Leia o texto a seguir para responder à questão:
“Passou em Engenharia na Federal. Está com a vida feita.”
“Coitado, entrou numa faculdade caça-níqueis. Vai enriquecer
um ‘tubarão do ensino’ e vai se dar mal.”
Essas frases são fictícias, mas representam percepções entranhadas no nosso imaginário. A primeira descreve
o caminho incensado e vitorioso de um jovem bem-nascido.
A segunda refere-se aos milhões de criaturas, bem mais
modestas, que precisam trabalhar para pagar uma faculdade noturna de duvidosa reputação. Dinheiro perdido, pois
ficarão infelizes, subempregados ou desempregados.
Sobre sua infelicidade não me arrisco a especular. Porém,
sucesso ou fracasso profissional se mede. E temos os números. A partir dos anos 60, alastra-se uma sequência de estudos tentando medir os rendimentos daqueles que cursaram
este ou aquele nível de educação. Pelo mundo afora, ficou
claro: quem tem mais escolaridade ganha mais. Aplicando
aos gastos com educação o mesmo que se faz com capital
físico, podemos calcular as taxas de retorno. Demonstrou-se
que são maiores do que aquelas de investimentos em negócios. E, a despeito do rápido crescimento do ensino superior,
esse diploma continua sendo um excelente investimento.
Tais resultados progressivamente se tornaram conhecidos. Porém, como nosso modelo de universidade pública é
extravagante e caro, não houve e não haverá recursos para
ser replicado. Daí a expansão fenomenal da rede privada,
matriculando hoje 80% dos alunos.
Salário futuro tem algo de loteria, um diploma nunca
produz 100% de vencedores. Sorte e geografia contam,
bem como outros fatores. De fato, fracassam até mesmo
alguns dos mais brilhantes graduados das mais celebradas
universidades. Não obstante, mostram os números, quem
passou quatro anos numa faculdade, mesmo que não seja
das melhores, tem uma probabilidade elevada de sucesso.
Portanto, está equivocado quem proclama ser má ideia
entrar numa faculdade, ainda que seja fraca. Na loteria do
destino, as cartas estão marcadas, favorecendo quem decidiu passar mais tempo estudando, não importa onde.
Tenho sérias críticas quanto ao que se ensina e como se
ensina na maioria dessas faculdades. Sobretudo porque há
desencontro com o perfil dos seus alunos. Sem custar mais,
poderiam ser muito melhores. Ainda assim, estão oferecendo
um poderoso canal de mobilidade ascendente. São muitos os
vitoriosos e poucos os fracassados.
(Claudio de Moura Castro, “Coitado, entrou numa faculdade ruim”,
03.08.2025. Disponível em: www.estadao.com.br. Adaptado)
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