Esta história foi-me contada por uma flautista,
integrante de famosa orquestra que veio se apresentar na
cidade que se erguia no centro do país.
Sabendo que um projeto moderníssimo de
universidade estava ganhando corpo na cidade, os músicos
desejaram visitar as obras do auditório da universidade.
Comovidos pelo entardecer no cerrado e pelo sonho
de uma escola fincada no futuro, os músicos, entre escoras e
andaimes, pegaram os instrumentos e improvisaram um
concerto. Tocavam para homenagear a audácia e o engenho
dos desbravadores; tocavam para saudar a inteligência e o
espírito que, entre aquelas paredes, encontrariam alimento e
estímulo; tocavam para os operários que consolidavam o
sonho em argamassa, areia e tijolo; tocavam pela felicidade
de tocar.
Os operários aproximaram-se em silêncio
respeitoso, sintonizados numa densa emoção.
A música terminou e entre abraços e adeuses a
orquestra foi deixando o campus, embevecida de esperança.
Encaminhando-se para o ônibus, a flautista ouve um operário
comentar com seu companheiro: “Para mim eu sei que é
tarde, mas... quem sabe meu filho? Era uma escola assim que
eu queria para ele.”
A frase ecoa em meu pensamento semestre após
semestre. Sempre que começo um curso, busco esperançosa
os rostos jovens que vão chegando e me pergunto: algum de
seus filhos está aqui? Ou talvez algum de seus netos? Quero
encontrar entre os calouros um único rosto que me dê a
certeza de que aquele desejo se realizou.
Lucília Garcez. UnB 30 anos. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1992, p. 321 (com adaptações)
Com base no texto acima, julgue os itens a seguir.
Na voz da flautista, o período “Comovidos (...) concerto” (l.7-10) estaria gramaticalmente correto se fosse dito assim: Todos ficamos comovidos pelo entardecer no cerrado e pelo sonho de uma escola fincada no futuro; então pegamos os instrumentos e ali mesmo, entre escoras e andaimes, improvisamos um concerto.