A arte de ver o outro
Por Gilmar Marcílio
Estamos perdendo consideravelmente a capacidade de estabelecer relações de acolhimento
e amor. Acho triste, pois precisamos desses dois sentimentos para abraçar com a alma aquele
que está próximo de nós. Porém, há algo ainda a ser feito para sustentar esses pilares
emocionais. Chegamos até aqui pela persistência em colaborar. E nessa palavra está embutido
um longo trajeto de renúncia ao egoístico ato de se colocar em primeiro lugar. Talvez você se
pergunte: como será verdade se as pessoas estão cada vez mais pensando só em si mesmas?
Acredito ser um sintoma temporário: creio que vamos nos exaurir de tanta individualidade. A
história é pendular. Ora aqui, ora acolá. Só após, o equilíbrio, também provisório.
Ninguém é autossuficiente o bastante para pre....indir de uma rede de apoio. Qualquer
existência está intrinsecamente ligada ___ demais. A ruptura desses elos pode significar o nosso
fim como espécie. No entanto, vejo sinais alentadores. Há muitos movimentos de solidariedade,
largos gestos promovendo a salvação quando somos atingidos por uma tragédia ambiental, por
exemplo. É comovente acompanhar tanta gente mobilizando-se em busca de uma solução ao se
depararem com comunidades que passaram por grandes perdas. Dá-se a isso o nome de
empatia.
Penso na magnífica arte da conversação. Vêm-me ___ mente os diálogos socráticos, nos
quais cada interlocutor apresenta seus pontos de vista e é acolhido pelo grupo ___ despeito de
eventuais divergências. Investigar diversas visões de mundo é multiplicar as experiências, pois
nos deslocamos para um local (imaginário) diferente do nosso. O narcísico não gosta dessa
prática e exatamente por isso deve-se insistir nesse propósito. Como é possível fazê-lo com
eficiência? Depois das triviais perguntas “olá, tudo bem, como está?”, nos despirmos um pouco
da autorreferência. É o início de ricos encontros que geralmente desaguam em divagações
filosóficas, transcendendo a banalidade do dia a dia. A inteligência é altamente sedutora,
compete com os atrativos físicos. E há o fato de, com a passagem do tempo e o aprofundamento
dos contatos, sempre termos o que acrescentar no diálogo com o amigo, o colega, o vizinho. Ver
com paixão quem está ao lado é estabelecer uma ligação próxima ao princípio religioso de
unicidade.
Conta-se que certas tribos indígenas, conhecidas por suas admiráveis criações artísticas,
nunca assinam as peças produzidas. Para eles, a glória particular não tem valor algum. Visando
escapar de tal armadilha da vaidade assinam as obras uns dos outros. Há neste pacto uma
indizível beleza.
Veja para além dos olhos, com o corpo todo. Só assim será capaz de fazer a leitura correta
de cada ser.
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/gilmar-marcilio/noticia/2025/05/a-arte-de-ver-o-outro-cmazumqi900dq013bffhx3xa1.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
Analise a charge a seguir e as asserções a respeito da sua relação com o texto-base desta prova:

Fonte: Sul 21 (2015).
Analise as seguintes asserções e a relação proposta entre elas:
I. Tanto o texto-base quanto a charge abordam o tema do individualismo.
ALÉM DISSO
II. Os dois textos apontam apenas cenários negativos a partir do individualismo, indicando uma sociedade sem recuperação.
A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta.