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Texto I:


OS SEM-CELULAR


Nós, os 37, somos as únicas pessoas livres do Brasil


O telefone celular não é apenas um artefato do Coisa-Ruim, assim como a televisão é a Besta

encarnada. É um rastreador do governo/alienígenas/palhaços/grandes corporações que serve para

manter cada indivíduo sob o domínio deles. Via satélite, eles controlam aonde o senhor 9999-9999

vai, o que fala, quanto tempo demora a digerir um rosbife e tudo o que está pensando, inclusive

5.quando, silenciosamente, comemora: “Humm, rosquinhas.”

Somos 37 os integrantes do combalido Grêmio Pan-americano de Repúdio ao Celular, organização

com fins lucrativos que se dedica a imprecar contra o aparelho de telefonia móvel. No quadro de

associados, figuram meu avô, o Elton John, um sujeito que mora ao sul de Tocantins, uma velha

chamada Celeste que tem os dedos gordos e não consegue apertar as teclas individualmente, o

10.Chico Buarque, o Matheus Nachtergaele, o tio de uma amiga minha, a cantora Stephany do Piauí,

um andarilho chamado Ganesha Sol de Oliveira e eu.

Nos últimos meses, o número de membros só tem diminuído, devido à idade avançada dos

fundadores e por conta de certos escândalos – como telefones pessoais vibrando durante a reunião

de diretoria. [...]

15.É fácil reconhecer as vítimas deles. Vejam como ficam desorientados, remexendo suas bolsas diante

de qualquer ruído, mesmo quando a gente imita som de telefone com a boca. Diante de um sinal

preestabelecido, como o hino do Palmeiras ou Adocica, de Beto Barbosa, todos sairão correndo para

atender seus respectivos telemóveis e receberão ordens de aplicar petelecos uns aos outros. A

senha para a instauração da balbúrdia será: “É o meu! É o meu!”, e nós, os 37, assistiremos ao

20.espetáculo com um sorriso no rosto, tranquilos e gabolas. [...]

Outro dia, li numa revista institucional uma matéria definitiva sobre as benesses do celular, elaborada

inteiramente a partir de um gerador automático de artigos: cinco páginas de puro senso comum, com

estatísticas aleatórias e frases de efeito a cada fim de parágrafo. O texto, que de resto era profundo

como uma bateria de telefone portátil, terminava, triunfantemente, da seguinte maneira: “Com ou

25.sem radiação, símbolo de status, objeto funcional ou companheiro virtual, não importa: o celular

mudou definitivamente as nossas vidas – e o seu alcance ainda nem chegou perto de todo o seu

potencial.”

Como se pode ver, o celular realmente frita os neurônios. Em questão de minutos. “Com ou sem

radiação” virou o mote do nosso grêmio, que se gaba de ter um telefone fixo, de disco, só para

30.receber ligações dos advogados da Cooperativa de Telefonia Móvel. Também temos orgulho de

haver eleito Edson Celulari como inimigo número um da classe, num congresso que durou três horas

e terminou com uma feirinha de artesanato e papéis de carta. [...]

Em geral, o dono de uma linha iniciada com 6, 7, 8 ou 9 costuma estrear a engenhoca no ônibus. A

quem interessar possa, se é que isso algum dia interessaria a alguém, ele grita: ALÔ? ESTÁ ME

35.ESCUTANDO? ESTOU ENTRANDO NUM TÚNEL. E em seguida passa a fornecer informações em

tempo real sobre o itinerário. É esse o grande barato do telefone móvel: anunciar ao pessoal de casa

que JÁ VOU CHEGAR, ESTOU NA FRENTE DO CASTELINHO, e, pouco depois: ACABEI DE

PASSAR NO PONTO DO FRANGÃO, MAIS UNS CINCO MINUTOS… É comum mentirem: em

Copacabana, dizem que estão quase chegando no Méier. [...] Quando menos se espera, o bate-papo

40.já virou briga, com direito a descrição dos mais recentes escândalos extraconjugais. O chato é que

ninguém está autorizado a levantar a mão e tirar suas dúvidas. [...]

Como se não bastasse, os proprietários de celular são comprovadamente culpados por acidentes de

toda sorte, como o entupimento involuntário de privadas e o congestionamento de pedestres nas

calçadas. O fenômeno ocorre quando um ou mais transeuntes atendem uma chamada e passam a

45.andar mais devagar, descrevendo um movimento de cambaleante zigue-zague, para desespero dos

que estão atrás. É ruim, mas nada é pior do que tentar conversar com alguém que está mandando

mensagens. De quando em quando, o sujeito levanta a cabeça, faz a tradicional pausa de quem

estava em outra era geológica e pergunta: “Quem?”, alcançando o assunto com dois meses de

atraso.

50.Nosso grêmio está aceitando novos membros. A prioridade é para quem nunca teve um celular e não

pretende ter, nem sob o seu cadáver, mesmo que seja justamente para chamar a emergência e

salvar a própria vida. Também podem se candidatar aqueles que possuem o aparelho, mas desejam

se recuperar, os ex-nomofóbicos (dependentes patológicos) e os que o deixam desligado na gaveta

54.de casa, desde que não saibam “que botão eu aperto para atender”.



Adaptado de: BARBARA, Vanessa. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/os-sem-celular/

Acesso em: 26 jul. 2019.


Considerando o texto I, responda às questões de números 1 a 10.

No termo “sem-celular”, a preposição “sem” é empregada com o mesmo valor do prefixo presente em:

 

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