Foram encontradas 40 questões.
Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 6.
TEXTO 01
Narciso sob medida
1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como
2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande
3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso
4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções
5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se
6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se
7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma
8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”
9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização
10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a
11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver
12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio
13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não
14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da
15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo
16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.
17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta
18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma
19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,
20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos
21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da
22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes
23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das
24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro
25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e
26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre
27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das
28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa
29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada
30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.
31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e
32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de
33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,
34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um
35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados
36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,
37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus
38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos
39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou
40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de
41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal
42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e
43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma
44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social
45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e
46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).
O texto “Narciso sob medida” é desenvolvido, predominantemente, a partir da seguinte tipologia textual:
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TEXTO 01
Narciso sob medida
1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como
2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande
3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso
4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções
5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se
6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se
7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma
8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”
9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização
10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a
11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver
12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio
13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não
14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da
15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo
16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.
17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta
18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma
19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,
20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos
21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da
22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes
23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das
24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro
25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e
26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre
27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das
28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa
29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada
30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.
31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e
32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de
33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,
34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um
35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados
36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,
37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus
38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos
39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou
40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de
41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal
42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e
43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma
44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social
45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e
46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).
A forma pronominal “esta”, no trecho “é esta ‘perda do sentido da continuidade histórica’” (linhas 17 e 18), remete
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TEXTO 01
Narciso sob medida
1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como
2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande
3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso
4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções
5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se
6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se
7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma
8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”
9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização
10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a
11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver
12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio
13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não
14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da
15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo
16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.
17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta
18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma
19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,
20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos
21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da
22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes
23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das
24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro
25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e
26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre
27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das
28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa
29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada
30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.
31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e
32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de
33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,
34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um
35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados
36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,
37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus
38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos
39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou
40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de
41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal
42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e
43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma
44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social
45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e
46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).
No trecho “a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se esgota” (linhas 5 e 6), o uso dos verbos “desaparecer” e “esgotar” aciona os seguintes pressupostos linguísticos, respectivamente:
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TEXTO 01
Narciso sob medida
1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como
2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande
3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso
4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções
5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se
6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se
7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma
8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”
9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização
10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a
11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver
12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio
13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não
14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da
15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo
16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.
17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta
18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma
19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,
20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos
21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da
22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes
23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das
24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro
25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e
26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre
27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das
28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa
29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada
30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.
31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e
32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de
33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,
34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um
35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados
36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,
37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus
38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos
39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou
40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de
41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal
42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e
43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma
44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social
45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e
46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).
Dentre as contraposições de ideias presentes no texto, encontram-se aquelas representadas pelos seguintes pares:
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TEXTO 01
Narciso sob medida
1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como
2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande
3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso
4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções
5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se
6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se
7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma
8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”
9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização
10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a
11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver
12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio
13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não
14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da
15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo
16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.
17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta
18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma
19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,
20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos
21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da
22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes
23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das
24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro
25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e
26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre
27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das
28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa
29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada
30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.
31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e
32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de
33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,
34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um
35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados
36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,
37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus
38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos
39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou
40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de
41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal
42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e
43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma
44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social
45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e
46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).
É ideia defendida no texto:
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Leia o texto a seguir para responder às questões de 7 a 10.
TEXTO 2
Quarto de despejo
1 5 de julho... O Frei Luiz hoje nos visitou com o seu carro capela. Nos disse que vai ensinar o
2 catecismo as crianças para fazer a primeira comunhão. E aos sabados vem nos ensinar a conhecer os
3 trechos biblicos.
4 6 de julho Despertei as 4 horas e meia com a tosse da Neide. Percebi que aquela tosse não ia
5 deixar-me dormir. Levantei e dei-lhe um pouco de xarope porque fiquei com dó. Ela é orfã de pai. Quando
6 o pai estava doente a mãe deixou-as. São treis filhas. (...) A mãe da Neide é uma desalmada. Não prestou
7 para tratar do esposo enfermo e nem para criar as filhas que ficaram aos cuidados dos avós.
8 ... Esquentei o arroz e os peixes e dei para os filhos. Depois fui catar lenha. Parece que eu vim ao
9 mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade.
10 ... Estendi as roupas para quarar. Ao meu lado estava a mulher do nortista que dormia com a mulher
11 do Chó. Estava nervosa e falava tanto. Parece que tem a lingua eletrica. Parecia o Carlos Lacerda quando
12 falava do Getulio. Dizia que era ela quem lavava as roupas da mulher do Chó. E o seu esposo é quem lhe
13 dava dinheiro para ela lhe pagar.
14 ... É 5 e meia. O frei Luiz está chegando para passar o cinema aqui na favela. Já puzeram a tela e os
15 favelados estão presentes.
16 As pessoas de alvenaria que residem perto da favela diz que não sabe como é que as pessoas de
17 cultura dá atenção ao povo da favela.
18 As crianças da favela bradaram quando iniciaram o cinema, representando trechos da Biblia. O
19 nascimento de Cristo. Chegou o carro capela com o Frei Luiz. Um vigário que é util aos favelados. (...)
20 Quando passava uma tela o Frei explicava. Quando passou os Reis Magos o Frei explicou que a
21 denominação Magos é porque êles liam a sorte das pessoas nas estrelas. E se alguem sabia o nome dos
22 Reis Magos. Que um é muito conhecido e chamava Baltazar.
23 – E o outro Pelé* — respondeu um moleque.
24 Todos riram. Chegou o caminhão com os jogadores na hora que o padre estava rezando. Resolvi
25 tomar parte no coro. Os meus filhos chegaram do cinema e eu fui dar o jantar para eles. A Vera estava
26 contente e contava as travessuras de José Carlos. O João perdeu os 11 cruzeiros que eu dei-lhe para ir
27 no Rialto. Ele levava o dinheiro na carteira e foi com os meninos da favela. E alguns deles ja sabem bater
28 carteira.
30
31 * A brincadeira se justifica: Baltazar era o apelido do centroavante do Corinthians, e Pelé, ainda em
32 início de carreira no Santos, já se destacava como um grande jogador. (N. E.)
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10. ed. São Paulo: Ática, 2014. p. 81-82. (Adaptado).
Nos textos 1 e 2, as citações (linhas 13-14 e 18 – texto 01) e a referência aos Reis Magos (linhas 20-22 – texto 02) são exemplos do seguinte fenômeno textual:
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TEXTO 01
Narciso sob medida
1 Depois da agitação política e cultural da década de 1960, que ainda poderia aparecer como
2 investimento de massa da coisa pública, há uma desafeição generalizada que ostensivamente se expande
3 no social, tendo como corolário o refluxo dos interesses para as preocupações puramente pessoais, e isso
4 independentemente de crises econômicas. A despolitização e a “dessindicalização” atingem proporções
5 jamais vistas, a esperança revolucionária e a contestação estudantil desapareceram, a contracultura se
6 esgota; raras são as causas ainda capazes de galvanizar as energias a longo prazo. A res publica se
7 desvitalizou, as grandes questões “filosóficas”, econômicas, políticas ou militares despertam uma
8 curiosidade semelhante àquela despertada por qualquer acontecimento comum, todas as “superioridades”
9 vão minguando aos poucos, arrebatadas que são pela vasta operação de neutralização e banalização
10 sociais. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa maré de apatia; cuidar da saúde, preservar a
11 própria situação material, desembaraçar-se dos “complexos”, esperar pelas férias: tornou-se possível viver
12 sem ideais, sem finalidades transcendentais. Os filmes de Woody Allen e o sucesso que têm são o próprio
13 símbolo desse hiperinvestimento do espaço privado; ele próprio declara que “soluções políticas não
14 funcionam” (citado por C. Lasch, p. 30), e, de muitas maneiras, esta fórmula traduz o novo espírito da
15 época, o narcisismo que nasce da deserção da política. Fim do homo politicus e advento do homo
16 psychologicus, à espreita do seu ser e do seu maior bem-estar.
17 Viver no presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta
18 “perda do sentido da continuidade histórica” (C.N., p. 30), esta erosão do sentimento de pertencer a uma
19 “sucessão de gerações enraizadas no passado e se prolongando para o futuro” que, segundo C. Lasch,
20 caracteriza e engendra a sociedade narcisista. Hoje em dia vivemos para nós mesmos, sem nos
21 preocuparmos com nossas tradições e com a nossa posteridade: o sentido histórico foi abandonado, da
22 mesma maneira que os valores e as instituições sociais. […] Há uma crise de confiança nos líderes
23 políticos, um clima de pessimismo e de catástrofe iminente que explicam o desenvolvimento das
24 estratégias narcisísticas de “sobrevida” que prometem a saúde física e psicológica. Quando o futuro
25 parece ameaçador e incerto, resta debruçar-se sobre o presente, que não paramos de proteger, arrumar e
26 reciclar, permanecendo em uma juventude sem fim. Ao mesmo tempo em que coloca o futuro entre
27 parênteses, o sistema procede à “desvalorização do passado”, em razão de sua avidez de se soltar das
28 tradições e das limitações arcaicas, de instituir uma sociedade sem amarras e sem opacidade; com essa
29 indiferença pelo tempo histórico se instala o “narcisismo coletivo”, sintoma social da crise generalizada
30 das sociedades burguesas, incapazes de enfrentar o futuro de outro modo, a não ser com desespero.
31 Em síntese, pode-se dizer que o narcisismo resulta da deserção generalizada dos valores e
32 finalidades sociais, ocasionada pelo processo de personalização. A anulação dos grandes sistemas de
33 sentidos e o hiperinvestimento no Eu andam de braços dados: nos sistemas com “aparência humana”,
34 que funcionam para o prazer, o bem-estar, a despadronização, tudo concorre para a promoção de um
35 individualismo puro, ou seja, psicológico, desembaraçado dos enquadramentos de massa e projetados
36 para a valorização geral do indivíduo. É a revolução das necessidades e sua ética hedonista que,
37 atomizando suavemente os indivíduos e esvaziando aos poucos as finalidades sociais de seus
38 significados profundos, permitiu que o discurso psi se enxertasse no social e se tornasse um novo éthos
39 de massa; foi o “materialismo” exacerbado das sociedades em abundância que, paradoxalmente, tornou
40 possível a eclosão de uma cultura centrada na expansão subjetiva, não por reação ou “suplemento de
41 alma”, mas, sim, por isolamento à escolha de cada um. A onda do “potencial humano” psíquico e corporal
42 não é mais do que o último momento de uma sociedade que está se libertando da ordem disciplinar e
43 completando a privatização sistemática já operada pela era do consumismo. Longe de derivar de uma
44 “tomada de consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre a lógica social
45 individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e sinais, e uma lógica terapêutica e
46 psicológica elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. p. 32-35. (Adaptado).
Na frase “A despolitização e a ‘dessindicalização’ atingem proporções jamais vistas” (linhas 4 e 5), o termo oracional “A despolitização e a ‘dessindicalização’” exerce a mesma função sintática que
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Nos diferentes contextos sociais, os portadores de deficiência por vezes foram marginalizados, chegando inclusive a serem privados da liberdade. Movimentos nacionais e internacionais, durante anos, lutaram por políticas integradoras e inclusivas. O ápice desses movimentos ocorreu em 1994, com a Conferência Mundial de Educação Especial, que contou com a presença de 88 países e 25 organizações internacionais. Esse evento teve como culminância a “Declaração de Salamanca”. Após quase 30 anos de sua publicação, ainda há muitas questões em pauta sobre a deficiência na sociedade. Sobre inclusão e integração, tem-se o seguinte:
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As propriedades físicas das substâncias, como pontos de fusão e ebulição, densidade, entre outras, podem ser explicadas pelo tipo de interação existente entre as moléculas e/ou íons. As forças que agem entre as moléculas não são tão intensas quanto as que agem em íons, mas ainda assim possibilitam que as mesmas possam existir em estados líquido e sólido. Estas forças, de natureza elétrica, podem ser de três tipos: 1- Forças do tipo dipolodipolo; 2- Forças de London e 3- Ligações de Hidrogênio. No quadro a seguir estão apresentados dados de diferentes álcoois.
|
Álcool |
Fórmula estrutural |
Massa Molar (g/mol)* |
Ponto de fusão (PF) (°C)* |
Ponto de Ebulição (PE) (°C)* |
|
Metanol |
H3C !$ - !$ OH |
32,04 |
-97,8 |
64,5 |
|
Etanol |
|
46,07 |
-114,5 |
78,3 |
|
Propanol |
|
60,1 |
-127 |
96,5 - 98 |
|
Butanol |
|
74,12 |
-90 |
116 - 118 |
|
Pentanol |
|
88,15 |
-78 |
138 |
*Dados disponíveis em: https://www.sigmaaldrich.com/BR/pt. Acesso em: 26 jan. 2022.
De acordo com o quadro apresentado, verifica-se que:
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A AIDS continua sendo um grande problema de saúde pública mundial. No Brasil, no período de 2007 até junho de 2021, foram notificados no Sinan 381.793 casos de infecção pelo HIV, sendo 32.701 casos no ano de 2020, com taxa de detecção de 14,1 a cada 100.000 habitantes. No entanto, com o aumento do acesso à prevenção, diagnóstico, tratamento e cuidados eficazes, inclusive para infecções oportunistas, a infecção pelo HIV tornou-se uma condição de saúde crônica gerenciável, permitindo que as pessoas que vivem com o vírus tenham uma vida longa e saudável.

Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim epidemiológicos HIV/AIDS, 2021.
Com base nas informações do texto e da figura, verifica-se que
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