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A Grande Heresia do Simples
Em seu livro Tristes Trópicos, Lévi-Strauss descreve os seus colegas brasileiros: "Qualquer que fosse o campo do saber, só a teoria mais recente merecia ser considerada. ( ... ) Nunca liam as obras originais e mostravam um entusiasmo permanente pelos novos pratos. ( ... ) Partilhar uma teoria conhecida era o mesmo que usar um vestido pela segunda vez, corria-se o risco de um vexame".
Cultivamos essa paixão pelas navegações intergalácticas e pelo modismo. Assim, acaba tudo muito complicado, inclusive na educação. Ouso arrostar a cultura nacional. Cometo a Grande Heresia do Simples: tento demonstrar que a educação brasileira precisa de um "feijão com arroz" benfeito, nada mirabolante, nada nos espaços siderais. Vejamos a receita que deu certo alhures.
A escola precisa de metas. E que sejam poucas, claras, estáveis e compartilhadas. Se cada um rema para o seu lado, o barco fica à deriva.
A escola tem a cara do diretor, o principal responsável pela criação de um ambiente estimulante e produtivo. Daí o extremo cuidado na sua escolha. Eleição por professores não será pior que indicação política? E, uma vez escolhido, o diretor precisa de autonomia, de par com cobrança firme do que for combinado.
Boa gestão é essencial. Nem empresas, nem paróquias, nem escolas se administram sem dominar os princípios e técnicas apropriados. Ademais, as secretarias não devem atrapalhar, criando burocracias infinitas.
O professor tem de dominar o assunto que vai ensinar e saber como dar aula. Infelizmente, as faculdades de educação acham isso irrelevante.
Prêmios e penalidades. De alguma forma, o bom desempenho do professor deve ser recompensado. E, se falhar, que venham os puxões de orelha. Por que a atividade mais crítica para o futuro do país é uma das poucas em que prevalece a impunidade.
Ensinou a teoria ou o princípio? Então, que sejam aplicados em problemas práticos e realistas. Diz a ciência cognitiva que sem aplicar não se aprende.
Nova idéia? Então mostre sua conexão com alguma coisa que o aluno já sabe. Isso se chama "contextualizar". Pelo menos, que não se ensine nada sem mostrar para que serve. Se o professor não sabe, como pode suceder na matemática, é melhor não ensinar. É preciso ensinar menos, para os alunos aprenderem mais. O tsunami curricular impede que se aprenda o que quer que seja. Ouve-se falar de tudo, mas não se domina nada. E como só gostamos do que entendemos, no ritmo vertiginoso em que disparam os assuntos, não é possível gostar e, portanto, aprender o que quer que seja.
Valores e cidadania se aprendem na escola, tanto quanto a matéria ensinada. Só que não no currículo ou em sermões, mas na forma pela qual a escola funciona. Escola tolerante e justa ensina essas virtudes. Aprende-se pelo exemplo da própria escola e dos professores. Tão simples quanto isso. Com bagunça na aula não se aprende. Foi o que disseram os próprios alunos, em uma pesquisa do Instituto Positivo (confirmada por outros estudos). A escola precisa enfrentar com firmeza a assombração da indisciplina.
Sem avaliação, a escola faz voo cego. Nossos sistemas de avaliação são excelentes. Mas ainda são pouco usados, seja pelos professores, pela escola ou pelas secretarias. É pena.
A tecnologia pode ajudar, não há boas razões para desdenhá-Ia. Mostra o Pisa: na mão dos alunos, produz bons resultados. Mas não é uma ferramenta para alavancar mudanças. Escola travada não vai mudar com computadores, tablets ou smartphones. Pior, dentro da escola, escoam-se décadas e ela continua um elefante branco, incapaz de promover avanços na qualidade. E aos pais cabe vigiar. Conforme o caso, apoiando ou cobrando.
O currículo é ler com fluência, entender o lido, escrever corretamente, usar regra de três, calcular áreas, volumes e um juro simples, ler gráficos e tabelas ... Só depois de dominado isso podemos ir para as guerras púnicas, derivadas e integrais, reis da França, afluentes do Amazonas e a infinidade de bichinhos do livro de biologia.
Onde está a complicação? Fazer bem o "feijão com arroz" seria uma revolução no nosso ensino. Mas, para muitos, o simples é a Grande Heresia.
(Fonte: CASTRO, Claudio de Moura. Veja-21 de outubro 2015)
Em: "Só depois de dominado isso", a partícula só, presente no excerto, tem função adverbial, logo, invariável. Acrescentando "só· nas estruturas seguintes, ela variaria em:
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Munheca de Leitoa
Causo de Rolando Boldrin
Lá na minha terra, São Joaquim da Barra, todo mundo conta as histórias do compadre Abílio,sujeito tão miserável que não abre a mão nem para dar tchau nem para abraçar os filhos. Dava jeito de não pagar a conta do bar, fugia de qualquer vaquinha dos amigos. Por isso era chamado de munheca de leitoa.
Certo dia, Abílio foi para São Paulo pelo trem de Mogiana. Quando os passageiros saíam da estação, se depararam com um profeta de barba longa, roupa branca e cajado, bradando suas profecias: "Querem que eu adivinhe de onde vocês estão vindo? Pois bem, chegaram de São Joaquim da Barrai". E a caboclada, impressionada, começou a prestar atenção no que o homem dizia. Ele então abriu bem os olhos e disparou: "De amanhã não passa. O mundo se acabará!" Nisso começou uma gritaria generalizada. O povo passou a rezar e lamentar, numa bagunça danada." Ai, meu Deus! Nunca mais vou ver meus amigos que ficaram em São Joaquim da Barra!", balbuciou um. "Tinha que ser justo agora, que eu ia encontrar o amor da minha vida?", gritou outro.
Lá pelas tantas, alguém disse ter ouvido o unha de fome do Abílio, no embalo das lamentações, choramingar: "E, eu, pessoal? Não sei por que resolvi comprar passagem de ida e volta ... O que é que vou fazer agora com o bilhete pra São Joaquim? O que, meu Deus do céu?".
Fato é que a profecia do homem não aconteceu coisa nenhuma e todo mundo viveu para contar a história. Inclusive o Abílio, que pode desfrutar de sua estimada passagem de volta. De tão feliz, pela primeira vez na vida o compadre dividiu a conta na mesa do bar. Eita munheca de leitoa!
(Fonte: Almanaque de Cultura Popular, Ano 15, n.175).
"E a caboclada, impressionada, começou a prestar atenção ( ... )".
No excerto, o emprego das vírgulas se deu:
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