Chico Buarque e a era da grosseria online
Os xingamentos ao cantor mostram que há uma migração para o mundo físico de um comportamento péssimo das redes sociais
Você deve ter visto o vídeo do cantor Chico Buarque sendo xingado por um grupo de jovens aparentemente alcoolizados. Um bate-boca típico de bar. O fato ocorreu na última segunda-feira (21), na saída de um restaurante no Leblon, na cidade do Rio de Janeiro. O vídeo publicado no Glamurama mostra o grupo de jovens em volta do cantor questionando o fato de ele defender publicamente o Partido dos Trabalhadores. [...] Não houve agressão física. Só sobrou grosseria – uma tendência comportamental que marcou o ano de 2015 no Brasil. Em agosto, falamos em reportagem da ÉPOCA sobre o fenômeno que chamamos de "A era da grosseria online". Em algum momento, passamos a achar razoável tratar quem pensa diferente com xingamentos e pontapés virtuais. Em algum momento, passamos a achar bacana pegar o comentário de alguém, colocar numa comunidade com ideias contrárias e participar de sessões de linchamento virtual. Com o aval e o apoio de quem pensa como nós – já que o Facebook nos induz a ler apenas o conteúdo com o qual concordamos – nos tornamos visigodos da era digital em busca de um povo inimigo para exterminar O problema – e o caso de Chico é só mais um entre tantos, nos diferentes espectros políticos – é que esse comportamento vem gradativamente migrando para o mundo físico. Pessoas estão se sentindo à vontade para abordar quem pensa diferente na rua e disparar agressões físicas e verbais. Não se trata de liberdade de expressão ou de politicamente correto. Trata-se de um ambiente em que não há espaço para diálogo. Apenas monólogos de quem foi munido por um arsenal de informações recebidas das redes sociais e de sites obscuros e não suporta ser confrontado com uma opinião diferente. [...] Vivemos a era da grosseria e da intolerância e sobretudo a era da ignorância. Compartilhamos textos apenas lendo o título e vendo foto. Compartilhamos textos claramente mentirosos. Compartilhamos matérias de sites de humor, como o Sensacionalista, acreditando serem reais. Depois colocamos a culpa no Brasil. “Ah, mas aqui ocorre tanto absurdo que eu achei que fosse verdade”. Achou mesmo ou de repente cegou-se diante da facilidade em espraiar seu ódio e sua insatisfação? É curioso que estejamos nos tornando mais ignorantes numa era em que quase toda a informação pode ser checada com dois cliques do mouse ou a dois toques na tela do celular. Parece que esse segundo toque dá muito mais trabalho do que o primeiro. [...] Não podemos achar normal que esse comportamento extremo das redes sociais migre para o mundo físico. São locais de naturezas distintas e, portanto, de reações com proporções e consequências diferentes[...] As redes sociais são uma poderosa ferramenta para obter conhecimento, estreitar laços, conhecer gente nova, namorar, se entreter. Mas também se mostraram um habitat perfeito para a ignorância, a intolerância e a truculência. Não é difícil escolher quais dessas características deveríamos trazer para o mundo real e quais deveriam permanecer nos guetos virtuais. BRUNO FERRARI 23/12/2015
Disponível em: http://epoca.globo.com/vida/experiencias-
digitais/noticia/2015/12/chico-buarque-e-era-da-grosseria-online.html.
Acessado em 9/02/2016.
No trecho “Não é difícil escolher quais dessas características deveríamos trazer para o mundo real e quais deveriam permanecer nos guetos virtuais.” (37 a 38), a expressão gueto virtual se refere a