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Foram encontradas 40 questões.

Leia o texto a seguir para responder às questões de 7 a 10.

TEXTO 2

Quarto de despejo

1 5 de julho... O Frei Luiz hoje nos visitou com o seu carro capela. Nos disse que vai ensinar o

2 catecismo as crianças para fazer a primeira comunhão. E aos sabados vem nos ensinar a conhecer os

3 trechos biblicos.

4 6 de julho Despertei as 4 horas e meia com a tosse da Neide. Percebi que aquela tosse não ia

5 deixar-me dormir. Levantei e dei-lhe um pouco de xarope porque fiquei com dó. Ela é orfã de pai. Quando

6 o pai estava doente a mãe deixou-as. São treis filhas. (...) A mãe da Neide é uma desalmada. Não prestou

7 para tratar do esposo enfermo e nem para criar as filhas que ficaram aos cuidados dos avós.

8 ... Esquentei o arroz e os peixes e dei para os filhos. Depois fui catar lenha. Parece que eu vim ao

9 mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade.

10 ... Estendi as roupas para quarar. Ao meu lado estava a mulher do nortista que dormia com a mulher

11 do Chó. Estava nervosa e falava tanto. Parece que tem a lingua eletrica. Parecia o Carlos Lacerda quando

12 falava do Getulio. Dizia que era ela quem lavava as roupas da mulher do Chó. E o seu esposo é quem lhe

13 dava dinheiro para ela lhe pagar.

14 ... É 5 e meia. O frei Luiz está chegando para passar o cinema aqui na favela. Já puzeram a tela e os

15 favelados estão presentes.

16 As pessoas de alvenaria que residem perto da favela diz que não sabe como é que as pessoas de

17 cultura dá atenção ao povo da favela.

18 As crianças da favela bradaram quando iniciaram o cinema, representando trechos da Biblia. O

19 nascimento de Cristo. Chegou o carro capela com o Frei Luiz. Um vigário que é util aos favelados. (...)

20 Quando passava uma tela o Frei explicava. Quando passou os Reis Magos o Frei explicou que a

21 denominação Magos é porque êles liam a sorte das pessoas nas estrelas. E se alguem sabia o nome dos

22 Reis Magos. Que um é muito conhecido e chamava Baltazar.

23 – E o outro Pelé* — respondeu um moleque.

24 Todos riram. Chegou o caminhão com os jogadores na hora que o padre estava rezando. Resolvi

25 tomar parte no coro. Os meus filhos chegaram do cinema e eu fui dar o jantar para eles. A Vera estava

26 contente e contava as travessuras de José Carlos. O João perdeu os 11 cruzeiros que eu dei-lhe para ir

27 no Rialto. Ele levava o dinheiro na carteira e foi com os meninos da favela. E alguns deles ja sabem bater

28 carteira.

30

31 * A brincadeira se justifica: Baltazar era o apelido do centroavante do Corinthians, e Pelé, ainda em

32 início de carreira no Santos, já se destacava como um grande jogador. (N. E.)

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10. ed. São Paulo: Ática, 2014. p. 81-82. (Adaptado).

A escrita de “as 4 horas” (linha 4), “sabados” (linha 2), “biblicos” (linha 3), “lingua eletrica” (linha 11) sem o sinal de acento constitui

 

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TEXTO 2

Quarto de despejo

1 5 de julho... O Frei Luiz hoje nos visitou com o seu carro capela. Nos disse que vai ensinar o

2 catecismo as crianças para fazer a primeira comunhão. E aos sabados vem nos ensinar a conhecer os

3 trechos biblicos.

4 6 de julho Despertei as 4 horas e meia com a tosse da Neide. Percebi que aquela tosse não ia

5 deixar-me dormir. Levantei e dei-lhe um pouco de xarope porque fiquei com dó. Ela é orfã de pai. Quando

6 o pai estava doente a mãe deixou-as. São treis filhas. (...) A mãe da Neide é uma desalmada. Não prestou

7 para tratar do esposo enfermo e nem para criar as filhas que ficaram aos cuidados dos avós.

8 ... Esquentei o arroz e os peixes e dei para os filhos. Depois fui catar lenha. Parece que eu vim ao

9 mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade.

10 ... Estendi as roupas para quarar. Ao meu lado estava a mulher do nortista que dormia com a mulher

11 do Chó. Estava nervosa e falava tanto. Parece que tem a lingua eletrica. Parecia o Carlos Lacerda quando

12 falava do Getulio. Dizia que era ela quem lavava as roupas da mulher do Chó. E o seu esposo é quem lhe

13 dava dinheiro para ela lhe pagar.

14 ... É 5 e meia. O frei Luiz está chegando para passar o cinema aqui na favela. Já puzeram a tela e os

15 favelados estão presentes.

16 As pessoas de alvenaria que residem perto da favela diz que não sabe como é que as pessoas de

17 cultura dá atenção ao povo da favela.

18 As crianças da favela bradaram quando iniciaram o cinema, representando trechos da Biblia. O

19 nascimento de Cristo. Chegou o carro capela com o Frei Luiz. Um vigário que é util aos favelados. (...)

20 Quando passava uma tela o Frei explicava. Quando passou os Reis Magos o Frei explicou que a

21 denominação Magos é porque êles liam a sorte das pessoas nas estrelas. E se alguem sabia o nome dos

22 Reis Magos. Que um é muito conhecido e chamava Baltazar.

23 – E o outro Pelé* — respondeu um moleque.

24 Todos riram. Chegou o caminhão com os jogadores na hora que o padre estava rezando. Resolvi

25 tomar parte no coro. Os meus filhos chegaram do cinema e eu fui dar o jantar para eles. A Vera estava

26 contente e contava as travessuras de José Carlos. O João perdeu os 11 cruzeiros que eu dei-lhe para ir

27 no Rialto. Ele levava o dinheiro na carteira e foi com os meninos da favela. E alguns deles ja sabem bater

28 carteira.

30

31 * A brincadeira se justifica: Baltazar era o apelido do centroavante do Corinthians, e Pelé, ainda em

32 início de carreira no Santos, já se destacava como um grande jogador. (N. E.)

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10. ed. São Paulo: Ática, 2014. p. 81-82. (Adaptado).

Quanto à variação linguística presente na forma gráfica “treis”, verifica-se

 

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Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 6.

TEXTO 01

Narciso sob medida

1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como

2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande

3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso

4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções

5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se

6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se

7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma

8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”

9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização

10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a

11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver

12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio

13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não

14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da

15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo

16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.

17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta

18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma

19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,

20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos

21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da

22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes

23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das

24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro

25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e

26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre

27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das

28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa

29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada

30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.

31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e

32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de

33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,

34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um

35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados

36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,

37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus

38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos

39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou

40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de

41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal

42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e

43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma

44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social

45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e

46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.

LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).

O texto “Narciso sob medida” é desenvolvido, predominantemente, a partir da seguinte tipologia textual:

 

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TEXTO 01

Narciso sob medida

1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como

2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande

3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso

4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções

5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se

6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se

7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma

8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”

9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização

10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a

11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver

12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio

13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não

14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da

15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo

16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.

17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta

18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma

19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,

20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos

21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da

22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes

23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das

24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro

25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e

26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre

27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das

28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa

29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada

30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.

31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e

32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de

33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,

34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um

35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados

36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,

37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus

38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos

39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou

40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de

41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal

42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e

43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma

44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social

45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e

46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.

LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).

A forma pronominal “esta”, no trecho “é esta ‘perda do sentido da continuidade histórica’” (linhas 17 e 18), remete

 

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TEXTO 01

Narciso sob medida

1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como

2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande

3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso

4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções

5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se

6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se

7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma

8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”

9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização

10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a

11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver

12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio

13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não

14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da

15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo

16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.

17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta

18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma

19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,

20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos

21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da

22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes

23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das

24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro

25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e

26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre

27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das

28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa

29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada

30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.

31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e

32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de

33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,

34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um

35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados

36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,

37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus

38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos

39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou

40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de

41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal

42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e

43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma

44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social

45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e

46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.

LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).

No trecho “a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se esgota” (linhas 5 e 6), o uso dos verbos “desaparecer” e “esgotar” aciona os seguintes pressupostos linguísticos, respectivamente:

 

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TEXTO 01

Narciso sob medida

1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como

2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande

3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso

4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções

5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se

6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se

7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma

8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”

9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização

10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a

11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver

12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio

13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não

14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da

15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo

16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.

17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta

18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma

19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,

20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos

21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da

22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes

23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das

24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro

25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e

26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre

27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das

28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa

29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada

30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.

31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e

32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de

33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,

34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um

35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados

36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,

37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus

38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos

39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou

40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de

41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal

42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e

43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma

44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social

45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e

46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.

LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).

Dentre as contraposições de ideias presentes no texto, encontram-se aquelas representadas pelos seguintes pares:

 

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TEXTO 01

Narciso sob medida

1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como

2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande

3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso

4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções

5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se

6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se

7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma

8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”

9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização

10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a

11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver

12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio

13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não

14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da

15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo

16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.

17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta

18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma

19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,

20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos

21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da

22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes

23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das

24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro

25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e

26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre

27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das

28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa

29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada

30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.

31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e

32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de

33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,

34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um

35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados

36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,

37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus

38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos

39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou

40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de

41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal

42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e

43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma

44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social

45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e

46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.

LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).

É ideia defendida no texto:

 

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Leia o texto a seguir para responder às questões de 7 a 10.

TEXTO 2

Quarto de despejo

1 5 de julho... O Frei Luiz hoje nos visitou com o seu carro capela. Nos disse que vai ensinar o

2 catecismo as crianças para fazer a primeira comunhão. E aos sabados vem nos ensinar a conhecer os

3 trechos biblicos.

4 6 de julho Despertei as 4 horas e meia com a tosse da Neide. Percebi que aquela tosse não ia

5 deixar-me dormir. Levantei e dei-lhe um pouco de xarope porque fiquei com dó. Ela é orfã de pai. Quando

6 o pai estava doente a mãe deixou-as. São treis filhas. (...) A mãe da Neide é uma desalmada. Não prestou

7 para tratar do esposo enfermo e nem para criar as filhas que ficaram aos cuidados dos avós.

8 ... Esquentei o arroz e os peixes e dei para os filhos. Depois fui catar lenha. Parece que eu vim ao

9 mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade.

10 ... Estendi as roupas para quarar. Ao meu lado estava a mulher do nortista que dormia com a mulher

11 do Chó. Estava nervosa e falava tanto. Parece que tem a lingua eletrica. Parecia o Carlos Lacerda quando

12 falava do Getulio. Dizia que era ela quem lavava as roupas da mulher do Chó. E o seu esposo é quem lhe

13 dava dinheiro para ela lhe pagar.

14 ... É 5 e meia. O frei Luiz está chegando para passar o cinema aqui na favela. Já puzeram a tela e os

15 favelados estão presentes.

16 As pessoas de alvenaria que residem perto da favela diz que não sabe como é que as pessoas de

17 cultura dá atenção ao povo da favela.

18 As crianças da favela bradaram quando iniciaram o cinema, representando trechos da Biblia. O

19 nascimento de Cristo. Chegou o carro capela com o Frei Luiz. Um vigário que é util aos favelados. (...)

20 Quando passava uma tela o Frei explicava. Quando passou os Reis Magos o Frei explicou que a

21 denominação Magos é porque êles liam a sorte das pessoas nas estrelas. E se alguem sabia o nome dos

22 Reis Magos. Que um é muito conhecido e chamava Baltazar.

23 – E o outro Pelé* — respondeu um moleque.

24 Todos riram. Chegou o caminhão com os jogadores na hora que o padre estava rezando. Resolvi

25 tomar parte no coro. Os meus filhos chegaram do cinema e eu fui dar o jantar para eles. A Vera estava

26 contente e contava as travessuras de José Carlos. O João perdeu os 11 cruzeiros que eu dei-lhe para ir

27 no Rialto. Ele levava o dinheiro na carteira e foi com os meninos da favela. E alguns deles ja sabem bater

28 carteira.

30

31 * A brincadeira se justifica: Baltazar era o apelido do centroavante do Corinthians, e Pelé, ainda em

32 início de carreira no Santos, já se destacava como um grande jogador. (N. E.)

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10. ed. São Paulo: Ática, 2014. p. 81-82. (Adaptado).

Nos textos 1 e 2, as citações (linhas 13-14 e 18 – texto 01) e a referência aos Reis Magos (linhas 20-22 – texto 02) são exemplos do seguinte fenômeno textual:

 

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Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 6.

TEXTO 01

Narciso sob medida

1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como

2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande

3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso

4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções

5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se

6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se

7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma

8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”

9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização

10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a

11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver

12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio

13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não

14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da

15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo

16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.

17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta

18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma

19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,

20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos

21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da

22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes

23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das

24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro

25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e

26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre

27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das

28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa

29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada

30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.

31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e

32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de

33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,

34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um

35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados

36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,

37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus

38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos

39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou

40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de

41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal

42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e

43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma

44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social

45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e

46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.

LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).

Na frase “A despolitização e a ‘dessindicalização’ atingem proporções jamais vistas” (linhas 4 e 5), o termo oracional “A despolitização e a ‘dessindicalização’” exerce a mesma função sintática que

 

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A AIDS continua sendo um grande problema de saúde pública mundial. No Brasil, no período de 2007 até junho de 2021, foram notificados no Sinan 381.793 casos de infecção pelo HIV, sendo 32.701 casos no ano de 2020, com taxa de detecção de 14,1 a cada 100.000 habitantes. No entanto, com o aumento do acesso à prevenção, diagnóstico, tratamento e cuidados eficazes, inclusive para infecções oportunistas, a infecção pelo HIV tornou-se uma condição de saúde crônica gerenciável, permitindo que as pessoas que vivem com o vírus tenham uma vida longa e saudável.

Enunciado 2952945-1

Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim epidemiológicos HIV/AIDS, 2021.

Com base nas informações do texto e da figura, verifica-se que

Questão Anulada

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