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Disciplina: Atualidades e Conhecimentos Gerais
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
No caso do Brasil, como consequência da generalização dos serviços de saúde e do aumento da escolarização, começa a observar-se uma redução significativa nos padrões históricos da desigualdade regional relativa à mortalidade no país. Além desses fatores, a ampliação dos serviços de saneamento básico a áreas até então excluídas, os programas de saúde materno-infantil — sobretudo os voltados para o pré-natal —, a ampliação da oferta de serviços médico-hospitalares, as campanhas de vacinação, entre outras medidas, em muito colaboraram para a continuidade da redução dos níveis de mortalidade infantil e infanto-juvenil, principalmente a partir dos anos 80 do século XX.

Verifica-se, com base no gráfico, que, no Brasil, haverá aumento da mortalidade geral a partir de 2040, razão pela qual a população entrará em processo de decrescimento.
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Disciplina: Atualidades e Conhecimentos Gerais
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
No caso do Brasil, como consequência da generalização dos serviços de saúde e do aumento da escolarização, começa a observar-se uma redução significativa nos padrões históricos da desigualdade regional relativa à mortalidade no país. Além desses fatores, a ampliação dos serviços de saneamento básico a áreas até então excluídas, os programas de saúde materno-infantil — sobretudo os voltados para o pré-natal —, a ampliação da oferta de serviços médico-hospitalares, as campanhas de vacinação, entre outras medidas, em muito colaboraram para a continuidade da redução dos níveis de mortalidade infantil e infanto-juvenil, principalmente a partir dos anos 80 do século XX.

A projeção de desaceleração da taxa de crescimento da população brasileira evidenciada no gráfico tem como um de seus fatores a queda da fecundidade.
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Texto 1
O que é o que é?
Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto — como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente — como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupado, e de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota — como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? e é este o nome.
Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 199.
Texto 2
Canção do Ver (fragmento)
Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro –
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era só abrir a
[palavra abelha e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.
Manoel de Barros. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Record, 2004.
Texto 3
A diferença na linguagem
“Para os gramáticos, a arte da palavra quase se esgota na arte da escrita, o que se vê ainda pelo uso que fazem dos acentos, muitos dos quais fazem alguma distinção ou evitam algum equívoco para os olhos mas não para os ouvidos.” Neste texto Rousseau nos sugere que, para ler bem, é preciso prestar ouvidos à voz original, adivinhar as diferenças de acento que a articulam e que se tornaram imperceptíveis no espaço homogêneo da escrita. Na leitura, o olho treinado do Gramático ou do Lógico deve subordinar-se a um ouvido atento à melodia que dá vida aos signos: estar surdo à modulação da voz significa estar cego às modalidades do sentido. Na oposição que o texto faz entre a arte de falar e a arte de escrever, podemos encontrar não apenas as razões da desqualificação da concepção gramatical da linguagem, mas também a indicação do estatuto que Rousseau confere à linguagem. O que é importante notar aqui é que a oposição entre falar e escrever não se funda mais na oposição entre presença e ausência: não é a ausência do sujeito falante que desqualifica a escrita, mas a atonia ou a homogeneidade dos signos visuais. Se a essência da linguagem escapa à Gramática, é porque esta desdobra a linguagem num elemento essencialmente homogêneo.
Bento Prado Jr. A retórica de Rousseau. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 129-130.
Texto 4
Em Emílio, Rousseau constrói a temporalidade da vida de Emílio como uma ficção, jamais se teria proposto a aplicála. O menino Emílio não existe, não existiu e não foi pensado para existir. Trata-se de um artifício lógico-dedutivo para meditar sobre a educação e as orientações do ensino. Emílio é alegoria para reflexão sobre o ato de educar as crianças. Emílio, que não é filho, tampouco é aluno... É um construto teórico e um suporte operatório para a análise conceitual do ato educativo.
Se o discípulo não se separa do mestre desde o nascimento até a maturidade, pode-se supor que o “criador” do Emílio tenha pretendido que o relato da trajetória de vida do ser individual correspondesse a uma reconstituição das etapas trilhadas pela espécie humana em direção à civilização. Emílio, ao nascer, é o homem do estado de natureza; o Emílio bem educado — que, aos 25 anos, se despede de seu educador — é o homem civil, que vive em uma sociedade corrompida, mas que, a despeito disso, pode ser considerado apto para fundar o legítimo contrato social. O traçado de educação de Emílio propõe-se ao educador como metáfora para reflexão, uma meditação sobre a arte de formar os homens. Com a mesma estrutura hipotético-dedutiva que orientara seus escritos políticos, Rousseau constrói seu educando — um discípulo que não é e que não pretende ser empírico, mas que tem sua própria temporalidade inscrita na narrativa dos seus primeiros 25 anos de vida em educação.
Carlota Boto. O Emílio como categoria operatória do pensamento rousseauniano. In: José Oscar de Almeida Marques (Org.). Verdades e mentiras. 30 ensaios em torno de Jean-Jacques Rousseau. Ijuí–RS: Unijuí, 2005, p. 379-84 (com adaptações).
Texto 5
Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda em meados da década de 1880, aludia-se ao fato de várias assembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter, e também sobre a importação, o que era expressamente vedado pela Constituição. Sob pressão de associações comerciais e dos delegados regionais da Fazenda, diversas assembleias foram forçadas a votar a supressão desses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia e Maranhão ainda resistiam. A questão da repartição dos impostos e das competências de cada ente federativo parece, portanto, mais antiga que a própria República.
Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).
Texto 6
Impostos inconstitucionais...
Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no último paquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir com regularidade estas viagens à corte.
— A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, não há de morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando, não faz mal a ninguém, exceto...
— Exceto...?
— Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos íntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não há coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. (...)
— São todos inconstitucionais?
— Todos.
—Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionam fazer?
— Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima que diz que a história não se repete?
— Creio que sim.
— Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador, ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, por outro lado, como a história não se repete... Você, se fosse imperador, que é que faria?
— Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.
Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos.
— Os adjetivos?
— Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria. Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
— Mas que temos nós outros com isso?
— Tudo; vocês como simples impostos são excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e faz definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido da história e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os que governam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.
Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.
Acerca das ideias dos textos 1, 2, 3, 4, 5 e 6, julgue (C ou E ) o item seguinte.
O texto 5 ensejou a elaboração do texto 6.
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Texto 1
O que é o que é?
Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto — como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente — como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupado, e de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota — como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? e é este o nome.
Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 199.
Texto 2
Canção do Ver (fragmento)
Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro –
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era só abrir a
[palavra abelha e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.
Manoel de Barros. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Record, 2004.
Texto 3
A diferença na linguagem
“Para os gramáticos, a arte da palavra quase se esgota na arte da escrita, o que se vê ainda pelo uso que fazem dos acentos, muitos dos quais fazem alguma distinção ou evitam algum equívoco para os olhos mas não para os ouvidos.” Neste texto Rousseau nos sugere que, para ler bem, é preciso prestar ouvidos à voz original, adivinhar as diferenças de acento que a articulam e que se tornaram imperceptíveis no espaço homogêneo da escrita. Na leitura, o olho treinado do Gramático ou do Lógico deve subordinar-se a um ouvido atento à melodia que dá vida aos signos: estar surdo à modulação da voz significa estar cego às modalidades do sentido. Na oposição que o texto faz entre a arte de falar e a arte de escrever, podemos encontrar não apenas as razões da desqualificação da concepção gramatical da linguagem, mas também a indicação do estatuto que Rousseau confere à linguagem. O que é importante notar aqui é que a oposição entre falar e escrever não se funda mais na oposição entre presença e ausência: não é a ausência do sujeito falante que desqualifica a escrita, mas a atonia ou a homogeneidade dos signos visuais. Se a essência da linguagem escapa à Gramática, é porque esta desdobra a linguagem num elemento essencialmente homogêneo.
Bento Prado Jr. A retórica de Rousseau. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 129-130.
Texto 4
Em Emílio, Rousseau constrói a temporalidade da vida de Emílio como uma ficção, jamais se teria proposto a aplicála. O menino Emílio não existe, não existiu e não foi pensado para existir. Trata-se de um artifício lógico-dedutivo para meditar sobre a educação e as orientações do ensino. Emílio é alegoria para reflexão sobre o ato de educar as crianças. Emílio, que não é filho, tampouco é aluno... É um construto teórico e um suporte operatório para a análise conceitual do ato educativo.
Se o discípulo não se separa do mestre desde o nascimento até a maturidade, pode-se supor que o “criador” do Emílio tenha pretendido que o relato da trajetória de vida do ser individual correspondesse a uma reconstituição das etapas trilhadas pela espécie humana em direção à civilização. Emílio, ao nascer, é o homem do estado de natureza; o Emílio bem educado — que, aos 25 anos, se despede de seu educador — é o homem civil, que vive em uma sociedade corrompida, mas que, a despeito disso, pode ser considerado apto para fundar o legítimo contrato social. O traçado de educação de Emílio propõe-se ao educador como metáfora para reflexão, uma meditação sobre a arte de formar os homens. Com a mesma estrutura hipotético-dedutiva que orientara seus escritos políticos, Rousseau constrói seu educando — um discípulo que não é e que não pretende ser empírico, mas que tem sua própria temporalidade inscrita na narrativa dos seus primeiros 25 anos de vida em educação.
Carlota Boto. O Emílio como categoria operatória do pensamento rousseauniano. In: José Oscar de Almeida Marques (Org.). Verdades e mentiras. 30 ensaios em torno de Jean-Jacques Rousseau. Ijuí–RS: Unijuí, 2005, p. 379-84 (com adaptações).
Texto 5
Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda em meados da década de 1880, aludia-se ao fato de várias assembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter, e também sobre a importação, o que era expressamente vedado pela Constituição. Sob pressão de associações comerciais e dos delegados regionais da Fazenda, diversas assembleias foram forçadas a votar a supressão desses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia e Maranhão ainda resistiam. A questão da repartição dos impostos e das competências de cada ente federativo parece, portanto, mais antiga que a própria República.
Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).
Texto 6
Impostos inconstitucionais...
Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no último paquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir com regularidade estas viagens à corte.
— A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, não há de morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando, não faz mal a ninguém, exceto...
— Exceto...?
— Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos íntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não há coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. (...)
— São todos inconstitucionais?
— Todos.
—Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionam fazer?
— Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima que diz que a história não se repete?
— Creio que sim.
— Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador, ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, por outro lado, como a história não se repete... Você, se fosse imperador, que é que faria?
— Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.
Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos.
— Os adjetivos?
— Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria. Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
— Mas que temos nós outros com isso?
— Tudo; vocês como simples impostos são excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e faz definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido da história e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os que governam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.
Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.
Acerca das ideias dos textos 1, 2, 3, 4, 5 e 6, julgue (C ou E ) o item seguinte.
O tema dos textos 2 e 4 é o mesmo: a linguagem infantil.
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Texto 1
O que é o que é?
Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto — como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente — como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupado, e de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota — como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? e é este o nome.
Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 199.
Texto 2
Canção do Ver (fragmento)
Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro –
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era só abrir a
[palavra abelha e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.
Manoel de Barros. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Record, 2004.
Texto 3
A diferença na linguagem
“Para os gramáticos, a arte da palavra quase se esgota na arte da escrita, o que se vê ainda pelo uso que fazem dos acentos, muitos dos quais fazem alguma distinção ou evitam algum equívoco para os olhos mas não para os ouvidos.” Neste texto Rousseau nos sugere que, para ler bem, é preciso prestar ouvidos à voz original, adivinhar as diferenças de acento que a articulam e que se tornaram imperceptíveis no espaço homogêneo da escrita. Na leitura, o olho treinado do Gramático ou do Lógico deve subordinar-se a um ouvido atento à melodia que dá vida aos signos: estar surdo à modulação da voz significa estar cego às modalidades do sentido. Na oposição que o texto faz entre a arte de falar e a arte de escrever, podemos encontrar não apenas as razões da desqualificação da concepção gramatical da linguagem, mas também a indicação do estatuto que Rousseau confere à linguagem. O que é importante notar aqui é que a oposição entre falar e escrever não se funda mais na oposição entre presença e ausência: não é a ausência do sujeito falante que desqualifica a escrita, mas a atonia ou a homogeneidade dos signos visuais. Se a essência da linguagem escapa à Gramática, é porque esta desdobra a linguagem num elemento essencialmente homogêneo.
Bento Prado Jr. A retórica de Rousseau. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 129-130.
Texto 4
Em Emílio, Rousseau constrói a temporalidade da vida de Emílio como uma ficção, jamais se teria proposto a aplicála. O menino Emílio não existe, não existiu e não foi pensado para existir. Trata-se de um artifício lógico-dedutivo para meditar sobre a educação e as orientações do ensino. Emílio é alegoria para reflexão sobre o ato de educar as crianças. Emílio, que não é filho, tampouco é aluno... É um construto teórico e um suporte operatório para a análise conceitual do ato educativo.
Se o discípulo não se separa do mestre desde o nascimento até a maturidade, pode-se supor que o “criador” do Emílio tenha pretendido que o relato da trajetória de vida do ser individual correspondesse a uma reconstituição das etapas trilhadas pela espécie humana em direção à civilização. Emílio, ao nascer, é o homem do estado de natureza; o Emílio bem educado — que, aos 25 anos, se despede de seu educador — é o homem civil, que vive em uma sociedade corrompida, mas que, a despeito disso, pode ser considerado apto para fundar o legítimo contrato social. O traçado de educação de Emílio propõe-se ao educador como metáfora para reflexão, uma meditação sobre a arte de formar os homens. Com a mesma estrutura hipotético-dedutiva que orientara seus escritos políticos, Rousseau constrói seu educando — um discípulo que não é e que não pretende ser empírico, mas que tem sua própria temporalidade inscrita na narrativa dos seus primeiros 25 anos de vida em educação.
Carlota Boto. O Emílio como categoria operatória do pensamento rousseauniano. In: José Oscar de Almeida Marques (Org.). Verdades e mentiras. 30 ensaios em torno de Jean-Jacques Rousseau. Ijuí–RS: Unijuí, 2005, p. 379-84 (com adaptações).
Texto 5
Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda em meados da década de 1880, aludia-se ao fato de várias assembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter, e também sobre a importação, o que era expressamente vedado pela Constituição. Sob pressão de associações comerciais e dos delegados regionais da Fazenda, diversas assembleias foram forçadas a votar a supressão desses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia e Maranhão ainda resistiam. A questão da repartição dos impostos e das competências de cada ente federativo parece, portanto, mais antiga que a própria República.
Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).
Texto 6
Impostos inconstitucionais...
Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no último paquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir com regularidade estas viagens à corte.
— A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, não há de morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando, não faz mal a ninguém, exceto...
— Exceto...?
— Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos íntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não há coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. (...)
— São todos inconstitucionais?
— Todos.
—Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionam fazer?
— Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima que diz que a história não se repete?
— Creio que sim.
— Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador, ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, por outro lado, como a história não se repete... Você, se fosse imperador, que é que faria?
— Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.
Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos.
— Os adjetivos?
— Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria. Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
— Mas que temos nós outros com isso?
— Tudo; vocês como simples impostos são excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e faz definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido da história e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os que governam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.
Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.
Acerca das ideias dos textos 1, 2, 3, 4, 5 e 6, julgue (C ou E ) o item seguinte.
Os textos 2 e 3 apresentam pontos de vista coincidentes com relação à gramática da língua.
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Texto 1
O que é o que é?
Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto — como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente — como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupado, e de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota — como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? e é este o nome.
Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 199.
Texto 2
Canção do Ver (fragmento)
Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro –
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era só abrir a
[palavra abelha e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.
Manoel de Barros. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Record, 2004.
Texto 3
A diferença na linguagem
“Para os gramáticos, a arte da palavra quase se esgota na arte da escrita, o que se vê ainda pelo uso que fazem dos acentos, muitos dos quais fazem alguma distinção ou evitam algum equívoco para os olhos mas não para os ouvidos.” Neste texto Rousseau nos sugere que, para ler bem, é preciso prestar ouvidos à voz original, adivinhar as diferenças de acento que a articulam e que se tornaram imperceptíveis no espaço homogêneo da escrita. Na leitura, o olho treinado do Gramático ou do Lógico deve subordinar-se a um ouvido atento à melodia que dá vida aos signos: estar surdo à modulação da voz significa estar cego às modalidades do sentido. Na oposição que o texto faz entre a arte de falar e a arte de escrever, podemos encontrar não apenas as razões da desqualificação da concepção gramatical da linguagem, mas também a indicação do estatuto que Rousseau confere à linguagem. O que é importante notar aqui é que a oposição entre falar e escrever não se funda mais na oposição entre presença e ausência: não é a ausência do sujeito falante que desqualifica a escrita, mas a atonia ou a homogeneidade dos signos visuais. Se a essência da linguagem escapa à Gramática, é porque esta desdobra a linguagem num elemento essencialmente homogêneo.
Bento Prado Jr. A retórica de Rousseau. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 129-130.
Texto 4
Em Emílio, Rousseau constrói a temporalidade da vida de Emílio como uma ficção, jamais se teria proposto a aplicála. O menino Emílio não existe, não existiu e não foi pensado para existir. Trata-se de um artifício lógico-dedutivo para meditar sobre a educação e as orientações do ensino. Emílio é alegoria para reflexão sobre o ato de educar as crianças. Emílio, que não é filho, tampouco é aluno... É um construto teórico e um suporte operatório para a análise conceitual do ato educativo.
Se o discípulo não se separa do mestre desde o nascimento até a maturidade, pode-se supor que o “criador” do Emílio tenha pretendido que o relato da trajetória de vida do ser individual correspondesse a uma reconstituição das etapas trilhadas pela espécie humana em direção à civilização. Emílio, ao nascer, é o homem do estado de natureza; o Emílio bem educado — que, aos 25 anos, se despede de seu educador — é o homem civil, que vive em uma sociedade corrompida, mas que, a despeito disso, pode ser considerado apto para fundar o legítimo contrato social. O traçado de educação de Emílio propõe-se ao educador como metáfora para reflexão, uma meditação sobre a arte de formar os homens. Com a mesma estrutura hipotético-dedutiva que orientara seus escritos políticos, Rousseau constrói seu educando — um discípulo que não é e que não pretende ser empírico, mas que tem sua própria temporalidade inscrita na narrativa dos seus primeiros 25 anos de vida em educação.
Carlota Boto. O Emílio como categoria operatória do pensamento rousseauniano. In: José Oscar de Almeida Marques (Org.). Verdades e mentiras. 30 ensaios em torno de Jean-Jacques Rousseau. Ijuí–RS: Unijuí, 2005, p. 379-84 (com adaptações).
Texto 5
Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda em meados da década de 1880, aludia-se ao fato de várias assembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter, e também sobre a importação, o que era expressamente vedado pela Constituição. Sob pressão de associações comerciais e dos delegados regionais da Fazenda, diversas assembleias foram forçadas a votar a supressão desses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia e Maranhão ainda resistiam. A questão da repartição dos impostos e das competências de cada ente federativo parece, portanto, mais antiga que a própria República.
Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).
Texto 6
Impostos inconstitucionais...
Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no último paquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir com regularidade estas viagens à corte.
— A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, não há de morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando, não faz mal a ninguém, exceto...
— Exceto...?
— Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos íntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não há coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. (...)
— São todos inconstitucionais?
— Todos.
—Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionam fazer?
— Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima que diz que a história não se repete?
— Creio que sim.
— Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador, ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, por outro lado, como a história não se repete... Você, se fosse imperador, que é que faria?
— Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.
Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos.
— Os adjetivos?
— Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria. Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
— Mas que temos nós outros com isso?
— Tudo; vocês como simples impostos são excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e faz definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido da história e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os que governam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.
Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.
Acerca das ideias dos textos 1, 2, 3, 4, 5 e 6, julgue (C ou E ) o item seguinte.
Nos textos 1, 2 e 6, evidencia-se, de formas diferentes, a plena capacidade da linguagem de refletir a realidade, por meio da denominação.
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Texto 5
Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda em meados da década de 1880, aludia-se ao fato de várias assembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter, e também sobre a importação, o que era expressamente vedado pela Constituição. Sob pressão de associações comerciais e dos delegados regionais da Fazenda, diversas assembleias foram forçadas a votar a supressão desses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia e Maranhão ainda resistiam. A questão da repartição dos impostos e das competências de cada ente federativo parece, portanto, mais antiga que a própria República.
Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).
Texto 6
Impostos inconstitucionais...
Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no último paquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir com regularidade estas viagens à corte.
— A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, não há de morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando, não faz mal a ninguém, exceto...
— Exceto...?
— Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos íntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não há coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. (...)
— São todos inconstitucionais?
— Todos.
—Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionam fazer?
— Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima que diz que a história não se repete?
— Creio que sim.
— Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador, ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, por outro lado, como a história não se repete... Você, se fosse imperador, que é que faria?
— Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.
Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos.
— Os adjetivos?
— Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria. Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
— Mas que temos nós outros com isso?
— Tudo; vocês como simples impostos são excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e faz definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido da história e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os que governam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.
Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.
Em cada uma das opções abaixo reproduz-se um trecho dos textos 5 ou 6, com mudança na colocação de uma palavra, que aparece sublinhada. Assinale a opção em que a mudança não altera o sentido do trecho original.
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Texto 5
Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda em meados da década de 1880, aludia-se ao fato de várias assembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter, e também sobre a importação, o que era expressamente vedado pela Constituição. Sob pressão de associações comerciais e dos delegados regionais da Fazenda, diversas assembleias foram forçadas a votar a supressão desses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia e Maranhão ainda resistiam. A questão da repartição dos impostos e das competências de cada ente federativo parece, portanto, mais antiga que a própria República.
Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).
Texto 6
Impostos inconstitucionais...
Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no último paquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir com regularidade estas viagens à corte.
— A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, não há de morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando, não faz mal a ninguém, exceto...
— Exceto...?
— Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos íntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não há coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. (...)
— São todos inconstitucionais?
— Todos.
—Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionam fazer?
— Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima que diz que a história não se repete?
— Creio que sim.
— Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador, ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, por outro lado, como a história não se repete... Você, se fosse imperador, que é que faria?
— Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.
Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos.
— Os adjetivos?
— Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria. Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
— Mas que temos nós outros com isso?
— Tudo; vocês como simples impostos são excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e faz definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido da história e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os que governam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.
Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.
Com base no texto 6, assinale a opção em que a supressão da palavra ou expressão sublinhada provoca erro gramatical.
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Texto 5
Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda em meados da década de 1880, aludia-se ao fato de várias assembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter, e também sobre a importação, o que era expressamente vedado pela Constituição. Sob pressão de associações comerciais e dos delegados regionais da Fazenda, diversas assembleias foram forçadas a votar a supressão desses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia e Maranhão ainda resistiam. A questão da repartição dos impostos e das competências de cada ente federativo parece, portanto, mais antiga que a própria República.
Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).
Texto 6
Impostos inconstitucionais...
Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no último paquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir com regularidade estas viagens à corte.
— A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, não há de morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando, não faz mal a ninguém, exceto...
— Exceto...?
— Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos íntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não há coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. (...)
— São todos inconstitucionais?
— Todos.
—Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionam fazer?
— Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima que diz que a história não se repete?
— Creio que sim.
— Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador, ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, por outro lado, como a história não se repete... Você, se fosse imperador, que é que faria?
— Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.
Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos.
— Os adjetivos?
— Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria. Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
— Mas que temos nós outros com isso?
— Tudo; vocês como simples impostos são excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e faz definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido da história e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os que governam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.
Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.
Assinale a opção que apresenta a correta equivalência de sentido entre o vocábulo ou o segmento sublinhado, empregado no texto 6, e a acepção que o segue.
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Texto 5
Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda em meados da década de 1880, aludia-se ao fato de várias assembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter, e também sobre a importação, o que era expressamente vedado pela Constituição. Sob pressão de associações comerciais e dos delegados regionais da Fazenda, diversas assembleias foram forçadas a votar a supressão desses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia e Maranhão ainda resistiam. A questão da repartição dos impostos e das competências de cada ente federativo parece, portanto, mais antiga que a própria República.
Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).
Texto 6
Impostos inconstitucionais...
Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no último paquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir com regularidade estas viagens à corte.
— A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, não há de morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando, não faz mal a ninguém, exceto...
— Exceto...?
— Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos íntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não há coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. (...)
— São todos inconstitucionais?
— Todos.
—Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionam fazer?
— Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima que diz que a história não se repete?
— Creio que sim.
— Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador, ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, por outro lado, como a história não se repete... Você, se fosse imperador, que é que faria?
— Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.
Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos.
— Os adjetivos?
— Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria. Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
— Mas que temos nós outros com isso?
— Tudo; vocês como simples impostos são excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e faz definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido da história e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os que governam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.
Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.
Acerca das ideias e dos sentidos do texto 6, assim como de suas estruturas linguísticas e organização textual, julgue (C ou E) o item subsequente.
A frase “vox clamantis in deserto” está em itálico, porque remete o interlocutor ao respectivo texto-fonte e faz parte da memória coletiva nacional.
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