Texto para responder à questão.
Minha mãe me penteava. Cabelos ondulados. Devia doer. Meus cinco anos fulminaram com um tapa o pente na mão dela. Vermelha frente aos sogros, a autoridade ameaçada, ela fez outro tapa esquentar a mão rebelde. Quando se avizinhava a tempestade, eu abrindo o berreiro, minha avó correndo para proteger a neta, meu avô interveio: “Deixa, a mãe está certa. É de pequenino que se torce o pepino”
Que frase mais repetida na crônica familiar. “Eu sou um pepino?” ― devo ter perguntado.
Se não era, virei. E fui torcida desde pequena: cabelos penteados, mão comportada, corpo esguio, bem estaqueado para a planta produzir frutos mais bonitos, de aparência homogênea. Tão bem estaqueada fui, que me esparramei, alcancei outros terrenos, não parei de frutificar, multiplico-me em cascas lisas ou ouriçadas, de um verde feliz; por dentro, sementes e água, sou de vidro e alimento, como disse um menino a sua mãe.
Tinha algum tempo que eu desconfiava, mas só recentemente encontrei a informação: pepino precisa de abelha por perto para crescer. Conhece a história de que coco só dá água se estiver perto do mar? Pois pepino precisa de abelha para fazer a polinização cruzada, uma vez que suas flores são só femininas ou só masculinas. Tem agricultor que paga dono de apiário para botar suas abelhas a fabricar a crosta delicada da vida.
A mão que me torceu garantiu também as abelhas. Como a saber que me dava destino de buscar água por via do sal, minha mãe reconheceu a menina à beira do eu, a ponto de dar salto para o mundo. Pensou no objeto mais precioso de todos para acompanhar essa travessia mais corajosa de todas. E, acreditando que inaugurava o mundo, nomeou: livro. Abençoou a palavra, considerou, em algum lugar, um parentesco entre ele e as abelhas. Por causa de cera e mel, talvez.
A lembrança dos primeiros livros em minha vida dá-se aí pelos sete anos, mas memória é coisa que tanto trai. O fato é que não me lembro de tempo sem livro, na minha infância. Nem depois. Livro acompanhava cada inquietação, cada alegria, me oferecia personagens e casas, infinitos modos de viver e de perguntar o tempo de ontem e o de amanhã. Para poder escrever bem a horas de hoje.
Pepino bem torcido que fui, cresci fértil e recitei versos, engendrei narrativas para desembaraçar os cabelos de minhas filhas. Regozijada pela lição de avô e mãe, decidi cultiva-las desde cedo, cuidando das estacas, adubando a terra, corrigindo a acidez do solo. As filhas ainda no ventre, trouxe as abelhas para dentro de casa. E fabricamos jardins.
Não nos lembramos, as quatro, de tempo sem livros ou de dias sem ramo de flor.
Nilma Lacerda. Nem infância sem livro nem dia sem ramo de flor. In: Instituto Ecofuturo. Programa ler é preciso, 2010,p.15.
Em
cada
uma
das
alternativas
a
seguir,
é
apresentado
um
fragmento
do
texto
e
uma
interpretação
para
esse
fragmento.
Assinale
aquela
em
que
a
interpretação
está
incorreta.