Chegou a hora de pensar no pós-redes sociais
Diogo Salles
A recente decisão do STF, que determinou
que as plataformas devem ser responsáveis pelos
conteúdos dos usuários, desfigurou o Marco Civil
da Internet e colocou a opinião pública em alerta
máximo. Muitos têm mostrado a insegurança
jurídica do novo modelo, que se baseia em
critérios subjetivos e abre alas para a censura.
Produtores de conteúdo já começaram a
sentir os efeitos dessa medida. Agora, as big
techs serão ainda mais restritivas em relação a
permissões para postagens e não terão nenhum
pudor em remover preventivamente conteúdos ou
até perfis de forma unilateral.
Sei que o momento é delicado para bancar
o advogado do diabo, mas é preciso lançar esta
incômoda pergunta: até que ponto não estamos
trocando uma arbitrariedade por outra?
Em algum momento, todo mundo já viveu
a experiência de se submeter aos interesses do
Facebook/Meta, mesmo sem perceber. Cerca de
dez anos atrás, comecei a colaborar com
um site que prometia escalar o número de
acessos e interações para poder remunerar os
colaboradores através de anúncios. Levou quase
dois anos para estruturar o modelo de negócio,
mas funcionou. A empresa passou a remunerar de
acordo com o desempenho de cada colaborador –
e o Facebook era uma ferramenta essencial nessa
estratégia.
Tudo ia bem, até que o Facebook resolveu
alterar seu algoritmo e, de um dia para o outro, os
acessos, comentários e compartilhamentos, que
giravam em torno das dezenas de milhares,
caíram para cerca de uma dúzia. O modelo todo
ruiu de imediato. Foi aí que entendi: eu, meus
colegas e a própria empresa trabalhávamos todos
para o Mark Zuckerberg.
Dessa experiência, tirei duas lições
valiosas. A primeira é a de que, para ter
“relevância” e conquistar seguidores nas redes
sociais, devemos nos submeter ao tacão do algoritmo, muitas vezes navegando numa direção
determinada por gente que nem sabemos quem é
e, não raro, abrindo mão de nossos objetivos e até
valores.
E a segunda é que os oligarcas digitais
nunca se importaram com a pluralidade de ideias,
com a nossa saúde mental ou até mesmo com a
democracia. Eles só querem continuar lucrando
em cima da guerra de todos contra todos. E
quando confrontados com essa verdade
inconveniente, se escondem atrás do cobertor da
liberdade de expressão.
Passamos as últimas duas décadas
acreditando que as redes sociais supostamente
nos dão liberdade absoluta para sermos seres
digitais plenos. Mas será mesmo? Zygmunt
Bauman dizia que, na era da informação, a
invisibilidade é equivalente à morte.
As métricas que regem as redes sociais
levaram isso a cabo, quando estabeleceram que
seu objetivo era manter os usuários pelo maior
tempo possível na plataforma – e todos os estudos
já comprovaram que a forma mais eficaz de atingir
esse objetivo é impulsionando conteúdos
escandalosos, sensacionalistas e violentos. Só
que o lucro das big techs gera um custo social: ao
manter os níveis de engajamento e indignação
sempre altos, a sociedade padece, com pessoas
viciadas, raivosas e depressivas.
Para quem ousava postar algo que ferisse
essa lógica do engajamento, a penalização não
era muito sutil: esses conteúdos eram
imediatamente rebaixados para, logo em seguida,
caírem no esquecimento. Quase como se não
tivessem existido. Ou seja, se você ousasse
postar algo mais informativo, profundo e reflexivo,
você simplesmente “flopava”, como se diz na gíria
das redes. E de flopada em flopada, você vai
desaparecendo no feed das pessoas, até que a
sua morte virtual se torne um ato voluntário.
É por esse caminho que o historiador Fara
Dabhoiwala articula sua argumentação. O autor,
que está lançando o livro What is Free
Speech? (“O que é Liberdade de Expressão?”, em
tradução livre), tem acompanhado de perto todos
os acontecimentos aqui no Brasil e condenou a
punição dada ao comediante Leo Lins, mas
questionou o fato de as plataformas que
impulsionaram suas piadas seguirem impunes.
E por que as piadas de Leo Lins foram
amplificadas? Justamente porque eram
preconceituosas e escandalizaram a opinião
pública, ou seja, tudo o que o algoritmo mais quer,
para segurar as pessoas nas telas, se indignando,
comentando, xingando e compartilhando.
É espantoso como, após todo esse tempo
de debate sobre a regulação das redes sociais,
ainda não conseguimos entender que o problema
nunca foi as plataformas e nem os conteúdos
postados pelos usuários: é o algoritmo. Sempre foi
o algoritmo. Todo o debate deveria ter sido
pautado em torno dele, questionando esse poder
de amplificação/moderação dos conteúdos e
obrigando as big techs a serem transparentes em
relação aos critérios que usam.
Remover conteúdos com fake news e
perfis apócrifos é atacar a consequência, e não a
causa. Por isso que, tantos anos depois, ainda
estamos aqui, paralisados, debatendo a PL das
Fake News e outras excrescências.
Independente disso, a forma como os
algoritmos operam já constitui a prova de que
as big techs são, sim, editores de mídia, pois
escolhem quais conteúdos irão trabalhar em suas
plataformas, da mesma forma que escolhem quais
descartar. Assim sendo, elas devem explicações
ao público sobre suas práticas tanto quanto
jornais, TVs e outros veículos de mídia.
Outro conceito que exige um debate sério:
a liberdade de expressão que ― seja por
ingenuidade, seja por má fé ― muitos ainda
acreditam ser um fim em si mesma. A
jornalista Lúcia Guimarães lembrou que, na
esteira da primeira emenda da Constituição dos
EUA, surgiu uma legião de “absolutistas da
liberdade de expressão”, que acreditam que
ofensas, difamações e ameaças não deveriam
receber qualquer punição.
Sei que tem muita gente apreensiva com
esse novo cenário de incertezas, mas quero fazer
um contraponto a todas essas previsões sinistras
que estão ecoando: será saudável para todo
mundo que o debate público saia das redes
sociais. Se existe um caminho para enfraquecer a
polarização e voltarmos a dialogar como seres
humanos civilizados, esse caminho é longe dos
algoritmos.
E quanto aos produtos e serviços que têm seus modelos de negócio ancorados nas redes
sociais, bem, estes passarão por um processo de
adaptação e terão de descobrir novas formas de
se conectar com seu público. Chegou a hora de
pensar no pós-redes sociais. Não é o fim do
mundo, mas o início de um novo. Quem se
propuser a pensar em novas estratégias, já estará
um passo à frente da concorrência.
O maior desafio será desatar o nó
mostrado pelo advogado e pesquisador Ronaldo
Lemos: regular as redes sociais é diferente de
regular toda a internet. Cada um exige um tipo de
regulamentação diferente e isso precisa ser
compreendido desde já. “O STF mirou nas big
techs e acertou na internet inteira. Do Google ao
Reclame Aqui, passando por fóruns e caixas de
comentários dos jornais, todos estão
abrangidos[...] O antigo regime era ‘na dúvida, pró-liberdade de expressão’. Agora é ‘na dúvida, pró-remoção’”, avisou.
Claro, não sejamos ingênuos: agora, com
a chegada da Inteligência Artificial, viveremos uma
nova era de falsificações, golpes e até crimes. A
quem quiser se autoalienar ainda mais no
metaverso, só posso desejar sorte. Yuval Noah
Harari tem emitido todos os alertas sobre estes
perigos, mas parece certo que muita gente vai
entregar voluntariamente sua capacidade de
pensar para as máquinas e se sentirá plenamente
satisfeito com conteúdos e interações fakes.
Se esse é o futuro que nos aguarda, quem
quiser manter um mínimo de sanidade mental,
será forçado a selecionar melhor o que consome.
Assim, abre-se a possibilidade para a construção
de um caminho por fora da barbárie. Nessas
últimas décadas, as redes sociais foram
aperfeiçoando seus algoritmos de tal forma, que
conquistaram o monopólio do mercado da
atenção, criando uma cultura que não deixou
qualquer espaço para a contracultura.
Agora, com essa crise institucional e as big
techs praticando censura à larga, abre-se o flanco
para que pensemos numa nova contracultura,
onde ainda existirão pessoas reais produzindo
conteúdos reais e propagando ideias que não
morrerão asfixiadas pelo algoritmo. Um lugar onde
a IA terá seu papel apenas como ferramenta, não
como cérebro. Aliás, cabe uma provocação: será
que, no futuro, conteúdos 100% reais não serão considerados “premium”?
Pode levar anos, até décadas, mas é
preciso reconstruir o debate público dentro de um
ecossistema novo, que funcione com regras claras
e longe das manipulações algorítmicas. Utópico?
Talvez, mas é imprescindível dizer: temos em
mãos uma grande oportunidade de libertar o
debate público do cativeiro das big techs e
devolvê-lo à sociedade civil.
Fonte:
https://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=481
0&titulo=Chegou_a_hora_de_pensar_no_pos-redes_sociais
No excerto “[...] se você ousasse postar algo
mais informativo, profundo e reflexivo, você
simplesmente “
” [...]”, o termo em
destaque, pertencente à variedade linguística das
redes sociais, significa, nesse contexto: