualidades não muito excêntricas – e que
cessou de fazer planos gratuitos para a vida, mas ainda
não começou a levar em conta a faina da própria morte –
assim eu vinha, como que ama as mulheres de seu país,
as comidas de sua infância e as toalhas do seu lar –
quando aconteceu. Não foi algo que tivesse qualquer
consequência, ou implicasse novo programa de
atividades; nem uma revelação do Alto nem uma
demonstração súbita e cruel da miséria de nossa
condição, como às vezes já tive.
Foi apenas um instante antes de se abrir um
sinal numa esquina, dentro de um grande carro negro,
uma figura de mulher que nesse instante me fitou e
sorriu com seus grandes olhos de azul límpido e a boca
fresca e viva; que depois ainda moveu de leve os lábios
como se fosse dizer alguma coisa – e se perdeu, a um
arranco do carro, na confusão do trafego da rua estreita e
rápida. Mas foi como se, preso na penumbra da mesma
cela eternamente, eu visse uma parede se abrir sobre
uma paisagem úmida e brilhante de todos os sonhos de
luz. Com vento agitando árvores e derrubando flores, e o
mar cantando ao sol.
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O amor é um pássaro que não sobrevive em gaiolas
Rebeca Bedone
Tive um canário quando era criança. A avezinha cabia na
palma da minha mão. Alegre, distinto e bonito, o pássaro
amarelo cantava o tempo todo. Seu canto pacífico era
deliciosamente agradável: parecia uma composição
poética e ritmada. A gaiola ficava pendurada na varanda
de casa, e o vento que passava levava a melodia para
quem estivesse por perto.
Certo dia, fui até a gaiola e chamei pelo passarinho; mas
ele não apareceu, como sempre fazia. Tomada por um
estranhamento, subi na cadeira para procurá-lo: o
canário estava deitado, quieto, imóvel. Chamei pelo meu
pai, que examinou o bichinho e, tristemente, me informou
que ele havia morrido. Dizem que o canário vive cerca de
10 anos, mas aquele teve uma vida breve.
Já faz muito tempo que o canarinho se foi. Naquela
época, eu não sabia nada sobre aves; nem sobre tantas
outras coisas, como o amor. Não imaginava que seria
impossível viver uma vida sem decepções ou
arrependimentos. Que pessoas me desapontariam. Que
eu magoaria alguém. Que sentiria remorso por ter sido
egoísta, como quando prendi a avezinha que tanto
gostava. Que pela necessidade de ter alguém ou pelo
medo de ficar só, tentaria prender um companheiro ou
um amigo.
Assim, houve um tempo em que resolvi andar sozinha.
No decorrer dos anos, entre uma e outra decepção
amorosa, meu coração calejado se fechou. Prendi a mim
mesma, como no poema de Charles Bukowski: “há um
pássaro azul em meu peito que quer sair, mas sou duro
demais com ele, eu digo, fique aí, não deixarei que
ninguém o veja”.
É que eu não queria mais sentir frio na barriga, aperto no
peito e dores de adeus. Parecia quase impossível
encontrar alguém que estivesse disposto ao amor e ao
relacionamento — só mais tarde fui descobrir que era eu
quem não estava disposta a me entregar. O silêncio após
as partidas nunca deixou de tocar a minha alma, como a
ausência do canto do meu canarinho.
Até que um dia, num desses dias em que não se espera
da vida nada além do que ela já nos ofereceu, resolvi
deixar de ser tão dura comigo mesma. Não foi fácil,
houve um longo processo de paciência e
autoconhecimento; mas houve, sobretudo, vontade de
voar outra vez. O pássaro em meu peito partiu sem rumo
nem expectativas, ele só queria ser livre das minhas
dores e inseguranças.
Conheci meu namorado. Não foi amor à primeira vista,
como nos contos de fadas; mas foi paixão da vida real:
“você se apaixona quando se desprende da necessidade
de ter alguém”. Quando você menos espera, as
conversas ao telefone se perdem nas horas, junto com a
alegria que chega na proximidade do reencontro; de
repente, o tempo em que não houve afeto recíproco se
preenche com um sentimento bom. E ao perceber a felicidade explodir dentro do peito, percebe-se que ela é
verdadeira porque não tem obrigação.
O amor é um pássaro que não sobrevive em gaiolas.
Gaiolas podem ser o ciúme, a insegurança ou o próprio
egoísmo. Gaiolas podem ser o medo de amar outra vez;
ou pode ser a incompreensão de que amor e liberdade
caminham juntos: amamos porque somos livres e temos
liberdade porque confiamos no amor.
Há pessoas que têm receio da palavra liberdade; alguns
até acreditam que ser livre é individualismo. Talvez, faltalhes a compreensão da honestidade de Bukowski, aquela
que “não me deixa fingir que sou uma coisa que não
sou”. Talvez, falta-lhes saber que a vida é efêmera, como
o canto que inicia e termina antes de que gostaríamos.
Mas, com a janela do coração aberta, os pássaros voam;
e a pessoa permanece no relacionamento não por estar
presa a ele, mas porque é genuíno o seu desejo de ficar.
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viagem, e nesse momento em que a custo equilibramos
todos os motivos de agir e de cruzar os braços, de
insistir e desesperar, e ficamos quietos, neutros, presos
ao mais medíocre equilíbrio – foi então que aconteceu.
Eu vinha sem raiva nem desejo – no fundo do coração as
feridas mal cicatrizadas, e a esperança humilde como ave doméstica – eu vinha como um homem que vem e vai, e
já teve noites de tormentas e madrugadas de seda, e dias
vividos com todos os nervos e com toda a alma, e
charnecas de tédio atravessadas com a longa paciência
dos pobres – eu vinha como um homem que faz parte da
sua cidade, e é menos um homem que um transeunte, e me sentia como aquele que se vê nos cartões-postais, de
longe, dobrando uma esquina – eu vinha como um
elemento altamente banal, de paletó e gravata, integrado
no horário coletivo, acertando o relógio do meu pulso
pelo grande relógio da estrada de ferro central do meu
país, acertando a batida do meu pulso pelo ritmo da faina quotidiana – eu vinha, portanto, extremamente sem
importância, mas tendo em mim a força da conformação,
da resistência e da inércia que faz com que um minuto
depois das grandes revoluções e catástrofes o sapateiro
volte a sentar na sua banca e o linotipista na sua
máquina, e a cidade apareça estranhamente normal – eu
vinha como um homem de quarenta anos que dispõe de
regular saúde, e está com suas letras nos bancos
regularmente reformadas e seus negócios sentimentais
aplacados de maneira cordial e se sente bem disposto
para as tarefas da rotina, e com pequenas reservas para
enfrentar eventualidades não muito excêntricas – e que
cessou de fazer planos gratuitos para a vida, mas ainda
não começou a levar em conta a faina da própria morte –
assim eu vinha, como que ama as mulheres de seu país,
as comidas de sua infância e as toalhas do seu lar –
quando aconteceu. Não foi algo que tivesse qualquer
consequência, ou implicasse novo programa de
atividades; nem uma revelação do Alto nem uma
demonstração súbita e cruel da miséria de nossa
condição, como às vezes já tive.
Foi apenas um instante antes de se abrir um
sinal numa esquina, dentro de um grande carro negro,
uma figura de mulher que nesse instante me fitou e
sorriu com seus grandes olhos de azul límpido e a boca
fresca e viva; que depois ainda moveu de leve os lábios
como se fosse dizer alguma coisa – e se perdeu, a um
arranco do carro, na confusão do trafego da rua estreita e
rápida. Mas foi como se, preso na penumbra da mesma
cela eternamente, eu visse uma parede se abrir sobre
uma paisagem úmida e brilhante de todos os sonhos de
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mar cantando ao sol.
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Tive um canário quando era criança. A avezinha cabia na
palma da minha mão. Alegre, distinto e bonito, o pássaro
amarelo cantava o tempo todo. Seu canto pacífico era
deliciosamente agradável: parecia uma composição
poética e ritmada. A gaiola ficava pendurada na varanda
de casa, e o vento que passava levava a melodia para
quem estivesse por perto.
Certo dia, fui até a gaiola e chamei pelo passarinho; mas
ele não apareceu, como sempre fazia. Tomada por um
estranhamento, subi na cadeira para procurá-lo: o
canário estava deitado, quieto, imóvel. Chamei pelo meu
pai, que examinou o bichinho e, tristemente, me informou
que ele havia morrido. Dizem que o canário vive cerca de
10 anos, mas aquele teve uma vida breve.
Já faz muito tempo que o canarinho se foi. Naquela
época, eu não sabia nada sobre aves; nem sobre tantas
outras coisas, como o amor. Não imaginava que seria
impossível viver uma vida sem decepções ou
arrependimentos. Que pessoas me desapontariam. Que
eu magoaria alguém. Que sentiria remorso por ter sido
egoísta, como quando prendi a avezinha que tanto
gostava. Que pela necessidade de ter alguém ou pelo
medo de ficar só, tentaria prender um companheiro ou
um amigo.
Assim, houve um tempo em que resolvi andar sozinha.
No decorrer dos anos, entre uma e outra decepção
amorosa, meu coração calejado se fechou. Prendi a mim
mesma, como no poema de Charles Bukowski: “há um
pássaro azul em meu peito que quer sair, mas sou duro
demais com ele, eu digo, fique aí, não deixarei que
ninguém o veja”.
É que eu não queria mais sentir frio na barriga, aperto no
peito e dores de adeus. Parecia quase impossível
encontrar alguém que estivesse disposto ao amor e ao
relacionamento — só mais tarde fui descobrir que era eu
quem não estava disposta a me entregar. O silêncio após
as partidas nunca deixou de tocar a minha alma, como a
ausência do canto do meu canarinho.
Até que um dia, num desses dias em que não se espera
da vida nada além do que ela já nos ofereceu, resolvi
deixar de ser tão dura comigo mesma. Não foi fácil,
houve um longo processo de paciência e
autoconhecimento; mas houve, sobretudo, vontade de
voar outra vez. O pássaro em meu peito partiu sem rumo
nem expectativas, ele só queria ser livre das minhas
dores e inseguranças.
Conheci meu namorado. Não foi amor à primeira vista,
como nos contos de fadas; mas foi paixão da vida real:
“você se apaixona quando se desprende da necessidade
de ter alguém”. Quando você menos espera, as
conversas ao telefone se perdem nas horas, junto com a
alegria que chega na proximidade do reencontro; de
repente, o tempo em que não houve afeto recíproco se
preenche com um sentimento bom. E ao perceber a felicidade explodir dentro do peito, percebe-se que ela é
verdadeira porque não tem obrigação.
O amor é um pássaro que não sobrevive em gaiolas.
Gaiolas podem ser o ciúme, a insegurança ou o próprio
egoísmo. Gaiolas podem ser o medo de amar outra vez;
ou pode ser a incompreensão de que amor e liberdade
caminham juntos: amamos porque somos livres e temos
liberdade porque confiamos no amor.
Há pessoas que têm receio da palavra liberdade; alguns
até acreditam que ser livre é individualismo. Talvez, faltalhes a compreensão da honestidade de Bukowski, aquela
que “não me deixa fingir que sou uma coisa que não
sou”. Talvez, falta-lhes saber que a vida é efêmera, como
o canto que inicia e termina antes de que gostaríamos.
Mas, com a janela do coração aberta, os pássaros voam;
e a pessoa permanece no relacionamento não por estar
presa a ele, mas porque é genuíno o seu desejo de ficar.
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Rubem Braga
No centro do dia cinzento, no meio da banal
viagem, e nesse momento em que a custo equilibramos
todos os motivos de agir e de cruzar os braços, de
insistir e desesperar, e ficamos quietos, neutros, presos
ao mais medíocre equilíbrio – foi então que aconteceu.
Eu vinha sem raiva nem desejo – no fundo do coração as
feridas mal cicatrizadas, e a esperança humilde como ave doméstica – eu vinha como um homem que vem e vai, e
já teve noites de tormentas e madrugadas de seda, e dias
vividos com todos os nervos e com toda a alma, e
charnecas de tédio atravessadas com a longa paciência
dos pobres – eu vinha como um homem que faz parte da
sua cidade, e é menos um homem que um transeunte, e me sentia como aquele que se vê nos cartões-postais, de
longe, dobrando uma esquina – eu vinha como um
elemento altamente banal, de paletó e gravata, integrado
no horário coletivo, acertando o relógio do meu pulso
pelo grande relógio da estrada de ferro central do meu
país, acertando a batida do meu pulso pelo ritmo da faina quotidiana – eu vinha, portanto, extremamente sem
importância, mas tendo em mim a força da conformação,
da resistência e da inércia que faz com que um minuto
depois das grandes revoluções e catástrofes o sapateiro
volte a sentar na sua banca e o linotipista na sua
máquina, e a cidade apareça estranhamente normal – eu
vinha como um homem de quarenta anos que dispõe de
regular saúde, e está com suas letras nos bancos
regularmente reformadas e seus negócios sentimentais
aplacados de maneira cordial e se sente bem disposto
para as tarefas da rotina, e com pequenas reservas para
enfrentar eventualidades não muito excêntricas – e que
cessou de fazer planos gratuitos para a vida, mas ainda
não começou a levar em conta a faina da própria morte –
assim eu vinha, como que ama as mulheres de seu país,
as comidas de sua infância e as toalhas do seu lar –
quando aconteceu. Não foi algo que tivesse qualquer
consequência, ou implicasse novo programa de
atividades; nem uma revelação do Alto nem uma
demonstração súbita e cruel da miséria de nossa
condição, como às vezes já tive.
Foi apenas um instante antes de se abrir um
sinal numa esquina, dentro de um grande carro negro,
uma figura de mulher que nesse instante me fitou e
sorriu com seus grandes olhos de azul límpido e a boca
fresca e viva; que depois ainda moveu de leve os lábios
como se fosse dizer alguma coisa – e se perdeu, a um
arranco do carro, na confusão do trafego da rua estreita e
rápida. Mas foi como se, preso na penumbra da mesma
cela eternamente, eu visse uma parede se abrir sobre
uma paisagem úmida e brilhante de todos os sonhos de
luz. Com vento agitando árvores e derrubando flores, e o
mar cantando ao sol.
FONTE: https://contobrasileiro.com.br/visao-cronica-de-rubem-braga/
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O amor é um pássaro que não sobrevive em gaiolas
Rebeca Bedone
Tive um canário quando era criança. A avezinha cabia na
palma da minha mão. Alegre, distinto e bonito, o pássaro
amarelo cantava o tempo todo. Seu canto pacífico era
deliciosamente agradável: parecia uma composição
poética e ritmada. A gaiola ficava pendurada na varanda
de casa, e o vento que passava levava a melodia para
quem estivesse por perto.
Certo dia, fui até a gaiola e chamei pelo passarinho; mas
ele não apareceu, como sempre fazia. Tomada por um
estranhamento, subi na cadeira para procurá-lo: o
canário estava deitado, quieto, imóvel. Chamei pelo meu
pai, que examinou o bichinho e, tristemente, me informou
que ele havia morrido. Dizem que o canário vive cerca de
10 anos, mas aquele teve uma vida breve.
Já faz muito tempo que o canarinho se foi. Naquela
época, eu não sabia nada sobre aves; nem sobre tantas
outras coisas, como o amor. Não imaginava que seria
impossível viver uma vida sem decepções ou
arrependimentos. Que pessoas me desapontariam. Que
eu magoaria alguém. Que sentiria remorso por ter sido
egoísta, como quando prendi a avezinha que tanto
gostava. Que pela necessidade de ter alguém ou pelo
medo de ficar só, tentaria prender um companheiro ou
um amigo.
Assim, houve um tempo em que resolvi andar sozinha.
No decorrer dos anos, entre uma e outra decepção
amorosa, meu coração calejado se fechou. Prendi a mim
mesma, como no poema de Charles Bukowski: “há um
pássaro azul em meu peito que quer sair, mas sou duro
demais com ele, eu digo, fique aí, não deixarei que
ninguém o veja”.
É que eu não queria mais sentir frio na barriga, aperto no
peito e dores de adeus. Parecia quase impossível
encontrar alguém que estivesse disposto ao amor e ao
relacionamento — só mais tarde fui descobrir que era eu
quem não estava disposta a me entregar. O silêncio após
as partidas nunca deixou de tocar a minha alma, como a
ausência do canto do meu canarinho.
Até que um dia, num desses dias em que não se espera
da vida nada além do que ela já nos ofereceu, resolvi
deixar de ser tão dura comigo mesma. Não foi fácil,
houve um longo processo de paciência e
autoconhecimento; mas houve, sobretudo, vontade de
voar outra vez. O pássaro em meu peito partiu sem rumo
nem expectativas, ele só queria ser livre das minhas
dores e inseguranças.
Conheci meu namorado. Não foi amor à primeira vista,
como nos contos de fadas; mas foi paixão da vida real:
“você se apaixona quando se desprende da necessidade
de ter alguém”. Quando você menos espera, as
conversas ao telefone se perdem nas horas, junto com a
alegria que chega na proximidade do reencontro; de
repente, o tempo em que não houve afeto recíproco se
preenche com um sentimento bom. E ao perceber a felicidade explodir dentro do peito, percebe-se que ela é
verdadeira porque não tem obrigação.
O amor é um pássaro que não sobrevive em gaiolas.
Gaiolas podem ser o ciúme, a insegurança ou o próprio
egoísmo. Gaiolas podem ser o medo de amar outra vez;
ou pode ser a incompreensão de que amor e liberdade
caminham juntos: amamos porque somos livres e temos
liberdade porque confiamos no amor.
Há pessoas que têm receio da palavra liberdade; alguns
até acreditam que ser livre é individualismo. Talvez, faltalhes a compreensão da honestidade de Bukowski, aquela
que “não me deixa fingir que sou uma coisa que não
sou”. Talvez, falta-lhes saber que a vida é efêmera, como
o canto que inicia e termina antes de que gostaríamos.
Mas, com a janela do coração aberta, os pássaros voam;
e a pessoa permanece no relacionamento não por estar
presa a ele, mas porque é genuíno o seu desejo de ficar.
FONTE: https://www.revistabula.com/23923-o-amor-e-um-passaro-que-nao-sobreviveem-gaiolas/
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