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ENCONTRO COM OSWALD
Na rua do Ouvidor, entre a avenida Rio Branco e a rua da Quitanda, ficava naquela época a Livraria José Olympio, onde, certa tarde, deparei com Graciliano Ramos, sentado numa cadeira e fumando cigarro.
Foi ali também que, poucos meses depois, comprei um exemplar de "Serafim Ponte Grande", de Oswald de Andrade, a preço de refugo. Havia, num canto, uma ruma de exemplares do livro, postos em liquidação.
Levei o livro para casa e, ao lê-lo, surpreendeu-me a linguagem saborosa do autor. Disse isso a Mário Pedrosa, que concordou comigo e me emprestou um exemplar do livro de poemas de Oswald, "Pau Brasil". Era um volume pequeno, quadrado, tendo na capa o losango da bandeira brasileira. Fascinou-me o sabor de mato verde que experimentei ao ler os seus versos.
Naquela época, morávamos num mesmo quarto de uma pensão no Catete, eu, Oliveira Bastos e Carlinhos Oliveira. Falei de Oswald com Bastos, que era então um jovem crítico literário, e lhe dei para ler os livros dele. Bastos também se encantou e, assim, Oswald, cujos livros àquela altura quase ninguém comprava, tornou-se nosso ídolo.
Era o ano de 1954, e eu dera por terminado "A Luta Corporal", que seria editado naquele mesmo ano, às minhas custas. E foi então que ocorreu um fato inusitado: no dia 10 de setembro, data de meu aniversário, fui comemorá-lo na casa de Amelinha, minha namorada, que morava num pequeno apartamento na Rua Fialho, na Glória.
Aí tocou a campainha, ela foi abrir a porta e invade a casa um sujeito grandalhão, em mangas de camisa e suspensórios, rindo às gargalhadas: era nada mais nada menos que Oswald de Andrade. Ele avançou para mim e me abraçou.
Atrás dele, contendo o riso, entrou Oliveira Bastos, o autor daquela proeza. Sem nada me dizer, pediu-me uma cópia do meu livro inédito de poemas e o levou a Oswald, em São Paulo.
"Adorei seus poemas", disse-me o poeta, "e direi isso em Genebra, este ano, onde darei um curso sobre a literatura brasileira. Vou concluí-lo falando de 'A Luta Corporal'".
Se eu já estava atordoado com a inesperada presença dele ali, no dia de meu aniversário, essa notícia me pôs a nocaute. Não sabia o que dizer nem o que fazer.
"Sua poesia tem o sabor de folha verde" – foi tudo o que pude falar, antes que ele de novo me abraçasse e fosse embora. Nunca mais o vi, mesmo porque, um mês depois, ele morria em sua casa, em São Paulo.
Isso que acabo de contar explica por que, no ano seguinte, quando almocei com Augusto de Campos, na Spaghetlândia, no Rio, discordei de sua opinião sobre Oswald de Andrade. Era a opinião generalizada que o meio intelectual tinha dele, e com alguma razão. De fato, Oswald era autor de uma série de proezas que levavam as pessoas a vê-lo como um irresponsável, e até como mau-caráter.
Por isso disse, naquela ocasião, que não me referia à pessoa de Oswald, mas à qualidade de sua literatura.
E o resultado dessa conversa foi que ele certamente foi reler Oswald e sem dúvida percebeu suas qualidades de escritor, reviu sua opinião sobre ele e, juntamente com Haroldo e Décio, contribuiu para a redescoberta e valorização de sua obra.
Realmente, Oswald não era um exemplo da seriedade que costuma distinguir os grandes homens. Ele era, pode-se dizer, um tanto irresponsável, como demonstra aquele episódio quando, discutindo com alguém, para ganhar a discussão, atribuiu a Mário de Andrade a opinião de que Villa-Lobos era um compositor medíocre. Interpelado por Mário, que nunca dissera aquilo, respondeu: "Eu menti". Diante disso, Mário não pôde fazer outra coisa, senão rir.
A verdade é que, se admiro o escritor Oswald de Andrade, tenho também simpatia por seu jeitão irresponsável. E com toda a razão porque, se ele não fosse meio brincalhão, meio moleque, não teria ido me abraçar no dia de meu aniversário, numa quitinete na Rua Fialho, no bairro da Glória. Gente séria não faz essas coisas.
GULLAR, Ferreira. Encontro com Oswald. In: Folha de São Paulo, 12 jun. 2016. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ferreiragullar/2016/06/1780387-encontro-com-oswald.shtml>.
Sobre o texto Encontro com Oswald é correto afirmar que:
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A CONFISSÃO
Tarde da noite. Tempo, dinheiro e prestígio eram coisas que aquele velho tinha em abundância. Graças a seus feitos, era respeitado por todo o reino, da família real aos mais humildes lenhadores. Durante os longos meses de inverno que massacraram aquela terra, sua casa era uma das únicas a receber queijos, frutos e aves frescas enviadas pelo governo. Qualquer coisa que quisesse obter ali, desde um simples pedaço de pão às terras do próprio rei, já se via quitada pela gratidão que todos lhe deviam.
Mesmo sendo tão afortunado, o velho se sentia ainda mais vazio do que nos tempos de pobreza e mais miserável do que os vendedores de fósforos que morriam de frio pelas ruas. Pois, desde que perdera o único filho, sua vida se transformara numa tediosa espera por notícias, que jamais chegavam, ou pelo fim, o que viesse primeiro.
Quis o destino enviá-los em comitiva.
O velho ouviu batidas vindas do andar térreo. Pegou sua antiga lamparina para iluminar o caminho, desceu e abriu a porta para o xerife, que disse sem cerimônia:
“Senhor... creio que o encontramos!”
O maltratado coração do velho disparou. Ele arrumou os óculos no rosto, franziu a testa e perguntou:
“Como sabeis que é ele?”
“Fizemos o que mandaste. Apenas seguimos a trilha de sangue, até encontrarmos uma pobre viúva, cujo marido fora assassinado. A partir do relato da desamparada mulher, pudemos encontrar o suspeito, e ele se entregou sem a menor resistência. Contudo...”
“Contudo o quê?”
“... há algo que não encaixa na história. Pois, além deste crime horrendo, ele ainda confessou outro, sem sequer ter sido questionado. Simplesmente desatou a falar, de maneira sádica, satisfeita, até prazerosa. Certamente te lembras da pobre menina dos cachinhos dourados...”
“Claro”, respondeu o velho, lamentando-se. “A pobrezinha que foi devorada por ursos!”
“Pois bem, segundo o... hã, suspeito, não se tratou de um simples acidente, mas de uma ação premeditada!”
O velho, que amava crianças, tirou os óculos e esfregou os olhos.
“Céus!”
“Infelizmente, meu relato não acaba aqui. O meliante afirma ainda estar ligado a diversos outros crimes, especialmente fraudes, como a dos sete gigantes supostamente assassinados. Mas, em todos meus anos de polícia, acho difícil crer que um único ser humano, que tem no máximo 19 ou 20 anos, tenha sido capaz de acumular tamanho currículo de perversidades, por mais endemoniado que seja!”
“Tu não o conheces, caro xerife! Não sabes o que ele fez comigo nem do que é capaz!”, disse o velho, pegando seu casaco e seu chapéu. “Vamos até lá, tenho contas a ajustar!”
O xerife levou o velho até o calabouço, onde os piores tipos encontrados no reino eram aprisionados. Assassinos, charlatões e adoradores do diabo dividiam seus claustros com baratas, ratazanas e sócios corruptos, aguardando a execução em praça pública que tanto apetecia os cidadãos.
Cada passo por aqueles corredores abafados e úmidos era uma tortura para o velho. Mas sem sombra de dúvida ele preferia ficar preso ali a encarar o que veria a seguir. Dentro de um claustro, amarrado a uma cadeira, estava um rapaz magro, de tez morena como um pinheiro, olhos azuis e cabelos lisos e negros, encharcados pelo suor que lhe caía sobre os olhos.
“Eu assumo daqui, xerife. Vai descansar”, ordenou o velho.
“Por favor, lembra-te de nosso acordo!”, pediu o xerife, tirando do bolso um enorme molho de chaves. Abriu as grades do claustro e o velho entrou, acompanhado por dois guardas. Virou-se e fez sinal para que saíssem também. Eles olharam para o chefe, em busca de aprovação, e deixaram o ancião a sós com o marginal.
Olhou para o rapaz amarrado diante de si. Durante vários minutos, as goteiras e a respiração eram os únicos sons que se ouvia. As lembranças dos dias felizes ao lado do filho inundaram sua mente, mas ele conteve as lágrimas, prendendo a respiração. Esfregando a mão na testa, disse:
“O que houve com meu filho?”
Nenhuma resposta.
A cada palavra, o velho elevava o tom de voz:
“O que houve com meu filho!?”
Nada.
O velho percebeu que era inútil gritar.
“Que diabos estás tentando fazer?”
O rapaz jogou a cabeça para trás, mas estava apenas tentando tirar a franja molhada de suor da frente dos olhos. Tornou a baixar o queixo.
“Tu não vais escapar desta vez. Finalmente vais responder por todas tuas fraudes e crimes.”
Silêncio.
“O pobre gigante. Ele era meu amigo. E tu subiste num pé de feijão até a casa dele só para matá-lo?”
O rapaz enfim reergueu o queixo, encarou o velho e desatou a falar:
“Sim! Mas, antes disso, resolvi roubar todo o ouro que o desgraçado possuía!” Ele mal cabia em si. “Depois roubei sua galinha que botava os ovos de ouro. Preciso dizer o que eu fiz com ela?”
“Maldito, a galinha era um presente dos céus para os homens, que poderia pôr fim à fome que há anos assola nosso reino! O que tua mente deturpada fez? Tu a abriste querendo os ovos?”
“Abrir? Mas é claro que não! Desde quando me importo com ouro? Primeiro, eu quebrei-lhe o pescoço, e deleitei-me ao vê-la girar desesperadamente no chão ao redor do próprio eixo. Depois, enfiei-a num buraco e, em seguida, ateei fogo, ha, ha, ha!”
“Ateou fogo? Que espécie de ser humano és tu?”
“Oras, tu bem sabes a resposta para essa pergunta!”
A fúria do velho estava prestes a transbordar. Ele sentia seu coração palpitando, o braço formigando, sabia que um infarto se aproximava, mas, no fundo de seu ser, ele não se importava mais. Viver ou morrer naquela noite era indiferente.
“E a menina dos cachinhos dourados? Também foste tu?”
“Não. Ao menos, não exatamente. Quem matou a intrometida foram os ursos. Eu apenas disse a ela o que encontraria na casa: três pratos de mingau, três cadeiras, três camas e ninguém para importuná-la. Quando a pirralha entrou, eu só alertei os ursos que ela estava lá, ha, ha, ha!”
“E a amiga dela?
“Ah, a do capuz vermelho? Menininha irritante. Não me admira que o pai dela tenha deixado-a sozinha na floresta!”
“O que fizeste com ela?”
“Eu? Eu não fiz nada. Mas nada posso dizer pelo lobo que seguiu minha dica, ha, ha, ha!”
“Miserável, como podes rir de uma situação dessas? Será possível que não tens coração!?”
“Ha, ha, ha", gargalhou o rapaz, histericamente. “Logo TU vens me perguntar isso?”
Mais do que a confissão dos crimes, aquelas palavras fizeram o velho finalmente perder o controle. Cerrou o punho direito e desferiu um golpe no rosto do suspeito, que urrou cuspindo sangue e dentes.
Do corredor, os guardas se prepararam para entrar, mas foram impedidos pelo xerife.
“Isso é entre eles!”, censurou.
O velho desferiu outro golpe, depois mais outro e mais outro, até se tornarem incontáveis como as lágrimas que finalmente se libertaram e desceram furiosamente por seu rosto.
“Tu querias chamar minha atenção?”
“Na verdade, sim, eu quer...”
“Pois conseguiste! Conseguiste! Miserável! Maníaco! Assassino!”, berrou o velho, massacrando o rapaz.
Por mais que o esmurrasse repetidamente, o velho sentia como se estivesse num sonho, e nenhum dos socos saía com a força que refletia seu perturbado estado de espírito. E, pior, nada era capaz de tirar o sorriso cínico do suspeito, que o mantinha mesmo depois de perder os dentes da frente.
Sem se importar com o que fora acordado com o xerife, o velho o agarrou pelas cordas e o empurrou com tudo para o lado, em cima de uma poça. Em seguida, chutou-lhe o estômago e o viu agonizar em busca de oxigênio enquanto a água suja espirrava em sua boca.
“Desgraçado! Por que fazes isso? Por quê? POR QUÊ?!”
Então, a criatura disse as palavras que ecoariam na mente do velho até sua morte:
“PORQUE EU TE ODEIO!”
Tão logo ele as pronunciou, seu sorriso cínico desapareceu e ele desabou a chorar. As lágrimas que escorriam de seus olhos azuis não eram de remorso, pois isso era algo que não sentia desde o dia em que perdera o grilo de sua consciência. Eram lágrimas de derrota, envergonhadas pelo nariz que crescia em seu rosto e já atingia quase um palmo. Dentre tantas confissões horripilantes e verdadeiras, ele contou a única mentira daquela noite, a maior mentira que um filho poderia contar ao pai.
O velho Gepeto deixou o claustro, consternado. Agradeceu ao xerife e pediu que se assegurasse de que o criminoso jamais deixaria aquele local.
Voltou a sua oficina. Foi encontrado morto no dia seguinte.
(FOBIYA, Abu. A confissão. In: Branca dos Mortos e os sete zumbis. Curitiba: Nerdbooks, 2012.)
No enunciado “O velho, que amava crianças, tirou os óculos e esfregou os olhos.”, o termo em destaque é um pronome relativo que estabelece relação coesiva com outro termo anteriormente citado no período. Em qual das orações a seguir o elemento retomado pelo pronome em destaque exerce essa mesma função sintática?
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A CONFISSÃO
Tarde da noite. Tempo, dinheiro e prestígio eram coisas que aquele velho tinha em abundância. Graças a seus feitos, era respeitado por todo o reino, da família real aos mais humildes lenhadores. Durante os longos meses de inverno que massacraram aquela terra, sua casa era uma das únicas a receber queijos, frutos e aves frescas enviadas pelo governo. Qualquer coisa que quisesse obter ali, desde um simples pedaço de pão às terras do próprio rei, já se via quitada pela gratidão que todos lhe deviam.
Mesmo sendo tão afortunado, o velho se sentia ainda mais vazio do que nos tempos de pobreza e mais miserável do que os vendedores de fósforos que morriam de frio pelas ruas. Pois, desde que perdera o único filho, sua vida se transformara numa tediosa espera por notícias, que jamais chegavam, ou pelo fim, o que viesse primeiro.
Quis o destino enviá-los em comitiva.
O velho ouviu batidas vindas do andar térreo. Pegou sua antiga lamparina para iluminar o caminho, desceu e abriu a porta para o xerife, que disse sem cerimônia:
“Senhor... creio que o encontramos!”
O maltratado coração do velho disparou. Ele arrumou os óculos no rosto, franziu a testa e perguntou:
“Como sabeis que é ele?”
“Fizemos o que mandaste. Apenas seguimos a trilha de sangue, até encontrarmos uma pobre viúva, cujo marido fora assassinado. A partir do relato da desamparada mulher, pudemos encontrar o suspeito, e ele se entregou sem a menor resistência. Contudo...”
“Contudo o quê?”
“... há algo que não encaixa na história. Pois, além deste crime horrendo, ele ainda confessou outro, sem sequer ter sido questionado. Simplesmente desatou a falar, de maneira sádica, satisfeita, até prazerosa. Certamente te lembras da pobre menina dos cachinhos dourados...”
“Claro”, respondeu o velho, lamentando-se. “A pobrezinha que foi devorada por ursos!”
“Pois bem, segundo o... hã, suspeito, não se tratou de um simples acidente, mas de uma ação premeditada!”
O velho, que amava crianças, tirou os óculos e esfregou os olhos.
“Céus!”
“Infelizmente, meu relato não acaba aqui. O meliante afirma ainda estar ligado a diversos outros crimes, especialmente fraudes, como a dos sete gigantes supostamente assassinados. Mas, em todos meus anos de polícia, acho difícil crer que um único ser humano, que tem no máximo 19 ou 20 anos, tenha sido capaz de acumular tamanho currículo de perversidades, por mais endemoniado que seja!”
“Tu não o conheces, caro xerife! Não sabes o que ele fez comigo nem do que é capaz!”, disse o velho, pegando seu casaco e seu chapéu. “Vamos até lá, tenho contas a ajustar!”
O xerife levou o velho até o calabouço, onde os piores tipos encontrados no reino eram aprisionados. Assassinos, charlatões e adoradores do diabo dividiam seus claustros com baratas, ratazanas e sócios corruptos, aguardando a execução em praça pública que tanto apetecia os cidadãos.
Cada passo por aqueles corredores abafados e úmidos era uma tortura para o velho. Mas sem sombra de dúvida ele preferia ficar preso ali a encarar o que veria a seguir. Dentro de um claustro, amarrado a uma cadeira, estava um rapaz magro, de tez morena como um pinheiro, olhos azuis e cabelos lisos e negros, encharcados pelo suor que lhe caía sobre os olhos.
“Eu assumo daqui, xerife. Vai descansar”, ordenou o velho.
“Por favor, lembra-te de nosso acordo!”, pediu o xerife, tirando do bolso um enorme molho de chaves. Abriu as grades do claustro e o velho entrou, acompanhado por dois guardas. Virou-se e fez sinal para que saíssem também. Eles olharam para o chefe, em busca de aprovação, e deixaram o ancião a sós com o marginal.
Olhou para o rapaz amarrado diante de si. Durante vários minutos, as goteiras e a respiração eram os únicos sons que se ouvia. As lembranças dos dias felizes ao lado do filho inundaram sua mente, mas ele conteve as lágrimas, prendendo a respiração. Esfregando a mão na testa, disse:
“O que houve com meu filho?”
Nenhuma resposta.
A cada palavra, o velho elevava o tom de voz:
“O que houve com meu filho!?”
Nada.
O velho percebeu que era inútil gritar.
“Que diabos estás tentando fazer?”
O rapaz jogou a cabeça para trás, mas estava apenas tentando tirar a franja molhada de suor da frente dos olhos. Tornou a baixar o queixo.
“Tu não vais escapar desta vez. Finalmente vais responder por todas tuas fraudes e crimes.”
Silêncio.
“O pobre gigante. Ele era meu amigo. E tu subiste num pé de feijão até a casa dele só para matá-lo?”
O rapaz enfim reergueu o queixo, encarou o velho e desatou a falar:
“Sim! Mas, antes disso, resolvi roubar todo o ouro que o desgraçado possuía!” Ele mal cabia em si. “Depois roubei sua galinha que botava os ovos de ouro. Preciso dizer o que eu fiz com ela?”
“Maldito, a galinha era um presente dos céus para os homens, que poderia pôr fim à fome que há anos assola nosso reino! O que tua mente deturpada fez? Tu a abriste querendo os ovos?”
“Abrir? Mas é claro que não! Desde quando me importo com ouro? Primeiro, eu quebrei-lhe o pescoço, e deleitei-me ao vê-la girar desesperadamente no chão ao redor do próprio eixo. Depois, enfiei-a num buraco e, em seguida, ateei fogo, ha, ha, ha!”
“Ateou fogo? Que espécie de ser humano és tu?”
“Oras, tu bem sabes a resposta para essa pergunta!”
A fúria do velho estava prestes a transbordar. Ele sentia seu coração palpitando, o braço formigando, sabia que um infarto se aproximava, mas, no fundo de seu ser, ele não se importava mais. Viver ou morrer naquela noite era indiferente.
“E a menina dos cachinhos dourados? Também foste tu?”
“Não. Ao menos, não exatamente. Quem matou a intrometida foram os ursos. Eu apenas disse a ela o que encontraria na casa: três pratos de mingau, três cadeiras, três camas e ninguém para importuná-la. Quando a pirralha entrou, eu só alertei os ursos que ela estava lá, ha, ha, ha!”
“E a amiga dela?
“Ah, a do capuz vermelho? Menininha irritante. Não me admira que o pai dela tenha deixado-a sozinha na floresta!”
“O que fizeste com ela?”
“Eu? Eu não fiz nada. Mas nada posso dizer pelo lobo que seguiu minha dica, ha, ha, ha!”
“Miserável, como podes rir de uma situação dessas? Será possível que não tens coração!?”
“Ha, ha, ha", gargalhou o rapaz, histericamente. “Logo TU vens me perguntar isso?”
Mais do que a confissão dos crimes, aquelas palavras fizeram o velho finalmente perder o controle. Cerrou o punho direito e desferiu um golpe no rosto do suspeito, que urrou cuspindo sangue e dentes.
Do corredor, os guardas se prepararam para entrar, mas foram impedidos pelo xerife.
“Isso é entre eles!”, censurou.
O velho desferiu outro golpe, depois mais outro e mais outro, até se tornarem incontáveis como as lágrimas que finalmente se libertaram e desceram furiosamente por seu rosto.
“Tu querias chamar minha atenção?”
“Na verdade, sim, eu quer...”
“Pois conseguiste! Conseguiste! Miserável! Maníaco! Assassino!”, berrou o velho, massacrando o rapaz.
Por mais que o esmurrasse repetidamente, o velho sentia como se estivesse num sonho, e nenhum dos socos saía com a força que refletia seu perturbado estado de espírito. E, pior, nada era capaz de tirar o sorriso cínico do suspeito, que o mantinha mesmo depois de perder os dentes da frente.
Sem se importar com o que fora acordado com o xerife, o velho o agarrou pelas cordas e o empurrou com tudo para o lado, em cima de uma poça. Em seguida, chutou-lhe o estômago e o viu agonizar em busca de oxigênio enquanto a água suja espirrava em sua boca.
“Desgraçado! Por que fazes isso? Por quê? POR QUÊ?!”
Então, a criatura disse as palavras que ecoariam na mente do velho até sua morte:
“PORQUE EU TE ODEIO!”
Tão logo ele as pronunciou, seu sorriso cínico desapareceu e ele desabou a chorar. As lágrimas que escorriam de seus olhos azuis não eram de remorso, pois isso era algo que não sentia desde o dia em que perdera o grilo de sua consciência. Eram lágrimas de derrota, envergonhadas pelo nariz que crescia em seu rosto e já atingia quase um palmo. Dentre tantas confissões horripilantes e verdadeiras, ele contou a única mentira daquela noite, a maior mentira que um filho poderia contar ao pai.
O velho Gepeto deixou o claustro, consternado. Agradeceu ao xerife e pediu que se assegurasse de que o criminoso jamais deixaria aquele local.
Voltou a sua oficina. Foi encontrado morto no dia seguinte.
(FOBIYA, Abu. A confissão. In: Branca dos Mortos e os sete zumbis. Curitiba: Nerdbooks, 2012.)
A Confissão é um conto que integra o livro Branca dos Mortos e os sete zumbis (2012), do escritor Abu Fobiya. Trata-se de uma obra na qual o autor reconstrói os enredos de diversos contos de fada, atribuindolhes uma atmosfera sombria, transformando essas narrativas em histórias de horror e terror. Baseando-se na teoria da Cultura da Convergência, discutida pelo crítico de mídia comparada Henry Jenkins (2009), analise as proposições a seguir:
I. retomando o conceito de “espaços de afinidades”, cunhado por James Paul Gee, Jenkins critica o ambiente escolar quanto à postura de professores de literatura, os quais, sem propostas educacionais bem definidas, privilegiam um trabalho com obras contemporâneas que trazem a mesma proposta de Branca dos Mortos e os sete zumbis em detrimento de se conduzir propostas mais arrojadas com clássicos literários. Isso exerce influência negativa na formação intelectual dos estudantes que, impelidos a não se interessar por leituras mais complexas, deixam de analisar, discutir e até compor releituras desses clássicos, que são obras de maior prestígio literário.
II. os preceitos da “economia afetiva”, discutidos por Jenkins, são interessantes para se pensar no processo de composição literária de obras como Branca dos Mortos e os sete zumbis. Considerando que Abu Fobiya é um pseudônimo usado exclusivamente por Fábio Yabu para publicar suas obras de terror e horror pela Nerdbooks, nota-se que, com a publicação de Branca dos Mortos e os sete zumbis, o autor intenta deixar claro o amor que nutre por seus fãs, atendendo aos pedidos de seus leitores com obras de gêneros variados. Essa é uma exemplificação da clara do conceito de “economia afetiva”: decisões que os produtores de conteúdo tomam para atender aos desejos de seus fãs, demonstrando o amor e carinho que têm por seu público.
III. o fato de que o conto A Confissão arrola diversas histórias em seu enredo – como A pequena vendedora de fósforos, Cachinhos Dourados e os três ursinhos, Chapeuzinho Vermelho, João e o pé de feijão e Pinóquio – não é suficiente para classificá-lo como uma narrativa transmídia.
É correto afirmar que:
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Considere um Jogo da Velha, onde as regras são:
- O tabuleiro é uma matriz de três linhas por três colunas.
- Dois jogadores escolhem uma marcação cada um, geralmente um círculo (O) e um xis (X).
- Os jogadores jogam uma marcação por vez em uma posição que esteja vazia.
- O jogador conquista o objetivo ao preencher três marcações iguais em linha reta.
Para permitir que computador simule um jogador do Jogo da Velha através da inteligência artificial, qual o método mais adequado para a implementação?
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O HTML5 fornece diversos recursos e elementos para melhorar a interatividade e o suporte a mídias. Estes recursos possibilitam criar aplicações ricas e interativas como games, sem a necessidade da utilização de plugins. Um dos elementos permite, através de scripts, a renderização de figuras, de gráficos de jogos ou de outras imagens em tempo real. Assinale a alternativa que apresenta o referido elemento.
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- Fundamentos de ProgramaçãoEstruturas de RepetiçãoEstrutura for
- Fundamentos de ProgramaçãoLógica de Programação
- Fundamentos de ProgramaçãoVariáveis
Dado o programa abaixo, escrito em linguagem C, aponte a alternativa que apresenta a saída esperada.
#include <stdio.h>
int main()
{
int i;
for(i=5; i >= 0; i--){
printf("%d\n", 6-i);
}
return 0;
}
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- Paradigmas de ProgramaçãoOrientação a ObjetosAnálise e Projeto Orientado a Objetos
- Paradigmas de ProgramaçãoOrientação a ObjetosDefinição Técnica: Orientação a Objetos
- Paradigmas de ProgramaçãoOrientação a ObjetosOrientação a Objetos: Classes e Objetos
A orientação a objetos é um paradigma de análise, modelagem e programação de sistemas de software que busca resolver um problema, decompondo-o em partes menores. Isso é possível por meio da aplicação dos conceitos de abstração de dados e modularização. Na modelagem orientada a objetos, uma classe corresponde a:
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A comunicação baseada em WebSockets é, atualmente, uma das abordagens mais utilizadas para a implementação de jogos digitais multiplayer em tempo real. Considerando o conceito de WebSockets implementado em navegadores e em diversos serviços e servidores de aplicação web, assinale a alternativa correta:
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Em jogos digitais 2D para web, uma das preocupações de quando o jogo deve manipular muitas imagens é como otimizar a forma pela qual o servidor carrega essas imagens. No caso das animações, pode ser necessária uma imagem para cada frame da animação. Essas imagens são chamadas de sprites. Neste contexto, o termo sprite sheets corresponde à ação de:
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Uma cena pode ser iluminada pela luz do sol, lâmpadas, luar, faróis de carros, tochas, dentre outras fontes luminosas. No mundo digital, as opções mais comuns são limitadas a quatro modelos de luz: foco, ponto, direcional e ambiente. Qual das seguintes descrições corresponde ao modelo de luz direcional?
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Caderno Container