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1130452 Ano: 2015
Disciplina: Português
Banca: UFRN
Orgão: UFRN
Antes que elas cresçam

Affonso Romano de Sant'Anna

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apar eça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com o suéter amarrado na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar o suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impact o de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route” 1 , como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, pôsteres e agendas coloridas de “pilot”. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in” 2 , ao Tablado para ver “Pluft” 3 , não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era imp ossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Disponível em: < http://www.releituras.com/arsant_antes.asp.>. Acesso em: 07.02.2015. [Adaptado]

Glossário:
1. Bonne route, bonne route: a expressão em francês faz menção a um pequeno trecho da música francesa
“Ma fille” e significa: bom caminho, bom caminho...
2. Drive in: Estabelecimento (cinema, restaurante, lanchonete) onde os seus cl ientes podem permanecer em
seus automóveis.
3. Pluft: peça teatral infantil, escrita por Maria Clara Machado.
No trecho, “[...] agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam,[...]”, a palavra sublinhada substitui
 

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1130451 Ano: 2015
Disciplina: Português
Banca: UFRN
Orgão: UFRN
Antes que elas cresçam

Affonso Romano de Sant'Anna

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apar eça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com o suéter amarrado na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar o suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impact o de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route” 1 , como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, pôsteres e agendas coloridas de “pilot”. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in” 2 , ao Tablado para ver “Pluft” 3 , não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era imp ossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Disponível em: < http://www.releituras.com/arsant_antes.asp.>. Acesso em: 07.02.2015. [Adaptado]

Glossário:
1. Bonne route, bonne route: a expressão em francês faz menção a um pequeno trecho da música francesa
“Ma fille” e significa: bom caminho, bom caminho...
2. Drive in: Estabelecimento (cinema, restaurante, lanchonete) onde os seus cl ientes podem permanecer em
seus automóveis.
3. Pluft: peça teatral infantil, escrita por Maria Clara Machado.
No texto, Affonso Romano de Santana faz uma reflexão sobre o crescimento dos filhos e a reação desnorteada dos pais diante do fato. Ao longo de todo o texto, o sentimento mais evidente é o de:
 

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Um tiro no escuro

A escolha profissional é um caso típico de tomada de decisão na ausência de informações

Por Thomaz Wood Jr.

O conto Profession, publicado em 1957 por Isaac Asimov, retrata a Terra em um futuro

distante e distópico. As crianças são educadas por um sistema central, que liga diretamente seus

cérebros a um computador. As futuras profissões são defin idas com base em um algoritmo. Não

cabe aos indivíduos escolherem seus ofícios. Profession é uma entre muitas obras de ficção

científica a tratar da questão da escolha ou direcionamento profissional.

O tema também ocupa lugar de destaque entre as preocupaç ões de jovens, pais,

psicólogos, educadores e gestores da área. No Brasil, temos uma associação de orientadores

profissionais e uma revista científica dedicada ao tema. Em nosso país, todos os anos, no

segundo semestre, centenas de milhares de jovens prepa ram-se para a maratona dos exames

vestibulares.

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o

Brasil ultrapassou, em 2012, a marca de 7 milhões de alunos no ensino superior. Eles estão

matriculados em 32 mil cursos, of erecidos por mais de 2 mil instituições de ensino. Nosso

sistema superior de educação cresceu aceleradamente desde o fim da década de 1990 e quase

duplicou nos últimos dez anos.

No entanto, o crescimento e o gigantismo não foram ainda suficientes para aten der à

demanda por formação de alta qualidade. Nos cursos mais procurados e nas instituições de

maior renome, a relação candidato/vaga frequentemente supera a dezena e vez ou outra se

aproxima da centena. O funil de acesso coloca legiões de pais e filhos à beira de um ataque de

nervos.

Nos últimos anos, a realização de um curso superior tornou -se aspiração de novos

contingentes de jovens, antes alijados da universidade por barreiras econômicas. Em paralelo,

visando atender ao novo “mercado”, nasceram e prosp eraram instituições privadas de ensino

superior com um olho na educação e outro no bolso, não necessariamente nessa ordem. Na

esquina ideológica oposta, o sistema público, caro e anacrônico, salta de crise em crise, a vergar

sob o peso de querelas políticas, governança excêntrica e interesses corporativistas. Enquanto

isso, o mundo gira e o mercado de trabalho é convulsionado por estripulias econômicas, algumas

profissões emergem e outras submergem, enquanto certas carreiras rompem as fronteiras

tradicionais.

No meio da confusão, nossos jovens enfrentam o descabido desafio de, aos 17 anos,

definir o próprio futuro. Os manuais de autoajuda vocacional costumam ser pródigos em

sugestões tão sensatas quanto inexequíveis: conheça a si próprio, as profissões, os

profissionais, trabalhe e experimente. Alguns jovens têm vocação clara, mas são raros. Outros

pensam tê-la, mas titubeiam diante dos primeiros choques de realidade. A maioria lança -se

semiconsciente ao mar, torcendo para que uma corrente amiga a leve a um p orto seguro.

A escolha profissional é um caso típico de tomada de decisão na ausência de

informações. Quem sou eu? Quais são meus potenciais? O que quero da vida? São perguntas

básicas, mas difíceis de responder aos 17 anos. A outra ponta não é mais simple s. Como estará

o mercado de trabalho daqui a quatro ou cinco anos? Quais serão as melhores profissões do

futuro? O que me trará satisfação? O que me garantirá uma vida confortável?

E, não bastassem as dificuldades naturais, as paixões e as ansiedades envol vidas, as

decisões são tomadas em um teatro de consumo, no qual escolas secundárias competem pelas

maiores taxas de sucesso no vestibular, cursinhos vendem seus serviços e as novas instituições

de ensino tentam atrair recrutas para suas “propostas diferenciadas”.

Não é incomum muitos jovens iniciarem cursos superiores, os interromperem pouco

depois e tentarem outros caminhos. Há também aqueles fiéis à escolha original que, mesmo

frustrados, terminam o curso e seguem a padecer pela vida profissional afora. O custo da

escolha malfeita é alto para os jovens, seus pais e a sociedade. Mais sábios seriam, na opinião

de alguns, os nossos pares do Hemisfério Norte, que oferecem aos seus universitários a

oportunidade de inícios com conteúdos mais genéricos e conseque nte adiamento das decisões

profissionais para momentos de maior maturidade e lucidez.

CARTA NA ESCOLA. São Paulo: Confiança, n 92, dez. 2014. p. 64. [Adaptado]

Para o autor do texto,
 

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1130449 Ano: 2015
Disciplina: Português
Banca: UFRN
Orgão: UFRN
Antes que elas cresçam

Affonso Romano de Sant'Anna

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apar eça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com o suéter amarrado na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar o suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impact o de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route” 1 , como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, pôsteres e agendas coloridas de “pilot”. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in” 2 , ao Tablado para ver “Pluft” 3 , não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era imp ossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Disponível em: < http://www.releituras.com/arsant_antes.asp.>. Acesso em: 07.02.2015. [Adaptado]

Glossário:
1. Bonne route, bonne route: a expressão em francês faz menção a um pequeno trecho da música francesa
“Ma fille” e significa: bom caminho, bom caminho...
2. Drive in: Estabelecimento (cinema, restaurante, lanchonete) onde os seus cl ientes podem permanecer em
seus automóveis.
3. Pluft: peça teatral infantil, escrita por Maria Clara Machado.
Considere o trecho reproduzido a seguir

“[...] é que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados,[...]”

Sem alterar o sentido do trecho, as palavras destacadas podem ser substitu ídas, respectivamente, por
 

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A escolha profissional é um caso típico de tomada de decisão na ausência de informações

Por Thomaz Wood Jr.

O conto Profession, publicado em 1957 por Isaac Asimov, retrata a Terra em um futuro

distante e distópico. As crianças são educadas por um sistema central, que liga diretamente seus

cérebros a um computador. As futuras profissões são defin idas com base em um algoritmo. Não

cabe aos indivíduos escolherem seus ofícios. Profession é uma entre muitas obras de ficção

científica a tratar da questão da escolha ou direcionamento profissional.

O tema também ocupa lugar de destaque entre as preocupaç ões de jovens, pais,

psicólogos, educadores e gestores da área. No Brasil, temos uma associação de orientadores

profissionais e uma revista científica dedicada ao tema. Em nosso país, todos os anos, no

segundo semestre, centenas de milhares de jovens prepa ram-se para a maratona dos exames

vestibulares.

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o

Brasil ultrapassou, em 2012, a marca de 7 milhões de alunos no ensino superior. Eles estão

matriculados em 32 mil cursos, of erecidos por mais de 2 mil instituições de ensino. Nosso

sistema superior de educação cresceu aceleradamente desde o fim da década de 1990 e quase

duplicou nos últimos dez anos.

No entanto, o crescimento e o gigantismo não foram ainda suficientes para aten der à

demanda por formação de alta qualidade. Nos cursos mais procurados e nas instituições de

maior renome, a relação candidato/vaga frequentemente supera a dezena e vez ou outra se

aproxima da centena. O funil de acesso coloca legiões de pais e filhos à beira de um ataque de

nervos.

Nos últimos anos, a realização de um curso superior tornou -se aspiração de novos

contingentes de jovens, antes alijados da universidade por barreiras econômicas. Em paralelo,

visando atender ao novo “mercado”, nasceram e prosp eraram instituições privadas de ensino

superior com um olho na educação e outro no bolso, não necessariamente nessa ordem. Na

esquina ideológica oposta, o sistema público, caro e anacrônico, salta de crise em crise, a vergar

sob o peso de querelas políticas, governança excêntrica e interesses corporativistas. Enquanto

isso, o mundo gira e o mercado de trabalho é convulsionado por estripulias econômicas, algumas

profissões emergem e outras submergem, enquanto certas carreiras rompem as fronteiras

tradicionais.

No meio da confusão, nossos jovens enfrentam o descabido desafio de, aos 17 anos,

definir o próprio futuro. Os manuais de autoajuda vocacional costumam ser pródigos em

sugestões tão sensatas quanto inexequíveis: conheça a si próprio, as profissões, os

profissionais, trabalhe e experimente. Alguns jovens têm vocação clara, mas são raros. Outros

pensam tê-la, mas titubeiam diante dos primeiros choques de realidade. A maioria lança -se

semiconsciente ao mar, torcendo para que uma corrente amiga a leve a um p orto seguro.

A escolha profissional é um caso típico de tomada de decisão na ausência de

informações. Quem sou eu? Quais são meus potenciais? O que quero da vida? São perguntas

básicas, mas difíceis de responder aos 17 anos. A outra ponta não é mais simple s. Como estará

o mercado de trabalho daqui a quatro ou cinco anos? Quais serão as melhores profissões do

futuro? O que me trará satisfação? O que me garantirá uma vida confortável?

E, não bastassem as dificuldades naturais, as paixões e as ansiedades envol vidas, as

decisões são tomadas em um teatro de consumo, no qual escolas secundárias competem pelas

maiores taxas de sucesso no vestibular, cursinhos vendem seus serviços e as novas instituições

de ensino tentam atrair recrutas para suas “propostas diferenciadas”.

Não é incomum muitos jovens iniciarem cursos superiores, os interromperem pouco

depois e tentarem outros caminhos. Há também aqueles fiéis à escolha original que, mesmo

frustrados, terminam o curso e seguem a padecer pela vida profissional afora. O custo da

escolha malfeita é alto para os jovens, seus pais e a sociedade. Mais sábios seriam, na opinião

de alguns, os nossos pares do Hemisfério Norte, que oferecem aos seus universitários a

oportunidade de inícios com conteúdos mais genéricos e conseque nte adiamento das decisões

profissionais para momentos de maior maturidade e lucidez.

CARTA NA ESCOLA. São Paulo: Confiança, n 92, dez. 2014. p. 64. [Adaptado]

Considerando o tipo textual, predomina no texto a
 

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Disciplina: Português
Banca: UFRN
Orgão: UFRN
Antes que elas cresçam

Affonso Romano de Sant'Anna

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apar eça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com o suéter amarrado na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar o suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impact o de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route” 1 , como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, pôsteres e agendas coloridas de “pilot”. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in” 2 , ao Tablado para ver “Pluft” 3 , não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era imp ossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Disponível em: < http://www.releituras.com/arsant_antes.asp.>. Acesso em: 07.02.2015. [Adaptado]

Glossário:
1. Bonne route, bonne route: a expressão em francês faz menção a um pequeno trecho da música francesa
“Ma fille” e significa: bom caminho, bom caminho...
2. Drive in: Estabelecimento (cinema, restaurante, lanchonete) onde os seus cl ientes podem permanecer em
seus automóveis.
3. Pluft: peça teatral infantil, escrita por Maria Clara Machado.
um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.”

Analisando as palavras do trecho, o único substantivo que funciona como adjetivo é:
 

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Um tiro no escuro

A escolha profissional é um caso típico de tomada de decisão na ausência de informações

Por Thomaz Wood Jr.

O conto Profession, publicado em 1957 por Isaac Asimov, retrata a Terra em um futuro

distante e distópico. As crianças são educadas por um sistema central, que liga diretamente seus

cérebros a um computador. As futuras profissões são defin idas com base em um algoritmo. Não

cabe aos indivíduos escolherem seus ofícios. Profession é uma entre muitas obras de ficção

científica a tratar da questão da escolha ou direcionamento profissional.

O tema também ocupa lugar de destaque entre as preocupaç ões de jovens, pais,

psicólogos, educadores e gestores da área. No Brasil, temos uma associação de orientadores

profissionais e uma revista científica dedicada ao tema. Em nosso país, todos os anos, no

segundo semestre, centenas de milhares de jovens prepa ram-se para a maratona dos exames

vestibulares.

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o

Brasil ultrapassou, em 2012, a marca de 7 milhões de alunos no ensino superior. Eles estão

matriculados em 32 mil cursos, of erecidos por mais de 2 mil instituições de ensino. Nosso

sistema superior de educação cresceu aceleradamente desde o fim da década de 1990 e quase

duplicou nos últimos dez anos.

No entanto, o crescimento e o gigantismo não foram ainda suficientes para aten der à

demanda por formação de alta qualidade. Nos cursos mais procurados e nas instituições de

maior renome, a relação candidato/vaga frequentemente supera a dezena e vez ou outra se

aproxima da centena. O funil de acesso coloca legiões de pais e filhos à beira de um ataque de

nervos.

Nos últimos anos, a realização de um curso superior tornou -se aspiração de novos

contingentes de jovens, antes alijados da universidade por barreiras econômicas. Em paralelo,

visando atender ao novo “mercado”, nasceram e prosp eraram instituições privadas de ensino

superior com um olho na educação e outro no bolso, não necessariamente nessa ordem. Na

esquina ideológica oposta, o sistema público, caro e anacrônico, salta de crise em crise, a vergar

sob o peso de querelas políticas, governança excêntrica e interesses corporativistas. Enquanto

isso, o mundo gira e o mercado de trabalho é convulsionado por estripulias econômicas, algumas

profissões emergem e outras submergem, enquanto certas carreiras rompem as fronteiras

tradicionais.

No meio da confusão, nossos jovens enfrentam o descabido desafio de, aos 17 anos,

definir o próprio futuro. Os manuais de autoajuda vocacional costumam ser pródigos em

sugestões tão sensatas quanto inexequíveis: conheça a si próprio, as profissões, os

profissionais, trabalhe e experimente. Alguns jovens têm vocação clara, mas são raros. Outros

pensam tê-la, mas titubeiam diante dos primeiros choques de realidade. A maioria lança -se

semiconsciente ao mar, torcendo para que uma corrente amiga a leve a um p orto seguro.

A escolha profissional é um caso típico de tomada de decisão na ausência de

informações. Quem sou eu? Quais são meus potenciais? O que quero da vida? São perguntas

básicas, mas difíceis de responder aos 17 anos. A outra ponta não é mais simple s. Como estará

o mercado de trabalho daqui a quatro ou cinco anos? Quais serão as melhores profissões do

futuro? O que me trará satisfação? O que me garantirá uma vida confortável?

E, não bastassem as dificuldades naturais, as paixões e as ansiedades envol vidas, as

decisões são tomadas em um teatro de consumo, no qual escolas secundárias competem pelas

maiores taxas de sucesso no vestibular, cursinhos vendem seus serviços e as novas instituições

de ensino tentam atrair recrutas para suas “propostas diferenciadas”.

Não é incomum muitos jovens iniciarem cursos superiores, os interromperem pouco

depois e tentarem outros caminhos. Há também aqueles fiéis à escolha original que, mesmo

frustrados, terminam o curso e seguem a padecer pela vida profissional afora. O custo da

escolha malfeita é alto para os jovens, seus pais e a sociedade. Mais sábios seriam, na opinião

de alguns, os nossos pares do Hemisfério Norte, que oferecem aos seus universitários a

oportunidade de inícios com conteúdos mais genéricos e conseque nte adiamento das decisões

profissionais para momentos de maior maturidade e lucidez.

CARTA NA ESCOLA. São Paulo: Confiança, n 92, dez. 2014. p. 64. [Adaptado]

A partir da leitura do texto, é correto afirmar que
 

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A questão refere-se ao texto reproduzido a seguir.

A tela e o desenvolvimento humano

Por Elvira Souza Lima

Que impacto tem o computador e outros artefatos tecnológicos no desenvolvimento e na

formação humana? São centenas as pesquisas sobre a interação homem e tecnologia. Uma

temática muito pesquisada é a interação com os equipamentos tecnológicos com tela. A

exposição à tela iluminada (TV, computador, celular, ipad, etc), segundo vários

pesquisadores, pode impactar negativamente o desenvolvimento humano. Tanto é que a

Associação Nacional de Pediatria dos Estados Unidos recomenda que crianças até dois anos

não sejam expostas à tela.

Razão: a tela plana interfere no desenvolvimento da visão que acontece ao longo dos dois

primeiros anos de vida. Um outro motivo: a limitação que o uso dos equipamentos

tecnológicos acaba por acarretar no desenvolvimento da criança, pelo fato de que, frente à

televisão ou computador, ela não realiza outras atividades básicas que garantam a formação

de memórias a partir das experiências com os outros sentidos e dos movimentos do corpo no

espaço. Além, naturalmente, de experiência com os ob jetos e pessoas do mundo real.

Há muito que pesquisar sobre o uso da tecnologia, porém é sempre bom lembrar que todo e

qualquer equipamento tecnológico faz parte da cultura humana e que o cérebro se desenvolve

em função da cultura. O desenvolvimento do cé rebro é de natureza biológica e cultural. O

cérebro forma-se, desenvolve-se e amadurece com base na genética da espécie e pelas

experiências de vida de cada um.

O cérebro tem enorme plasticidade, ou seja, é capaz de se organizar e reorganizar

continuamente durante toda a vida do ser humano. A plasticidade é maior na primeira infância,

mas se mantém durante a adolescência e toda a vida adulta. Esta é uma característica

importante do desenvolvimento: a possibilidade de modificações e mudanças a qualquer

idade.

Até na ocorrência de acidentes cerebrais, lesões ou outras condições biológicas adversas, o

cérebro é capaz de se reorganizar funcionalmente. Oliver Sacks escreveu extensivamente

sobre casos clínicos de patologias e acidentes cerebrais e a capacidade de reorganização do

cérebro apresentada por muitos pacientes e inclusive sobre a sua experiência pessoal, como a

perda de visão de um olho (O olhar da mente, de Oliver Sacks).

Em uma pessoa cega, por exemplo, o cérebro se modifica desenvolvendo mais os se ntidos do

tato e da audição, dois sentidos em que o cego se apoia para percepção e ações que seriam

próprias da área do córtex visual.

Nosso cérebro é, portanto, dinâmico. Conforme nos diz Kandel, prêmio Nobel de Medicina em

2000 (pela descoberta sobre a formação e funcionamento de memórias de curta e de longa

duração), “O cérebro não é estático, ele é plástico!”. Ele responde às mudanças nos

contextos em que a pessoa vive ou frequenta.

Ao longo da história cultural do ser humano, as invenções, aquisiçõe s e produções em cada

período histórico suscitam respostas ou diferenciações no cérebro e provocam mudanças

significativas em seu funcionamento.

Vejamos o exemplo da escrita. A escrita é uma invenção, é um produto cultural criado pelo

ser humano. Não há no cérebro uma área destinada a aprender a ler ou a escrever, como

acontece com a fala.

Para ler e/ou escrever, o cérebro passa por um processo de mudança formando redes

neuronais específicas para compreender os significados ao se ler um texto e para cria r

significados quando se escreve um texto. Isso acontece precisamente porque, como

observamos, não há uma área específica no cérebro para a aprendizagem da leitura e da

escrita.

Dehaene, neurocientista francês, um dos maiores especialistas em cérebro e escrita, em seu

livro Neurônios da Leitura, esclarece que “um dos efeitos maiores da escolarização é o

aumento da capacidade da memória.” Segundo ele, “há ainda modificações anatômicas como

é o caso do corpo caloso que se espessa na pessoa que aprende a le r.” (Dehaene, Neurônios

da Leitura, 2012, pg. 227).

A invenção da escrita, a invenção da imprensa e agora a invenção de novos instrumentos

tecnológicos e novos usos da tecnologia na vida cotidiana causam impacto na história

evolutiva da espécie. E, como mostram as pesquisas da neurociência acumuladas nas últimas

décadas, há certamente um impacto no desenvolvimento e funcionamento do cérebro, porém,

não a ponto de que, após cinco mil anos de existência da escrita, o cérebro dispense ensino,

exercício e sistematização para se tornar um cérebro capaz de ler e de escrever.

O cérebro se modifica anatomicamente, mas dessas modificações não resultam que ler e

escrever se desenvolvam naturalmente como a fala. A leitura e a escrita precisam ser

ensinadas e é necessário muito estudo para que uma pessoa, em qualquer idade, se aproprie

da estrutura básica do sistema linguístico de qualquer língua escrita, alfabética ou

ideográfica.

Para ler, diz ele, há que se formar uma nova estrutura no cérebro, que ele chamou de “ boîte

aux lettres” (tradução livre, caixa de letras). Essa estrutura possibilita aprender a lidar com o

sistema simbólico da escrita, em qualquer língua. Ela é resultante da plasticidade do cérebro e

revela que uma invenção cultural impacta e promove modif icações no cérebro. É o que

acontece, também, com instrumentos tecnológicos e com o uso da tecnologia.

Disponível em: www.cartanaescola.com.br . Acesso em 25 jan. 2015. [Adaptado]

No trecho “Não há no cérebro uma área destinada a aprender a ler ou a escrever [...]”, a não ocorrência do uso do acento grave, nas palavras em destaque, deve-se
 

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Um tiro no escuro

A escolha profissional é um caso típico de tomada de decisão na ausência de informações

Por Thomaz Wood Jr.

O conto Profession, publicado em 1957 por Isaac Asimov, retrata a Terra em um futuro

distante e distópico. As crianças são educadas por um sistema central, que liga diretamente seus

cérebros a um computador. As futuras profissões são defin idas com base em um algoritmo. Não

cabe aos indivíduos escolherem seus ofícios. Profession é uma entre muitas obras de ficção

científica a tratar da questão da escolha ou direcionamento profissional.

O tema também ocupa lugar de destaque entre as preocupaç ões de jovens, pais,

psicólogos, educadores e gestores da área. No Brasil, temos uma associação de orientadores

profissionais e uma revista científica dedicada ao tema. Em nosso país, todos os anos, no

segundo semestre, centenas de milhares de jovens prepa ram-se para a maratona dos exames

vestibulares.

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o

Brasil ultrapassou, em 2012, a marca de 7 milhões de alunos no ensino superior. Eles estão

matriculados em 32 mil cursos, of erecidos por mais de 2 mil instituições de ensino. Nosso

sistema superior de educação cresceu aceleradamente desde o fim da década de 1990 e quase

duplicou nos últimos dez anos.

No entanto, o crescimento e o gigantismo não foram ainda suficientes para aten der à

demanda por formação de alta qualidade. Nos cursos mais procurados e nas instituições de

maior renome, a relação candidato/vaga frequentemente supera a dezena e vez ou outra se

aproxima da centena. O funil de acesso coloca legiões de pais e filhos à beira de um ataque de

nervos.

Nos últimos anos, a realização de um curso superior tornou -se aspiração de novos

contingentes de jovens, antes alijados da universidade por barreiras econômicas. Em paralelo,

visando atender ao novo “mercado”, nasceram e prosp eraram instituições privadas de ensino

superior com um olho na educação e outro no bolso, não necessariamente nessa ordem. Na

esquina ideológica oposta, o sistema público, caro e anacrônico, salta de crise em crise, a vergar

sob o peso de querelas políticas, governança excêntrica e interesses corporativistas. Enquanto

isso, o mundo gira e o mercado de trabalho é convulsionado por estripulias econômicas, algumas

profissões emergem e outras submergem, enquanto certas carreiras rompem as fronteiras

tradicionais.

No meio da confusão, nossos jovens enfrentam o descabido desafio de, aos 17 anos,

definir o próprio futuro. Os manuais de autoajuda vocacional costumam ser pródigos em

sugestões tão sensatas quanto inexequíveis: conheça a si próprio, as profissões, os

profissionais, trabalhe e experimente. Alguns jovens têm vocação clara, mas são raros. Outros

pensam tê-la, mas titubeiam diante dos primeiros choques de realidade. A maioria lança -se

semiconsciente ao mar, torcendo para que uma corrente amiga a leve a um p orto seguro.

A escolha profissional é um caso típico de tomada de decisão na ausência de

informações. Quem sou eu? Quais são meus potenciais? O que quero da vida? São perguntas

básicas, mas difíceis de responder aos 17 anos. A outra ponta não é mais simple s. Como estará

o mercado de trabalho daqui a quatro ou cinco anos? Quais serão as melhores profissões do

futuro? O que me trará satisfação? O que me garantirá uma vida confortável?

E, não bastassem as dificuldades naturais, as paixões e as ansiedades envol vidas, as

decisões são tomadas em um teatro de consumo, no qual escolas secundárias competem pelas

maiores taxas de sucesso no vestibular, cursinhos vendem seus serviços e as novas instituições

de ensino tentam atrair recrutas para suas “propostas diferenciadas”.

Não é incomum muitos jovens iniciarem cursos superiores, os interromperem pouco

depois e tentarem outros caminhos. Há também aqueles fiéis à escolha original que, mesmo

frustrados, terminam o curso e seguem a padecer pela vida profissional afora. O custo da

escolha malfeita é alto para os jovens, seus pais e a sociedade. Mais sábios seriam, na opinião

de alguns, os nossos pares do Hemisfério Norte, que oferecem aos seus universitários a

oportunidade de inícios com conteúdos mais genéricos e conseque nte adiamento das decisões

profissionais para momentos de maior maturidade e lucidez.

CARTA NA ESCOLA. São Paulo: Confiança, n 92, dez. 2014. p. 64. [Adaptado]

Alguns jovens têm vocação clara, mas são raros. Outros pensam tê-la, mas titubeiam diante dos primeiros choques de realidade. A maioria lança-se semiconsciente ao mar, torcendo para que uma corrente amiga a leve a um porto seguro.

O segundo período do trecho pode ser reescrito, substituindo-se a preposição diante por perante. Na reescrita,
 

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A questão refere-se ao texto reproduzido a seguir.

A tela e o desenvolvimento humano

Por Elvira Souza Lima

Que impacto tem o computador e outros artefatos tecnológicos no desenvolvimento e na

formação humana? São centenas as pesquisas sobre a interação homem e tecnologia. Uma

temática muito pesquisada é a interação com os equipamentos tecnológicos com tela. A

exposição à tela iluminada (TV, computador, celular, ipad, etc), segundo vários

pesquisadores, pode impactar negativamente o desenvolvimento humano. Tanto é que a

Associação Nacional de Pediatria dos Estados Unidos recomenda que crianças até dois anos

não sejam expostas à tela.

Razão: a tela plana interfere no desenvolvimento da visão que acontece ao longo dos dois

primeiros anos de vida. Um outro motivo: a limitação que o uso dos equipamentos

tecnológicos acaba por acarretar no desenvolvimento da criança, pelo fato de que, frente à

televisão ou computador, ela não realiza outras atividades básicas que garantam a formação

de memórias a partir das experiências com os outros sentidos e dos movimentos do corpo no

espaço. Além, naturalmente, de experiência com os ob jetos e pessoas do mundo real.

Há muito que pesquisar sobre o uso da tecnologia, porém é sempre bom lembrar que todo e

qualquer equipamento tecnológico faz parte da cultura humana e que o cérebro se desenvolve

em função da cultura. O desenvolvimento do cé rebro é de natureza biológica e cultural. O

cérebro forma-se, desenvolve-se e amadurece com base na genética da espécie e pelas

experiências de vida de cada um.

O cérebro tem enorme plasticidade, ou seja, é capaz de se organizar e reorganizar

continuamente durante toda a vida do ser humano. A plasticidade é maior na primeira infância,

mas se mantém durante a adolescência e toda a vida adulta. Esta é uma característica

importante do desenvolvimento: a possibilidade de modificações e mudanças a qualquer

idade.

Até na ocorrência de acidentes cerebrais, lesões ou outras condições biológicas adversas, o

cérebro é capaz de se reorganizar funcionalmente. Oliver Sacks escreveu extensivamente

sobre casos clínicos de patologias e acidentes cerebrais e a capacidade de reorganização do

cérebro apresentada por muitos pacientes e inclusive sobre a sua experiência pessoal, como a

perda de visão de um olho (O olhar da mente, de Oliver Sacks).

Em uma pessoa cega, por exemplo, o cérebro se modifica desenvolvendo mais os se ntidos do

tato e da audição, dois sentidos em que o cego se apoia para percepção e ações que seriam

próprias da área do córtex visual.

Nosso cérebro é, portanto, dinâmico. Conforme nos diz Kandel, prêmio Nobel de Medicina em

2000 (pela descoberta sobre a formação e funcionamento de memórias de curta e de longa

duração), “O cérebro não é estático, ele é plástico!”. Ele responde às mudanças nos

contextos em que a pessoa vive ou frequenta.

Ao longo da história cultural do ser humano, as invenções, aquisiçõe s e produções em cada

período histórico suscitam respostas ou diferenciações no cérebro e provocam mudanças

significativas em seu funcionamento.

Vejamos o exemplo da escrita. A escrita é uma invenção, é um produto cultural criado pelo

ser humano. Não há no cérebro uma área destinada a aprender a ler ou a escrever, como

acontece com a fala.

Para ler e/ou escrever, o cérebro passa por um processo de mudança formando redes

neuronais específicas para compreender os significados ao se ler um texto e para cria r

significados quando se escreve um texto. Isso acontece precisamente porque, como

observamos, não há uma área específica no cérebro para a aprendizagem da leitura e da

escrita.

Dehaene, neurocientista francês, um dos maiores especialistas em cérebro e escrita, em seu

livro Neurônios da Leitura, esclarece que “um dos efeitos maiores da escolarização é o

aumento da capacidade da memória.” Segundo ele, “há ainda modificações anatômicas como

é o caso do corpo caloso que se espessa na pessoa que aprende a le r.” (Dehaene, Neurônios

da Leitura, 2012, pg. 227).

A invenção da escrita, a invenção da imprensa e agora a invenção de novos instrumentos

tecnológicos e novos usos da tecnologia na vida cotidiana causam impacto na história

evolutiva da espécie. E, como mostram as pesquisas da neurociência acumuladas nas últimas

décadas, há certamente um impacto no desenvolvimento e funcionamento do cérebro, porém,

não a ponto de que, após cinco mil anos de existência da escrita, o cérebro dispense ensino,

exercício e sistematização para se tornar um cérebro capaz de ler e de escrever.

O cérebro se modifica anatomicamente, mas dessas modificações não resultam que ler e

escrever se desenvolvam naturalmente como a fala. A leitura e a escrita precisam ser

ensinadas e é necessário muito estudo para que uma pessoa, em qualquer idade, se aproprie

da estrutura básica do sistema linguístico de qualquer língua escrita, alfabética ou

ideográfica.

Para ler, diz ele, há que se formar uma nova estrutura no cérebro, que ele chamou de “ boîte

aux lettres” (tradução livre, caixa de letras). Essa estrutura possibilita aprender a lidar com o

sistema simbólico da escrita, em qualquer língua. Ela é resultante da plasticidade do cérebro e

revela que uma invenção cultural impacta e promove modif icações no cérebro. É o que

acontece, também, com instrumentos tecnológicos e com o uso da tecnologia.

Disponível em: www.cartanaescola.com.br . Acesso em 25 jan. 2015. [Adaptado]

A questão refere-se ao período reproduzido a seguir.

Nosso cérebro é, portanto, dinâmico (linha 32)


O conector presente, nesse período, estabelece uma relação de
 

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