Foram encontradas 438 questões.
Texto IV
LÍNGUA PORTUGUESA VIRA CAMPO DE BATALHA IDEOLÓGICA
Adoção de novas palavras – e exclusão de antigas – buscam refletir mudanças na sociedade
RIO – Não chega a ser como no futebol, em que o Brasil tem “200 milhões de técnicos”. Mas, de
uns tempos para cá, há um novíssimo time de dicionaristas emergindo por aí. São militantes de
várias causas que estão indo a campo defender a inclusão de novas palavras – assim como a
exclusão de antigos termos – na língua portuguesa. Resultado: sobram bandeiras e dúvidas. Vale o
5 gênero neutro de “alunxs” testado no Colégio Pedro II? Pode o neologismo periférico de “rolézim”?
Cai “mulata” por seu histórico racista?
Nossa língua é uma metamorfose ambulante. Mas quem vai dizer se esse empurrão ideológico
altera a marcha natural do idioma? Você – o usuário dele.
Um dos mais respeitados linguistas do país, Sírio Possenti lembra que o idioma é “um campo de
10 disputa”. Professor da Unicamp, ele explica que é natural que grupos levem suas reivindicações
para o campo semântico: é a luta identitária nos dicionários.
— Todo grupo escolhe palavras para si – diz Possenti. – Quando o Movimento Sem Terra entra em
uma fazenda, diz que é “ocupação”. Para o fazendeiro, é “invasão”.
O linguista, também autor de “Por que (não) ensinar gramática na escola”, defende o que chama de
15 descriminalização do português falado:
— Quando o apresentador de telejornal lê a notícia, ele diz: “os juros vão subir”, pronunciando bem o
R. Logo depois, informalmente, como se costuma falar, pergunta à moça do tempo: “vai chovê?”.
Como se não houvesse R, porque o R do infinitivo caiu faz tempo, deveria ser a regra.
Quando o assunto é militância, há mais questões envolvidas, naturalmente. Stephanie Ribeiro,
20 ativista negra e autora do texto “Tire o racismo do seu vocabulário”, postado no site “Modefica” e
viralizado pelas redes sociais, defende mudanças nas palavras por uma questão de
“posicionamento” e refuta críticos que chamam o movimento de “ditadura linguística”:
— Se você não é da minoria atingida, é comum que ache exagero. As pessoas estranham quando
peço que não me chamem de “mulata” ou “morena”, e sim pelo meu nome. Muita gente não está
25 pronta para rever esse vocabulário.
[...]
O escritor e pesquisador do assunto Sérgio Rodrigues, autor de “Viva a língua brasileira”, considera
todas as lutas linguísticas válidas. E faz uma autocrítica:
— No mínimo, isso chama atenção para uma causa: todos têm opinião sobre como as pessoas
falam. Quando comecei a escrever sobre língua, cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo
30 “homossexualismo” por remeter à doença. Eu estava errado. O ativismo nos convenceu de que
“homossexualidade” é o certo. Ótimo.
Rodrigues acha que nossos dicionários demoram um pouco para perceber essas mudanças.
Exemplo: no “Aurélio”, no “Houaiss” e no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, “poeta”
aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros — e
35 “poetisa” seja até encarado como uma palavra depreciativa.
Diretor do Instituto Antônio Houaiss e coautor do dicionário, Mauro Villar explica que novas palavras
chegam ao dicionário a partir da leitura de obras de ficção, jornais, revistas, teses acadêmicas e “até
bulas de remédio, tudo o que se possa ler e anotar”.
— Mais tarde, julgamos o que deverá ser incluído e o que vai para a “geladeira” — diz Villar. —
40 Jogamos também com o acaso, tentando imaginar se tal expressão passará a fazer parte da língua
ou desaparecerá. [...]
Texto de Emiliano Urbim - Disponível em: www.oglobo.globo.com
Acesso em: 5 ago. 2019.
De acordo com o texto IV, responda às questões de números 45 a 53. |
Em “Se você não é da minoria atingida, é comum que ache exagero” (l. 23), o se pode ser classificado morfologicamente como:
Provas
Texto IV
LÍNGUA PORTUGUESA VIRA CAMPO DE BATALHA IDEOLÓGICA
Adoção de novas palavras – e exclusão de antigas – buscam refletir mudanças na sociedade
RIO – Não chega a ser como no futebol, em que o Brasil tem “200 milhões de técnicos”. Mas, de
uns tempos para cá, há um novíssimo time de dicionaristas emergindo por aí. São militantes de
várias causas que estão indo a campo defender a inclusão de novas palavras – assim como a
exclusão de antigos termos – na língua portuguesa. Resultado: sobram bandeiras e dúvidas. Vale o
5 gênero neutro de “alunxs” testado no Colégio Pedro II? Pode o neologismo periférico de “rolézim”?
Cai “mulata” por seu histórico racista?
Nossa língua é uma metamorfose ambulante. Mas quem vai dizer se esse empurrão ideológico
altera a marcha natural do idioma? Você – o usuário dele.
Um dos mais respeitados linguistas do país, Sírio Possenti lembra que o idioma é “um campo de
10 disputa”. Professor da Unicamp, ele explica que é natural que grupos levem suas reivindicações
para o campo semântico: é a luta identitária nos dicionários.
— Todo grupo escolhe palavras para si – diz Possenti. – Quando o Movimento Sem Terra entra em
uma fazenda, diz que é “ocupação”. Para o fazendeiro, é “invasão”.
O linguista, também autor de “Por que (não) ensinar gramática na escola”, defende o que chama de
15 descriminalização do português falado:
— Quando o apresentador de telejornal lê a notícia, ele diz: “os juros vão subir”, pronunciando bem o
R. Logo depois, informalmente, como se costuma falar, pergunta à moça do tempo: “vai chovê?”.
Como se não houvesse R, porque o R do infinitivo caiu faz tempo, deveria ser a regra.
Quando o assunto é militância, há mais questões envolvidas, naturalmente. Stephanie Ribeiro,
20 ativista negra e autora do texto “Tire o racismo do seu vocabulário”, postado no site “Modefica” e
viralizado pelas redes sociais, defende mudanças nas palavras por uma questão de
“posicionamento” e refuta críticos que chamam o movimento de “ditadura linguística”:
— Se você não é da minoria atingida, é comum que ache exagero. As pessoas estranham quando
peço que não me chamem de “mulata” ou “morena”, e sim pelo meu nome. Muita gente não está
25 pronta para rever esse vocabulário.
[...]
O escritor e pesquisador do assunto Sérgio Rodrigues, autor de “Viva a língua brasileira”, considera
todas as lutas linguísticas válidas. E faz uma autocrítica:
— No mínimo, isso chama atenção para uma causa: todos têm opinião sobre como as pessoas
falam. Quando comecei a escrever sobre língua, cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo
30 “homossexualismo” por remeter à doença. Eu estava errado. O ativismo nos convenceu de que
“homossexualidade” é o certo. Ótimo.
Rodrigues acha que nossos dicionários demoram um pouco para perceber essas mudanças.
Exemplo: no “Aurélio”, no “Houaiss” e no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, “poeta”
aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros — e
35 “poetisa” seja até encarado como uma palavra depreciativa.
Diretor do Instituto Antônio Houaiss e coautor do dicionário, Mauro Villar explica que novas palavras
chegam ao dicionário a partir da leitura de obras de ficção, jornais, revistas, teses acadêmicas e “até
bulas de remédio, tudo o que se possa ler e anotar”.
— Mais tarde, julgamos o que deverá ser incluído e o que vai para a “geladeira” — diz Villar. —
40 Jogamos também com o acaso, tentando imaginar se tal expressão passará a fazer parte da língua
ou desaparecerá. [...]
Texto de Emiliano Urbim - Disponível em: www.oglobo.globo.com
Acesso em: 5 ago. 2019.
De acordo com o texto IV, responda às questões de números 45 a 53. |
No trecho “Quando comecei a escrever sobre língua, cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo ‘homossexualismo’ por remeter à doença. Eu estava errado. O ativismo nos convenceu de que ‘homossexualidade’ é o certo.” (l. 29-31), há menção ao emprego do sufixo para indicar terminologia científica. A alternativa em que todas as palavras apresentam o sufixo – “ismo” com essa mesma finalidade é:
Provas
Texto IV
LÍNGUA PORTUGUESA VIRA CAMPO DE BATALHA IDEOLÓGICA
Adoção de novas palavras – e exclusão de antigas – buscam refletir mudanças na sociedade
RIO – Não chega a ser como no futebol, em que o Brasil tem “200 milhões de técnicos”. Mas, de
uns tempos para cá, há um novíssimo time de dicionaristas emergindo por aí. São militantes de
várias causas que estão indo a campo defender a inclusão de novas palavras – assim como a
exclusão de antigos termos – na língua portuguesa. Resultado: sobram bandeiras e dúvidas. Vale o
5 gênero neutro de “alunxs” testado no Colégio Pedro II? Pode o neologismo periférico de “rolézim”?
Cai “mulata” por seu histórico racista?
Nossa língua é uma metamorfose ambulante. Mas quem vai dizer se esse empurrão ideológico
altera a marcha natural do idioma? Você – o usuário dele.
Um dos mais respeitados linguistas do país, Sírio Possenti lembra que o idioma é “um campo de
10 disputa”. Professor da Unicamp, ele explica que é natural que grupos levem suas reivindicações
para o campo semântico: é a luta identitária nos dicionários.
— Todo grupo escolhe palavras para si – diz Possenti. – Quando o Movimento Sem Terra entra em
uma fazenda, diz que é “ocupação”. Para o fazendeiro, é “invasão”.
O linguista, também autor de “Por que (não) ensinar gramática na escola”, defende o que chama de
15 descriminalização do português falado:
— Quando o apresentador de telejornal lê a notícia, ele diz: “os juros vão subir”, pronunciando bem o
R. Logo depois, informalmente, como se costuma falar, pergunta à moça do tempo: “vai chovê?”.
Como se não houvesse R, porque o R do infinitivo caiu faz tempo, deveria ser a regra.
Quando o assunto é militância, há mais questões envolvidas, naturalmente. Stephanie Ribeiro,
20 ativista negra e autora do texto “Tire o racismo do seu vocabulário”, postado no site “Modefica” e
viralizado pelas redes sociais, defende mudanças nas palavras por uma questão de
“posicionamento” e refuta críticos que chamam o movimento de “ditadura linguística”:
— Se você não é da minoria atingida, é comum que ache exagero. As pessoas estranham quando
peço que não me chamem de “mulata” ou “morena”, e sim pelo meu nome. Muita gente não está
25 pronta para rever esse vocabulário.
[...]
O escritor e pesquisador do assunto Sérgio Rodrigues, autor de “Viva a língua brasileira”, considera
todas as lutas linguísticas válidas. E faz uma autocrítica:
— No mínimo, isso chama atenção para uma causa: todos têm opinião sobre como as pessoas
falam. Quando comecei a escrever sobre língua, cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo
30 “homossexualismo” por remeter à doença. Eu estava errado. O ativismo nos convenceu de que
“homossexualidade” é o certo. Ótimo.
Rodrigues acha que nossos dicionários demoram um pouco para perceber essas mudanças.
Exemplo: no “Aurélio”, no “Houaiss” e no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, “poeta”
aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros — e
35 “poetisa” seja até encarado como uma palavra depreciativa.
Diretor do Instituto Antônio Houaiss e coautor do dicionário, Mauro Villar explica que novas palavras
chegam ao dicionário a partir da leitura de obras de ficção, jornais, revistas, teses acadêmicas e “até
bulas de remédio, tudo o que se possa ler e anotar”.
— Mais tarde, julgamos o que deverá ser incluído e o que vai para a “geladeira” — diz Villar. —
40 Jogamos também com o acaso, tentando imaginar se tal expressão passará a fazer parte da língua
ou desaparecerá. [...]
Texto de Emiliano Urbim - Disponível em: www.oglobo.globo.com
Acesso em: 5 ago. 2019.
De acordo com o texto IV, responda às questões de números 45 a 53. |
No trecho “Exemplo: no ‘Aurélio’, no ‘Houaiss’ e no ‘Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa’, ‘poeta’ aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros – e ‘poetisa’ seja até encarado como uma palavra depreciativa.” (l. 33 - 35), Sérgio Rodrigues aponta o emprego da palavra poeta como um substantivo comum de dois gêneros. Outro substantivo que pode ser classificado da mesma forma é:
Provas
Texto IV
LÍNGUA PORTUGUESA VIRA CAMPO DE BATALHA IDEOLÓGICA
Adoção de novas palavras – e exclusão de antigas – buscam refletir mudanças na sociedade
RIO – Não chega a ser como no futebol, em que o Brasil tem “200 milhões de técnicos”. Mas, de
uns tempos para cá, há um novíssimo time de dicionaristas emergindo por aí. São militantes de
várias causas que estão indo a campo defender a inclusão de novas palavras – assim como a
exclusão de antigos termos – na língua portuguesa. Resultado: sobram bandeiras e dúvidas. Vale o
5 gênero neutro de “alunxs” testado no Colégio Pedro II? Pode o neologismo periférico de “rolézim”?
Cai “mulata” por seu histórico racista?
Nossa língua é uma metamorfose ambulante. Mas quem vai dizer se esse empurrão ideológico
altera a marcha natural do idioma? Você – o usuário dele.
Um dos mais respeitados linguistas do país, Sírio Possenti lembra que o idioma é “um campo de
10 disputa”. Professor da Unicamp, ele explica que é natural que grupos levem suas reivindicações
para o campo semântico: é a luta identitária nos dicionários.
— Todo grupo escolhe palavras para si – diz Possenti. – Quando o Movimento Sem Terra entra em
uma fazenda, diz que é “ocupação”. Para o fazendeiro, é “invasão”.
O linguista, também autor de “Por que (não) ensinar gramática na escola”, defende o que chama de
15 descriminalização do português falado:
— Quando o apresentador de telejornal lê a notícia, ele diz: “os juros vão subir”, pronunciando bem o
R. Logo depois, informalmente, como se costuma falar, pergunta à moça do tempo: “vai chovê?”.
Como se não houvesse R, porque o R do infinitivo caiu faz tempo, deveria ser a regra.
Quando o assunto é militância, há mais questões envolvidas, naturalmente. Stephanie Ribeiro,
20 ativista negra e autora do texto “Tire o racismo do seu vocabulário”, postado no site “Modefica” e
viralizado pelas redes sociais, defende mudanças nas palavras por uma questão de
“posicionamento” e refuta críticos que chamam o movimento de “ditadura linguística”:
— Se você não é da minoria atingida, é comum que ache exagero. As pessoas estranham quando
peço que não me chamem de “mulata” ou “morena”, e sim pelo meu nome. Muita gente não está
25 pronta para rever esse vocabulário.
[...]
O escritor e pesquisador do assunto Sérgio Rodrigues, autor de “Viva a língua brasileira”, considera
todas as lutas linguísticas válidas. E faz uma autocrítica:
— No mínimo, isso chama atenção para uma causa: todos têm opinião sobre como as pessoas
falam. Quando comecei a escrever sobre língua, cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo
30 “homossexualismo” por remeter à doença. Eu estava errado. O ativismo nos convenceu de que
“homossexualidade” é o certo. Ótimo.
Rodrigues acha que nossos dicionários demoram um pouco para perceber essas mudanças.
Exemplo: no “Aurélio”, no “Houaiss” e no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, “poeta”
aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros — e
35 “poetisa” seja até encarado como uma palavra depreciativa.
Diretor do Instituto Antônio Houaiss e coautor do dicionário, Mauro Villar explica que novas palavras
chegam ao dicionário a partir da leitura de obras de ficção, jornais, revistas, teses acadêmicas e “até
bulas de remédio, tudo o que se possa ler e anotar”.
— Mais tarde, julgamos o que deverá ser incluído e o que vai para a “geladeira” — diz Villar. —
40 Jogamos também com o acaso, tentando imaginar se tal expressão passará a fazer parte da língua
ou desaparecerá. [...]
Texto de Emiliano Urbim - Disponível em: www.oglobo.globo.com
Acesso em: 5 ago. 2019.
De acordo com o texto IV, responda às questões de números 45 a 53. |
No trecho “Quando o apresentador de telejornal lê a notícia, ele diz: ‘os juros vão subir’, pronunciando bem o R. Logo depois, informalmente, como se costuma falar, pergunta à moça do tempo: ‘vai chovê?’. Como se não houvesse R, porque o R do infinitivo caiu faz tempo, deveria ser a regra.” (l. 16-18), a fala do linguista Sírio Possenti faz menção à:
Provas
Texto IV
LÍNGUA PORTUGUESA VIRA CAMPO DE BATALHA IDEOLÓGICA
Adoção de novas palavras – e exclusão de antigas – buscam refletir mudanças na sociedade
RIO – Não chega a ser como no futebol, em que o Brasil tem “200 milhões de técnicos”. Mas, de
uns tempos para cá, há um novíssimo time de dicionaristas emergindo por aí. São militantes de
várias causas que estão indo a campo defender a inclusão de novas palavras – assim como a
exclusão de antigos termos – na língua portuguesa. Resultado: sobram bandeiras e dúvidas. Vale o
5 gênero neutro de “alunxs” testado no Colégio Pedro II? Pode o neologismo periférico de “rolézim”?
Cai “mulata” por seu histórico racista?
Nossa língua é uma metamorfose ambulante. Mas quem vai dizer se esse empurrão ideológico
altera a marcha natural do idioma? Você – o usuário dele.
Um dos mais respeitados linguistas do país, Sírio Possenti lembra que o idioma é “um campo de
10 disputa”. Professor da Unicamp, ele explica que é natural que grupos levem suas reivindicações
para o campo semântico: é a luta identitária nos dicionários.
— Todo grupo escolhe palavras para si – diz Possenti. – Quando o Movimento Sem Terra entra em
uma fazenda, diz que é “ocupação”. Para o fazendeiro, é “invasão”.
O linguista, também autor de “Por que (não) ensinar gramática na escola”, defende o que chama de
15 descriminalização do português falado:
— Quando o apresentador de telejornal lê a notícia, ele diz: “os juros vão subir”, pronunciando bem o
R. Logo depois, informalmente, como se costuma falar, pergunta à moça do tempo: “vai chovê?”.
Como se não houvesse R, porque o R do infinitivo caiu faz tempo, deveria ser a regra.
Quando o assunto é militância, há mais questões envolvidas, naturalmente. Stephanie Ribeiro,
20 ativista negra e autora do texto “Tire o racismo do seu vocabulário”, postado no site “Modefica” e
viralizado pelas redes sociais, defende mudanças nas palavras por uma questão de
“posicionamento” e refuta críticos que chamam o movimento de “ditadura linguística”:
— Se você não é da minoria atingida, é comum que ache exagero. As pessoas estranham quando
peço que não me chamem de “mulata” ou “morena”, e sim pelo meu nome. Muita gente não está
25 pronta para rever esse vocabulário.
[...]
O escritor e pesquisador do assunto Sérgio Rodrigues, autor de “Viva a língua brasileira”, considera
todas as lutas linguísticas válidas. E faz uma autocrítica:
— No mínimo, isso chama atenção para uma causa: todos têm opinião sobre como as pessoas
falam. Quando comecei a escrever sobre língua, cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo
30 “homossexualismo” por remeter à doença. Eu estava errado. O ativismo nos convenceu de que
“homossexualidade” é o certo. Ótimo.
Rodrigues acha que nossos dicionários demoram um pouco para perceber essas mudanças.
Exemplo: no “Aurélio”, no “Houaiss” e no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, “poeta”
aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros — e
35 “poetisa” seja até encarado como uma palavra depreciativa.
Diretor do Instituto Antônio Houaiss e coautor do dicionário, Mauro Villar explica que novas palavras
chegam ao dicionário a partir da leitura de obras de ficção, jornais, revistas, teses acadêmicas e “até
bulas de remédio, tudo o que se possa ler e anotar”.
— Mais tarde, julgamos o que deverá ser incluído e o que vai para a “geladeira” — diz Villar. —
40 Jogamos também com o acaso, tentando imaginar se tal expressão passará a fazer parte da língua
ou desaparecerá. [...]
Texto de Emiliano Urbim - Disponível em: www.oglobo.globo.com
Acesso em: 5 ago. 2019.
De acordo com o texto IV, responda às questões de números 45 a 53. |
No texto, o emprego de aspas é expressivo. O trecho que apresenta a justificativa adequada para o uso desse sinal de pontuação é:
Provas
Texto IV
LÍNGUA PORTUGUESA VIRA CAMPO DE BATALHA IDEOLÓGICA
Adoção de novas palavras – e exclusão de antigas – buscam refletir mudanças na sociedade
RIO – Não chega a ser como no futebol, em que o Brasil tem “200 milhões de técnicos”. Mas, de
uns tempos para cá, há um novíssimo time de dicionaristas emergindo por aí. São militantes de
várias causas que estão indo a campo defender a inclusão de novas palavras – assim como a
exclusão de antigos termos – na língua portuguesa. Resultado: sobram bandeiras e dúvidas. Vale o
5 gênero neutro de “alunxs” testado no Colégio Pedro II? Pode o neologismo periférico de “rolézim”?
Cai “mulata” por seu histórico racista?
Nossa língua é uma metamorfose ambulante. Mas quem vai dizer se esse empurrão ideológico
altera a marcha natural do idioma? Você – o usuário dele.
Um dos mais respeitados linguistas do país, Sírio Possenti lembra que o idioma é “um campo de
10 disputa”. Professor da Unicamp, ele explica que é natural que grupos levem suas reivindicações
para o campo semântico: é a luta identitária nos dicionários.
— Todo grupo escolhe palavras para si – diz Possenti. – Quando o Movimento Sem Terra entra em
uma fazenda, diz que é “ocupação”. Para o fazendeiro, é “invasão”.
O linguista, também autor de “Por que (não) ensinar gramática na escola”, defende o que chama de
15 descriminalização do português falado:
— Quando o apresentador de telejornal lê a notícia, ele diz: “os juros vão subir”, pronunciando bem o
R. Logo depois, informalmente, como se costuma falar, pergunta à moça do tempo: “vai chovê?”.
Como se não houvesse R, porque o R do infinitivo caiu faz tempo, deveria ser a regra.
Quando o assunto é militância, há mais questões envolvidas, naturalmente. Stephanie Ribeiro,
20 ativista negra e autora do texto “Tire o racismo do seu vocabulário”, postado no site “Modefica” e
viralizado pelas redes sociais, defende mudanças nas palavras por uma questão de
“posicionamento” e refuta críticos que chamam o movimento de “ditadura linguística”:
— Se você não é da minoria atingida, é comum que ache exagero. As pessoas estranham quando
peço que não me chamem de “mulata” ou “morena”, e sim pelo meu nome. Muita gente não está
25 pronta para rever esse vocabulário.
[...]
O escritor e pesquisador do assunto Sérgio Rodrigues, autor de “Viva a língua brasileira”, considera
todas as lutas linguísticas válidas. E faz uma autocrítica:
— No mínimo, isso chama atenção para uma causa: todos têm opinião sobre como as pessoas
falam. Quando comecei a escrever sobre língua, cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo
30 “homossexualismo” por remeter à doença. Eu estava errado. O ativismo nos convenceu de que
“homossexualidade” é o certo. Ótimo.
Rodrigues acha que nossos dicionários demoram um pouco para perceber essas mudanças.
Exemplo: no “Aurélio”, no “Houaiss” e no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, “poeta”
aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros — e
35 “poetisa” seja até encarado como uma palavra depreciativa.
Diretor do Instituto Antônio Houaiss e coautor do dicionário, Mauro Villar explica que novas palavras
chegam ao dicionário a partir da leitura de obras de ficção, jornais, revistas, teses acadêmicas e “até
bulas de remédio, tudo o que se possa ler e anotar”.
— Mais tarde, julgamos o que deverá ser incluído e o que vai para a “geladeira” — diz Villar. —
40 Jogamos também com o acaso, tentando imaginar se tal expressão passará a fazer parte da língua
ou desaparecerá. [...]
Texto de Emiliano Urbim - Disponível em: www.oglobo.globo.com
Acesso em: 5 ago. 2019.
De acordo com o texto IV, responda às questões de números 45 a 53. |
Na fala de Sérgio Rodrigues, “No mínimo, isso chama atenção para uma causa” (l. 28), o pronome destacado, anaforicamente, faz referência ao(à):
Provas
Texto IV
LÍNGUA PORTUGUESA VIRA CAMPO DE BATALHA IDEOLÓGICA
Adoção de novas palavras – e exclusão de antigas – buscam refletir mudanças na sociedade
RIO – Não chega a ser como no futebol, em que o Brasil tem “200 milhões de técnicos”. Mas, de
uns tempos para cá, há um novíssimo time de dicionaristas emergindo por aí. São militantes de
várias causas que estão indo a campo defender a inclusão de novas palavras – assim como a
exclusão de antigos termos – na língua portuguesa. Resultado: sobram bandeiras e dúvidas. Vale o
5 gênero neutro de “alunxs” testado no Colégio Pedro II? Pode o neologismo periférico de “rolézim”?
Cai “mulata” por seu histórico racista?
Nossa língua é uma metamorfose ambulante. Mas quem vai dizer se esse empurrão ideológico
altera a marcha natural do idioma? Você – o usuário dele.
Um dos mais respeitados linguistas do país, Sírio Possenti lembra que o idioma é “um campo de
10 disputa”. Professor da Unicamp, ele explica que é natural que grupos levem suas reivindicações
para o campo semântico: é a luta identitária nos dicionários.
— Todo grupo escolhe palavras para si – diz Possenti. – Quando o Movimento Sem Terra entra em
uma fazenda, diz que é “ocupação”. Para o fazendeiro, é “invasão”.
O linguista, também autor de “Por que (não) ensinar gramática na escola”, defende o que chama de
15 descriminalização do português falado:
— Quando o apresentador de telejornal lê a notícia, ele diz: “os juros vão subir”, pronunciando bem o
R. Logo depois, informalmente, como se costuma falar, pergunta à moça do tempo: “vai chovê?”.
Como se não houvesse R, porque o R do infinitivo caiu faz tempo, deveria ser a regra.
Quando o assunto é militância, há mais questões envolvidas, naturalmente. Stephanie Ribeiro,
20 ativista negra e autora do texto “Tire o racismo do seu vocabulário”, postado no site “Modefica” e
viralizado pelas redes sociais, defende mudanças nas palavras por uma questão de
“posicionamento” e refuta críticos que chamam o movimento de “ditadura linguística”:
— Se você não é da minoria atingida, é comum que ache exagero. As pessoas estranham quando
peço que não me chamem de “mulata” ou “morena”, e sim pelo meu nome. Muita gente não está
25 pronta para rever esse vocabulário.
[...]
O escritor e pesquisador do assunto Sérgio Rodrigues, autor de “Viva a língua brasileira”, considera
todas as lutas linguísticas válidas. E faz uma autocrítica:
— No mínimo, isso chama atenção para uma causa: todos têm opinião sobre como as pessoas
falam. Quando comecei a escrever sobre língua, cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo
30 “homossexualismo” por remeter à doença. Eu estava errado. O ativismo nos convenceu de que
“homossexualidade” é o certo. Ótimo.
Rodrigues acha que nossos dicionários demoram um pouco para perceber essas mudanças.
Exemplo: no “Aurélio”, no “Houaiss” e no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, “poeta”
aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros — e
35 “poetisa” seja até encarado como uma palavra depreciativa.
Diretor do Instituto Antônio Houaiss e coautor do dicionário, Mauro Villar explica que novas palavras
chegam ao dicionário a partir da leitura de obras de ficção, jornais, revistas, teses acadêmicas e “até
bulas de remédio, tudo o que se possa ler e anotar”.
— Mais tarde, julgamos o que deverá ser incluído e o que vai para a “geladeira” — diz Villar. —
40 Jogamos também com o acaso, tentando imaginar se tal expressão passará a fazer parte da língua
ou desaparecerá. [...]
Texto de Emiliano Urbim - Disponível em: www.oglobo.globo.com
Acesso em: 5 ago. 2019.
De acordo com o texto IV, responda às questões de números 45 a 53. |
Em “[...]cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo ‘homossexualismo’ por remeter à doença. Eu estava errado.” (l. 29 - 30), o termo destacado pode ser substituído, sem prejuízo de sentido, por:
Provas
Texto IV
LÍNGUA PORTUGUESA VIRA CAMPO DE BATALHA IDEOLÓGICA
Adoção de novas palavras – e exclusão de antigas – buscam refletir mudanças na sociedade
RIO – Não chega a ser como no futebol, em que o Brasil tem “200 milhões de técnicos”. Mas, de
uns tempos para cá, há um novíssimo time de dicionaristas emergindo por aí. São militantes de
várias causas que estão indo a campo defender a inclusão de novas palavras – assim como a
exclusão de antigos termos – na língua portuguesa. Resultado: sobram bandeiras e dúvidas. Vale o
5 gênero neutro de “alunxs” testado no Colégio Pedro II? Pode o neologismo periférico de “rolézim”?
Cai “mulata” por seu histórico racista?
Nossa língua é uma metamorfose ambulante. Mas quem vai dizer se esse empurrão ideológico
altera a marcha natural do idioma? Você – o usuário dele.
Um dos mais respeitados linguistas do país, Sírio Possenti lembra que o idioma é “um campo de
10 disputa”. Professor da Unicamp, ele explica que é natural que grupos levem suas reivindicações
para o campo semântico: é a luta identitária nos dicionários.
— Todo grupo escolhe palavras para si – diz Possenti. – Quando o Movimento Sem Terra entra em
uma fazenda, diz que é “ocupação”. Para o fazendeiro, é “invasão”.
O linguista, também autor de “Por que (não) ensinar gramática na escola”, defende o que chama de
15 descriminalização do português falado:
— Quando o apresentador de telejornal lê a notícia, ele diz: “os juros vão subir”, pronunciando bem o
R. Logo depois, informalmente, como se costuma falar, pergunta à moça do tempo: “vai chovê?”.
Como se não houvesse R, porque o R do infinitivo caiu faz tempo, deveria ser a regra.
Quando o assunto é militância, há mais questões envolvidas, naturalmente. Stephanie Ribeiro,
20 ativista negra e autora do texto “Tire o racismo do seu vocabulário”, postado no site “Modefica” e
viralizado pelas redes sociais, defende mudanças nas palavras por uma questão de
“posicionamento” e refuta críticos que chamam o movimento de “ditadura linguística”:
— Se você não é da minoria atingida, é comum que ache exagero. As pessoas estranham quando
peço que não me chamem de “mulata” ou “morena”, e sim pelo meu nome. Muita gente não está
25 pronta para rever esse vocabulário.
[...]
O escritor e pesquisador do assunto Sérgio Rodrigues, autor de “Viva a língua brasileira”, considera
todas as lutas linguísticas válidas. E faz uma autocrítica:
— No mínimo, isso chama atenção para uma causa: todos têm opinião sobre como as pessoas
falam. Quando comecei a escrever sobre língua, cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo
30 “homossexualismo” por remeter à doença. Eu estava errado. O ativismo nos convenceu de que
“homossexualidade” é o certo. Ótimo.
Rodrigues acha que nossos dicionários demoram um pouco para perceber essas mudanças.
Exemplo: no “Aurélio”, no “Houaiss” e no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, “poeta”
aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros — e
35 “poetisa” seja até encarado como uma palavra depreciativa.
Diretor do Instituto Antônio Houaiss e coautor do dicionário, Mauro Villar explica que novas palavras
chegam ao dicionário a partir da leitura de obras de ficção, jornais, revistas, teses acadêmicas e “até
bulas de remédio, tudo o que se possa ler e anotar”.
— Mais tarde, julgamos o que deverá ser incluído e o que vai para a “geladeira” — diz Villar. —
40 Jogamos também com o acaso, tentando imaginar se tal expressão passará a fazer parte da língua
ou desaparecerá. [...]
Texto de Emiliano Urbim - Disponível em: www.oglobo.globo.com
Acesso em: 5 ago. 2019.
De acordo com o texto IV, responda às questões de números 45 a 53. |
Em “Quando o Movimento Sem Terra entra em uma fazenda, diz que é ‘ocupação’. Para o fazendeiro, é ‘invasão’.” (l. 12 - 13), a escolha de uma palavra pode revelar a intenção comunicativa na construção da linguagem. Considerando a escolha lexical no trecho destacado e a natureza dos sujeitos da fala, é correto afirmar que:
Provas
Texto III
DEFENESTRAÇÃO
Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa
vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia
Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem,
5 tudo se complicaria.
— Os hermeneutas estão chegando!
— Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e
frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até
10 que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
— Alô...
— O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
— Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
15 Plúmbeo devia ser o barulho que o corpo faz ao cair na água.
Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração.
A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de
procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas
pessoas. Tinha até um som lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das
20 mulheres:
— Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa.
Haveria assim defenestradores profissionais.
25 Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais?
"Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo tê-la usado uma
ou outra vez, como em:
— Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a
30 palavra exata.
Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir.
"Defenestração" vem do francês “defenestration”. Substantivo feminino, ato de atirar alguém ou algo
pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela!
35 Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e
lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra
para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as
drogas, suprimido a tempo.
40 [...]
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e
defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.
VERISSIMO, Luis Fernando. In: O Analista de Bagé [Adaptado]. Porto Alegre: L&PM, 1992.
De acordo com o texto III, responda às questões de números 38 a 44. |
O narrador do texto de Luis Fernando Verissimo demonstra fascinação por uma palavra cujo significado desconhece. Até procurá-la no dicionário, imagina o que ela pode significar. Qualquer leitor desse texto, caso também desconhecesse o significado da palavra defenestração, poderia inferi-lo pelo contexto. Esse procedimento pode ser considerado apropriado porque o leitor:
Provas
Texto III
DEFENESTRAÇÃO
Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa
vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia
Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem,
5 tudo se complicaria.
— Os hermeneutas estão chegando!
— Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e
frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até
10 que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
— Alô...
— O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
— Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
15 Plúmbeo devia ser o barulho que o corpo faz ao cair na água.
Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração.
A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de
procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas
pessoas. Tinha até um som lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das
20 mulheres:
— Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa.
Haveria assim defenestradores profissionais.
25 Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais?
"Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo tê-la usado uma
ou outra vez, como em:
— Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a
30 palavra exata.
Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir.
"Defenestração" vem do francês “defenestration”. Substantivo feminino, ato de atirar alguém ou algo
pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela!
35 Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e
lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra
para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as
drogas, suprimido a tempo.
40 [...]
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e
defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.
VERISSIMO, Luis Fernando. In: O Analista de Bagé [Adaptado]. Porto Alegre: L&PM, 1992.
De acordo com o texto III, responda às questões de números 38 a 44. |
Em “Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração” (l. 16), o conectivo que introduz a segunda oração do período composto expressa:
Provas
Caderno Container