Uma convicção pode ser a mais perversa das prisões.
Quando o que sei não pode ser questionado, escuto apenas
aquilo que confirma o que acredito. O que é diferente
recuso. Quando acredito que tenho toda a razão e o outro,
nenhuma, não existe diálogo. Preso às minhas convicções,
reduzo a possibilidade de pensar. Não há como aprender
sem estar disposto a mudar de ideia, e para mudar de ideia
é preciso aceitar que minha convicção pode estar errada.
Polarização é quando duas convicções opostas ocupam
todos os espaços do debate político. Quando não há
adversário, mas inimigo. As alternativas, aquelas posições
que não se encaixam em nenhum dos dois lados, são
postergadas ou negadas. O debate se faz impossível. É
como se as mensagens transitassem por canais paralelos
ou fossem ditas em línguas diferentes. Pior: a língua é
a mesma, as palavras são iguais – mas significam coisas
diferentes, dependendo de quem diz.
Paramos de escutar, não interessam os argumentos. Deixa
de importar o que é dito, importa quem disse: se foi alguém
que é da minha posição, vou defender sem questionar. Mas,
se for do outro lado, nego e rebato. Trocam-se palavras de
ordem e memes, há menosprezo pelo argumento. Quem
não está alinhado com uma das duas posições dominantes
não tem voz: o que disser será entendido como apoio ou
crítica a um dos dois polos. As ideias se impõem por relação
de força – não a força da razão, mas a razão da força. Quem
grita mais leva. As posições são sempre muito delimitadas,
não existem nuances. É a morte das ideias, o fim da
inteligência.
O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo:
nunca ninguém reclama de ter recebido pouco, disse o
filósofo francês René Descartes no início de seu Discurso do
método. Com as ideologias ocorre algo semelhante: nunca
ninguém se queixa de ter o juízo distorcido pela própria
ideologia. O viés ideológico só afeta os outros. Jamais nos
questionamos: será que eu também não estou vendo a
realidade? E se o que para mim é tão óbvio for produto
de uma ideologia que não me permite ver diferente? É tão
claro e tão evidente que não há espaço para dúvidas – e
isso é muito perigoso.
BRUZZONI, Andrés. Ciberpopulismo: política e democracia no mundo
digital. São Paulo: Editora Contexto, 2021, p. 9-11 (com adaptações).
Em relação aos aspectos gramaticais do texto, julgue o item seguinte.
O pronome “isso”, em “e isso é muito perigoso”, atua como um elemento de coesão referencial, uma vez que resume todo o conteúdo do parágrafo.
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